terça-feira, 31 de maio de 2011

Macau, relatos de uma viagem

Macau, relatos de uma viagem
João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor de Matemática da UFRN e membro do INRG
Um dia desses, sugeri a vice-reitora da UFRN, Ângela Paiva, uma reportagem ou documentário da TVU sobre a Ilha de Manoel Gonçalves. Mesmo sabendo das dificuldades para se fazer esse tipo de trabalho pelo interior do Rio Grande do Norte, após escutar as minhas considerações, prometeu encaminhar a dita sugestão para exame da TVU. Assim, diante dessa possibilidade conversei com algumas pessoas desse órgão.
Em seguida, enviei via e-mail, algumas informações e artigos que fiz sobre a Ilha de Manoel Gonçalves. Conhecedor de muitos anos da burocracia pública (a privada não é menor), tive que esperar pacientemente os resultados dos estudos. Dentro das repartições públicas, muitas solicitações vão perdendo fôlego a medida que passam de uma mão para outra. Além disso, a rotina própria da TVU, as atividades já programadas e as dificuldades para se fazer imagens no interior poderiam adiar aquele sonho.
Outro dia, aproveitei um momento de audiência com a vice-reitora para informar do andamento da solicitação. Atenta, ao que expus, sugeriu de imediato que fosse aproveitado o dia de inauguração de uma obra em Macau para fazer a dita reportagem. E, assim, aproveitei aquele mesmo dia para ir a TVU. Fui recebido por Washington que se interessou pelo assunto, fez algumas perguntas e disparou uma série de providências para aproveitar a data do dia 21 de Maio. Conversei, também, com Regina Barros que se dispôs a ir até sua terra Macau para providenciar alguns contatos para a realização da reportagem.
No dia 21 de maio, peguei carona com Sergio Henrique, escalado para cobrir o evento, e o grupo de reportagem da TVU e fomos para Macau, logo cedo da manhã.
Em Macau, após a inauguração comandado pelo Reitor José Ivonildo, fomos para as ruas de Macau, pois, além da matéria sobre o evento da UFRN, duas outras matérias seriam feitas: um sobre turismo em Macau e outra sobre a Ilha de Manoel Gonçalves.
Uma das filmagens foi sobre a ponte para ilha de Santana. Enquanto eles filmavam perguntei a uma senhora, de umas das casas da rua que dá acesso a ponte, o nome daquele local. Ela disse que aquela rua se chamava Manoel Gonçalves e era conhecida por rua da Maré. Avistei uma placa e a fotografei, embora o nome da rua já estivesse pouco legível.
No começo da tarde fomos ao Museu José Elviro, onde foram entrevistados Gilson Barbosa, que coordena o Museu, e Regina Barros. Lá foram colhidas imagens de três objetos que vieram da Ilha de Manoel Gonçalves: o sino da Capela de Nossa Senhora da Conceição, a base do cruzeiro, e uma pequena campainha da mesma Capela. Eu aproveitei para fotografar outros objetos, como uma mala de pregaria que foi de Vicente Maria da Costa Avelino, pai do jornalista Pedro Avelino. Fotografei novamente uma placa do jazigo do Barão de Ipojuca, que foi enterrado em Macau, objeto de um artigo de Câmara Cascudo.
Aqui, cabe um comentário sobre o Museu. Após várias visitas que já fiz ao mesmo, sinto que um cartão de visita de Macau, como é o Museu José Elviro, merece uma atenção maior do poder público e também das empresas privadas da região. Infelizmente, ele não está sendo bem cuidado.
Depois seguimos para Igreja Matriz. Lá deveríamos fotografar o Cruzeiro e a imagem de Nossa Senhora da Conceição que vieram da Ilha. Embora, estivesse marcado para o horário entre 14 e 15 horas, o padre nem a secretária estavam lá. Segundo um rapaz que nos atendeu, pelo que ele sabia, nós só chegaríamos lá pelas 17 horas. O cruzeiro foi filmado, mas para surpresa nossa a imagem de Nossa Senhora, com mais de 150 anos, não estava mais na Matriz. O mesmo rapaz que nos atendeu informou que ela foi para o CEIMH – Centro de Educação Integrada Monsenhor Honório. Anteriormente, essa imagem ficava na parte superior da Matriz, e era visível pelo lado de fora. Mas, segundo o rapaz ela foi movida porque estava se estragando por conta do sol. Não havia necessidade dela sai da Matriz, lá tem muito espaço para muitas Nossas Senhoras, e principalmente, uma relíquia como é a da Ilha de Manoel Gonçalves.
Antes de ir para o CEIMH, fomos para a praia de Camapum, para fazer imagens da possível localização da Ilha e para novas entrevistas sobre turismo em Macau.
Sobre a localização da Ilha, a partir da praia de Camapum, há controvérsias. Em uma de minhas idas anteriores, Benito Barros, tinha me levado até a praia e dava a entender que ela se situava do lado esquerdo. Ailton Marques, com quem conversamos durante a solenidade da UFRN, dizia que era do lado direito. De qualquer forma foram feitas imagens dos dois lados. Entretanto, com as informações do inventário de Domingos Affonso Ferreira é possível, hoje, com a ajuda de um cartógrafo encontrar a verdadeira localização da Ilha. Getulio Moura, lá do Assu, nos mandou um e-mail com algumas informações sobre a localização, que não deu tempo de examinarmos com mais cuidado, mas foi entregue ao repórter  Sérgio Henrique. No Museu João Elviro, Regina Barros fez algumas considerações sobre a Ilha, e lá em Camapum dei algumas informações do meu conhecimento, colhidas nos livros de registros da Igreja e em outros documentos e livros.
Aqui, mais um comentário. Ali naquela praia de Camapum já devia ter uma seta indicando o local onde foi a Ilha. Mais ainda, no local onde foi a Ilha deveria ter umas bóias. Deveria também, a partir da praia, haver uns barcos que levassem os turistas até o local onde foi a Ilha. Simples assim.
Da praia fomos para o CEIMH em busca da imagem de Nossa Senhora da Conceição.  O vigia nos levou até a capela. Lá estava a imagem em cima de um pedestal, sujeito a um tombo a qualquer momento. Alguma coisa naquela imagem me chamou a atenção, mas não consegui me lembrar o que era. Já de volta ao carro, abri o livro que escrevi e procurei a imagem que tinha fotografado em 2007. A imagem que está no CEIMH estava sem a coroa. Onde está a coroa de Nossa Senhora?
É estranho o descuido com as nossas relíquias. O Cruzeiro está na Matriz, a base do Cruzeiro, o sino e a campainha no Museu, e a imagem de Nossa Senhora da Conceição, perdida e vulnerável na Capela do Centro de Educação Integrada Monsenhor Honório.
A Ilha de Manoel Gonçalves pode não ressurgir fisicamente, mas tem que ressurgir na memória dos muitos habitantes daquela região do antigo Assu. Saímos de Macau, no final da tarde.

João Lostau Navarro e a petição de Francisco Lopes

Ruínas de Pium - casa forte de João Lostau
João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor de Matemática da UFRN e membro do INRG
Entre os ascendentes de famílias do Rio Grande do Norte, talvez, o mais antigo que se conhece e, que morava nesta Capitania, é João Lostau  Navarro. Recebeu várias sesmarias na nossa Capitania, sendo a primeira em 1 de março  de 1601, onde tinha um Porto de pescaria. Há quem diga que chegou aqui com Duarte Coelho, em 1534. Segundo nossos historiadores ele foi sogro de Joris Garstman, holandês que comandava o Forte dos Santos Reis Magos, na época da presença holandesa no Rio Grande do Norte, e de Manoel Rodrigues Pimentel, Escabino dessa mesma época.
Até o presente momento, não estou convencido que Joris Garstman casou com uma filha de João Lostau. Não vi nenhum documento que garantisse a veracidade dessa afirmação. Pela importância desse holandês, aqui no Rio Grande do Norte, algum registro na Holanda, no Brasil ou em Portugal deveria trazer informações desse casamento. Alguns historiadores dizem que ele mandou matar Jacob Rabe, por este ter assassinado seu sogro João Lostau. Segundo Hélio Galvão, Joris Garstman casou com Beatriz Lostau Casa Maior e são os pais de Teodósio de Grasciman e Isabel de Grasciman. Também não sei como Hélio Galvão obteve essa informação. Nos documentos relativos a Teodósio, que ele apresenta no seu livro História da Fortaleza da Barra do Rio Grande, não há nenhuma indicação dessa filiação, embora ele, Teodósio, afirmasse, em 10 de dezembro de 1708, que era morador nesta capitania com mulher e filhos há mais de quarenta anos. Afirmou, também, noutro documento ser casado com Paula Barbosa, filha do sargento-mor Francisco Lopes, neta de Manoel Rodrigues Pimentel e bisneta de João Lostau.
 
Com relação a outra filha de João Lostau, Maria Lostau Casa Maior, a documentação apresentada por Hélio é convincente, principalmente a escritura de dote, datada de 13 de abril de 1626,  para ela, que estava noiva de Manoel Rodrigues Pimentel.
 
Outro documento interessante, de conhecimento de muitos, está no livro das Sesmarias do Rio Grande do Norte. É nesse documento que encontramos uma petição do Sargento-mor Francisco Lopes, solicitando alvará de confirmação de terras que foram de João Lostau. José Augusto publicou na Revista do Instituto do Ceará um artigo intitulado Norte-rio-grandense de mais de trezentos anos, onde fala sobre dita petição. 
 
O documento que se encontra no livro das Sesmarias do Rio Grande do Norte é uma cópia, onde faltam partes e há trechos ilegíveis. De qualquer forma pudemos extrair alguns trechos com informações significativas.
 
O sargento-mor Francisco Lopes, na petição citada acima, morador na Capitania do Rio Grande, afirma que é casado com uma filha legítima de Manoel Rodrigues Pimentel, e neta de João Lostau Navarro, o qual deixou a sua dita mulher, por ser única herdeira, todos os bens. Informa, também, na petição que o  dito João Lostau Navarro foi preso pelos flamengos e morto pelos tapuias. Disso resultaram perdas dos documentos de datas e sesmarias e de compras de terras, também, de seu sogro Manoel Rodrigues Pimentel. Por isso, ele estava solicitando esse alvará de confirmação para tomar posse das terras que pertenceram ao avô de sua mulher e ao seu sogro.  Pelo documento, se vê que ele era casado com Joanna Dornelles, em face da Igreja, filha de Manoel Rodrigues Pimentel e neta de João Lostau, morto pelos tapuias depois de sair da prisão.
 
