terça-feira, 18 de março de 2014

Jerônimo de Barros, o primogênito de João de Barros


João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG
A Casa da Índia era uma organização portuguesa que administrava os territórios ultramarinos de Portugal. Durante sua existência, foi a instituição econômica mais importante de Portugal. Era localizada no Paço da Ribeira, em Lisboa.

João de Barros, capitão das terras dos potiguares, foi Tesoureiro e depois Feitor da Casa da Índia, a partir de 1525. Renunciou ao cargo em 12 de agosto de 1567, talvez para concluir suas “Décadas”. Pouco tempo depois, 21 de outubro de 1570, faleceu.  Era casado com Maria de Almeida, filha de Diogo de Almeida e Catarina Coelho. Eram seus filhos: Jerônimo de Barros, o primogênito, casado com Loisa Soares, e faleceu em 20 de agosto de 1586; João de Barros que esteve aqui na Costa do Brasil, com Jerônimo, morreu na batalha de Alcácer-Quibir; Lopo de Barros,o mais moço, falecido em 3 de abril de 1587; Diogo de Barros; Isabel de Almeida, que casou com o primo Lopo de Barros; Ana de Almeida, freira; Catarina de Almeida, casada com Cristovão de Melo, filho de Diogo de Melo e de Catarina de Castro.
O Feitor, por conta da sua alta responsabilidade, nunca veio ao Brasil, tendo mandado duas expedições para a conquista das suas capitanias, sem muito sucesso, e com grande fracasso financeiro.

Conta Jerônimo de Barros, que no tempo de Dom João III, foi a mando dele, com o irmão João de Barros, ao Rio Maranhão, com uma armada para descobrir o dito rio e costa, na esperança de resgatar ouro, descobrindo mais de quinhentas léguas de costa. Ali, resgataram alguns homens que nela andavam dos que se perderam com Luis de Mello. Tiveram muito trabalho de guerra com os franceses e com o gentio da terra e povoaram em três partes, gastando perto de cinco anos, sustentando tudo a custa do seu pai, até gastar quanto tinha.
Transcrevo para cá minuta de petição de Jerônimo de Barros, sem data, mas depois do falecimento do seu pai (1570). Fiz algumas adaptações para facilitar a leitura.

Diz Jerônimo de Barros que ele tem uma capitania no Brasil de cinquenta léguas ao longo da costa dos Pitigares e vinte e cinco na boca do rio Maranhão. E já que seu pai, nem ele, por seus serviços, mereceram servir V. A. neste Reino como seu Pai sempre requereu, quer ir povoar esta capitania no que espera fazer a Deus e a V. A. muito serviço pela experiência que tem daquela costa do tempo que nela andou de que ficou tanta despesa, que sem ajuda de V. A. não pode povoar pelo que pede lhe faça V.A. mercê de lhe mandar dar cem moradores dos oitocentos, que o contratador do Brasil é obrigado a por lá; E assim, de haver por bem que possam entrar neste reino de Inglaterra cinco mil peças de pano no que as alfândegas de V. A. R. proveito e ele ajutoria para fazer esta obra(?). E que os primeiros dez anos possam tirar, cada ano, mil quintais de pau do Brasil; e, assim, de cinquenta peças de escravos em São Tomé e aqui somente duas peças de artilharia e da que está em Pernambuco oito peças para defesa da fortaleza a qual artilharia dará fiança. 

E lembro a V. A, que muito mais  e maiores mercês se fizeram aos capitães que povoaram no Brasil por que (a) alguns deles deram as fortalezas feitas e artilhadas e navios com que defender a costa. E há outros com que as fazer e se parecer muito, o que peço, a isso responda por mim a fazenda de V. A. com dizer o que tem custado à baia a povoar e se é necessário ou não povoar-se esta capitania, por uns apontamentos que abaixo desta apresento se verá quanta obrigação V. A. tem na sua consciência a mandar que se povoe e quanto importa a seu serviço e bastam para mim estas duas coisas para muito o desejar que interesse ao presente não o espero e, de futuro Deus sabe o que será no que R. M.

