segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Damásia Francisca Pereira e a lenda

 
Damásia Francisca Pereira e a Lenda
As tragédias, os escravos, os índios e as lendas estão sempre presentes na genealogia das famílias brasileiras. Algumas lendas parecem ser comuns a muitas famílias. Já vi várias genealogias que começam com a chegada, no Brasil, de três irmãos. Quando buscamos informações sobre nossos ancestrais nos deparamos com muitas surpresas.
No artigo anterior, transcrevemos a Lenda de Damasinha escrita por Aluízio Alves que afirmou, no seu texto: “abriu-se inquérito, ainda hoje existente no cartório de Angicos”.  Não li ainda esse inquérito para conferir as informações ali contidas, mas neste artigo, vamos transcrever alguns registros da Igreja para comparar com o que está escrito na lenda. Em primeiro lugar vamos transcrever o casamento de Damásia Francisca Pereira que era o nome de Damasinha.
Aos onze dias do mês de outubro de mil oitocentos e trinta e um, no Sítio Penedo, desta Freguesia, pelas quatro horas da tarde, depois de obtida a dispensa de impedimento de segundo, e terceiro graus de consanguinidade, e tendo precedido as canônicas denunciações, sem impedimento, confissão, e exame de Doutrina Cristã, ajuntei em matrimônio, e dei as bênçãos nupciais aos meus paroquianos Antonio Lopes Viegas, e Azevedo, e Damásia Francisca Pereira, naturais e moradores nesta Freguesia, ele filho legitimo de Francisco Lopes Viegas, já falecido, e de Anna Joaquina de Azevedo, e ela filha legitima de João Pereira Pinto, e de Michaela Archângela; sendo testemunhas Francisco de Borja Soares Raposo da Câmara, e Francisco Antonio Teixeira, casados. Do que para constar fiz este assento, que com as ditas testemunhas assino. O Vigário João Theotonio de Sousa e Silva.
Pelo registro acima, o marido de Damasinha era Antonio Lopes e não Francisco Lopes, como estava escrito na lenda. Francisco Lopes era na verdade o pai de Antonio Lopes, e, portanto o sogro de Damasinha. Além disso, como Francisco Lopes era irmão de Michaela Archângela, Antonio Lopes era primo legítimo de Damasinha.
Já levantei a hipótese, em outro artigo, que a esposa de Francisco de Borja, Anna Francisca dos Milagres, era filha de João Pereira Pinto e Michaela Archângela. Por isso, o marido dela estava nesse casamento de Damásia. Nesse artigo, consta que Damasinha foi madrinha, em 1832, de uma filha de Francisco de Borja e Anna Francisca dos Milagres.
O outro registro que transcrevemos para este artigo é o óbito de Damásia que também, em diversos outros documentos, é conhecida como Damásia Pereira Pinto, pois era filha de João Pereira Pinto, como visto acima. Diz o registro de óbito:
Damásia Pereira Pinto, mulher de Antonio Lopes Viegas, com a idade de 30 anos, foi sepultada nesta Matriz de grades abaixo a 18 de Agosto de 1844, envolta em branco, e por mim solenemente encomendada. E para constar fiz este assento, em que assino. O padre Félix Alves de Sousa, Vigário Encomendado de Angicos.
Na lenda consta que o crime aconteceu nos festejos do padroeiro de Angicos, São José, em 1843. Por essa informação deveria ter sido, então, nas proximidades do dia 19 de Março de 1843. Entretanto, Damásia Francisca Pereira foi sepultada no dia 18 de Agosto do ano seguinte, como registrado acima. Outro detalhe nesse óbito é que não há nenhuma informação sobre a causa da morte, sempre presente nos registros. Vejamos agora o óbito de Antônio Lopes Viegas, marido de Damásia.
Aos quinze de fevereiro de mil oitocentos e sessenta e nove foi sepultado no Cemitério desta Vila, o cadáver de Antonio Lopes Viegas, morador nesta Freguesia, viúvo, por falecimento de sua mulher Damásia Pereira Pinto, e falecido de um cancro, na idade de setenta anos, pouco mais ou menos, com os Sacramentos da Igreja, e foi amortalhado em branco, e por mim solenemente encomendado. Do que faço este termo, em que assino. O Vigário Félix Alves de Sousa.
Pela informação acima, Antonio Lopes Viegas permaneceu viúvo por 25 anos até morrer, possivelmente, por conta do crime.
Entre os filhos do casal acima, encontramos Pedro, que nasceu em 29 de junho de 1835; Antonio que nasceu em 15 de fevereiro de 1840; e Henriqueta que casou em 1 de julho de 1855, com Antonio Lopes Viegas, filho de Antonio Lopes Viegas e Izabel Maria da Conceição. Depois, enviuvando, Henriqueta casou com o viúvo Antonio Baptista de Oliveira. Os dois casamentos de Henriqueta foram na família Lopes Viegas.
Outra informação que se encontra na Lenda diz: “o tresloucado Lopes vai à casa do seu compadre João Felippe da Trindade, figura de saliência na vida municipal, e comunica-lhe sorrindo, o fato hediondo. Pelos registros da Igreja, João Felippe não era casado nessa época, e tinha apenas 24 anos. Se ele fosse compadre seria por ser padrinho dos filhos de Damasinha, mas não encontrei essa informação. Talvez, o compadre fosse o pai de João Felippe, João Miguel da Trindade.
As lendas, na maioria das vezes, são pedaços de verdades que ocorreram em tempos diferentes, lugares diferentes e personagens diferentes, algumas vezes da mesma família.

A lenda de Damasinha

A Lenda de Damasinha
A lenda de Damasinha é contada por Aluizio Alves no livro “Angicos” e repetida, com algumas alterações, por Zélia Alves no livro “ Angicos, ontem e hoje”. Vamos transcrevê-la para cá, e, em um artigo posterior, vamos comparar as informações que a transmissão oral foi, a cada momento, modificando com os dados colhidos em registros da Igreja. Uma tragédia na família Lopes Viégas. Segue a transcrição.
Contam os antigos que Damasia Francisca Pereira, mulher de Francisco Lopes, parente próximo da família fundadora de Angicos, vivia em perfeita calma na pobreza honrada do seu lar.
Essas duas existências, conjugadas eternamente pelo matrimônio, pareciam ter sido predestinadas, uma à outra, para as doçuras de uma vida feliz, entre os lazeres da criação, e os momentos de repouso.
Um dia, porém, tudo mudou. O marido nega à esposa fiel e dedicada os carinhos costumeiros, passando a tratá-la com grosseria inaudita. Damasinha, alma privilegiada de mulher, boa filha, boa amiga, e que sacrificara o tempo da mocidade às esperanças de um casamento venturoso, compreende a transformação radical, mas assim mesmo, sofre com paciência e resignação.
Uma palavra de desespero sua boca não pronuncia. Um gesto de arrependimento e tortura íntima nuca se lhe escapou. Cada hora que passa, mais Francisco Lopes se revela indelicado e estranho.
 Em 1843, realizava-se na vila a festa do padroeiro. Toda a população católica acorria ao templo, recitando as suas preces de salvação e de fé. Francisco Lopes convida a esposa para assistirem aos festejos do santo patriarca.
Chegando a Angicos, tomam parte nas cerimônias religiosas, como todos os anos. Na véspera do encerramento do novenário, a mãe de Damasinha surpreende na fisionomia da filha o martírio supremo.
Procurou sondar-lhe o coração. Sentiu-lhe mais forte o palpitar da alma, mas, nada obteve, senão a confissão deliciosamente mentirosa de que em sua casa pobre cantava e reinava a felicidade. Longe, porém, de se enganar, o coração materno advinha a tragédia. Vê estampado no rosto da filha o signo involuntário da tortura irremediável.
E como buscasse retê-la a seu lado, livrando-a da grosseria inconsciente do marido, recebe da filha extremosa e esposa fiel a mais resignada negativa.
Voltou o casal para o sito Santa Cruz, onde ficava a casa de sua residência, hoje de Dr. Gilberto Wanderley.
No caminho, Damasia compreende que o desenlace se aproxima. O marido, momento a momento, ferreteia-a com a ponta do punhal. E não se enganou...
Logo ao chegarem, Francisco Lopes manda-a deitar-se na mesa da sala de jantar. A vitima obedece sem relutância.
E ali mesmo, fria e barbaramente, a arma assassina degola a mulher heróica.
Cercando o cadáver de dois círios bruxuleante, o tresloucado Lopes vai à casa do seu compadre João Felipe da Trindade, figura de saliência na vida municipal, e comunica-lhe, sorrindo, o fato hediondo.
Abriu-se inquérito, ainda hoje existente no cartório de Angicos. Francisco Lopes confirmou o assassínio em palavras desconexas.
A morte de Damasinha ecoou dolorosamente. As suas virtudes foram revividas por todos os que a conheciam.
A mesa do seu sacrifício e uma pedra que se alteava do ladrilho irregular, ficaram indelevelmente manchados pelo sangue inocente.
E, diz a lenda, quando o cadáver, acompanhado por grande multidão, chegou à Favela, arrabalde da vila de onde esta se desenhava lindamente, os sinos dobraram sem que ninguém lhes tocasse...
Francisco Lopes, tendo recebido um jato de sangue no peito, viu transformar-se quase que numa única chaga, e, louco, terminou os seus dias miseravelmente. Ainda hoje, entre o tímido fanatismo do nosso povo, existe quem levante os olhos para o céu, numa oração fervorosa à santa Damasinha....
No próximo artigo traremos para cá os registros paroquiais sobre os personagem dessa tragédia, para fazer algumas correções.