 Um dos trechos que gera confusão é a afirmação que aparece na dita petição: Por ser herdeiro de João Lostau e Luiz da Moita (é o que parece escrito) e ser casado com uma neta do mesmo João Lostau Navarro. Para alguns seria Luiza da Mota esposa de João Lostau, para outros poderia ser a esposa de Manoel Rodrigues Pimentel. Entretanto, essa última versão não prospera, pois, como vimos antes, a filha de João Lostau que casou com Manoel Rodrigues Pimentel era Maria Lostau Casa Maior. Como era uma cópia há a possibilidade de ter sido feita uma transcrição errada e no lugar de Luiz da Moita ser outro nome.
Outro documento importante apresentado por Hélio Galvão é um testamento de Cipriano Lopes Pimentel, datado de 19 de dezembro de 1729. Nele Cipriano Lopes declara que é filho do sargento-mor Francisco Lopes e de sua mulher Joanna Dornelles. Apresenta sua esposa Dona Tereza da Silva, filha de Filipe da Silva e Joana Salema. Na sequência nomeia como seus filhos, da sua dita mulher: Lázaro Lopes Galvão, Cipriano Lopes Galvão, Jorge Lopes da Silva, Arcângelo Lopes, Estevão Lopes, Manoel Lopes e Dona Luiza da Silva, casada com o sargento-mor Manoel Álvares Maciel. Esses Lopes Galvão encontramos, através dos registros da Igreja, espalhados por várias cidades do Rio Grande do Norte.
João Lostau, por sua importância, merece uma biografia mais extensa.
João Lostau . Luiz da Moita

Crime de lesa-patrimônio

João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor de Matemática da UFRN e membro do INRG
No começo aqui viviam somente os índios com suas crenças e seus deuses, guerreando entre si e comendo uns aos outros. Aí vieram os portugueses: alguns aventureiros, outros fugindo da intolerância da Igreja ou degredados pela inquisição. Em seguida os portugueses arrastaram à força, para cá, os índios das mais diversas nações africanas. As nossas riquezas trouxeram, ainda para cá, outros estrangeiros. A ocupação era traumática e difícil, por conta da dimensão do país e da disputa com os habitantes naturais. Muitos morreram. Os que foram sobrevivendo iam construindo a nossa nação da forma que podiam, sem muita ajuda da coroa portuguesa, mas muito pelo contrário, sendo espoliados de forma vil.
Durante todo esse tempo, muitas contendas e revoltas: a guerra contra os holandeses, a guerra dos palmares, a guerra dos bárbaros, a inconfidência mineira, a revolução de 1817, a confederação do equador e tantas outras pelo Brasil afora. Não foi fácil!
Mas que país temos hoje? Depois de tantos anos e tantas lutas que qualidade de vida temos? Como é a vida deste Brasil de hoje?
Os avanços tecnológicos e da ciência estão presente na vida dos brasileiros. Ande pelos mais distantes rincões deste país e avistarás no topo da casa mais miserável uma antena parabólica e na mão dos mais desprovidos dos seres um celular. E daí, isto é cidadania? Isto é qualidade de vida?
Nossos parlamentos ou nossos governos são ocupados, não por eleitos que se corromperam, mas por corruptos que se elegeram. A corrupção antecede a eleição. A chegada ao poder é precedida de enganações, compra de votos com dinheiro, com imagem, com propaganda enganosa e com apelos religiosos.
Para exemplificar, vi, no ano que passou, um candidato que na eleição anterior foi campeão de votos, e que na de 2010 dizia, despudoradamente, que antes os eleitores não o conheciam tão bem. Realmente, era um novato por aqui, que foi votado em quase todas as cidades, mas que muitos nunca tinham ouvido falar dele. Outro fato lamentável, e que não sensibiliza o cidadão é a eleição de suplentes de Senador e vice - qualquer coisa. Tem que mudar!
Há uma passividade que incomoda. Estamos inertes. As revoltas do passado não nos alcançam mais. O consumismo material, religioso e midiático, nos anestesia. Enquanto no exterior assistimos a revolta de muitas nações contra os seus mandatários que não querem largar o osso do poder, aqui vemos se perpetuarem na política, direta ou indiretamente, muitas famílias. É o poder que gera poder. Quem quer arriscar no novo? Que chance tem o novo de chegar ao poder, sem corromper?
Os poderes constituídos neste país agem sem prioridades magnas. Eles atuam sem nenhuma filosofia que vise o bem comum. São ações isoladas que se baseiam em forças não perceptíveis. Muita mídia e poucos resultados.
Nossa educação e nossa saúde são compostas de números que retratam coisas materiais. A dor e a ignorância nos maltratam diariamente, sem dó nem piedade. A lei de responsabilidade fiscal não tem impedido a construção de novas obras, mesmo existindo uma quantidade de outras inacabadas.
Enquanto amargamos situações deploráveis na segurança, na educação e na saúde, assistimos mais uma irresponsabilidade dos nossos governantes com o beneplácito dos brasileiros: A copa de 2014. Não estávamos preparados para sediá-la. Mas fomos disputar a chance de ser sede por pura vaidade ou incompetência administrativa. Vamos gastar rios de dinheiro, em detrimento do essencial para as nossas vidas. Muitas balelas são colocadas na defesa dessa realização. O Brasil, o Rio Grande do Norte ou Natal serão vistos e conhecidos pelo mundo todo. E daí? Se já não nos conhece é pura incompetência nossa ou deles.
Assim como muitos ficam ricos nas eleições, outros tantos vão ficar mais ricos com a realização da copa. A própria FIFA vem vender suas bugigangas por aqui.
O Centro Administrativo, o Machadinho e o Machadão foram construídos com muito sacrifício. Ao longo do tempo, muitas dívidas foram contraídas e algumas nem terminaram de pagar para construir e manter aqueles próprios. Quantas reformas foram feitas naquela região com recursos de empréstimos?
A destruição daqueles locais é um crime de lesa-patrimônio e deveria ser o centro de revolta da população. Mas o futebol é outro componente que nos anestesia. Vejam a loucura das torcidas nos estádios de futebol. Qual é o político ou fiscal da lei que vai enfrentar aquela turba enfurecida?
Sempre gostei de futebol. Quando menino jogava quase todos os dias. Além disso, assistia jogos levado por meu tio afim, Evilásio Rocha (no seu velório tinha uma bandeira do ABC sobre seu caixão, enquanto tocava o hino do clube). Algumas vezes subia em uma caixa d'água que tinha em um abrigo vizinho ao Estádio Juvenal Lamartine para ver os jogos. Mas, sou contra a realização da copa em 2014, aqui no nosso Estado, por que ela está sendo feita de forma incorreta e abusiva. Qualquer coisa que ela poderia nos trazer de benefícios, pode ser conseguida de uma forma mais criteriosa e decente.
Não precisamos de um novo Estádio. Precisamos, sim, de mais Hospitais, maternidades, escolas, aeroportos decentes, mais segurança, mais cuidados com todas as cidades de nosso Estado. Os números nas áreas mais importantes para a qualidade de vida são preocupantes. A Copa está nos desviando das questões fundamentais deste país. Os municípios brasileiros terão menos recursos com a realização da Copa. Se faltam recursos para as coisas básicas, com certeza faltarão mais ainda por conta da Copa. As contrapartidas, os empréstimos comprometerão mais ainda a qualidade dos serviços prestados pelos governos. As obras, como sabemos, demandarão muitos aditivos, e por conseqüência mais recursos.
Já estão articulando a reforma do Juvenal Lamartine. Novos recursos serão destinados para isso. Mais problemas no trânsito, mais contratos, mais aditivos e mais espertezas. A nossa cidade está com o futuro comprometido. As dívidas, que já são muitas, ficarão ainda maiores. Os políticos vão reclamar na época da eleição e depois quando se elegeram, mas não fazem nada agora.
Contra a Copa, a favor de Natal e do Rio Grande do Norte!

O repovoamento, após a saída dos holandeses


João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor de Matemática da UFRN e membro do INRG

Após a saída dos holandeses, teve inicio o repovoamento do Rio Grande do Norte. Com a morte ou a fuga de muitos para outras regiões, durante o período de dominação batava, as terras foram abandonadas. Para repovoar nossa província, a primeira providência foi convocar os antigos donos ou seus herdeiros para se apresentarem, como fica claro nos pedidos de sesmarias depois de 1654.

Para começar, vejamos um pequeno trecho da Sesmaria de nº 1 que consta do primeiro volume de Sesmarias do Rio Grande do Norte, editada pela Fundação Vingt-un. Advertimos que muitos desses documentos eram cópias e, como tal, alguns enganos podem ter ocorrido. Alguns desses documentos têm partes ilegíveis ou incompletas. Assim, alerto que posso também ter cometido alguns equívocos. Coloco aqui o que for possível e necessário para entender os ditos documentos.

Carta de data que faz o Capitão Antonio Vaz, em nome de sua Majestade que Deus Guarde, ao Capitão Francisco de Mendonça Elesdesma das terras do finado Capitão Simão Nunes Correia, uma em Potigi e outra no Mipibu. Diz o Capitão Francisco de Mendonça Eledesma que ele mora nesta Capitania com sua mulher e filhos onde está vivendo e porque ora é vindo a sua notícia, que se mandou publicar pelas Capitanias da Paraíba e Pernambuco que as pessoas que tivessem terras nesta dita Capitania do Rio Grande, onde são moradoras, as viessem povoar dentro de seis meses, e não o fazendo as daria por devolutas e desaproveitadas e, por que o tempo é passado, que Vossa Mercê por a ele para tratar de povoar algumas e como, por falecimento do Capitão Simão Nunes Correa, lhe ficou uma sorte de terra no Potigi e outra em Mipibu, e até o presente lhe não tem acudido herdeiros nem procurador a povoá-las pede a Vossa Mercê seja servido dar-lhe as ditas terras em nome de Sua Majestade por devolutas e desaproveitada para nelas viver e trazer seus gados e para ter suas roças.