Ao serviço de V.A. é necessário mandar povoar esta capitania antes que os franceses a povoem os quais todos os anos vão a ela a carregar de Brasil por ser o melhor pau de toda a costa. E fazem já casas de pedra em que estão em terra fazendo comércio com o gentio. E os anos passados estiveram nesta capitania dezessete naus de França a carga e são tantos os franceses que vem ao resgate que até as raízes do pau brasil levam, porque tinge mais as raízes do que pau que nasce nesta capitania. Que o pau das outras capitanias é sempre valor dobrado do outro brasil. E agora tomaram os franceses nos Pitigares três mil quintais de brasil que o portugueses tinham na praia feitos a sua custa para carregar e antes que os franceses faça uma fortaleza que obrigue depois a muito, parece que será bom povoar-se por nós e com isso feito lhe não levarem este pau a França e ficará então rendendo mais a V. A.

Outro respeito se deve ter que muito importa ao serviço de V. A. É que todos os navios que se alevantam no Brasil para as Antilhas é com dizer que vão a esta capitania. E eles como nela são por não haver quem não defenda salteia o gentio e cativam-nos no que se faz muitas ofensas a Nosso Senhor e vão-se com os navios carregados deles a vender as Antilhas no que a fazenda de V. A. perde por respeito dos escravos de Guine que se escusa com estes índios que lá vão.

E o que mais importa para o bem do Brasil é a perda dos homens e eles por esta porta travessa para as Antilhas tomados do amor do ouro que lá há onde há tantos portugueses que me atrevo a dizer que dos que são idos para o Brasil as duas partes estão nas Antilhas onde há muitas povoações cujos moradores as duas parte são  de portugueses e o proveito que eles fazem às conquistas deste reino Deus o sabe.
Todos os navios que não dobram o Cabo de S. Agostinho são forçados arribar nas Antilhas e muitos dos que vão para a Guiné o que não será tendo uma fortaleza nesta capitania por que podem ficar nela a qual é a mais perto terra que há no Brasil a este reino e mais breve e melhor viagem e povoando-se além dos benefícios apontados pode este Reino receber outros e se naquela terra há ouro pelo que a meu pai tem custado sei que por esta parte se pode melhor descobrir que por outra nenhuma e não digo isto por que o visse mas quando me perguntarem direi o que disso sei.  E o principal respeito que se deve ter é a obrigação que se tem em acudir aquela gentilidade que não seja cada dia destruída e roubada pelos nossos (?) dos quais muitos receberão água do batismo com povoar entre eles e muitos inocentes se salvarão no que R. M.

Mapa das capitanias hereditárias

terça-feira, 11 de março de 2014

João de Barros, Pirangi e o Porto de Búzios, 1564


João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG
Muitos documentos escritos, da História do nosso Brasil, encontram-se submersos em vários arquivos públicos ou privados, daqui e d’além mar. Encontro no nosso IHGRN um livreto, de apenas 30 páginas, de autoria do historiador natalense, Guarino Alves, com o título: Capitanias Hereditárias ou dissertações sintéticas de um historio-geógrafo, editado em Fortaleza. Traz informações muitas ricas para a História do Rio Grande do Norte. Entre outras obras desse autor, cito: Pequena história do Cabo de São Roque; Origem do nome histórico “Ponta do Mel”; João Rodrigues Colaço; O Verde Potengi e Designação amerígena da Ponta do Calcanhar.