A Genealogia do Rio Grande do Norte

 
A Genealogia do Rio Grande do Norte
O mês de Setembro tem sido um mês auspicioso para a Genealogia. Houve um bom avanço neste mês, pois, além de ter sido criado o Instituto de Genealogia, foi realizado o “I Encontro Norteriograndense de Genealogia”.
A Assembléia Geral de criação do Instituto Norteriograndense de Genealogia – INRG ocorreu no dia 17 de Setembro, na sede da Academia Norte-Riograndense de Letras. Nessa oportunidade, Ormuz Barbalho Simonetti foi eleito Presidente do Instituto. Foram eleitos ainda para compor a Diretoria Arysson Soares, Anderson Tavares e Rivaldo Costa (Bibi Costa).
Já o I Encontro Norteriograndense de Genealogia, realização da Prefeitura Municipal de Caicó, ocorreu nos dias 26 e 27 de Setembro, no referido município. Entre os temas discutidos destacamos: famílias seridoenses, família Medeiros, família Carlos, famílias cearenses com liame potiguar, famílias norteriograndenses e famílias serranegrenses.
Entre os participantes salientamos os pesquisadores Francisco Augusto de Araújo Lima, Clovis Lobo, Sinval Costa, Bibi Costa, Joaquim José de Medeiros Neto, Antonio Luiz de Medeiros, Jaécio de Oliveira Carlos, João Evangelista Romão, Olímpio Maciel, Anderson Tavares e Ormuz Barbalho Simonetti.
Esses dois acontecimentos darão um novo rumo aos estudos genealógicos do Rio Grande do Norte, pois permitirá  a troca de informações  entre os vários pesquisadores com maior rapidez. É possível, a partir daí, a construção de um banco de dados com todas as informações coletadas pelos diversos estudiosos da genealogia. Teremos, também, uma biblioteca que reunirá as várias obras já editadas sobre genealogia do nosso estado como também os clássicos da genealogia.
Temos observado que muitos sites de Prefeituras Municipais, ou sobre os Municípios contém erros nas suas partes históricas. Há necessidade de revisão desses históricos muitas vezes baseados em informações que se repetem erroneamente ao longo do tempo. Para corrigir essas informações é necessário que os municípios e o estado se interessem pela preservação, digitalização  e divulgação dos documentos históricos que estão nos cartórios, nas igrejas, nas Câmaras Municipais e nas repartições públicas e organismos privados. Assim, todos terão acesso às informações sobre o passado do município e poderão contribuir para a correção das falhas existentes.
É importante salientar que os registros de óbitos, casamentos e batismos da Igreja contém informações riquíssimas para diversas áreas do conhecimento. Todo esse material digitalizado e acessível ao publico pode gerar muitos trabalhos, monografias, teses de mestrado e de doutorado.
Para encerrar este artigo, contemplo nossos leitores com  a transcrição do casamento de uma índia da Aldeia do Camarão com um escravo vindo do Gentio da Guiné.
“Aos treze de janeyro de mil setecentos e trinta annos na Capella de Nossa Senhora dos Remédios do Cajupiranga desta freguezia de Nossa Senhora da Apresentação do Rio Grande do Norte feytas as denunciaçoens nesta Matris, donde são os Contrahentes freguezes e na dita Capella em cuja Ribeira são moradores e sem se descobrir impedimento em prezença do Reverendo Doutor Bernardo de Payva Freire de licença minha sendo prezentes por testemunhas o Tenente Faustino da Silveira homi  cazado Suzana de Oliveira Dona viúva e Maria Gomes da Sylva mulher do Capitão Francisco Fernandes de Carvalho pessoas conhecidas se cazarão solennemente João Barboza do Gentio da Guinê escravo do Capitão Manoel Raposo da Camera, e Vittoria da Costa forra índia natural da Aldea do Camarão donde veio menina moradores todos na sobredita Ribeira do Cajupiranga desta Freguezia freguezes tudo na forma do Sagrado Concilio Tridentino. E pelo asento que veio do dito Reverendo mandei fazer este, em que por verdade asignei. Manoel Correa Gomes, vigário. Faustino da Silveira”

A descendência do holandês Joris Gartsman

 
A descendência do holandês Joris Garstman
No dia  3 de outubro, próximo passado, completou 364 do massacre de Uruaçu. Comandava a Fortaleza dos Reis Magos, naquele momento, o holandês Joris Garstman.
No livro “História da Fortaleza da Barra do Rio Grande”, Hélio Galvão escreveu: “Na família Lopes Galvão radicada na área de ocupação flamenga, é corrente a tradição de que certa moça dessa família se casou com o holandês Garstman, de onde se originou o ramo Grasciman Galvão. Nossas investigações nos têm conduzido cada vez mais, em aproximações sucessivas, à convicção de que a tradição familiar vem sendo confirmada pelos documentos até agora revelados.” Diz mais adiante Hélio Galvão: “Sabe-se, por outro lado, que o assassínio do sogro de Garstman foi a razão principal que fez deflagrar a escopeta que matou Jacob Rabe. De fato, entre os mortos de Uruaçu está Lostau Navarro, precisamente aquele que a tradição aponta como o sogro do Major Garstman.”
Deduz  Hélio Galvão, por conta da suas exaustivas pesquisas, que Beatriz Lostao Casa Maior, filha de João Lostau de Navarro, se casou com o Tenente Coronel Joris Garstman. Afirma mais ainda que eles são os pais de Teodósio de Gracisman e Isabel de Gracisman. Joris Garstman esteve também no governo da Capitania do Ceará e entregou o forte de São Sebastião em 20 de maio de 1654, partindo em 1º de julho para as Antilhas, tendo morrido de morte natural na Martinica, segundo consta do livro acima. O estranho é que não se encontrou nenhum documento, tanto no Brasil como na Holanda, que registre o nome da esposa de Joris Garstman e nem o destino dela. Tampouco se conhece a esposa de João Lostau de Navarro. De onde surgiu o sobrenome Galvão? Será que não veio da família de Sargento-mor Francisco Lopes que se casou com Joana Dornelles, filha de Maria de Lostao Casa Maior, outra filha de João Lostau, que casou com Manoel Rodrigues Pimentel? O sobrenome Lopes Galvão aparece com mais frequência  nos descendentes de Cipriano Lopes Pimentel, filho de Francisco Lopes e Joana Dornelles. Galvão aparece nos filhos de Teodósio de Graciman, acredito  que por conta de Paula Barbosa, filha de Francisco Lopes e Joana Dornelles. Há que se juntar ainda muitos documentos para se ter conclusões mais precisas. A tradição muitas vezes obscurece a verdade.
Vamos transcrever para cá antigos registros de batismos da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação onde aparecem familiares do suposto descendente de Garstman, Teodósio de Graciman. Observem as diversas variações do sobrenome que aparecem nos diversos registros da Igreja Católica
“Aos 25 de abril de 691 bautisei na Capella de Santo Antonio de Pebuna (é o nome que consigo ler), a Anna filha do Capitam Thedosio de Grasimã e de sua mulher Paula Barbosa; foi madrinha Dona Antonio de Oliveira; pus lhe os Santos Óleos do que fiz este asento, dia era  ut supra. Reverendo Vigário Gonçalves de Freitas.”
Dona Antonia de Oliveira era a esposa de Theodosio da Rocha como vimos em artigo anterior. Já fizemos referência a Paula Barbosa acima. A batizada pode ser Ana Barbosa de Graciman Galvão.
“Aos 25 de Novembro de 1695 em a Capella de São Gonçalo do Putegi bautizey a Maria filha do Capitam Theodosio Graciman e de sua mulher Paula Barboza; forão Padrinhos o Padre Pedro Pereira e Maria Gomes mulher de Antonio Bautista Pimentel, do que fiz este assento, em que me assigney era ut supra. Basílio de Abreu e Andrade.”
Entre as filhas de Teodósio e Paula, citadas por Hélio Galvão, existe uma de nome Maria Ferreira da Costa.
“Em 30 de Maio de 1703 annos na Capella de Santo Antonio do Potegi baptizei a Gaspar filho do Tenente Gaspar Rebouças e de sua mulher Ursula Leite, forão Padrinhos o Capitão Theodosio da Rocha e Florença de Gracisman, filha do Tenente de Coronel Theodosio de Gracisman. Tem os santos óleos, Simão Rodrigues de Sá.”
“Em 31 de Maio de 1703 na Capella de Santo Antonio do Potegi baptizei a Constantino filho de Paschoal Nunes e de sua mulher Isabel de Freitas; forão Padrinhos o Sargento Mayor Manoel de Abreu Frielas, e Joana de Gracisman filha  do Tenente de Coronel Theodosio de Gracisman. Tem os santos óleos. Simão Rodrigues de Sá.”
O sargento-mor Manoel de Abreu Frielas era casado com outra filha de Joana Dornelles e do sargento-mor Francisco Lopes, de nome Isabel Dorneles. Nas citações de Hélio Galvão o sobrenome de Joana, filha de Theodosio,  é Dorneles. Nesse mesmo documento ele diz que essa Joana Dorneles casou com Antônio Nunes Ferreira. Entretanto, um registro de casamento dá conta que quem casou com Antônio foi Catarina Barbosa
“Em 16 de Maio de 1705 annos na Capela de Santo Antonio do Potegi de licença minha Baptizou o Padre Francisco Bezerra de Goes a Marcelina filha de Manoel da Costa Condestável e de sua mulher Maria de Freitas; forão Padrinhos Joseph Barros do Rego e Custódia Dornellas filha de Theodosio de Gracisman. Simão Rodrigues de Sá.”.  .
“Em 13 de junho de 1710 na Capella do Senhor Santo Antonio Baptizei a Joseph filho de Pedro Filgueira e de sua mulher Custodia de Gracisman; forão Padrinhos Joseph Porrate de Moraes Castro, e a viúva Isabel de Graciman. Tem os Santos Óleos. Simão Rodrigues de Sá.”
O padrinho José Porrate foi apresentado em artigo anterior através do seu casamento com Margarida da Rocha filha de Theodosio da Rocha
No próximo artigo veremos outros registros que denunciam a presença da família Graciman no Jaguaribe.