A carta foi passada, em 12 de Agosto de 1659, por Antonio Vaz Gondim, Capitão mor da Fortaleza dos Santos Reis Magos, Capitania do Rio Grande, escrita por Domingos Cardozo de Moura. Foi registrada por Domingos Vaz Velho, escrivão da Câmara da Cidade.
Do documento de nº 2, do referido livro, extraio o seguinte trecho: Provisão do Governador Capitão Geral deste Estado do Brasil, Francisco Barreto, por que dá ao Capitão Dionizio Vieira de Mello por devolutas as terras de Domingos Martins, Vilão das Botas, por alcunha, sitas na Ribeira do Cunhaú, as quais lhe dou em nome de Sua Majestade.

Francisco Barreto, do Conselho de Guerra de Sua Majestade, Governador e Capitão Geral do Estado do Brasil, etc. Faço saber às que esta Carta de Doação e Sesmaria virem que o Capitão Dionísio Vieira de Mello me enviou a representação cujo teor é o seguinte: Diz o Capitão Dionísio Vieira de Mello, que na Capitania do Rio Grande estão umas terras desaproveitadas que foram de Domingos Martins, o Vilão das Botas, por alcunha, as quais terras estão sitas na Ribeira do Cunhaú, e pertencem a Coroa Real por que foram possuídas pelo dito Domingos Martins que sendo morto no tempo dos flamengos, por não deixar herdeiros e estarem vagas, sem dono certo, as ditas terras ficam pertencentes a Coroa Real, e porque o suplicante as quer aproveitar e fazer nelas canaviais e meter currais de gados e, pelo tempo adiante, engenho dando o tempo para isso lugar de se aproveitarem por qualquer (ilegível) que seja, é em aumento das Rendas Reais e em bem público da Capitania do Rio Grande pelo qual pede a Vossa Senhoria lhe faça mercê de lhe dar em nome de Sua Majestade todas as terras do dito defunto assim e da maneira que ele as possuiu em sua vida e assim dar-lhe as cabeceiras das terras do Engenho Cunhaú uma légua de terra em quadra correndo pela várzea abaixo na mesma conformidade pela banda de (ilegível) e Ribeira do Cururimatahy, ficando a várzea em meio...

O terceiro registro é um pedido de terra, ao Capitão Mor Antonio Vaz, do Padre Leonardo Tavares de Mello, vigário de Nossa Senhora da Apresentação, Matriz desta Capitania, que alegou que não houve pedido de herdeiros de um sítio de terras onde morou Jorge Gosman (Joris Garstman), flamengo, que ficou por morte de Diogo Dias, que está pegado a Ribeira do Potigy e ele, suplicante, necessita dela para a povoar com seu gado e criações,e mantimentos. Essa data é de 1660. Pelo título era em Cunhaú, data de Bom Sucesso.

No livro de registros foi inserida uma carta com a numeração 3(a). É uma data para o norte-rio-grandense Manoel de Abreu Soares que participou, posteriormente, da Guerra dos Bárbaros, com idade bem avançada. Ele é ascendente de muitas famílias, aqui no Rio Grande do Norte, principalmente, através do seu filho Pascoal Gomes de Lima. Em um dos trechos da data encontramos o seguinte: O Capitão Manoel de Abreu Soares, morador nesta Capitania do Rio Grande, ele tem seu gado, e família para ajudar a povoar a dita Capitania e lhe faltam terras para o poder fazer, e porque tem servido a Majestade, há vinte seis anos contínuos, nestas guerras de que ele até agora não tem recebido mercê alguma, e porque na Ribeira de Goiana estão umas terras que ficaram por falecimento de Francisco Teixeira, morador que foi nesta Capitania, de que não ficaram herdeiros, as quais terras partem pelo rio Jacu acima ficando da banda do norte o rio .....e com os mais...que ali tem terras a bem lhe faça mercê em nome de sua Majestade dar-lhe as ditas terras de sesmaria assim e da maneira que as possuiu  o dito defunto Francisco Teixeira. Essa data é de 1660, e foi registrada pelo Escrivão da Fazenda Real, Francisco de Oliveira Banhos, em 1664.

A quarta data, do ano de 1660, é, também, para o Padre Leonardo Tavares de Mello. Essas terras, na várzea de Mipibu, pertenceram a Luiz da Moita, morto pelos tapuias.

É importante salientar que a ocupação dessas terras não foi de forma tranquila, pois houve resistência dos índios que perdurou por muitos anos, culminando na chamada Guerra dos Bárbaros, já citada acima.

Luiz da Moita, morto pelo tapuia

sábado, 23 de abril de 2011

Corsários ingleses na Ilha de Manoel Gonçalves, 1818


João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor de Matemática da UFRN e membro do INRG
Manoel Rodrigues de Melo escreveu na Revista Bando um artigo, intitulado O Saque da Ilha de Manoel Gonçalves, baseado no livro Documentos do Arquivo – Presidentes de Províncias (1818) - editado pela Secretaria de Interior e Justiça de Pernambuco no ano de 1943. Quando estive em Recife, recentemente, fiz imagens de tais documentos, entre eles as duas correspondências emitidas da Ilha de Manoel Gonçalves que transcrevo aqui.
A primeira é uma carta do Comandante do Degredo da Ilha de Manoel Gonçalves, Alexandre José Pereira, para o Capitão Manoel Varella Barca, carta esta copiada pelo Padre Manoel Pinto de Castro que servia de Secretário do Governo da Província do Rio Grande.
Ilustríssimo Senhor Capitão Manoel Varella Barca//Ilha de Manoel Gonçalves, 13 de Dezembro de 1818//.
Dou parte a Vossa Mercê que ontem, treze de Dezembro do corrente, às onze horas do dia, deu fundo fora da Barra do Amargozo um Corsário de ladrões estrangeiros armado em guerra, com muito armamento, e entraram nos seus lanchões de tarde dentro do Rio, e roubaram cinco Sumacas, e conduziram tudo para seu bordo, e ainda se acha ancorado no mesmo lugar, e penso ser com intenção de virem saquear, e roubar a terra; aqui se acham alguns homens, mas sem armas, e creio que tudo se acabará, aqui já se acham pelo que diz seis feridos com tiros que fizeram para terra, e a mais da gente desta praia vejo esmorecidos, e eu pior que nenhum, pois me acho doente para morrer, Vossa Mercê mandará o que for servido// Deus Guarde a Vossa Mercê por muitos anos// De Vossa Mercê atento súdito// Alexandre José Pereira// Comandante deste Degredo Ilha de Manoel Gonçalves.
Entre as cartas do nosso Governador para o da Província de Pernambuco, Luis do Rego Barreto, há uma, datada de 31 de Dezembro de 1818, onde ele escreve: Entre as diferentes partes que tive sobre este objeto, a que me parece mais correta, e circunstanciada, foi a de um morador da Ilha de Manoel Gonçalves correspondente de Bento Joze da Costa, que por isso a ofereço na Cópia N1 para com ela informar a Vossa Excelência do que se passou no Assu.
N1. Ilustríssimo Senhor Governador Joze Ignacio Borges.
Participo a Vossa Senhoria, que no dia 12 do corrente, pelas onze horas da manhã, apareceu, três léguas a Leste desta Ilha à popa, uma Escuna com um sinal, ou bandeira estranha no mastro de proa e veio fundiar defronte da Barra do Amargozo a barlavento da Sumaca Santa Rita Galatéa de Pernambuco, que se achava fora acabando de carregar de peixe de vários negociantes destas praias, e logo que fundiou, mandou o Comandante desta a bordo uma jangada com três homens saber o que queriam, disseram, que refresco de aguada, e mantimento, que aquela embarcação era Inglesa, e de guerra.
 Os ditos jangadeiros viram muito armamento, gente de toda a nação; imediatamente que largou de bordo a dita jangada, largaram eles três escaleres, ficando um a bordo da dita Sumaca Santa Ritta, e dois entraram na Barra do Amargozo, e achando-se ancoradas naquele Rio, com distancia uma das outras, quatro embarcações, a saber, o Penha, e Victoria de Pernambuco, Conceição, e Almas da Paraíba, e Flor do Mar de Goiana, e atracando o primeiro escaler a bordo do Penha, armados tomaram conta da embarcação, e o segundo seguiu de rio acima, e atracando no último vazo também  armados, principiaram a roubar dinheiro, roupa, maçame, e escravos, e da mesma forma continuaram nas mais embarcações até chegarem de regresso na Penha, e incorporando-se  com os que estavam já de posse da Sumaca, meteram os oficiais, e a Campanha no Castelo, e continuaram o saque, estando em terras no Pontal do Amargozo os passageiros que tinham vindo no Penha, e moradores; entraram-lhe a fazer fogo de bordo, ferindo de bala quatro dos moradores, a fim de melhor conduzirem o saque nos escaleres, e na lancha do Victoria, que levaram com seis escravos do Penha e Victoria, três homens forros, tudo feito na tarde  que ancorou.
Imediatamente que soube nesta Ilha fui com dez homens daqui por terra mais de uma légua, tomando em caminho seis do Lagamar, e chegando já de noite, tinham saído.
No dia 14 vimos por um óculo de terra estarem saqueando o Santa Ritta, e no dia 15 indo eu, e os mestres das Sumacas Penha e Victoria, e os passageiros a bordo do Penha, ver o estrago que teriam feito, e chegando, tendo deixado os moradores desta Ilha prontos de pólvora, e bala com as poucas armas de fogo que há de guarda a Ilha, viu largar de bordo da dita Escuna, os três Escaleres, e providenciando-se esperá-los na Barra do Amargozo, aqui não vieram, e foram a boca do Rio, distante desta duas léguas saquear seis casas de palha que tem, porém pouco ou nada acharam.
No dia 16 pelas quatro horas da tarde, estando parte dos habitantes desta, e de Guamaré juntos de guarnição à Ilha, viram entrar na Barra do Amargozo o escaler grande carregado de gente, e tornando a abordar as Embarcações á conduzir o resto do que ainda lhe faltava, e pegando a lancha da Sumaca Conceição e Alma saíram.
No dia 17 pelas duas horas da tarde mandaram para terra a dita lancha pelos marinheiros forros que lá tinha das Sumacas, e um passageiro carregador de peixe no Santa Ritta, e o Contramestre da mesma, e mandaram dizer ao Comandante que lhes mandasse um Prático para os botar fora da Ponta Gorda, que queria ir pelo canal, e se o não fizesse até as quatro horas da manhã, que havia mandar atacar esta Ilha, e tocar fogo nas casas, e nas Sumacas, porém destas ameaças caso nenhum se fez.
No dia 18 de manhã se viu velejar a Escuna para barlavento. Contam os marinheiros que lhes ouviram dizer que iam para America Espanhola, e que ainda haverão de andar três meses fora, e que iam esperar os navios que haviam saído de Lisboa para o Brasil, e Índia, e que a gente que traz são noventas e oito pessoas, e que já tinham feito três presas, que as tinham mandado para America Inglesa de onde tinham saído cento e tantas velas. A fortificação que traz são seis peças por banda de 12, e uma na proa de rodízio de 18; este malvados vão de Costa acima esperar as embarcações que navegam na costa do Sertão até o Maranhão, e Pará.
Eu tenho aviso de Pernambuco do coronel Bento Joze da Costa, que nas águas próximas da lua nova despedia para esta a Sumaca Xica, e em Janeiro o Brigue São Manoel
Deus Guarde a Vossa Senhoria, Ilha de Manoel Gonçalves, 18 de Dezembro de 1818. João Martins Ferreira.