Nesse livreto, um dos títulos é: Considerações sobre o Porto dos Búzios que transcrevo para cá:

Escritores cearenses trouxeram à baila a ideia de uma fronteira na capitania dos Potiguares pela ponta dos Búzios. O Sr. Thomaz Pompeu Sobrinho, por exemplo, diz, a propósito, o seguinte:

“Num documento curioso, “certidão referente a uma questão de limites da capitania de João de Barros”, de 3 de março de 1564, publicado por Antonio Baião, em 1917, verifica-se que o ponto lindeiro entre a capitania do feitor da casa da Índia, e a de Itamaracá não era a baía da Traição e nem o lugar dado por Gabriel Soares, porém uma ponta de terra que devia passar obra de meia légua do porto dos Búzios, o qual ancoradouro fica na barra do rio que os potiguares chamavam Pyramgipepe, segundo o mencionado documento, isto é, Pirangi. Realmente, deste ponto as 100 léguas vão terminar na enseada da Curimicoara, a Angra dos Negros dos antigos mapas.”

A questão de limites surgiu em consequência de o capitão de Itamaracá, João Gonçalves, haver explorado, sem mandado de ninguém, a costa vizinha à de Dona Isabel Gambôa, sucessora de Pero Lopes de Sousa. Houve protesto de Antonio Pinheiro, Procurador de João de Barros, na Vila dos Cosmes de Igaraçu, no dia 3 de março de 1564:

...”ho dito porto dos Búzios que pela língua dos imdios se chama Piramgypepe está fora da demarcação de dona Isabel e está na capitania e terra do dito seu constituinte he e seu he estaa de posse delle de muitos hanos há esta parte e como tal lho teve arremdado por certos hanos a Martim Ferreira de São Vicente e que ho houve de Pero de Goes comprado e que sempre ho dito seu constituinte deu licenças pera o dito porto em seus procuradores nesta terra arrendarem por as ditas licenças em dinheiro e escravos e em búzios.”

Conseguintemente, o protesto por si já mostra o direito de João de Barros.

Desde quando se explorava o Porto dos Búzios?

No dia 3 de março de 1564, Antonio Pinheiro, Procurador daquele muito distinto e erudito fidalgo, arrolou quatro testemunhas, Manoel Fernandes, Fernão d’Holanda, Gonçalo e Bartolomeu Royz, e a 4, as inquiriu Manuel Pereira, em presença do Juiz Ordinário, João Fernandes. Ficou esclarecido que o Porto pertencera a Pero de Góis, fora arrendado depois a Martim Ferreira, e que ali se coletava búzios desde aproximadamente vinte anos: “ave rahobra de vinte anos pouco mais ou menos”, disse perante o Juiz a testemunha Bartolomeu Rodrigues.

Segundo o depoimento de Manoel Fernandes, o fidalgo Pero de Góis “vendera o porto dos búzios que era seu com dez léguas de costa ao dito João de Barros, feitor da Casa da Índia, dizendo que lhas dera por quinhentos cruzados.”

Ignora-se a data dessa transação, mas é posterior à da donatária de Barros. Significa que Pêro de Góis já era dono do lugar muito antes da Carta de doação ao Feitor da Casa da Índia. E sendo assim, pergunta-se: em que ano adquiriu Pero de Góis as dez léguas de costa? Ninguém sabe, e no entanto há uma passagem em Frei Vicente do Salvador, dizendo isto:

“Em companhia de Pero Lopes andou por esta costa do Brasil Pedro de Góis, fidalgo honrado, muito cavaleiro, e pela afeição que tomou à terra pediu a El-Rei D. João que lhe desse nela uma capitania, e assim lhe fez mercê de cinquenta léguas de terra ao longo da costa ou aos que se achassem  donde acabassem as de Martim Afonso de Sousa, até que entestasse com as de Vasco Fernandes Coutinho.”

Ora, as viagens costeiras de Pero Lopes são de 1531-1532. A escolha e apossamento do Porto dos Búzios por Góis vem, portanto, dessa época, e feitos pelo que se deduz, à revelia do rei, já que a capitania oficial de Pero de Góis, estava encravada no sul do país. Dessarte, é de supor-se que acontecera o seguinte: doada a Costa dos Potiguares a João de Barros e Aires da Cunha, da Baía da Traição até a Angra dos Negros, viu-se empenhado o ilustre Feitor da Casa da Índia, em indenizar a Pero de Góis, pelas dez léguas do Rio Grande, na importância de quinhentos cruzados; e, posteriormente, arrendou-o a Martim Ferreira, sócio de Pero de Góis, em aventuras comerciais.