As dúvidas do Doutor José Augusto

 
As dúvidas do Doutor José Augusto
Doutor José Augusto no livro “Famílias Seridoenses”, em certo trecho do seu trabalho, escreveu; “O fundador da família no Seridó foi, há mais de dois séculos Thomaz de Araújo Pereira, casado com Maria da Conceição Mendonça, (1) rezando a tradição, não sei com que fundamento, que Thomaz era portuguez (2) e Maria da Conceição bahiana, filha de Cosme Soares de Brito e Magdalena de Castro.”
O livro foi publicado em 1940 e sua reedição, pelo Sebo Vermelho, saiu em 2002. Dom Adelino Dantas em seu livro “Homens e fatos do Seridó antigo”, já noticia que Câmara Cascudo encontrou o registros de três netos de Tomaz de Araujo Pereira  e resolveu a questão. Em 1981, Olavo de Medeiros Filho lança seu livro monumental, “ Velhas Famílias do Seridó”, onde transcreve os  registros de batismos  de Thomaz e Hipólito, ambos, filhos de José de Araujo Pereira, um dos filhos de Tomaz de Araujo Pereira. Nesses registros está escrito que  Tomaz é natural  da Vila de  Viana, Portugal,  e Maria da Conceição é  Paraibana.
No livro, Olavo também cita João de Araujo Pereira como um dos filhos de José de Araújo Pereira, através de um assentamento da Companhia sediada em Natal. Acredito que não tenha enxergado o batismo  de João. Assim, para cobrir essa lacuna, e reforçar as origens de Thomaz de Araújo Pereira e Maria da Conceição de Mendonça, como fez Olavo e Cascudo, transcrevo o registro de João.
“Joam filho legitimo do Capitam Jozé de Araújo natural da Freguezia de Santa Anna de Caicó, e de Elena Barboza de Albuquerque natural desta Freguezia, neto por parte paterna do Tenente Coronel Thomaz de Araujo Pereira natural da Villa de Vianna, e de Maria da Conceiçãm de Mendonça natural da Freguezia de Nossa Senhora das Neves da Paraíba e pela materna do Alferes Hipólito de Sá Bezerra natural da Villa de Vianna e de Dona Joana Bizerra de Albuquerque natural desta Freguezia, nasceo aos oito de abril do anno de mil sete centos e setenta e foi batizado com os Santos Óleos de licença minha na Capella de Sam Gonçalo desta Freguezia pelo Padre Miguel Pinheiro Teixeira aos vinte e cinco do dito mez e anno; foram Padrinhos Francisco Pinheiro Teixeira, casado e a viúva Dona Joana Bezerra de Albuquerque. De que mandei lançar este assento, em que me assinei. Pantaleão da Costa de Araújo, vigário do Rio Grande.”
Há um registro de batismo de um filho de José de Araujo Pereira e Elena Barbosa, cujo nome não é legível. Ele nasceu em primeiro de Agosto de mil setecentos e sessenta e seis  foi batizado  na Capela de São Gonçalo do Potigi no dia doze de agosto de 1766. Os padrinhos foram Aurélio José Gomes, casado,  e Rosa Maria Bezerra, solteira e filha da viúva Joana Bezerra de Albuquerque.
Acrescento, ainda,  batismos de netos  de José de Araujo Pereira e Elena Barbosa, bisnetos de Tomaz de Araujo Pereira. Vejamos.
“Anna filha legitima de Antonio Pedro de Araújo e Thereza de Jezus Roxa naturaes desta Freguezia, e nela moradores neta paterna de José de Araujo Pereira, e Dona Helena Barboza de Sá Bezerra e pela materna de Theodosio da Roxa Vieira, e Anna Maria dos Reis nasceo aos onze de julho de mil settecentos e noventa e seis e foi baptizada de licença minha com os Santos Óleos aos vinte do mesmo mez e ano nesta Capella de Sam Gonçalo do Potigi pelo Reverendo José Gonçalves de Medeiros Lisboa; forão padrinhos Teodozio da Roxa Amorim e sua irmã Maria Ignacia de Jesus, solteiros todos desta dita Freguezia, de que para constar mandei fazer este asento em que asigno. Ignácio Pinto de Almeida Castro. Vigário Encomendado do Rio Grande.”
Esse Antonio Pedro pode ser o que aparece no registro citado acima que não consegui ler, por faltar pedaços. No livro de Olavo ele coloca o casamento e o falecimento de Rosa Maria. Aqui acrescentamos o batismo de um filho de Rosa.
“João filho legitimo de João José de Crasto natural do Seridó Freguezia de Santa Anna, e de Roza Maria natural desta Freguezia neto pella parte paterna de João de Crasto Correa e de Izabel Souto Maior naturaes da dita Freguezia do Seridó, e pella materna de José de Araújo Pereira natural da mesma Freguezia do Seridó, e de Elena Barboza natural desta Freguezia nasceo aos vinte e sinco de fevereiro de mil setecentos e noventa e seis e foi baptizado com os Santos Óleos de licença minha, pelo Reverendo José Gonçalves de Medeiros Lisboa na Capella de Sam Gonçalo do Potigi, aos oito de Março do dito anno; forão padrinhos Thomaz de Araujo Pereira solteiro, e Rita filha de Gabriel José de Amorim, moradores nesta freguezia, de que para constar fis este assento em que me asignei, Ignácio Pinto de Almeida Castro, Vigário Encomendado do Rio Grande.”
Doutor José Augusto, na  parte referente aos Dantas Correa, escreve. “Encontro também referencias a Sebastião Dantas Correa, não sei se irmão de Caetano, o qual, em 1745, obteve uma data de terra na Capitania do Rio Grande. “ fala sobre outros Dantas, mas cita também: José Dantas Correa que, em 12 de Junho de 1788, pertencia ao Senado da Câmara de Natal.
Sebastião Dantas Correa casou em 1735 com Anna Silveira. No documento de casamento consta que seus pais eram José Dantas Correa e Izabel Pimenta da Costa naturais de Ponta de Lima, Arcebispado de Braga. Diz mais no documento que ele morou em Piancó. Caetano era filho de José Dantas Correa e Izabel da Rocha Meireles. Ele de Portugal e ela da Paraíba. Há muita coincidência entre os nomes dos pais de Caetano e Sebastião. Podem ser irmãos, sim. Precisamos descobrir se são duas isabel ou uma só.Quanto a José Dantas Correa que ele cita como membro da Câmara, é o filho de Sebastião Dantas Correa e Anna da Silveira que casou em 1765 com Anna Maria da Conceição filha de Lourenço de Araujo Correa (natural do Porto) e Elena Duarte de Azevedo, esta última descendente dos mártires de Uruaçu, Antonio Vilela Cid e Estevão Machado de Miranda.
Doutor Toscano me avisa que há erros no livro “Florania”, editado pela Fundação José Augusto, sobre o pai de Joaquim Theodoro da Cruz e Manoel Rodrigues da Cruz. Não era Lourenço da Rocha, mas, sim Thomaz Lourenço da Cruz casado com Maria Rosa do Nascimento. Com essa informação há muitos descendentes em Angicos e Florania de Tomaz de Araujo Pereira (2º), inclusive o Tenente Laurentino Theodoro Cruz, citado por Pery Lamartine no livro “Coronéis do Seridó. No próximo artigo trataremos disso.

Alguns registros do início do século XIX

 Alguns registros do início do século XIX
Algumas genealogias pecam por falta de maiores detalhes. Algumas criam confusões quando não citam datas. Eu, particularmente, prefiro, sempre que possível, fazer as transcrições dos registros da Igreja com os detalhes que eles trazem. Aqui neste artigo transcrevo casamentos do início do século XIX.
“Aos vinte e cinco de fevereiro do ano de mil oitocentos e dois pelas cinco horas e meia da manhã nas casas de Residência do Coronel Francisco da Costa e Vasconcellos no lugar chamado Coité: depois de feitas as denunciações na forma do Sagrado Concilio Tridentino nesta freguesia aonde ambos são moradores e naturais: e não constando canônico ou civil impedimento e que se vê dos banhos e mais papeis que ficam em meu poder: em minha presença e sendo aí como testemunhas o capitão-mor Jerônimo Teixeira, casado, e o tenente-coronel Manoel Ignácio Pereira do Lago, viúvo, ambos moradores nesta Freguesia se casaram em face da Igreja solenemente, e por palavras de presente o coronel de milícia Joaquim José do Rego Barros filho legitimo do Mestre de Campo Francisco Machado de Oliveira Barros, e de sua mulher D.Antonia Maria Soares de Mello com D.Maria Angélica da Conceição e Vasconcellos, filha legítima do coronel de cavalaria desta cidade Francisco da Costa e Vasconcellos e de sua mulher D. Maria Rosa Teixeira. E logo lhes dei as bênçãos  segundo os Ritos e Cerimônias da Santa Madre Igreja. Do que tudo fiz este termo que por verdade assinei. Feliciano José Dornelles, Vigário Colado.”
O lugar chamado Coité é hoje Macaíba. Joaquim José do Rego Barros foi presidente de nossa Província no período 1821/1822.
“Aos vinte e três de agosto de mil oitocentos e três pelas oito horas da noite nesta Matriz depois de feitas as denunciações na forma do Sagrado Concilio Tridentino nesta Freguesia aonde ambos os Nubentes são moradores, e o Nubente natural: e não constando canônico impedimento como se vê dos banhos que ficam em meu poder: em presença do Padre Simão Judas Thadeo de minha licença e sendo presentes como testemunhas o capitão José Xavier e o capitão Francisco Antonio Carrilho, brancos, casados, e moradores nesta Freguesia pessoas bem conhecidas se casaram em face da Igreja solenemente, e por palavras de presente o cabo de infantaria Lourenço José de Gouveia, branco, filho legitimo de José Bezerra de Lira e de sua mulher Genoveva Maria da Conceição com D. Mariana Felícia, branca, natural da Praça de Pernambuco, de onde veio de menor para esta Freguesia, filha legítima de José Leitão de Almeida e de sua mulher D. Maria Felícia dos Santos, já falecidos, e logo o dito Padre lhes deu as bênçãos segundo os Ritos e Cerimônias da Santa Madre Igreja do que tudo fiz este termo que assinei. Feliciano Dornelles Vigário Colado.”
José Leitão de Almeida, português, era Professor Régio em Recife. Seu filho mais famoso foi Agostinho Leitão de Almeida que atuou durante certo tempo aqui no Rio Grande do Norte e depois seguiu para Desterro, hoje Florianópolis. Um filho de Agostinho de nome José Leitão de Almeida casou com Ana Trompowski. Eram os pais do Marechal Roberto Trompowski. O capitão Francisco Antonio Carrilho, testemunha acima, era casado com Dionísia Soares irmã do coronel de milícias Joaquim José do Rego Barros, o nubente do primeiro registro acima. Agostinho Leitão foi casado com Antonia Maria Soares de Mello, mesmo nome da avó, e filha de Francisco Antonio Carrilho, Europeu,  e Dionísia Soares. A segunda esposa de José Leitão de Almeida, Francisca Xavier, era filha do Mestre de Campo Francisco Machado.
Pela Wilkipédia, erroneamente, diz que  o pai de Agostinho era Francisco Leitão de Almeida. A mesma Wilkipédia dá como uma esposa de Agostinho, Josefa Martins de Macedo, que foi, na verdade, sua segunda esposa.
Do primeiro casamento de Agostinho, nasceu um filho de nome José, mas que não deve ter sobrevivido. Do segundo casamento com Josefa nasceu o filho José, como aparece no registro a seguir: José, filho legítimo do capitão Agostinho Leitão de Almeida e de Josefa Martins de Macedo, neto paterno de José Leitão de Almeida e Maria Felícia, e materno de Matias Cabral de Macedo e Isabel Francisca da Costa, nasceu aos 19 de outubro de 1819, e foi batizado pelo Reverendo Padre Manoel Pinto de Crasto aos 7 de dezembro do mesmo ano, sendo padrinhos o alferes Manoel Antônio Cabral  de Macedo e Dona Maria de São José de Macedo, na Capela do Senhor Bom Jesus das Dores, da Ribeira.
Vale salientar que na internet consta a informação que José Leitão de Almeida, esse que foi casado com Ana Trompowsky, nasceu em 1818. Para confirmar mais ainda seu nascimento em 1819, como aparece no registro de batismo, encontramos que José Leitão de Almeida, foi sepultado no Rio de Janeiro, com a idade de 51 anos, aos 12 de dezembro de 1870, tendo falecido de Angina.
A seguir o casamento de um membro da família Ribeiro Dantas celebrado por um irmão de Padre Miguelinho.
Aos vinte e sete de agosto de mil oitocentos e quatro pelas oito horas da noite e nas casas de moradia do capitão Antonio José de Sousa e Oliveira por licença do Reverendíssimo Governador do Bispado Manoel Vieira de Lemos e Sampayo que também dispensou os banhos das naturalidades e moradias de ambos os nubentes que ficam em meu poder: e não constando canônico ou civil impedimento: em presença do Padre Manoel Pinto de Castro, de minha licença: e sendo presentes como testemunhas o capitão Antônio José de Souza, casado, e morador nesta Freguesia e o alferes Manoel Ferreira Cordeiro solteiro e morador na Vila de S. José, se casarm em face da Igreja solenemente, e por palavras de presente, o tenente Estevão José Dantas, natural da Freguesia da Senhora Santa Anna da Vila de São José, filho legítimo do coronel Miguel Ribeiro Dantas, já falecido, e de sua mulher D. Antonia Xavier de Barros com D. Maria Joaquina de Souza natural desta Freguesia, e filha legitima do capitão Antonio José de Souza e de sua mulher já falecida D. Joanna Ferreira de Mello, e logo o dito Padre lhes deu as bênçãos segundo os Ritos e Cerimônias da Santa Madre Igreja do que fiz este termo que por verdade assinei. Francisco José Dornelles, Vigário Colado.
José Leitão de Almeida, batismo