A Ilha de Macau e as outras Ilhas, há duzentos anos


João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor de Matemática da UFRN e membro do INRG
Depois de descrever a Ilha de Manoel Gonçalves, o procurador inventariante, José Álvares Lessa, discorreu mais sobre outras Ilhas que faziam parte das terras de Domingos Affonso Ferreira e do seu genro e sócio Bento José da Costa, no Sertão do Assú. Transcrevo essas informações para maior conhecimento da geografia daquela região. Elas foram tiradas do inventário de Domingos Affonso Ferreira, existente no Instituto Histórico Pernambucano, e já digitalizado.
Terras das duas Ilhas anexas denominadas = de Lagamar, e Coroa Grande = com meia légua de largura de Norte a Sul, e ambas com uma légua de comprimento de Leste a Oeste; ou do nascente e Pontal de Boa Vista ou Cambôa dos Barcos ao Poente até o da Barra do Rio Amargoso; ao longo, e paralelo da Costa do Mar de que são lavadas pelo lado do Norte; com sítios de currais de peixes na Costa do Mar; água doce dentro, pasto para gados; dá madeira de Mangue; e rende dezesseis mil reis; vistas e avaliadas pelos avaliadores por preço e quantia de seiscentos mil réis.
Terra da Ilha denominada = de Balthazar = com um quarto de légua de largura de Noroeste ao Sueste do Rio Chamado de Manoel Gonçalves até o Rio do Arrombado com pasto para gado, e madeira de mangue, sem água doce, vista e avaliada pelos avaliadores por preço e quantia de dez mil réis.
Terra da Ilha denominada = de Janduhin = entre o Rio Arrombado, e o Rio da Conceição; de figura circular com meia légua de diâmetro; só tem pasto para gado e madeira de mangue; vista e avaliada pelos avaliadores por preço e quantia de dez mil réis.
Terras de toda a Ilha denominada = da Madeira = ao nascente da Ilha de Manoel Gonçalves com uma légua de testada e cumprimento de Leste a Oeste, ou do nascente e donde os Marcos do Morro do Presídio ao Poente até o Pontal da Barra Velha ao longo e paralelo da Costa do Mar, de que é lavada pelo lado do Norte, e daí para o Sul com duas de fundo até testadas da terra do Sítio Conceição, com pesqueiras de currais de peixe na Costa, água doce, pasto para o gado e madeiras de mangue; visto e avaliado pelos avaliadores por quatrocentos mil réis.
 Terras das Ilhas anexas denominadas = de Tubarão e Tubarãozinho = ambas ao nascente da do Madeira, com légua e meia de testada, ou comprimento de Leste a Oeste; ou do Nascente e do lugar do Minhôto ou Mangue Seco, ao Rio Diogo Lopes ao Oeste ou Poente: ao longo e paralelo da Costa do Mar de que são lavadas pelo lado do Norte; e daí para o Sul com muita pouca largura ou fundo; cuja sobredita extensão é variável pelas entradas e saídas do mar, e movimentos das areias impelidas dos ventos, por isto com terreno montanhoso e escavado; tem dois sítios de currais de peixe na Costa do Mar; vende anualmente seis mil réis (ilegível); sem água doce; vista e avaliada por cinqüenta mil réis;
Terra da Ilha denominada = de Fernando = dentro ou no meio da Barra do Rio de Guamaré = de figura circular com cinqüenta braças de diâmetro, escavada, e sem água doce; vista e avaliada por dez mil réis.
Terra denominada Pontal de Guamaré = ao nascente do rio do mesmo nome de Guamaré: com três léguas de comprimento ou testada ao longo, e paralela da Costa do Mar de que é lavada pelo lado do Norte desde a barra do dito Rio de Guamaré, e Poente para o Leste, ou Nascente até os Buracos: e com um quarto de légua de fundo do Norte e Costa do Mar para o Sul até o Rio chamado Cabello: e com pesqueiras, água doce e pasto do gado; vista e avaliada por trezentos mil réis.
Terras de toda Ilha denominada= de Pisa Sal = dentro do Rio Guamaré; e de figura circular com meia légua de diâmetro: com pesqueiras de currais de peixe, e rede; pasto para gado; e madeira de mangue; sem água doce; vista e avaliada por trinta mil réis.
Terra de toda Ilha denominada = de Santa Anna = que compreende o lugar da mesma ilha, chamado Boca do Rio dos Cavalos, com três léguas de comprimento do Norte, e Costa do mar do dito lugar de Boca do Rio para o Sul até a união dos dois Rios = Assu e Rio dos Cavalos que chamam Cambôa dos Barcos das quatro bocas: ficando até o Rio Assu ao Nascente, e outro ao Poente: com uma légua de fundo, ou largura; tem pesqueiras em um, e outro Rio dos Lados; bons pastos para gado, e madeira de mangue; sem água doce, vista e avaliada por cento e cinqüenta mil reis.
Terra da ilha denominada = de Quatro Bocas= ao Sul da sobredita de Santa Anna pelo Rio do Assu acima com meia légua de comprimento e testada ao longo e paralelo do dito Rio de Norte, e lugar das Quatro Bocas para o Sul até divisa da Ilha do Queimado; e com uma légua de fundo, ou largura de um a outro Rio dos Lados de Nascente a Poente: com pesqueira em ambos os Rios, madeiras de mangue, sem água doce, e pastos; vista e avaliada por trinta mil réis.
Ilha denominada = do Macáo = com uma légua de comprimento de Norte e Cambôa dos Barcos a Leste e Nascente até a Cambôa do Amargozinho, e com largura de três quartos de légua; tem ruins salinas, bons pastos para gado, porém não tem água doce; vista e avaliado por cinqüenta mil réis
Terra dos Sítios chamados Barreiras, Armazéns, Cambôa do Sal, Trapixe, os quais nomes são de diferentes lugares, e salinas na mesma dita propriedade com três léguas de comprimento pelo rio Assu acima pela parte do Nascente desde o dito lugar do Trapixe, de Norte ao Sul até o lugar das Barreiras com largura de uma légua do Poente e Borda do dito Rio Assu ao Nascente, ou Leste até Aroeiras, e Amargozinho; tem duas salinas no lugar denominado Arenoso; e outra na Cambôa do Sal. Pesqueira no Rio Assu; pastos para gados, madeira de mangue, sem água doce; vista e avaliada por cento e cinqüenta mil réis.
Depois dessas informações, José Álvares Lessa passou a descrever as Fazendas Amargoso, das Entradas (Morro Banco e Redonda) e Cacimbas do Vianna.
Atenção: Hoje farei palestra sobre Genealogia no Solar Bela Vista, às 19:30