Fica bastante explícito que a questão de limites verificada na Vila dos Cosmes de Igaraçu não retifica os termos da Carta de doação da capitania de João de Barros e Aires da Cunha, nem deixa supor que a fronteira primitiva, segundo o critério adotado por alguns escritores cearenses, se fazia pela Ponta dos Búzios.

Como fronteira “primitiva”, se esta começou com a Carta de doação de 1535, na Baía da Traição? Como fronteira “primitiva”, se a nesga de costa de Pêro de Góis não se entrosara no sistema de doações de capitanias hereditárias? O fato é que a “estação” balneária de Pero de Góis vem dando margem a ideias fantasiosas. Aqui termina o texto de Guarino.

Esse Antonio Baião, citado acima, foi Diretor do Arquivo da Torre do Tombo e sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa, e o título do seu livro que contém o documento curioso a que se refere Thomaz Pompeu é: Documentos inéditos sobre João de Barros. Há cópia no IHGRN.

Acredito que o francês João Lostau já atuava nessa área, que foi de Pero de Góis, antes de receber suas sesmarias, a partir de 1601.
 
Trecho do Rio Pirangi que vai desaguar no mar

Trecho do Rio Pirangi, do outro lado da ponte



sexta-feira, 7 de março de 2014

Os 150 anos de Pedro Avelino e os 136 de José da Penha


João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor de Matemática da UFRN e membro do INRG

No dia 13 de maio o capitão José da Penha, se vivo fosse, completaria 136 anos de idade. No dia 19 de maio seria a vez do jornalista Pedro Avelino completar, caso fosse vivo, 150 anos. Essas duas figuras, que foram homenageadas com nome de duas cidades do Rio Grande do Norte, tiveram uma participação muito ativa na História do Rio Grande do Norte.

Os dois, além de cunhados, tinham outra relação de parentesco. Pedro Avelino que casou com Maria das Neves, irmã de José da Penha, e, por isso, eram parentes por afinidade, tinham ascendentes comuns. O casal João Barbosa da Costa e Damásia Soares estava na ascendência dos dois. Esse casal gerou os irmãos João Manoel da Costa e Francisco Xavier da Cruz.

No começo do século XIX, Francisco Xavier da Cruz foi patenteado com o posto de alferes por conta de uma vaga que surgiu quando seu irmão, João Manoel da Costa, foi promovido de alferes para tenente. João era casado com Angélica Maria da Conceição, e Francisco com Lourença Dias da Rosa, esta última descendente de famílias de Utinga, em São Gonçalo. O primeiro casal gerou Vicente Ferreira Xavier da Cruz e o segundo Vicente Ferreira da Costa e Mello do O’.

Vicente Ferreira Xavier da Cruz casou duas vezes: a primeira com Maria Francisca Duarte e a segunda com Maria Ignácia Rosalinda Brasileira, filha de Cosme Teixeira de Carvalho, natural de Caicó. Foi desse  segundo casamento que  nasceu, entre outros filhos, Maria Ignácia Teixeira do Carmo, a mãe de José da Penha. Ela era casada com José Francisco Alves de Sousa, natural de Sousa, na Paraíba.

Vicente Ferreira da Costa e Mello do O’, por sua vez, casou com Joaquina Maria do Rosário, filha de Antonio Martins do Santos e Felippa Maria Duarte, esta última filha de Antonio Lopes Viégas e Anna Barbosa da Conceição. Antonio Lopes Viégas é considerado o fundador de Angicos, e sua esposa, Dona Anna Barbosa da Conceição era uma das filhas de João Barbosa da Costa, ascendente comum do capitão José da Penha e do jornalista Pedro Avelino. Pois bem, Vicente e Joaquina, tiveram entre outros filhos, o tenente Alexandre Avelino da Costa Martins.