Custódia do Sacramento e os Tavares Guerreiro

 
Custódia do Sacramento e os Tavares Guerreiro
Mário Ferreira de Araújo Junior, descendente das famílias Varela Barca e Tavares Guerreiro, lendo um artigo que escrevi sobre Uruaçu, estranhou a diversidade de nomes dos filhos do Sargento mor Antonio Rodrigues Santiago e  de Custódia do Sacramento. Por e-mail, escreveu Mário: Fico intrigado com o motivo que levou os pais a registrarem os filhos com sobrenomes tão diferentes, mas a maior dúvida é a seguinte: seria Francisco Tavares Guerreiro o primeiro do Rio Grande do Norte a levar esse nome, ou poderiam ter apenas copiado o nome de alguém?
Os filhos do Sargento mor Antonio Rodrigues Santiago e Custódia do Sacramento, segundo Manoel Maurício, no documento “Memoria da família de Utinga”, eram o Capitão Manoel Rodrigues Santiago (mesmo nome do avô paterno), Catherina Duarte de Azevedo (mesmo nome da avó paterna), Joana Gomes de Abreu e Francisco Tavares Guerreiro.
Na primeira resposta que passei para ele, informei que, possivelmente, os outros sobrenomes deveriam derivar de ascendentes de Custódia do Sacramento. Naquela época, os pais colocavam nas filhas sobrenomes religiosos que acabavam escondendo os sobrenomes da família. Aí, aparecem mulheres com os nomes: Custódia do Sacramento, Isabel Rainha da Hungria, Joana Batista da Degolação, Úrsula Córdula do Sacramento e as muitas Marias: Egiciaca,  do Corpo de Deus,  do Espírito Santo, da Conceição do Amor Divino, da Ressurreição e assim por diante.
Dona Custódia do Sacramento aparece com muita freqüência nos registros da Igreja, ora como testemunha, ora com madrinha ou então como dona de escravos. O Sargento mor Antonio Rodrigues Santiago deve ter morrido muito mais cedo que ela, pois, já em 1749,  Francisco Tavares Guerreiro, testemunha de casamento de um escravo,  é apresentado como filho de D. Custódia do Sacramento, não mais citando o pai. Em 1793, ela morre conforme o registro que segue:
“Aos sete de Setembro de mil sette centos, e noventa e dous faleceo da vida presente Dona Custódia do Sacramento de idade de cem annos, pouco mais ou menos com todos os sacramentos, foi envolta em hábito de São Francisco, encomendada de licença minha pelo Padre Ignácio Pinto de Almeida, e sepultada nesta Matriz, do que mandei fazer este em que por verdade me asigno. Pantaleão da Costa de Araujo, vigário do Rio Grande”
Fiz minhas contas e imaginei que pelas informações acima ela deveria ter nascida por volta de 1692, e, portanto, deveria constar seu batismo nos registros do livro que está arquivado no Instituto Histórico Pernambucano. Fiz a consulta aos meus arquivos e lá estava o batismo de Custódia:
“Em 9 de dezembro de 1705 annos na Capella de Santo Antonio do Potegi baptizei a Custódia filha de Manoel Tavares Guerreiro e Dona Joana Gomes, forão padrinhos o Sargento mor Estevão Velho de Moura, e sua molher Anna da Costa, tem os santos óleos. Simão Rodrigues de Sá.”
No livro, acima, não colocavam as datas de nascimento, mas os batismos não demoravam mais do que um ano da data do nascimento. Ela deve ter nascido no próprio ano de 1705. Encontrei muitos registros de óbitos com datas erradas. Além da expressão “pouco mais ou menos”, outra muito comum era “parecia ter”, expressando uma idade aproximada. Já encontrei vários registros de óbitos onde as idades dos falecidos não são corretas, quando confrontadas com as datas dos nascimentos ou outras informações. Dona Custódia deve ter morrido, portanto, com 87 anos de idade.
Com a informação acima, compreendemos porque os outros dois filhos de Antonio Rodrigues Santiago e Custódia do Sacramento tinham os sobrenomes Tavares Guerreiro e Gomes de Abreu. Em outros registros nesse mesmo livro, o nome completo da esposa de Manoel Tavares Guerreiro era Joana Gomes de Abreu.
Além de Custódia, outros filhos do casal Manoel e Joana que aparecem no livro de registro citado são: Mathias, batizado em 16 de outubro de 1702, na Capela de São Gonçalo do Potengi, e padrinhos Nicácio da Costa Abreu e a viúva Domingas Gomes de Abreu; Manoel, batizado em 3 de abril de 1704, na capela de Santo Antonio do Potengi, e  padrinhos Roque da Costa Gomes e Ursula Mendonça, mulher do Capitão Gonçalo da Costa Faleiro; Bernardina, batizada em 19 de Agosto de 1707, na capela de Santo Antonio do Potengi, e  padrinhos Nicácio da Costa de Abreu e a viúva Domingas Gomes de Abreu.
Pelo que pude apreender dos registros do livro acima, Joana Gomes de Abreu, Nicácio da Costa de Abreu e  Domingas Gomes de Abreu eram filhos do capitão Pedro da Costa Faleiro.
Outro filho do casal Manoel Tavares Guerreiro e Joana Gomes de Abreu era o Capitão Antonio Tavares Roldão que casou, em 25 de janeiro de 1740, na Capela de São Gonçalo do Potengi, com Monica da Cruz, filha de Roque Pereira da Motta e Helena da Cruz. Pelo livro de Batismos, Mônica foi batizada em 30 de maio de 1703, na Capela de Missões de Ceará-Mirim. Portanto, casou com 36 anos de idade.
Em 1793, faleceu um Francisco Tavares Guerreiro Junior com 30 anos. Em 1795, faleceu um preto forro de nome João Tavares Guerreiro. Possivelmente, foi escravo da família. Havia o hábito de batizar os escravos com o mesmo sobrenome dos donos.
Mário Ferreira de Araujo Junior, citado no inicio deste artigo, é  filho de Mário Ferreira de Araujo e Terezinha Guerreiro de Araújo. Segundo Mário, sua mãe era filha de Sandoval Tavares Guerreiro e Maria do Rosário Varella, neta por parte paterna de José Tavares Guerreiro e Maria da Glória Guerreiro, e pela parte materna de Luiz Varela de Souza Barca e Judith Cavalcanti Varela Barca. Mário Junior procura o elo com os Tavares Guerreiro mais antigos.