domingo, 10 de abril de 2011

A Ilha de Manoel Gonçalves, há duzentos anos atrás

A Ilha de Manoel Gonçalves, há duzentos anos atrás
João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor de Matemática da UFRN e membro do INRG
Em 1803, em Recife, faleceu Dona Maria Theodora Moreira de Carvalho, avó de Maria Theodora, personagem  da Revolução de 1817, e no ano seguinte seu esposo, Domingos Affonso Ferreira, casal que em 1797 comprou, em sociedade com o genro, Coronel Bento José da Costa, pai da noiva da revolução, vastas terras no sertão do Assú. Foi inventariante o próprio Bento José da Costa. Por isso, Bento solicitou, somente em 1810, avaliação dos bens como segue:
Diz Bento José da Costa por si, e como inventariante dos bens do casal dos falecidos Domingos Affonso Ferreira e Dona Maria Theodora Moreira de Carvalho, e co-herdeiro do mesmo, que o sobredito casal, de sociedade com o suplicante, tem no Sertão do Assu, Distrito da Vila Nova da Princesa, três Fazendas situadas com gados vacuns, cavalares, escravos, e mais acessórios, correspondentes as mesmas denominadas Entradas, Amargoso, e Cacimbas do Vianna, assim como ilhas, salinas, pesqueiras, e mais terrenos anexos que foram apontadas pelo Procurador bastante do suplicante, cujas propriedades as houve por compra feita a Francisca Rosa da Fonseca, e por que o suplicante quer avaliar estes bens para concluir o inventário, devem ser todas as Fazendas, terras, tudo o mais correspondente a dita compra avaliado junto na forma da compra, pelos avaliadores daquele território, onde tudo se acha situado, requer o suplicante a Vossa Senhoria mande passar carta precatória para as justiças de dita Vila para em cumprimento fazer avaliar tudo, e remeter a avaliação a este Juízo.
O Procurador nomeado por Bento, José Álvares Lessa, solicitou que, por conta da distancia e outros inconvenientes, a avaliação fosse feita na Ilha de Manoel Gonçalves, onde ele residia. Foram nomeados para avaliadores o Ajudante José Caetano da Costa e o Alferes Antonio Caetano Monteiro. Segue o termo de juramento de José Álvares Lessa.
Aos vinte e cinco dias do mês de Agosto de mil oitocentos e dez anos, neste lugar da Ilha, denominada de Manoel Gonçalves, termo da Vila Nova da Princesa da Capitania do Rio Grande, da Comarca da Paraíba do Norte, em casa de residência do dito Procurador para onde foi vindo o Juiz de Órfãos, o Alferes Felipe Manoel da Cunha, comigo escrivão do seu cargo, adiante nomeado, e os avaliadores nomeados para efeito de se avaliarem todos os bens conteúdos na carta presente retro: e aí estava presente o Comandante José Álvares Lessa, procurador bastante do Coronel Bento José da Costa, àquele deferiu, o dito juiz, o juramento dos Santos Evangelhos em um livro deles na forma do estilo, e por ele lhe encarregou que com boa consciência  declarasse os bens conteúdos no despacho retro, e todos os mais que neste Distrito, e termo houvesse pertencente ao casal do falecido Domingos Affonso Ferreira de sociedade com seu genro Bento José da Costa da predita compra: o qual juramento sendo por ele procurador recebido assim o prometeu fazer, e cumprir debaixo do mesmo juramento com a verdade que costuma; e sendo lhe lido este seu juramento o assinou com o dito juiz; e eu Manoel de Mello Montenegro Pessoa, escrivão de órfãos  o escrevi = Cunha= José Álvares Lessa.
Na seqüência, o Procurador, e Comandante da Ilha de Manoel Gonçalves, administrador das propriedades do casal falecido, no Sertão do Assú, José Álvares Lessa, descreve todos os bens com os valores vistos e avaliados pelos sobreditos avaliadores. Entre os bens descritos listou os seguintes: machados, enxadas, foices, enxós, trado de abrir pipas, verrumas, serrotes, serras, ferros de calafete, caldeiras de ferros, tinas, balanças, carros com suas cangas e várias barcaças e canoas. Embora o documento seja riquíssimo em informações sobre todas as ilhas, rios, pesqueiras, salinas e fazendas, nos interessa para este artigo, e neste momento, a descrição da Ilha de Manoel Gonçalves, pois, sempre alguém me pergunta que tamanho ela tinha. Assim, logo após a descrição dos bens existentes na Ilha, segue, no título de terras, em primeiro lugar, a Ilha de Manoel Gonçalves, de onde se administrava todo o restante, e posteriormente as outras propriedades assim denominadas: Ilhas do Lagamar e Coroa Grande; Ilha do Balthasar; Ilha do Janduhín; Ilha do Madeira; Ilha do Tubarão e Tubarãozinho; Ilha de Fernando; Pontal de Guamaré; Ilha do Pisa Sal; Ilha de Santa Anna; Ilha das Quatro Bocas; Ilha de Macáo; Salinas dos Sítios das Barreiras, Armazéns, Cambôa do Sal e Trapixe, em uma única propriedade; e as Fazendas Entradas, do Amargoso, e Cacimbas do Vianna
Declarou o dito Procurador Inventariante mais do dito casal, neste termo,  na conformidade da dita compra e sociedade, a propriedade mencionada da terra toda da Ilha denominada = de Manoel Gonçalves = com trezentas braças de largura de Norte a Sul; um quarto de légua de comprimento de Leste a Oeste, ou de Nascente e do Pontal do Rio Arrombado ao Poente até o da Barra do Rio do mesmo nome de Manoel Gonçalves ao longo, e paralelo da Costa do Mar, de que é lavada pelo lado Norte: com água doce dentro, pesqueiras de currais de peixe na Costa do Mar; vinte pés de coqueiro, casa de telha e taipa, com cômodo da assistência do dito Administrador, e Procurador Inventariante, armazém de peixe seco, senzala dos pretos escravos, oratório de se pedir missa com três ornamentos roxo, branco, e encarnado; cálice, e patena de prata; castiçais, e ramalhetes prateados no altar: tudo visto e avaliado pelos avaliadores por preço e quantia de um conto e seiscentos mil réis, com que sai 1:600$000.
Ainda no título de escravos, havia um total de 18, sendo 15 pretos de Angola, um preto crioulo, uma preta de Angola, Maria, de 30 anos e um escravinho Luiz, de três anos, filho da dita Maria. As idades dos adultos variavam de 14 anos até 70 e tantos anos; e os preços de cada um, de trinta mil réis (o mais velho e o escravinho) até cento e cinqüenta mil réis (Maria).
Pela falta de outros prédios, na dita Ilha, suspeito que não moravam outras pessoas naquela data, exceto o Administrador, e os escravos. Acho, também, que algumas pessoas com sobrenome Lessa que depois surgiram na redondeza deviam ser parentas do dito Procurador José Álvares Lessa, inclusive a esposa do Capitão João Martins Ferreira, que administrou, posteriormente, as propriedades de Bento, Dona Josefa Clara Lessa.

Prof. João Abner e Thomaz Bengala

Prof. João Abner e Thomaz Bengala
João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor de Matemática da UFRN e membro do INRG

Durante o ano de 2010, tive várias conversas com o Professor João Abner, o homem das águas, dos recursos hídricos e da transposição do Rio São Francisco, que versaram, principalmente, sobre Genealogia. Ele vinha buscando, incessantemente, informações sobre seu ascendente Thomaz Pereira de Araújo, mais conhecido por Thomaz Bengala. Para Abner era um mistério não descobrir quem eram os pais de Thomaz. Achei que seria fácil encontrar e, por isso, vasculhei os livros de Olavo de Medeiros, Sebastião Rocha, Pery Lamartine, José Augusto, Dom Adelino, além de alguns registros da Igreja.

João Abner quer descobrir de onde veio Thomaz Pereira de Araujo, Thomas Bengala, como ele fala. Segundo Abner, Thomaz era casado com Rita Regina de Vasconcelos, pais de Bemvenuto Pereira de Araújo (bisavô de Abner) e Vivaldo Pereira de Araújo (pai de Vivaldo que era pai de Cortez Pereira).

Dos descendentes de Thomaz de Araújo Pereira, o Patriarca do Seridó, havia um Thomaz Pereira de Araújo, famoso, que era padre, e nasceu em 14 de janeiro de 1809, e foi batizado em 16 do mesmo mês e ano. Eram seus pais Antonio Pereira de Araújo, filho de João Damasceno Pereira e Maria dos Santos Medeiros, e de Maria José de Medeiros, filha de Thomaz de Araújo Pereira (2º) e Thereza de Jesus. João Damasceno e Thomaz, irmãos, eram filhos de Thomaz de Araújo Pereira (1º), português da Vila de Viana e de Maria da Conceição de Mendonça, da Paraíba. Assim, o padre era duplamente bisneto do Patriarca, além de ser neto de Rodrigo Afonso de Medeiros Mattos, outro português, da Ilha de São Miguel.

No livro de Bianor Medeiros, Paróquia de Acari, vamos encontrar uma escritura de perfilhação que fez o Vigário Thomaz Pereira de Araújo, datada de 1869, onde ele declara, que por fragilidade humana, havia tido seis filhos em mulheres solteiras. No livro constam os nomes das ditas filhas.

Os descendentes do Patriarca se espalharam por várias localidades do Rio Grande do Norte e adjacências. Aqui em São Gonçalo, encontramos o filho José de Araújo Pereira que era casado com Elena Barbosa de Albuquerque, filha de Hipólito de Sá Bezerra, também da Vila de Viana, e Joanna Bezerra de Albuquerque. Um dos filhos do casal se chamava Thomaz e nasceu em 1771.

Lá em Macau, vamos encontrar um Thomaz de Araújo Pereira. Diz um registro de batismo: Sebastião, filho legítimo de Thomaz de Araújo Pereira e Joanna Maria do Sacramento, naturais, ele do Seridó, ela desta, e nela moradores, nasceu aos vinte e um de janeiro de mil oitocentos e trinta e sete, e foi batizado com os Santos Óleos na Povoação de Macau, desta Freguesia, aos quatro de abril do dito ano, pelo Reverendo Frei José de Santo Alberto, de minha licença; e foram padrinhos José Martins Ferreira e Josefina Maria Ferreira, casados. Do que para constar mandei fazer este assento, e por verdade assino. O Vigário João Theotonio de Sousa e Silva. Esses padrinhos eram meus trisavós.

Nos livros de registros de Santana do Mattos encontramos o casamento de uma filha de Berardo ou Beraldo de Araújo Pereira, um descendente do Patriarca.

Às onze horas e três quartos da noite do dia vinte e oito de fevereiro de mil oitocentos e setenta e sete, no Sítio Remédio, desta freguesia, de licença do respectivo vigário da freguesia padre Ladislau Adolfo Salles e Silva, confessando primeiro o nubente, deixando de confessar a nubente, pela hora, e examinando ambos em doutrina católica, e em todos os mais servatis servandis, uni em matrimônio, aos contraentes  Pedro José de Sousa e Marianna Benigna  de Araujo, ele filho de João Avelino de Sousa, falecido, e Beatriz Maria da Conceição, ela filha de Berardo de Araujo Pereira e Thereza Maria de Jesus, deixando de dar as bênçãos nupciais, por me ter sido proibido pelo respectivo  pároco, em razão de ser tempo de quaresma, quando são elas proibidas, sendo testemunhas do casamento Manoel Thomas Pinheiro e Joaquim Thomas Pinheiro, ambos casados, e desta freguesia. Assim mais, já sendo eu pároco desta Freguesia, às onze horas da manhã do dia treze de novembro do ano supra mencionado, no Sítio Conceição de dona Bernarda, desta Freguesia, dei as bênçãos nupciais aos nubentes supra mencionados, em tudo servatis servandis; sendo testemunhas as mesmas que tinham sido do casamento; do que tudo para constar fiz este  assento, e para firmeza nele me assino. O vigário Antonio Germano Barbalho Bezerra.