Alexandre, antes de casar com a prima, Anna Francisca Bezerra, teve um relacionamento com Maria Rodrigues da Costa e daí nasceu, em 23 de janeiro de 1837, Vicente Ferreira da Costa Avelino, que, posteriormente, trocou o Ferreira por Maria. A data do nascimento de Vicente Maria só tomei conhecimento depois de ver uma foto dele oferecida ao Barão do Assu, Luiz Gonzaga de Brito Guerra, datada 1870. Quem me encaminhou a dita foto foi Luiz Fernando Pereira de Mello.

Vicente Maria casou em 1857 com Anna Bezerra da Natividade, filha do Professor Matheus da Rocha Bezerra e dona Anna Angélica Bezerra, tendo como uma das testemunhas Vicente Ferreira Xavier da Cruz, avô do Capitão José da Penha e de Maria das Neves, futura esposa do jornalista Pedro Avelino. Em 1861, nascia Pedro Celestino da Costa Avelino, que no batismo recebeu como padrinho o Barão do Assu.

Tanto os pais do capitão José da Penha como os de Pedro Avelino tiveram mais de 20 filhos.

Pedro casou em 27 de outubro de 1885. Quanto a José da Penha não descobri o registro do seu casamento. Sei que era casado com Altina Santos, falecida em 1905, filha do capitão Francisco Pedro dos Santos, veterano da guerra do Paraguai.

Os filhos de Pedro Celestino da Costa Avelino e Dona Maria das Neves Alves de Sousa eram: o senador Georgino Avelino que dá nome, como seu pai,  a um município do Rio Grande do Norte; Camilo Lutero que residia no Rio de Janeiro; Vicente que foi diplomata, autor do livro Ideário, publicado em Paris;  Maria Albertina Leite, esposa do Dr. Leite Junior; e Isolina Avelino Waldvogel, casada com o engenheiro e autor de diversos livros, entre eles Homens que fizeram o Brasil.

Os filhos de José da Penha Alves de Sousa e Dona Altina dos Santos eram: Anita, Zaíra e o Major do Exército Murilo Penha que serviu na 25ª Circunscrição Militar, em Fortaleza.


No blog: http://trindade.blog.digi.com.br, apresento uma das biografias do capitão J. da Penha. Ela foi escrito por Hugo Victor Guimarães no livro: Deputados provinciais e estaduais do Ceará. Também, no blog,  apresento o discurso de posse de Antonio Alves de Oliveira na Academia Potiguar de Letras, extraído da Revista do Instituto do Ceará, ano 1993. Ele falou sobre o patrono da cadeira de nº 6, Pedro Celestino da Costa Avelino.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Ascendentes do capitão J. da Penha



João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG
Muito se tem falado sobre o capitão J. da Penha, mas poucos conhecem seus ascendentes, sua família, sua origem. Vez por outra um equívoco nos nomes dos seus pais e dos seus familiares. Cuidemos, pois, de melhorar essas informações, muito embora as fontes, incluindo as primárias, podem conter erros.

Seus pais, José Francisco Alves de Sousa e Maria Ignácia Teixeira do Carmo casaram-se aos seis de junho de 1864, em Angicos, em oratório particular, sendo testemunhas Miguel Pinheiro de Vasconcelos Costa e José Irineu da Costa Pinheiro. Ele, natural da Freguesia da cidade de Sousa, da província da Paraíba, filho legítimo de José Alexandre Pereira de Souza, e de Maria Leopoldina Josefa Carolina (mesmo nome da esposa de D. Pedro I), falecida; ela de Vicente Ferreira Xavier da Cruz, e de Maria Ignácia Rosalinda Brasileira. O celebrante foi o tio do noivo, Padre Felis Alves de Souza. 

Os pais de José Alexandre e Padre Felix eram José Joaquim Pereira de Souza e Anna do Sacramento. Padre Felix nasceu em 27 de agosto de 1820, em Rio do Peixe, depois Antenor Navarro.