A vida curta do Tenente Cirurgião Francisco Martins Ferreira

A vida curta do Tenente Cirurgião Francisco Martins Ferreira.
Estamos no dia 6 de janeiro de 1842 na cidade de Macau. O padre João Francisco Pimentel impôs os Santos Óleos aos dois filhos do Major José Martins Ferreira e Josefina Maria Ferreira. Um se chamava João e nasceu aos vinte dois de junho de 1840, o outro se chamava Francisco e nasceu no dia sete de outubro de 1841. O assento dos batismos foi feito pelo vigário encomendado de Angicos, Manoel Januário Bezerra Cavalcanti. João teve como padrinhos Pedro Alves Correia e João Martins Ferreira, avô de Francisco e João, como procurador de Maria Teodora da Costa Pires, da Praça de Pernambuco. Já Francisco teve como padrinhos o Tenente Coronel José Ramos de Oliveira e D. Maria da Costa.
Maria Teodora foi uma personagem de destaque da História do Brasil. Era a esposa de Domingos José Martins, chefe de uma das revoluções mais importantes da nossa História. Foi um casamento curto, pois Domingos foi fuzilado, em 12 de junho de 1817. Um casamento que não durou três meses.  Domingos, em carta a André de Albuquerque Maranhão, falava em um namoro de mais de 5 anos. Dizem que Bento foi o único português que apoiou a revolução. Contam, ainda, que o pai de Maria Teodora não queria o casamento e que se viu obrigado a aceitar quando Domingos assumiu o poder em 6 de março de 1817. Essa foi a alegação feita por Bento para escapar da prisão, segundo alguns historiadores. Em 1842, Bento já tinha falecido e Maria Teodora estava com 42 anos e era casado com Antonio José Pires.
O Tenente Coronel José Ramos de Oliveira, padrinho de Francisco e genro de Bento José da Costa, foi outro personagem da História Pernambucana. Foi deputado, criador, junto com o cunhado, Bento José da Costa Junior, da Companhia Beberibe de Águas do Recife e o primeiro presidente da Associação Comercial de Pernambuco. Era filho de José de Oliveira Ramos, outro personagem famoso da História Pernambucana. Há várias referencias a ele no livro de Tollenare, Notas Dominicais. Tollenare visitou o Engenho Salgado, pertencente a José de Oliveira Ramos e a partir daí se tornaram muitos amigos. Tollenare ficou encantado com a acolhida do Sr. Ramos e comenta isso em vários capítulos do seu livro. Quando José de Oliveira Ramos foi preso pela Revolução envidou todos os esforços para soltar o amigo. Tudo em vão. José de Oliveira só foi solto quando terminou a Revolução.
Não sei que caminhos percorreu Francisco Martins Ferreira até se tornar Tenente Cirurgião. Com poucas informações é difícil reconstituir sua história. O avô como Administrador das terras de Bento, e a mãe como sobrinha de Bento devem ter patrocinado alguma educação diferenciada para ele. Com o padrinho que teve é possível que tenha ido estudar em Recife. O transito de embarcações entre Recife e Macau era intenso desde o tempo da Ilha de Manoel Gonçalves. Um registro de batismo de Raphael filho de Manoel Estevão de Lima e Maria Clara, em um de janeiro de 1859, traz como padrinhos Francisco Martins Ferreira e sua irmã Maria Emidia Martins Ferreira. Nesse tempo eles tinham, respectivamente, 18 e 14 anos de idade. Maria Emídia tinha nascido em dois de junho de 1845, e teve como padrinhos Bento José da Costa Junior e Emília Júlia Pires Ferreira, filho de Gervásio Pires Ferreira, outra figura da História Pernambucana.
Francisco casou em vinte e sete de novembro 1869 com Francisca de Paula Maria de Carvalho, filha de Vicente Ferreira Xavier da Cruz e Maria Ignácia Rosalinda Brasileira (madrinha de batismo de Absalão Fernandes da Silva Bacilon), sendo testemunhas seu irmão Joaquim José Martins e José Francisco Alves de Sousa, cunhado de Francisca e pai do capitão José da Penha. Desse casamento só sobreviveu Maria Josefina Martins Ferreira, que nasceu, segundo meu pai, em Cacimbas do Viana no Açu, que fazia parte das 13 léguas de terras do Sertão de Açu, do Tenente Coronel Bento José da Costa. Foi também em Cacimbas do Viana que nasceu Militão Martins Ferreira, filho de José Alves Martins e Francisca Martins de Oliveira. Militão foi padrinho de batismo de Dona Liquinha, sua sobrinha, mãe de Aluizio Alves. Nesse mesmo lugar casou Manoel Martins Ferreira com Prudência Maria Teixeira, tendo como uma das testemunhas o pai José Martins Ferreira.
 Francisca de Paula faleceu de parto em Macau, em vinte e seis de Junho de 1873, com a idade de 25 anos. O filho do casal, ainda sobreviveu 11 meses e 21 dias, vindo a falecer em dezessete de junho de 1874.
O Tenente Francisco Martins Ferreira voltou a casar em vinte e sete de setembro de 1874. Desta vez com a prima de Francisca Paula, Antonia Lourença Dias da Rosa, filha de Miguel Francisco da Costa Machado e Anna Barbosa da Conceição. As testemunhas foram Manoel Jerônimo Caminha Raposo da Câmara, cunhado de Antonia Lourença e novamente o irmão Joaquim José Martins Ferreira. Deste casamento só sobreviveu um filho José Martins Ferreira (Senhorzinho) que foi morar, posteriormente em Manaus.
Aos cinco de outubro de 1877 o tenente cirurgião faleceu de hidropisia, dois dias antes de completar 36 anos de idade.
Sua esposa ainda viveu até o ano de 1891 quando faleceu com a idade de 52 anos.

Comentários genealógicos

 
Comentários genealógicos
De Gotardo Emerenciano recebo a seguinte correção, relativa ao artigo sobre Manoel Maurício Correa de Sousa: “Felipe, o Gotardo Emerenciano, a que se refere o artigo é o poeta José Gothardo Emerenciano Netto, irmão de Montano, ambos filhos de José Ildefonso Emerenciano, o Professor Zuza. Papai tinha o nome do Professor Zuza. A grafia está errada, não  é Idelfonso e sim Ildefonso, Padroeiro do Porto em Portugal. Gotardo sem TH.”
Bartolomeu Correia, colega de Universidade, manda também suas correções e comentários sobre o referido artigo: “Felipe, fico feliz com seus avanços no intricado labirinto genealógico da Utinga, muito mais complicado que as endogâmicas árvores  angicanas, plantadas em lugar remoto, sem as ramificações causadas pelo entra-e-sai de sobrenomes na alta diversidade das populações litorâneas. Boa Sorte!
Aproveito para corrigir dois lapsos: Idalina Jacinta irmã de José Idelfonso não era minha avó, e sim bisavó.
Uma reforma ortográfica ocorrida nos anos trinta (34 ou 37?) fez com que alguns tabeliães, por excesso de zelo reformista, modificassem até nomes e sobrenomes, passando a grafar CORREIA ao invés de CORRÊA, o mesmo acontecendo com MELO em vez de MELLO. (Essa mudança, aqui-acolá, já ocorria, por via contrária dos tabeliães analfabetos)(rs). Assim, segundo as certidões de nascimento (de antes da dita reforma), meu pai era Mello e minha mãe Corrêa. Eu, nascido depois, já neto-pobre, me chamei Bartolomeu e não Bartholomeu; por isso, sempre brinco, dizendo que Corrêa de Mello é nome nobre e Correia de Melo nome de pobre. (rs) Bartola.”
Outro que manda e-mail é Carlos Alberto. Diz Carlos Alberto lá do Rio de Janeiro:
“Caro Prof. João Felipe da Trindade. Li seu artigo na Internet que me deixou cheio de esperanças.
Meu nome é Carlos Roberto Dantas de Moura e publiquei em 1985 um livro sobre a genealogia dos Ribeiro Dantas, de São José de Mipibu. Estou trabalhando na segunda edição, prevista para o primeiro trimestre de 2009.
Tive oportunidade de consultar na Cúria os livros de Batismos, Casamento e Óbitos de São José de Mipibu, Ceará-Mirim e Natal, onde a família se expandiu.
Mas há lacunas, relatadas por Dom Adelino e citadas por você. A Matriz de São José data de 1762 e os livros sobreviventes são a partir de 1833, com falhas.
Você citou em seus artigos que fotografou dois volumes do RN, salvos em Recife, e que contém apenas batismos. Como fazer para conseguir uma cópia? Estou disposto a arcar com as despesas de reprodução e do correio. Se não houver possibilidade, eu gostaria de consultá-los quando eu for a Natal, em 10 de outubro de 2009.”
Na verdade as cópias não foram fotografadas por mim, mas por Fábio Arruda, auditor do TCU, lá de Alagoas, grande estudioso dos Engenhos do Nordeste e que sempre vai a Recife para colher material do Instituto Histórico de Pernambuco.
Já fiz as cópias e enviei para Carlos Alberto. Documentos dessa natureza não podem ficar guardados. Devem ser divulgados ao máximo para ajudar a reconstituir a História do nosso Rio Grande do Norte.
Em outro e-mail, Carlos Alberto manda mais informações que coloco aqui:
“No artigo que escreveu sobre o Barão de Serra Branca o senhor diz desconhecer três membros da família Ribeiro Dantas, que podem ser facilmente achados no meu livro sobre os Ribeiro Dantas de São José de Mipibu, e que mencionei no e-mail que lhe mandei há pouco.
O padrinho do Barão, Tenente Estevão José Dantas (1772-1852) viveu em São José de Mipibu. Era tio do Barão de Mipibu, Miguel Ribeiro Dantas II. Francisco Ribeiro Dantas (1810-1895) foi Juiz em São José, era filho do Tenente Estevão. Há uma biografia dele em “Bacharéis de Recife e Olinda” conhecido livro de Raimundo Nonato. Outro filho de Estevão foi Miguel Antonio Ribeiro Dantas (1819-1870) fazendeiro, pai de dez filhos, entre eles o Cônego Estevão Ribeiro Dantas (1860-1929, um dos maiores latinistas do estado. Há uma extensa biografia dele, numa Revista do Instituto Histórico de 1929, Vol. XXVI, pg. 345-357, onde Nestor dos Santos Lima escreveu o seu Obituário.”
Entrei em contato com George Avelino Filho, neto de Georgino Avelino. Mandei o comentário que Cassiano Arruda fez nos 50 anos da morte do Senador. Pedi que me mandasse livros e fotografias sobre o senador, inclusive um citado por George Avelino, pai. Recebi o seguinte e-mail de George: “Caro João Felipe, me perdoe o atraso na resposta, mas eu estava viajando. Olha, a informação que eu consegui coletar do meu avô foi o material contido no Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro editado pela FGV. Lá está uma foto dele, mas eu não consegui capturar a imagem. O texto, eu consegui escanear e segue no anexo desse arquivo. O meu pai sabe do seu trabalho? Ele agora é o último filho do vovô que está vivo e tenho certeza de que ele gostaria de entrar em contato com você.”