É nos livros de Santana do Mattos que encontramos registros de casamentos de dois filhos de Thomaz Pereira de Araújo, o Thomaz Bengala.

Às sete horas da noite do dia vinte e três de novembro de mil oitocentos e setenta e cinco, no sítio Desterro, da Freguesia de Acari, uni em matrimônio e dei logo as bênçãos nupciais, em tudo servatis servandis, juxta tridentinum, aos contraentes Manoel Jacintho da Silveira Borges, meu paroquiano, e Maria Regina de Miranda, da Freguesia de Acari, ele filho legítimo de Jacintho José Thomas da Silva e Anna Clara da Silveira, já falecidos, e ela filha legitima de Tomaz de Araújo Pereira, já falecido e Rita Regina de Miranda, presentes por testemunhas, Manoel de Albuquerque Galvão e Joventino da Silveira Borges, ambos casados, e da Freguesia de Acari: de que fiz este assento, e assino. O Vigário Antonio Germano Barbalho Bezerra.

Aos vinte sete de novembro de mil oitocentos e oitenta e três no Sítio Conceição, depois de feitas as denunciações do estilo, confessados e examinados em Doutrina Cristã, em minha presença e das testemunhas Manoel da Silveira Borges, e Benvenuto Pereira de Araújo, se receberam em matrimônio os contraentes Vivaldo Pereira de Araújo, e Maria Quitéria da Silveira, ele, filho de Thomaz Pereira de Araújo, e Rita Regina de Albuquerque, e ela, filha  de Manoel da Silveira Borges, e Maria Quitéria Barbalho Bezerra, o nubente é natural da Freguesia de Santa Rita, e residente em Acari, a nubente natural e moradora nesta. E logo lhes dei as Bênçãos na forma do Ritual Romano. E para constar fiz este que assino. O vigário José Cabral de Vasconcelos Castro.

Manoel da Silveira Borges quando enviuvou de Maria Genérica, filha de Luiz da Rocha Pitta, casou com Maria Quitéria. No registro não há o nome dos pais dela. Observamos que Ritta Regina aparece com sobrenomes diferentes nos dois registros.

Agora, neste dia 15 de janeiro de 2015, acrescento a este artigo, o segundo casamento de Ritta Regina:Aos trinta de setembro de mil oitocentos e sessenta e nove, pelas sete horas da tarde, no Sítio Cascavel, desta Freguesia de Acari, depois de obtida as necessárias  dispensas de parentesco de afinidade, proclamas e hora, uni em matrimônio os contraentes Manoel Pires de Albuquerque Galvão e Rita Regina da Câmara, viúvos, ele desta Freguesia e ela da Freguesia de Sana Rita da Cachoeira, servatis servandis, sem impedimento algum, em presença das testemunhas Antonio Pires de Albuquerque Galvão e Sérvulo Pires de Maria Galvão, que comigo assinaram o assento, pelo qual mandei fazer este assento que assino. O Vigário Thomaz Pereira de Araújo.

Notas avulsas de Genealogia (5)

Notas avulsas de Genealogia (5)
João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor de Matemática da  UFRN e membro  do INRG
Em um dos nossos artigos falamos sobre Deus Dará e os Pitta do Rio Grande do Norte. Agora, encontramos mais uma informação obtida das notas do Major Salvador Drumond. Escreveu ele: assento de batismo de uma filha de um dos maiores inimigos que João Fernandes Vieira teve em Pernambuco.
Em 5 de Janeiro de 1659, batizei no Colégio e pus os Santos Óleos a Catharina, filha do Desembargador Simão Alves de La Penha Deus Dará, Cavaleiro Professo da Ordem de Cristo, Provedor da Fazenda Real, e Juiz dos Cavaleiros; e de sua mulher D. Leonarda de Azevedo. Foram padrinhos seus filhos Manoel Alves de La Penha e Dona Aldonsa.
Lembramos que naquele artigo, aqui publicado, dissemos que Simão, a esposa Leonarda e os filhos morreram em um naufrágio quando viajavam para Portugal. Os padrinhos de Catharina, seus irmãos, tinham os nomes dos avós, pais de Simão. Outro detalhe é que o Major Salvador Drumond descendia de João Fernandes Vieira e que o velho Manoel Álvares, pai de Simão foi um dos apoiadores da Restauração Pernambucana, e foi de lá que herdou o nome Deus Dará.
Em outro artigo transcrevemos para cá, das notas do Major Drumond, o casamento de José Porrate de Moraes Castro e Margarida da Rocha. Agora, informamos, das mesmas notas, o óbito de José Porrate.
Aos 12 de Dezembro de 1718, faleceu de sua vida presente José Porrate de Moraes Castro, Capitão de Infantaria do Terço Paulista, e casado nesta Freguesia, foi sepultado nesta Matriz, em hábito de Nossa Senhora do Carmo, e não fez testamento por morrer quase repentinamente, e recebeu os Sacramentos de Confissão somente; do que fiz este assento em que me assinei. Antonio de Andrade Araújo. Coadjutor.
Outro registro das notas do Major Drumond é o óbito de Agostinho Cesar de Andrade que foi Capitão mor de nossa Província. Está lá: hoje, 16 de Setembro de 1708 anos, faleceu da vida presente o Capitão Agostinho Cesar de Andrade, de idade de 86 anos, pouco mais ou menos, natural da Ilha da Madeira, e morador nesta Freguesia, fez testamento, e seus testamenteiros o Capitão Jerônimo Cesar de Mello, seu filho, e o Sargento mor Pedro Cavalcante, seu genro, e o Reverendo João de Abreu Barreto, seu filho; faleceu com todos os Sacramentos de penitencia, Eucaristia e Unção, foi sepultado nesta Igreja Matriz; e para constar fiz este assento. O Cura Manoel Rodrigues Neto.
D. Laura Cadena, casada com o Capitão mor Agostinho Cesar de Andrade, faleceu no dia 3 de Setembro de 1701, com sessenta e cinco anos de idade; com o sacramento de penitencia, e não fez testamento. Foi sepultada na matriz de Itamaracá. O Cura Manoel Rodrigues Neto.
Lembramos que Agostinho Cesar de Andrade era da família de Maria Cesar, esposa de João Fernandes Vieira, pois ela era filha de Francisco Berenguer de Andrade.
Noutro artigo falamos sobre os Guedes Alcoforado, família presente no Rio Grande do Norte. Por isso, transcrevemos o óbito de Felipe Guedes Alcoforado, das notas de Drumond: aos 25 dias do mês de Outubro de 1689, faleceu da vida presente Felipe Guedes Alcoforado com todos os sacramentos necessários, e fez testamento solene, aprovado, em que deixou por legado de sua alma 700 missas ordinárias, e três de Rainha Santa, dois ofícios, solenemente cantados; deixou mais, de esmola, mil cruzados a uma mulata donzela forra, sua filha, 100$000 a um mulato forro seu filho, e 100$000, por obra pia, a seu irmão, o alferes Affonso Guedes Alcoforado. Advirto que o mulato se chama Manoel, e a mulata Laura. O dito Felipe Guedes era freguês desta Freguesia, morador dentro da Ilha de Itamaracá, natural deste Bispado, casado com D. Anna de Abreu, de idade de 70 e tantos anos, pouco mais ou menos, e foi sepultado em sua capela de invocação de São João Baptista, e no mesmo dia se disseram missas de corpo presente, e um ofício de corpo presente dos dois acima mencionados. De que fiz este assento que por verdade me assinei; e logo se feste outro ofício. Vigário Luiz de Figueiredo Mendes.
Vejamos o casamento de Laura Guedes Alcoforado, citada acima: Aos 9 de Setembro de 1703 anos, de tarde, na Capela São João Baptista desta Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Villa de Itamaracá, em presença de mim, o Reverendo Francisco (Antonio) Borges de Lemos, Vigário desta dita Freguesia, e sendo presente por títulos, o Capitão Luiz Lobo (deve ser o filho de Pedro Lelou), e o Capitão João Guedes Alcoforado, corridos os banhos e não havendo impedimento algum, casou em facie eclesie, na forma do Sagrado Concílio Tridentino, Salvador de Souza Lyra, filho legitimo do Alferes Pedro de Aguiar e de sua mulher Izabel Peres, morador na cidade de Olinda, com Laura Guedes Alcoforado, filha ilegítima  do Capitão Felippe Guedes Alcoforado, já defunto, e de Anna Guedes, crioula do Gentio da Guiné, moradora e freguesa desta dita Matriz do Bispado de Pernambuco. Do que fiz este assento, e por verdade me assinei. O Vigário Antonio Borges de Lemos.
No dito artigo sobre os Alcoforado, há um registro de casamento de um certo Felippe Guedes Alcoforado, filho de Manoel Guedes Alcoforado e Eusébia Ferreira. Esse Manoel deve ser o outro filho ilegítimo.
Noutra folha está: Aos 28 do mês de Julho de 1706 anos faleceu da vida presente, D. Anna de Abreu, viúva que ficou do Capitão Felipe Guedes e mãe do Capitão João Guedes (Alcoforado), com os sacramentos de Confissão e Comunhão, e me afirmaram não dera tempo para me mandar recado para ir dar o sacramento da Extrema Unção, foi sepultada na sua capela de São João, de seu engenho, e se lhe fez o oficio de obrigação de corpo presente, e me disseram não quisera fazer seu testamento; do que fiz este assento, e por verdade me assinei. O Vigário Antonio Borges de Lemos.
Nos apontamentos do Major, há o casamento de outra filha ilegítima de Felippe, por nome Clara Guedes Alcoforado.