José Francisco e Maria Ignácia tiveram muitos filhos, mas somente seis chegaram a vida adulta, sendo quatro Josés e duas Marias: José da Penha, José Anselmo, José Francisco, José Felix, Maria das Neves e Maria Pureza. Mas, esse que tinha o mesmo nome do pai, pouco depois de receber o diploma de cirurgião-dentista, no Rio, foi visitar a família em Angicos, e morreu, após uma queda de cavalo, no ano de 1912; José Anselmo morreu envenenado, em 1952, e era casado com Marfisa Pinheiro, filha de José Rufino, e neta de Miguel Pinheiro, que foi testemunha no casamento acima; Maria das Neves casou com o jornalista Pedro Avelino e são pais do senador Georgino Avelino; Maria Pureza, morreu solteira; José Felix casou com Cynira, uma filha de Cirineu Vasconcelos, um dos apoiadores de J. da Penha, em 1913.

 José da Penha nasceu aos treze de maio de 1875, e foi batizado, pelo tio-avô, Padre Felix, na matriz de São José de Angicos, no primeiro de junho do dito ano, sendo padrinhos Cassiano Maria da Costa Ferreira, e Francisca Rita Xavier de Souza, por sua procuradora Izabel Maria da Costa Ferreira (esposa de Cassiano, e prima legítima de Maria Ignácia).

A professora Maria Ignácia, mãe do capitão, que em alguns registros, pós-casamento aparece como Maria Ignácia Alves de Souza ou Alves da Silva, era filha de Vicente Ferreira Xavier da Cruz e Maria Ignácia Rosalinda Brasileira, nasceu em 28 de fevereiro de 1846, e foi batizada, também, pelo Padre Felix, no Sítio São Romão (herdado por minha avó, Maria Josefina), aos 17 de Junho do mesmo ano. Foram padrinhos o próprio Padre, por procuração que deu a José Thomas Pereira, e Rita Teixeira da Conceição.  

Subindo na ascendência do capitão, vejamos o casamento dos pais de Maria Ignácia: Vicente Ferreira Xavier da Cruz, viúvo por falecimento de sua esposa Maria Francisca Duarte (possivelmente, sua parente), casou aos treze do mês de janeiro de 1840, no sítio denominado São José, da Freguesia de Santa Ana do Matos, do Assú, com Maria Ignácia Rosalinda Brasileira. Ele, filho de Francisco Xavier da Cruz e Lourença Dias da Rosa (esses dados não constam no registro); ela, filha de Cosme Teixeira de Carvalho, falecido, na época, e de sua mulher Maria Ignácia de Carvalho. Vicente era natural da Vila de Angicos, e Maria Ignácia, natural de Santana do Matos. Foram testemunhas José Thomas Pereira e Luiz da Rocha Pitta. Esse José Thomaz, que, também, foi procurador do Padre Felis, no batismo da mãe de J. da Penha,  era filho de Antonio Thomas, um irmão de Cosme Teixeira de Carvalho. 

Cosme Teixeira de Carvalho, bisavô de José da Penha, era natural da Freguesia de Caicó, filho de João Pereira da Silva. Ele foi casado anteriormente, com Aldonsa da Fonseca Pitta. Rita, madrinha da mãe de J. da Penha, era filha de Cosme e Aldonsa, e foi casada com seu primo, José Thomas, citado acima. Quanto à segunda esposa, Maria Ignácia de Carvalho, não descobri seus ascendentes, mas acredito que sejam das famílias dos Fernandes, Silvas e Carvalhos, de Santana do Matos. Absalão Fernandes da Silva Bacilon, avô de Aluízio Alves e Aristófanes Fernandes, era afilhado de Maria Ignácia Rosalinda Brasileira. Além disso, Aluízio se dizia parente de Georgino, sobrinho de J. da Penha, e José Anselmo tratava Aristófanes como parente.