Carta patente de Alferes para Francisco Xavier da Cruz

 
Carta Patente de Alferes para Francisco Xavier da Cruz
No Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte há documentos e cópias desses documentos. Um desses documentos é uma carta patente do posto de Alferes para Francisco Xavier da Cruz.  O original contém manchas de água que tornam quase ilegíveis a sua leitura, em algumas partes. A cópia feita por Petronillo Joffily, em 1922, já apresenta falhas, também. Hoje, com as modernas tecnologias, já deveríamos  digitalizar todos esses documentos, antes que se acabem e não seja mais possível recompor parte da nossa História. Enquanto me for permitido, estarei transcrevendo, em parte ou no todo, alguns desses documentos, neste jornal ou no meu blog. Com certeza eles percorrerão os mais distantes lugares da terra. Usei os dois documentos para fazer a transcrição, colocando quando possível, na linguagem mais atual. É provável que cometa algum deslize, mas o que interessa é a transmissão do fato. Vamos ao documento, tentando compreender a forma de escrever da época, como também a forma de concessão dessas patentes.
“Pedro Sheverin Chefe de Esquadra e Intendente de Marinha, Manoel Xavier Carneiro da Cunha, Deão da Santa Igreja Catedral da Cidade de Olinda, o Doutor José Joaquim Nabuco de Araujo Ouvidor Geral desta Comarca, governadores interinos da Capitania Geral de Pernambuco, etc.
Fazemos saber aos que esta Carta Patente virem, que havendo respeito a Francisco Xavier da Cruz nos representar e que exercendo por nomeação de Caetano da Silva Sanches, Capitão Mor Governador que foi da Capitania do Rio Grande do Norte, o Posto de Alferes da Companhia do Capitão Luis José de Araujo Picado, uma das do Regimento de Cavalaria Auxiliar de Vila de Princesa, de que é Coronel Jerônimo Cabral de Oliveira, requerendo-nos que para efeito de solicitar a Regia Confirmação na conformidade das Reais Ordens lhe mandássemos passar Patente do Referido Posto, ao que atendendo havemos por bem na conformidade da Carta Régia de 22 de março de 1766, nomear//como por este nomeamos// ao dito Francisco Xavier da Cruz no Posto de Alferes da Companhia  do Capitão Luis José de Araujo Picado, uma das do Regimento de Cavalaria Auxiliar da Vila de Princesa da Capitania do Rio Grande do Norte, de que é Coronel Jerônimo Cabral de Oliveira que vagou por passar a Tenente da mesma companhia João Manoel da Costa que o exercia, com o qual posto não haverá soldo algum mas, servindo como deve, gozará todas as honras, graças, franquezas, liberdades, privilégios e isenções de que gozam os Alferes de Tropas pagas na forma que determina a dita Carta Regia, não obstante o decreto do ano de 1706 que a contrario dispõe e será obrigado a requerer a S.A. R. pelo Tribunal do Conselho Ultramarino a nomeação desta Patente dentro de uma ano, contado da data deste, e não apresentando dentro do referido termo ou certidão,  de haver entregue esta Patente na Secretaria deste Conselho se lhe dará baixa do Posto na forma que determina a Real ordem  de 28 de Maio de 1795. Pelo que ordenamos ao Capitão Mor governador da dita Capitania e dito Coronel por tal o reconheçam, honrem e estimem, conferindo-lhes este a posse e juramento de estilo, do que fará assento nas cartas desta; e aos oficiais e soldados seus subordinados que lhe obedeçam e cumpram as suas ordens relativas ao Real serviço como devem e são obrigados. Em firmeza do que lhe mandamos passar a presente por nós assinada e selada com o selo das Armas Reais que se registrará na Secretaria deste Governo e Vedoria da Referida Capitania.
Dada no Recife de Pernambuco aos 24 de Novembro ano de nascimento do Nosso Senhor Jesus Cristo de 1802. Manuel da Cunha de Azeredo Coutinho Sousa Chicorro, Secretário de governo a fez escrever/ Pedro Sheverin/Manoel Xavier Carneiro da Cunha/José Joaquim Nabuco de Araújo/ tinha o selo // Carta Patente pela qual V. S.as houverem por bem nomear Francisco Xavier da Cruz  no Posto de Alferes da Companhia do Capitão Luis José de Araújo Picado um das do Regimento da Cavalaria Auxiliar da Vila de Princesa da Capitania do Rio Grande do Norte de que é Coronel Jerônimo Cabral de Oliveira, que vagou por passar a Tenente da mesma João Manoel da Costa, que exercia, pelos respeitos nela declarados, para verem V.S.as. Registrada a fl 2 do livro 35 do Registro de Patentes do Governo Geral que serve nesta Secretaria de Pernambuco. Recife, 24 de novembro de 1802. Manoel da Cunha de Azeredo  Coutinho Sousa Chicorro.”
O Tenente João Manoel da Costa e o Alferes Francisco Xavier da Cruz eram irmãos, filhos de João Barbosa da Costa e Damásia Soares. João Manoel da Costa quando faleceu, em 1827,  era Capitão. Entre os filhos de Francisco Xavier da Cruz, destacamos Vicente Ferreira Xavier da Cruz, Miguel Francisco da Costa Machado, Joaquina Maria de Santana, Mathildes Quitéria da Cruz, Gonçalo José Barbosa, todos importantes na povoação da Região de Angicos.

As raízes Angicana de Micarla de Sousa


As Raízes Angicanas de Micarla de Sousa
A eleição terminou, mas a ressaca eleitoral continua e deve ir até o carnaval. As queixas, os ressentimentos e  as novas pressões estão no ar. Mas, a Terra caminha para completar mais uma volta em torno do Sol, e este, iluminando a todos indistintamente, segue  no seu movimento pelo Universo indiferente a tudo.
Aqui continuaremos nossas pesquisas, reconstituindo um pouco a nossa história que se encontra submersa nos livros de registros. Escrevemos o último artigo sobre o Barão de Serra Branca e seus irmãos e agora vamos escrever um pouco sobre alguns ascendentes da Prefeita eleita, Micarla de Sousa.
Socorro Sousa me encaminhou para Socorro Medeiros, irmã de João Felipe de Medeiros, que conviveu comigo no governo de Garibaldi, ele como Chefe de Gabinete na STOP e eu como Adjunto na Secretaria de Planejamento. Socorro me forneceu alguns dados que ligavam José Paulino de Sousa, pai de Carlos Alberto de Sousa e avô de Micarla a Maria Jovelina, cuja ascendência eu já conhecia. Pois bem, Paulino e Adelaide, mãe de João Felipe de Medeiros, eram filhos de Maria Gonçalves de Sousa e Lafayete Pinheiro de Sousa.  
Maria Gonçalves, por sua vez, era filha de Maria Jovelina Bezerra Torres (tia Sinhá) e João de Deus Gonçalves (Janjão), filho de João Felippe Teixeira de Sousa e Quitéria Olímpia de Deus Gonçalves. João de Deus e Maria Jovelina casaram em 1894. Maria Jovelina nasceu em 24 de abril de 1875.  Eram seus pais Francisco Avelino da Costa Bezerra e Josefa Maria da Costa Torres. Foram seus padrinhos os tios Cadete José Avelino Martins Bezerra e Francisca  das Chagas Torres.
Josefa Maria da Costa Torres descendia, por sua vez, de Francisco Xavier Torres Junior que veio de Touros, e de Maria Joaquina Lúcia da Costa. Eram pais de Francisco Xavier, Francisco Xavier Torres e Úrsula Córdola do Sacramento. Minhas informações sobre os Torres param nesse último casal.
Já Francisco Avelino da Costa Bezerra, pai de Maria Jovelina, era filho de Alexandre Avelino da Costa Martins e Anna Francisca Bezerra. Alexandre teve uma participação muito ativa na região. Além de erguer a Capela de Nossa Senhora da Conceição  de Carapebas, hoje Afonso Bezerra, foi vereador na Câmara Municipal de Angicos, de 1853 a 1857; em 1861 tomou posse na Câmara como 2º Juiz de Paz; em 1862 tomou posse como Delegado de Polícia do Termo da Villa de Angicos. Anna, a mãe de Francisco Avelino, era filha do Tenente Coronel Antonio Francisco Bezerra da Costa, um dos primeiros povoadores de Carapebas que também  foi  vereador da primeira Câmara Municipal de Angicos, em 1834. Todos esses personagens, Antonio Francisco, Alexandre Avelino têm como ascendentes comuns o português, residente no Assú, João Barbosa da Costa e Damásia Soares. Uma filha desse último casal, Anna Barbosa da Conceição era casada com o fundador de Angicos Antonio Lopes Viégas. Anna era irmã de Antonio Barbosa, pai de Antonio Francisco e do Capitão  João Manoel da Costa. Este último era pai de Vicente Ferreira da Costa e Mello do Ó, o pai de  Alexandre Avelino.
O Bezerra da família vem de Claudiana Francisca Bezerra, esposa de Antonio Barbosa da Costa. O pai de Alexandre Avelino, Vicente Ferreira da Costa e Mello do Ó casou com Joaquina Maria do Rosário que era filha de Antonio Martins dos Santos e Felipa Maria Duarte. Felipa era filha do fundador de Angicos Antonio Lopes Viégas.
Maria Jovelina, trisavó de Micarla, era prima carnal do médico cardiologista aqui em Natal, Francisco Téodulo Avelino, ex-deputado estadual e prima legitima do Jornalista Pedro Avelino, ex- prefeito do Acre, e do rábula Emygdio Avelino (pai de Edinor e avô de Gilberto Avelino) que se fixou em Macau, onde foi Intendente Municipal. Emygdio foi Deputado à Assembléia Estadual em várias legislaturas. Era Maria Jovelina, ainda, sobrinha do Cadete e herói da Guerra do Paraguai, José Avelino, que presidiu a Câmara Municipal de Angicos, antes de João Felippe da Trindade. O escritor Afonso Bezerra era primo em segundo grau de Maria Jovelina. Monsenhor Júlio Alves Bezerra e  o Jacob Avelino Bezerra que foi  vice-prefeito de Angicos eram primos legítimos de Maria Jovelina.
Já João Felippe Teixeira de Sousa, pai de João de Deus, foi professor e rábula. Conta “Padre” Xavier que ele trocava o r por l. João Felippe foi Secretário da Câmara Municipal de Angicos na mesma legislatura em que Alexandre Avelino foi vereador. João Felippe Teixeira de Sousa era filho de José Teixeira de Sousa e Maria Manoela da Conceição  Quitéria Olímpia de Deus Gonçalves, esposa de João Felippe,  era filha de João de Deus Gonçalves e de  Francisca das Chagas de Deus Gonçalves (Azevedo). Quitéria era irmã de Joaquim Firmino de Deus Gonçalves. O esposo de Maria Jovelina tinha o mesmo nome do avô paterno e por isso não herdou o sobrenome Sousa e sim Gonçalves.
O Sousa de José Paulino vem de Lafayete Pinheiro de Sousa. Os sobrenomes Torres, Avelino e Bezerra desapareceram nas descendências seguintes.