Notas avulsas de Genealogia (4)

Notas avulsas de Genealogia (4)
João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor de Matemática da UFRN e membro do INRG
No livro A Guerra dos Bárbaros, de Affonso Taunay, há referências ao Sargento mor de Pernambuco, Pedro de Lelou, que lá de Olinda, em 1699, tomava a defesa ardente de Moraes Navarro e dos Paulistas, na briga deste último com o Capitão mor da Capitania do Rio Grande, Bernardo Vieira de Mello. Pedro Lelou acusava Bernardo de ser um tipo sórdido e invejoso. Dizia mais que nosso Capitão mor fizera seu filho, menino adolescente, juiz ordinário da cidade do Natal e para ele obtivera uma patente de Alferes. Aliás, no nosso blog postamos os assentamentos de praça de dois filhos de Bernardo Vieira de Mello, em 1698, ambos com soldos de mil oitocentos e sessenta e oito réis: Bernardo Vieira de Mello com 14 anos e Antonio Leitão Arnoso com 13 anos.
 Anteriormente, em 1693, Pedro Lelou tinha sido nomeado Capitão mor do Ceará. Ele era, como cita Guilherme Studart, flamengo, bruxelês, filho de Ludwig Wolf e afrancesara pitorescamente o nome para Lelou. Mas Lelou não pode assumir o posto de Capitão mor porque havia uma denúncia de que falsificara certo documento a fim de proteger seu filho Luiz Lobo Albertin. Lelou conseguiu provar que as acusações eram falsas e, portanto foi expedida, em 14 de Novembro de 1694, a carta patente para o posto por três anos.
No livro da Freguesia de Itamaracá, transcrito pelo Major Salvador Drumond, já citado em vários dos nossos artigos, consta o casamento de Luiz, filho de Pedro Lelou, onde faltam algumas partes.
Aos 27 de Novembro de 1702, de manhã na Capela de São João, filial desta Matriz de Nossa Senhora da Conceição da Vila de Itamaracá, em presença de mim, o Padre Antonio Borges de Lemos, Vigário da dita matriz, sendo presente por testemunhas o Capitão João Guedes Alcoforado e o Sargento mor Pedro de Lelou, se casaram por palavras de presente, o Capitão Luiz Lobo Albertin, filho do Sargento mor Pedro de Lelou, e de sua mulher D. Maria Dias de Abreu, e Margarida Guedes; e logo tomaram as bênçãos, corridos os banhos; e não houve impedimento algum, observada a forma do Sagrado Concílio Tridentino; do que fiz este assento e por verdade me assinei. O vigário Antonio Borges de Lemos.
No documento acima não aparece o nome de Dona Margarida, mas no seguinte, onde consta o seu óbito, se obtém mais informações, inclusive o nome do pai. Aos 29 do dito mês de Julho de 1703, falecendo da vida presente D. Margarida, mulher do Capitão Luiz Lobo, com todos os Sacramentos, não fez testamento pela enfermidade lhe não dar lugar; e foi sepultada na Capela do Engenho de São João que é de seu pai o Capitão João Guedes (Alcoforado).
Nos registros de óbitos salvos, encontra-se, também, o seguinte: hoje, 25 de Setembro de 1715, faleceu da vida presente, D. Thereza, filha do Capitão mor Jerônimo Cesar de Mello, morador nesta Freguesia de Maranguape, casado com o Capitão Francisco Berenguer de Andrade, de idade de 25 anos pouco mais ou menos, com o sacramento da penitencia, Eucaristia, e unção; e para constar fiz este assento. O cura José Ferreira Guedes.
Há, ainda, nas arengas entre Bernardo Vieira e Manoel Álvares de Moraes Navarro, acusações de Pedro Lelou a Francisco Berenguer de Andrade, tio do nosso Capitão Mor, não sei se era o mesmo acima, esposo de Thereza. Diz Lelou deste Berenguer: mau homem e diabólico em fazer manifestos falsos, sem temor de Deus, homem que trazia sessenta e duas demandas, empatando-as todas sem pagar nem restituir o alheio. Verdadeiro perturbador da República, nela semeava mil cizânias, "irmão que parecia de um letrado certo David de Albuquerque, judaizante, natural de Covilhan e descendente daqueles que seguiam os execrandos ritos da Lei Velha. Real mercê de Deus fora tirar semelhantes sujeitos da praça para a tranqüilidade dos povos.
Consta ainda no livro Guerra dos Bárbaros que Berenguer conseguira que o Bispo excomungasse o Mestre de Campo, Moraes Navarro, o que levara Lelou a protestar representando que o castigo de crimes militares cabiam aos Príncipes e Generais e não aos prelados.
Há uma carta, como consta do livro Guerra dos Bárbaros, do nosso Senado da Câmara, datada de 29 de maio de 1688 para o Capitão General de Pernambuco, onde se fala em um Francisco Berenguer de Andrade: há seis meses preciosos que V. S. não tem mandado os socorros prometidos e já recomendados por Sua Majestade e pelo Governador Geral; nestas condições, fazemos seguir o procurador do povo, Gaspar Rebouças Malheiros, em companhia do capitão-mor Francisco Berenguer de Andrade, a fim de apresentar os nossos protestos; em nome de Sua Majestade, e do Governador Geral, pelo estado em que se acha a Capitania, diminuída, quase abandonada pelas forças, devido a essa falta de mantimentos e socorros que até o presente não tem chegado.
Um dos participantes ativos na Guerra dos Bárbaros era o pernambucano Manoel de Abreu Soares. Seu filho, que também participou, no tempo de Moraes Navarro, Paschoal Gomes de Lima, era casado com Helena Berenguer, que não sei se tinha parentesco com o Francisco Berenguer acima.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Auto de arrematação para Antonio Dias Machado

Auto de arrematação para Antonio Dias Machado
Dando sequencia as publicações dos documentos, trago mais esse de auto de arrematação de gado do vento, nas Ribeiras do Rio Grande do Norte. Como são documentos que superam o número de linhas de uma publicação de artigo de Jornal, coloco aqui nesse Blog. Lembro aos que visitam este blog, que Antonio Dias Machado era meu pentavô, casado que era com minha pentavó Francisca Lopes Xavier. Deles nasceu minha tetravó Lourença Dias da Rosa que foi casada com meu tetravô o Alferes Francisco Xavier da Cruz. Este último casal gerou dois trisavôs para mim, a saber: Vicente Ferreira Xavier da Cruz e Miguel Fancisco da Costa Machado.
Termo para os lanços dos gados do vento da Ribeira desta Capitania pelo triênio de 1799 a 1801.Aos vinte e oito dias do mês de Junho de mil setecentos e noventa e oito anos nas casas da Provedoria da Cidade do Natal, Capitania do Rio Grande do Norte, onde se tratam os negócios da Fazenda Real, estando presentes o Sargento Mor Governador Caetano da Silva Sanches, o Doutor Provedor da Fazenda Real Antonio Carneiro de Albuquerque Gondim, o Doutor Ouvidor, Desembargador Gregório José da Silva Coutinho, o Almoxarife da Fazenda Real Manoel Pinto de Castro e comigo Escrivão ao diante nomeado para efeito de se receberem os lanços de gado do vento das Ribeiras do Assu, Apudi, Seridó, Norte e Sul pelo triênio de mil setecentos e noventa e nove  a mil oitocentos e um para que mandou o Adjunto ao Porteiro do C, Francisco Gomes apregoar, que o fazendo lançou o Capitão Antonio dos Santos de Araújo no gado do vento da Ribeira do Sul, dezenove mil réis, Antonio Dias Machado, no do Norte sessenta mil réis e não houve quem mais lançasse nestas e nas mais Ribeiras coisa alguma pelo que mandou o Adjunto que ficasse tudo para a seguinte noite de...de que fiz este termo em que assino com opostos lançadores Luiz José Rodrigues Pinheiro, Escrivão Ajudante da Fazenda Real o que fiz por impedimento do primeiro serventuário. Varias assinaturas entre as quais as de Antonio Dias Machado e Antonio dos Santos Araújo.
Aos vinte e nove dias do mês de Junho de mil setecentos e noventa e oito anos, nas casas da Provedoria da Cidade do Natal, Capitania do Rio Grande do Norte, onde se tratam os negócios da Fazenda Real, estando presentes o Sargento Mor, Governador da Capitania, Caetano da Silva Sanches, o Doutor Provedor Antonio Carneiro de Albuquerque Gondim, o Doutor Desembargador Ouvidor Geral  Gregório José da Silva Coutinho, o Almoxarife Manoel Pinto de Castro, comigo Escrivão adiante nomeado para efeito de se receberem os lanços de gado do vento das Ribeiras do Assú, Apudi e Seridó, Norte e Sul pelo triênio de mil setecentos e noventa e nove a mil oitocentos e um para que mandou o Adjunto ao Porteiro do C. Francisco Gomes apregoasse as Ribeiras do Norte e Sul nos lanços em que ficaram na noite de ontem e as das mais Ribeiras será que nelas lance aqueles que mais der o que satisfaz o dito Porteiro, dizendo dezenove mil reis se deve pelo gado do vento da Ribeira do Sul, lanço do Capitão Antonio dos Santos de Araújo, sessenta mil réis se deve pelo gado do vento da Ribeira do Norte, lanço de Antonio Dias Machado e que mais se venha aceitar a mesa dar o seu lanço quem quiser lançar nos gados do vento das Ribeiras do Assú. Apudi, e Seridó venha a esta mesa dar o seu lanço, e logo lançou Antonio da Trindade Barbosa no gado do vento da Ribeira do Sul, vinte mil réis e João Luis da Silva nos da Ribeira do Norte setenta mil réis e  sobre quantos houverem  no gado do vento da dita Ribeira do Norte lançou Antonio Dias noventa e seis mil réis e apareceu João Luis da Silva e disse não queria mais lançar e sobre quantos lanços houverem no gado do vento da Ribeira do Sul fez lanço Antonio Dias Machado, digo Antonio dos Santos de Araújo de cinqüenta mil réis e apareceu  Antonio da Trindade Barbosa e disse não fazer mais lanço nesta Provedoria....faria na Fazenda Real de Pernambuco e nos mais contratos não houve  quem lançasse coisa alguma pelo que mandou o dito ajudante se desse parte a referida junta e ficou entendidos os lançadores é de se ultimassem as novas anotações e para constar fiz termo em que assinam o Adjunto, lançadores e Porteiro: Antonio José de Sousa e Oliveira, escrivão da Fazenda Real subscrevi. Sanches, Antonio Dias Machado, João Luis dos Santos, Antonio da Trindade Barbosa.
Auto de Arrematação de gado do vento da Ribeira do Norte pelos triênios de 1799 a 1801.
Ano de nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil setecentos e noventa e oito. Aos vinte e oito dias do mês de Agosto do dito ano nas casas da Provedoria da Fazenda Real da Cidade do Natal, Capitania do Rio Grande do Norte, onde se tratam os negócios da Fazenda Real, estando presentes o Sargento Mor, Governador da Capitania, Caetano da Silva Sanches, o Doutor Provedor Antonio Carneiro de Albuquerque Gondim, o Almoxarife Manoel Pinto de Castro, comigo Escrivão adiante nomeado e sendo ai para efeito de se arrematar o contrato de gado do vento da Ribeira do Norte pelo triênio que há de principiar  de primeiro de Janeiro de mil setecentos e noventa e nove e finda em trinta e um de Dezembro de mil setecentos, digo, mil oitocentos e um, apareceu Antonio Dias Machado e por ele foi dito que fizera lanço e como com efeito fez no dito contrato da quantia de noventa e seis mil réis para cuja arrematação se precederam Editais nos lugares públicos,,,,,desta Capitania e no Recife de Pernambuco e andaram esses pregões e lanços públicos....pelo Porteiro do C da Francisco Gomes e por não haver quem mais lanço oferecesse, tendo-se executado todos as diligencias necessárias para esse efeito, sendo.......Antonio Dias Machado para a quantia de noventa e seis mil reis com as condições seguintes.
1º. Que poderá ele contratado haver a si tudo o que pertença cobrar- se para Real Fazenda do rendimento do dito contrato na mesma forma que até o presente se tem observado sem alteração alguma pelo tempo dos ditos três anos.
2º   Que será ele contratado obrigado e seus sócios que tiver a pagar o preço do dito contrato ao Almoxarife da Fazenda Real a boca do Real Cofre em três pagamentos iguais no fim de cada um dos três anos, cujo pagamento será em dinheiro de contado até completar o preço de sua arrematação, e também pagará as Propinas que de estilo paga-se, e faltando  ao primeiro pagamento será executado sem que pela 2ª execução possa receber cousa alguma a Real Fazenda.
3ª  Que não poderá ele contratado alegar danos nem usar de encopamento algum para o  que renuncia todos os casos fortuitos ordinários ou extraordinários sólítos ou insólitos, cogitados ou não cogitados, porque em todos, e em cada um deles ficam sempre obrigados  sem  deles se poderem valer para efeito algum, qualquer que seja.
4º  Que ele contratado e seus sócios que tiver, ainda que não assinem esta arrematação ficam obrigados todos e cada um in solidem ao preço do dito contrato e suja condições, um por todos e todos por um, como iguais co-réus de bens para que a Fazenda Real  possa haver a si o seu pagamento em observância das suas condições por aquele ou aqueles que melhor lhe parecer até inteira satisfação  da mesma Real Fazenda pela qualidade de interessados  os constituem sempre fiadores legais, e pelo mero fato da sociedade que o contratou ficam igualmente sujeitos as mesmas obrigações.
5º  Que ele contratado e seus sócios que tiver gozarão de todos os privilégios  concedidos pelas ordenanças do Reino e Regimento da Fazenda aos Rendeiros das Rendas Reais, não sendo derrogadas em parte ou em todo: se lhe dará toda ajuda e favor lícito como é permitido os contratadores. E sendo visto pelo Sargento Mor, Governador, e mais pessoas declaradas, o conteúdo deste contrato e condições dele houveram por bem e se obrigaram, em Nome de Sua Majestade, a lhe dar inteiro cumprimento, e ao dito arrematante, que presente estava, disse que aceitava e ficava obrigado a cumprir inteiramente o dito contrato e condições nele expressadas, e que não cumprindo pagará toda a perda que a Fazenda Real receber por todos os seus bens móveis e de Raiz, os quais para isso obrigava, e nomeava por seu fiador ao Capitão José Luis Pereira que foi aceito por todo o Adjunto;e por firmeza de tudo se mandou fazer este assento em que assinou o Adjunto, Arrematante e Porteiro: Antonio José de Souza e Oliveira. Escrivão da Fazenda Real o fiz escrever.
 Assinaturas de Sanches, Albuquerque Gondim, Manoel Pinto de Castro, Antonio Dias Machado, Francisco Gomes. 