Os pais de Vicente Ferreira Xavier da Cruz, portanto, bisavós de J. da Penha, alferes Francisco Xavier da Cruz e Lourença Dias da Rosa, casaram em 17 de novembro de 1774, aqui na Vila de Extremoz, sendo filhos: ele, de João Barbosa da Costa e de Damásia Soares, moradores no Assú; ela de Antonio Dias Machado e Francisca Lopes Xavier. Uma das testemunhas desse casamento foi o tenente Antonio Lopes Viegas, considerado fundador de Angicos, cunhado do noivo.

Não consegui informações sobre os pais de João Barbosa da Costa e de Damásia Soares, que eram sogros, segundo Aluízio Alves, de Antonio Lopes Viegas. 

Antonio Dias Machado e Francisca Lopes Xavier, primos legítimos, trisavós do capitão José da Penha, casaram em 3 de julho 1757, aqui na Matriz de Nossa Senhora da Apresentação, ele filho legítimo de João Machado de Miranda e Leonor Duarte de Azevedo, na época defuntos; ela viúva de Nicácio Duarte, e filha de Luiz Duarte de Azevedo e Lourença Lopes Xavier, moradores no lugar chamado Potigi.

Nos registros de batismos mais antigos, da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, aparece, como madrinha, Lourença Lopes, filha de um Antonio Lopes Viegas. Talvez, ela fosse a esposa de Luiz Duarte de Azevedo, irmão de Leonor Duarte, tetravó de J. da Penha. Vários descendentes de tenente Antonio Lopes Viegas tinham Duarte ou Azevedo no sobrenome. É possível que o fundador de Angicos e o próprio J. da Penha descendam desse velho Antonio Lopes Viegas.

É o que pude apurar, até agora, com o que restou dos livros mais antigos. E quem é que está cuidando da preservação e digitalização dos velhos documentos?
Casa da Fazenda São Romão

Maria Ignácia, mãe de J. da Penha




segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Lembranças de J. da Penha



João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG
Hoje, transcrevo para cá um artigo postado no Diário de Notícias, no dia 21 de abril de 1954, pelo escritor cearense, membro da Academia Brasileira de Letras, R. Magalhães Júnior, que juntou suas lembranças às do escritor norte-rio-grandense,  Jaime Adour da Câmara. O título desse artigo é “Lembranças de J. da Penha”. O capitão J. da Penha, natural de Angicos, Rio Grande do Norte, foi assassinado no Ceará, no dia 22 de fevereiro de 1914, um século atrás. Segue o artigo.

Numa interessante conferência, improvisada à base de reminiscências de sua infância e de sua juventude no Rio Grande do Norte, o escritor Jaime Adour da Câmara lembrou, há poucos dias, a figura do capitão J. da Penha, desaparecido há precisamente quarenta anos. Pintou o autor de “Oropa, França e Bahia, com aquela fluência e precisão verbal que todos lhe reconhecem, um excelente retrato daquele oficial, de figura imponente, barbas frondosas e grande coragem, de cujos lábios ouvira, pela primeira vez, em comícios, a palavra “povo”. Não em referências indiretas, mas como um apelativo, como um chamamento, uma convocação. Disse o conferencista que ele proferira a palavra: “Povo!”, seguida de uma exclamação, apoiando-se na primeira sílaba, acentuada, porém breve, de tal sorte que parecia um tiro, um estampido. E que poder havia naquela palavra, que força magnética, que atração! Por que? Porque era uma palavra nova, alguma coisa de estranho, de inusitado, no vocabulário político da época. O capitão J. da Penha, diante daqueles que o cercavam, estudantes, operários, funcionários, meros curiosos atraídos eventualmente pela aglomeração que se formara, não distinguia classes ou particularizava grupos sociais. Enfeixava-os todos naquela palavra mágica, naquele tiro de fuzil saído de sua boca rodeada de espessas e negras barbaças:”Povo”.