Casar sem sol, só com licença especial

Casar sem sol, só com licença especial
Na busca por informações anteriores ao ano de  1823, sobre nossos ancestrais, fiz algumas pesquisas nos livros da nossa Catedral. Talvez lá encontrasse alguma referência. Tenho achado, realmente, alguma coisa. Mas, o interessante são os documentos que mesmo não se referindo a  minha família, vale a pena conhecer. O primeiro que transcrevo aqui é o batismo de Amélia por ter o registro dos avós dos dois lados, e padrinhos, Majestades  Imperiais.
“Aos vinte e cinco de Dezembro de mil oitocentos e trinta Nesta Matriz o Reverendo Feliciano José Dornelles baptizou solennemente a Amélia nascida aos vinte e hum de Outubro do mesmo anno, filha legitima de Antonio Pedro d’Alencastro, e D. Maria da Conceição e Alencastro brancos moradores nesta cidade; Neta Paterna do Coronel Manoel José de Alencastro, e D. Maria da Luz e Menezes; e Materna do Capitão Bartholomeu Lourenço da Silva, e D. Gertrudes Antonia Joaquina de Neiva. Forão Padrinhos Suas Majestades Imperiaes por Portaria que aprezentarão o Excellentissimo Vice Presidente desta Província Antonio da Rocha Bezerra, e o Ilustríssimo Commandante das Armas Pedro José da Costa Pacheco. Do que  mandei fazer este assento, que assignei. Antonio Xavier Garcia d’Almeida. Vigário Interino.”
O Reverendo  Feliciano José Dornelles e Antonio da Rocha Bezerra foram membros do Governo Provisório na  Revolução de 1817 e, por isso, foram presos em 23 dezembro de 1817 e pronunciados em 13 de setembro de 1818. O Padre Antonio Xavier Garcia d’Almeida foi Deputado Provincial por três legislaturas.
Outro registro interessante está no livro de casamentos, em 1833, onde o visitador deixou escrito suas recomendações:
“Vistos em Vizita. O R.do Parocho d’hora em diante fará assignar as Testemunhas ao pé de cada termo, q lançar no livro dos Casamentos, na forma da Constituição liv.1º Tit. 73; o que se intenderá sôbre os Casamentos celebrados na Matriz, onde se acha o livro: quanto porém, aos q se fiserem fora por sua delegação, deverão os seos delegados na Certidão ou Termo, que enviarem, ao pé da licença faser assignar tãobém  as Testemunhas; e o R.do Parocho no Termo, que lançar no seo livro, dará sua fé de que venhão assignadas as Testemunhas com o Sacerdote seo delegádo. In ore duorum, vel trium stat omine verbum. O Matrimónio abrange a idea de contracto, e Sacramento: o Termo, que se faz he muitas vêzes necessário para documento civil. Outrossim não se póde casar sem especial licença antes de nascer o sol, nem depois d’elle posto. O R.do Parocho nas licenças, q der, recommendarão aos Sacedortes o exame da Doutrina Christan, e a Confissão antes de cazarem os Nubentes: o que lhe recommendo, por me constar, que a relaxação á este respeito tem chegado ao cúmulo não da parte do R.do Parocho, cuja conducta me cumpre Louvar; mas sim de alguns Padres desregrados, que vivem sem methodo, e sem escrúpulos nas suas obrigacioens. Ao 17 de Dezembro de 1833. assinatura ilegível”
Em seguida vamos transcrever o registro de casamento de um dos filhos de Fabrício Gomes Pedroza.
“Aos oito de junho de mil oito centos e oitenta e dois, na Capella de Guarapes d’esta freguezia de Natal, sendo testimunhas Amaro Barreto Filho e Júlio Cezar Paes Barreto, havendo precedido os proclamas, dispensa de impedimento de consaguinidade et servatis servandis, o Reverendo João Urbano d’Oliveira, de minha licença, assistio a celebração do Sacramento do Matrimonio de Fabrício Gomes Pedroza e Isabel Cândida d’Albuquerque Maranhão; elle natural do Recife, parochiano d’esta Freguezia, filho legitimo do finado Fabrício Gomes Pedroza e Damiana da Silva Pedroza; ella natural d’esta freguesia, moradora na Penha, filha legitima de Amaro Barreto d’Albuquerque Maranhão e Feliciana Maria da Silva e Albuquerque. E deu lhes bênçãos Nupciaes pelo Ritual Romano. Do que fez-se este termo. Padre João Maria Cavalcante de Brito Parocho da Freguesia.”
O Velho Fabrício casou-se três vezes. A última Luiza, era irmã de Amaro Barreto. A primeira, Maria da Silva, era mãe de Feliciana, esposa de Amaro. A segunda Damiana, filha de Francisco Pedro Bandeira de Melo, era mãe do nubente Fabrício, que casou com a sobrinha Isabel Cândida. Isabel Cândida era irmã de Pedro Velho, Alberto Maranhão,  Augusto Severo e Inês Augusta, esposa de Juvino Barreto. Julio Cesar, acima, era irmão de Juvino. O pároco da Freguesia era o nosso famoso Padre João Maria, que era irmão de Amaro Cavalcanti, ilustre jurista do nosso Estado.

As verdades de José da Penha

As verdades de José da Penha
O capitão José da Penha nos surpreende a cada momento em que temos acesso a fatos de sua vida. Em 1899, ele tinha terminado de escrever, com apenas 24 anos, o livro “O Espiritismo e os Sábios.”  Vamos transcrever, mantendo a ortografia, tanto quanto possível, um trecho do livro. Raimundo de Farias Brito, em uma introdução, diz : “ O auctor, com effeito, collocando-se no terreno dos princípios geraes, faz não defesa de uma these, mas estudo comparativo. Aprecia a influencia da religião sobre a moral, a influencia da moral sobre o governo. E de sua analyse, sempre imparcial, por vezes emocionante e cheia de ardor, sempre justa, sempre sincera, vistas são lançadas que tocam de perto aos mais árduos problemas da especulação metaphysica. E uma cousa fica fora de duvida: é que o jovem auctor deste livro, é um temperamento profundamento religioso, revelando neste trabalho, como em outros, do modo o mais saliente a sede de ideal que o devora.”
Há um momento no livro, que fazendo uma análise sobre Alan Kardec e sua obra, J. da Penha diz:
“O certo é que os principios básicos do “Livro dos Espíritos” são, em francez, e no estilo do autor, os mesmos de que nos deixaram uma recordação escrita, os collaboradores das mais prístinas civilisações”. Continua J. da Penha: “ Aquietem-se os mais abespinhados pela franqueza desse reparo, porque não entra nos meus calculos a preocupação da hostilidade ao patrono do espiritismo contemporaneo, tão somente buscarei prestar submissão aos imperiosos reclamos da verdade.”
Aí ele continua, abrindo um espaço para a verdade em que acredita, escrevendo:
“Ventilando fatos incontestáveis, será difícil guiar para o desacerto e a injusticça: alem de que a verdade è, para mim, a única razão de ser de nossos idéaes. Não sou dos inclementes na punição de nossas fraquezas, mas considero uma das mais puníveis, deixar deliberadamente que a mentira se combine com a tinta para a ocupação caligráfica do papel.
Transmitir a nossos semelhantes idéas deturpadas pela hipocrisia, antolha-se-me uma das mais requintadas vilezas da consciência.
Rebuçar com o vigor do colorido, a intensidade da imagem, a dutilidade da forma de um paramentoso estilo, a sinceridade a nos escapar da penna, é exercitar-se num dos mais repugnantes jogos da intelligencia.
Imprimir mentiras para lisongear paixões, apaniguar interesse e condescender com o erro, é dar abominável emprego ás faculdades, que nos distinguem do bruto, remido de sua inferioridade, si também soubera escrever.
Transigir com a falsidade ao publicar o resultado de suas vigílias, condiz com a mais completa expressão de pusilanimidade de um espírito, malfazejo e tábido si, alem disso, tripudia sobre os destroços da ingenuidade dos que não tiveram ensejo de polir o entendimento.
A palavra escrita é um dos mais seguros elementos de triunfo nas lutas pela civilização e pode-se até dizer que ruiriam por terra todas as outras instituições, si, por uma combinação satânica e impossível, parassem para todo o sempre todas as pennas do mundo.
Contrista-me de véras, que possamos abusar, em proveito de nossas vis paixões, de tão soberana faculdade; enluta-se me o espírito quando me lembra que póde alguém vasar no livro, no jornal e no pamfleto, impressões que não sentiu, dissimulando as fórmas da verdade, rebuscando nas cintillações dimantinas do idioma bem estudado, o meio de ocultar por algum tempo as refulgências da justiça,
Manejar a penna, o mais simples e maravilhoso instrumento auxiliar da alma, para architetar calumnias, abocanhar sorrateiramente ilibadas reputações, provocar a explosão de ódios adormecidos, referendar a prepotência, abafar o grito da innocencia e combater o respeito á honestidade das idéas sãs, - equivale a galgar a culminancia da escala de uma certa classe de crimes, para os quaes se não inventou ainda o maximo rigor de leis, compatíveis com o estado atual da moralidade humana.
Entre o envilecer-me nas praticas servis de tal função e o desaprender de todo o abecedário, elegeria a segunda contingência, ficando ainda orgulhoso de ser analfabeto.
Perdoaria e comprehendo, a improbidade e o embuste em todos os comércios, exceto no das letras. Escrever é um sacerdócio a que todos deviam respeitar.
De mais de uma falha se resente meu espírito, inadaptável, por esse motivo á hipocrisia literária do meio, em que se desenvolve com insuficiencia e lentidão.
Ora, a lealdade dos pensamentos vibrados neste papel, e a possibilidade de armar uma injustiça contra A. Kardec ou qualquer outro, repellem-se como a virtude e o vicio.
Não é diminuta concessão lhe atribuir qualidades e méritos, que outros timbram em negar, não lhe concedendo nem o do amor e apego das idéas que propagava.
O trabalho de adaptação da metafísica oriental, ao estado de crenças dominantes no seu tempo, face a face de uma civilisação muito mais opulentada de conhecimentos cientificos, artísticos e filosóficos, reclamava-lhe grande copia de aptidões e esforços.
Reunindo em si todos os predicados de um reformador, no departamento em que desabrochou com exhuberancia a sua intelligencia, saiu-se galhardamente da empreza,
Tinha o condão de arrebanhar prosélitos, de gerar fanáticos, de organisar partidos. Provam-no – e do modo mais irrefragável – as innumeras dedicações que se creou e a mesma celebridade a sobreviver á sua morte.”
Este livro merece ser reeditado, para conhecimento de todos