Prof. José Melquíades, Padre Zé Veinho e eu

Um dia, pesquisando na Cúria, me veio a idéia de ir atrás do meu batismo. Assim, pedi ajuda ao Diácono Leilson para localizá-lo. Com a ajuda dele, encontrei o dito batismo lá na Igreja de Bom Jesus das Dores, na Ribeira. De imediato tirei uma foto do mesmo, como fazia com os meus defuntinhos, como chama Dona Maria das Graças. E lá estava escrito, como segue:
Aos doze de Maio de 1946, na Matriz, o Pe. José Biesinger batizou solenemente a João, nascido a três de Fevereiro de mil novecentos e quarenta e seis, filho legítimo de Miguel Trindade Filho e Dalvanira Avelino Trindade, sendo Padrinhos Francisco Pinto e Áurea Pinto. Pe. José Winterhalter, vigário.
Meus pais moravam na Ribeira e eu nasci lá, na casa de número 90, na Rua Ferreira Chaves. Há pouco tempo fui revê-la.
Estranhei tantos nomes estrangeiros, mas fiquei por aí. Meus padrinhos Francisco de Mello Pinto (Chiquito Pinto) e Áurea Trindade Pinto eram primos legítimos, sendo que Áurea era irmã de meu pai. Eles eram os pais de João Batista de Mello Pinto, morador no Recife, que me ajudou tanto nas minhas pesquisas genealógicas.
Ocorre, que agora, no veraneio, li o livro do meu antigo professor de Inglês, José Melquíades, História de Santos Reis, a Capela e o Bairro. Foi lá nesse livro que encontrei informações sobre os dois padres acima e mais o padre Frederico Pastors, todos alemães.
Padre Winterhalter, alemão nascido em Gruninger, em 1890, chegou ao Brasil em 1936. Morreu em Natal aos 80 anos. Viveu 30 anos no Brasil, 24 dos quais na paróquia da Ribeira.
Padre Biesinger, conhecido como Padre Zé Veinho, era de uma simplicidade edificante; paciente e tranqüilo: a humildade em pessoa. Um santo homem. Identificava-se com os humildes, expressava-se fluentemente num português claro e simples, na leveza do sotaque nordestino, sem a xenofonia dos seus irmãos de pátria. Esses padres curavam a Igreja de Bom Jesus das Dores, na Ribeira, a Igreja da Sagrada Família, nas Rocas, e a Capela de Santos Reis. Viviam humildemente em vida reclusa e de uma pobreza extrema. Moravam na casa paroquial na "subida da ladeira de Bom Jesus", Rua Gustavo Cordeiro de Farias. Ali se recolhiam em orações. Padre Biesinger morreu aos 90 anos. Tinha a alma de uma criança, na pureza de suas intenções e na inocência de seu comportamento.
Segundo, ainda, Prof. Melquíades, Padre Frederico tinha quase dois metros de altura. Alem das suas virtudes sacerdotais, foi sempre a preocupação dos sapateiros, uma dor-de-cabeça que descia aos pés: calçava 44. Os três, em sua pátria de origem, serviram na Grande Guerra de 14 a 18. Ordenados padres, exerceram dignamente o seu ministério a partir do momento em que receberam as ordens sacras e o bispo lhes impôs na alma, o caráter sacerdotal pela repetição das palavras ritualísticas; sacerdos eris in aeternum.
Continua Prof. Melquíades: Estou certo de que cumpriram corretamente a missão que Deus lhes reservou, aqui na terra. Mas foi muito triste o fim da vida desses sacerdotes que fizeram de nossa cidade sua segunda pátria. Laura Leite de Oliveira, zeladora da casa paroquial onde eles moraram e que os acompanhou durante muitos anos, em depoimento escrito do próprio punho afirma: passaram eles, isolamento, desprezo e abandono por parte do clero local, além da penúria e a pobreza de Jó.
O livro do Professor José Melquíades, ex-seminarista, é muito rico de informações históricas da cidade do Natal, como da Igreja Católica. Vale a pena conhecê-lo.
A Igreja do Senhor Bom Jesus das Dores é bem antiga. Vejamos dois batismos feitos lá.
Joanna nasceu a dezesseis de Maio de mil setecentos e setenta e um anos, e foi batizada aos vinte e oito de Junho do dito ano, pelo Reverendo Padre João Tavares da Fonseca, de licença minha, na Capela do Senhor Bom Jesus, sita na Ribeira desta cidade, filha do Capitão João de Barros Coelho, natural de Santo Antonio do Recife, e Luiza Maria do Espírito Santo, natural desta cidade do Rio Grande; neta por parte paterna do Capitão José Coelho Barros, e de Maria Alves de Lima, naturais do Recife, e pela materna de Antonia Maria do Sacramento, mulher solteira, natural e moradora nesta Freguesia. Foram padrinhos o Capitão José Baptista Freire, e Antonia Maria do Sacramento, moradores nesta cidade, do que fiz este assento para constar, e teve os santos óleos. Francisco de Sousa Nunes, Vice Vigário do Rio Grande.
Ignez, filha de Luiza, crioula, escrava do Capitão Joam Duarte de Sá, morador nesta cidade, de pai incógnito, nasceu aos vinte e cinco de Janeiro de mil setecentos e oitenta e dois, e foi batizada aos oito de Fevereiro do dito ano na Igreja do Senhor Bom Jesus das Dores, desta Ribeira, por mim, digo pelo Reverendo Padre Joam Tavares da Fonseca, de licença minha, com os santos óleos, foram padrinhos Estevam da Cunha, morador na dita Ribeira, e sua mulher Maria Manoela, e não se continha mais no dito assento, que para constar, aqui o mandei lançar e me assino. Francisco de Sousa Nunes, Vice Vigário do Rio Grande.
Foi nesta Capela que foram enterrados o Capitão Silvério Martins de Oliveira e sua mulher Dona Joanna Nepomuceno de Oliveira, respectivamente, nos anos de 1849 e 1850. No artigo anterior, Cartas da Ilha de Manoel Gonçalves, eles foram citados.