Classificou-o Jaime Adour da Câmara de “mistagogo” e reconhece que muitas das coisas impressionantes que J. da Penha então dizia eram frases feitas, lugares comuns da oratória de comício, vulgaridades de almanaque positivista. Contudo, confessa que foi J. da Penha, com sua oratória inflamada, quem lhe transmitiu a noção de que era povo. Dele ouvira também uma palavra estranha e jamais ouvida: desoligarquização. Sustentava J. da Penha a necessidade de promover-se a desoligarquização dos Estados para que pudesse reinar no Brasil um clima de liberdade política. Na verdade, havia frondosas oligarquias de Norte a Sul do país. Não é preciso lembrar todas elas. Basta citar o longo e desafiador domínio do Sr. Borges de Medeiros no Rio Grande do Sul e a prolongada permanência dos Acioli no governo do Ceará. O desoligarquizador J. da Penha, que conseguiu levantar uma parte da população do Rio Grande do Norte, com os seus comícios e suas estranhas palavras, tão diferentes das que falavam os homens que detinham o poder, cometeu o erro supremo na escolha do candidato que deveria enfrentar  a oligarquia local. Foi buscar, não um filho da terra, não um homem que tivesse aparecido ao seu lado nos comícios, não alguém que tivesse raízes no Estado ou nele vivesse, mas um jovem e ausente oficial do Exército, o tenente Leônidas Hermes da Fonseca. Podia ter o tenente muito merecimento pessoal e condições para se transformar num grande administrador. Era, porém, o filho do presidente da República, marechal Hermes da Fonseca, e tal escolha fazia supor que J. da Penha, queria substituir uma oligarquia de âmbito estadual por uma oligarquia de âmbito nacional. Fraco o movimento a que se dedicara, o capitão J. da Penha, adotara uma tática funesta: a de tentar obter o apoio ou a pressão do governo central para o seu candidato, sem lembrar-se de que tal pressão seria tão condenável quanto a da máquina estadual em favor do candidato da oligarquia. O resultado foi a derrota do movimento de J. da Penha. As lembranças desfiadas pelo conferencista Jaime Adour da Câmara nos fazem refletir sobre os atos dos que querem preservar a democracia, baseada na vida dos partidos, com a escolha de candidatos fora dos partidos, ou seja, com a negação destes e de suas finalidades. Não parece a singularíssima desoligarquização de J. da Penha?

Ao desastre do bravo capitão no Rio Grande do Norte seguiu-se o seu desastre final no Ceará. Esse Estado fora há pouco, desoligarquizado: tinham sido alijados os Acióli e a estes se seguira o governo de um militar, o então coronel Marcos Franco Rabelo. Para reagir contra os restos da oligarquia, tinham entendido que só um homem forte. Mas Franco Rabelo, em vez de forte, era fraco. Contra ele, ergue-se o padre Cícero, com sua jagunçada, e a figura sinistra de Floro Bartolomeu, eminência parda do velho fanático. Criminosos de cinco ou seis Estados formam nas forças irregulares de Juazeiro, bem armadas e bem municiadas. Batidas as forças governistas em alguns encontros, J. da Penha se apresenta no Ceará e aceita o comando das mesmas. Marchou para o interior e caiu numa cilada perto de Iguatu. 

Dias depois, chegava a Fortaleza um vagão ferroviário conduzindo o cadáver de J. da Penha. Ainda me lembro da emoção daquele instante: parecia que a cidade inteira tomava luto. Assumiu J. da Penha o relevo de um herói popular. Os cantadores o glorificavam em seus versos.

Lembro-me de uns que diziam;
Deus te dê a salvação
Boca que nunca mentiu
Braço de herói destemido
Mão forte que resistiu

Assim acabou o homem evocado há dias pelo conferencista Jaime Adour da Câmara. Ás lembranças dele junto as minhas. Naquele instante, parecia que o Brasil estava acabando e que o nome de J. da Penha passaria à história como o de um herói. Mas, agora, a quarenta anos de distância, quantos ainda se lembrarão dele?

No próximo artigo, neste jornal, escreveremos sobre os ascendentes do capitão J. da Penha.
Capitão J. da Penha