As Cartas do Capitão José da Penha (II)

As Cartas do Capitão  J. da Penha (II)
A terceira carta do capitão José da Penha para as filhas é datada de 27 de Agosto de 1913. “Minhas filhas. Depois da longa enfermidade, que me comprometeu, vieram as emboscadas tenebrosas dos inimigos, que derrotados já pela propaganda, recorreram a todos os meios de vencer-nos pela prepotência e a força. Não descansei, nem tive depois de doze de julho, tempo senão para a política e para defender-me. Agravaram-se as dificuldades sendo preciso telegrafar a cada instante e ouvir inúmeras pessoas todos os dias. O telégrafo esteve fechado para Leônidas, até ontem. Quer os meus quer os telegramas do Rio, são escandalosamente truncados. O povo coagido pela polícia começa a desanimar. Tudo se reanimaria, salvando-se, de repente, o que já naufragou, se Leônidas viesse, como se comprometeu e era necessário. Se não vier, não sei bem o que nos acontecerá; mas pressinto a nossa vitória ainda que mais tarde com o próprio Chaves (Ferreira Chaves), se vencer contra a vontade de uma colossal maioria de riograndenses. A minha obra, filhas, tenho orgulho dela. Imortalizei-me no coração deste povo que será oprimido, mas não será de todo vencido. Para muitos já sou um ente fora do natural. E o futuro trará infalível recompensa não dos sacrifícios que tenho feito. A liberdade não morre! Esta é para seus avós  também e para  toda a família. Mando a procuração que o compadre pediu. O dinheiro que receber deve ser dividido, ficando o que vocês precisarem aí. Abracem por mim o Vieira, Raul, Helena, Rita e os demais da família. Escrevam-me sempre. Do Rio nenhuma carta desde o mês passado. Do pai que não as esquece. J da Penha.”
Um mês depois, José da Penha partia de Natal, como nos fala Aluizio Alves, em uma belíssima reflexão, que intitulou de “Na Solidão do Mar”, no livro de sua autoria, A Primeira Campanha Popular no Rio Grande do Norte: “Dia 27 de setembro de 1913, no navio Bahia, J. da Penha embarcou para Recife e de lá para o Ceará, a fim de reassumir sua cadeira de deputado na Assembléia Legislativa. É difícil penetrar na alma das criaturas humanas, até daquelas com quem convivemos todos os dias. E, ás vezes, difícil penetrar em nossa própria alma, e arrancar-lhe os segredos que ela teima em esconder. Muito mais difícil é, certamente, mais de meio século depois, ir ao fundo da alma de José da Penha Alves de Sousa, brilhante capitão do Exército, trinta e oitos anos de idade, jornalista, escritor, líder popular de uma campanha fascinante e frustrada, aclamado pelas multidões, bravo ante todas as ameaças e riscos, posto diante de si mesmo, na solidão de um camarote de navio, dentro da noite do Atlântico, após tudo isto. Eu tento faze-lo, com a pequena experiência de quem sonhou, lutou, venceu, perdeu, recomeçou, e viveu momentos em que à sua frente todos os muros se alteavam, e todos os aplausos pareciam se transformar em silêncio. É  aquela terrível hora em que cada um pergunta, temendo a própria resposta: - afinal, por que? - Ele veio servir ao seu povo. Foi buscá-lo no abandono da pobreza e da humilhação para levá-lo a viver com dignidade as aspirações da pátria comum. Fez da palavra uma semeadura de esperanças. Colocou-se acima do ódio morno, frio, ou desesperado. Sacrificou saúde, bens, tranqüilidade. Pôs em jogo a carreira e a vida. Quando alguns cansavam, renovava ânimos. Quando outros desistiam, ele multiplicando energias, ocupava o espaço vazio. Arrancou dos lares, das escolas, das oficinas, dos campos, velhos e moços, homens e mulheres, pretos e brancos, e as próprias crianças, abrindo-lhes, a todos,  as perspectivas de itinerário mais nobre e mais digno. Confiou nos que prometeram, e falharam. Não faltou, em nenhum momento, ao compromisso da sua vida. Afinal, para que? Depois de tudo, as conspirações da intriga, as imposições da força, a violência estrutural do poder viciado, corrompido nas suas nascentes e corruptos nos seus objetivos, apagou, na cilada final de uma madrugada de violência, todo um sonho de uma redenção popular.  A ele, comandante solitário, restava pequeno camarote de navio no meio do mar, nas sobras da noite, em que as últimas luzes eram as infinitas estrelas do céu. Porque as outras, as maiores e mais claras, que eram os olhos do povo iluminado de esperanças, se haviam apagado sob o desencanto da derrota que não houve. Tento compreender essa hora de José da Penha Alves de Sousa. E penso compreender a segunda hora. A do soldado solitário que joga fora a poeira da última batalha dá a volta por cima, e desce na terra firme de Fortaleza, para outra luta, esta de vida e morte.”

As Cartas do Capitão José da Penha (I)

As Cartas do Capitão J. da Penha (I)
“Tabuleiros, onde minha infância perseguiu borboletas. O meu coração tem a dureza daquelas pedras. E com este rochedo de carne, hei de esmagar a oligarquia dominante.” José da Penha. Do livro de Aluizio Alves, A Primeira Campanha Popular no Rio Grande do Norte.
As cartas aqui apresentadas são do acervo de Heitor Pinheiro, neto de José da Penha Alves de Sousa. A transcrição delas, neste espaço, tem o objetivo de nos fazer compreender melhor o nosso capitão. Elas foram escritas há 94 anos atrás e, por isso, não estão em perfeito estado de conservação, o que dificulta sua leitura. A primeira não tem data e é uma carta mais simples. Está escrito mais ou menos o seguinte:
“Minhas queridas filhas. Tudo em paz. Festas e gente de mais. Nem para cuspir há tempo. Em Natal e Macaíba a multidão de mulheres e crianças me comoveu e intimidou os oligarcas. Digam a Comadre e Compadre que não deixem vocês fazer malcriações. Mandem-me sem falta a minha caderneta e peçam a compadre para mandar também por Dr. Moreira da Rocha uma fotografia que está com o artista Paulo Barra (incompleto). Mando uns jornais e quanto a dinheiro peçam ao Vieira o que precisar. Peço que me perdoe não ter me despedido dele e do compadre. Recebi a encomenda de Moreira da Rocha. As meninas do Cyrineu e de Dona Anna são uns anjos. Escrevam-me. Diga a Vieira que escreva. Até breve e fiquem sabendo o que eu já disse às famílias de Macaíba que vocês é que me tinham apressado a partida para essa jornada de liberdade e de justiça. Não me desmoralizei. Abracem as meninas e dêem um bele(incompleto) na Rita e lembranças ao Raul. Do pai J. da Penha.”
A segunda carta foi escrita em papel timbrado dos Correios do Rio Grande do Norte, no dia 12 de maio de 1913, e diz o seguinte: “Minhas queridas filhas e Comadre Zefinha. Abracem todos. Estou muito bem. Amanhã passarei meu natalício no mar. Vou para Mossoró. Aqui tudo na paz. Cessaram as ameaças. Ando só a qualquer hora da noite, mais seguro que o Alberto (deve ser Alberto Maranhão). O nosso Leônidas (Leônidas Hermes, filho do Presidente Hermes da Fonseca), filhinho de peixe, nada muito bem. À imprensa uma coisa e para mim outra pelos telegramas. O povo está correto, com entusiasmo e sem medo. Não retirarei mais o nome de Leônidas nem que chova tapioca (é o que consegui ler) ou qualquer outra coisa. Há de subir ou cair comigo, a Nação, vendo que tínhamos um pacto. Minha boca não se abre para dizer que ele não quer porque juraria falso. Quanto ao monstro Pinheiro Machado, Senhora Dona Annita, seu pai ainda viu agora melhor do que os politiqueiros e os cobardes. Não é nem será nunca o presidente da República. Quando acabarem o dinheiro previnam-me. Achei linda a seda. Enfeitem com (ilegível) grelat, ou vidrilho. Estou muito satisfeito com o progresso da nossa boa estudiosa Zaíra. A venda da casa é preciso filha. Devo um pouco mais do que pensas, mas já dei ordens a teu tio para pagar o seguro de 30 contos, que fiz e suspendi. Casas, minha filha, obtém-se a qualquer momento. Se não tens fé, tenho eu. Sofra o que sofrer, levantar-me-ei mais adiante. A última batalha da vida será nossa e, a da que falaste é quase certa já ganhei a mais importante: a derrota do sonhos do Pinheiro maldito. Comadre, diga a Compadre que o tempo aqui ainda é mais escasso. Recebi o que trouxe Manuel Ignácio, peço ao compadre que apertes o Moreira de Sousa. O prático Manuel da Costa, do Victoria e o comandante do Natal são de confiança. Fiz o pedido do Vieira, não me esqueci de Rita, a qual responderei depois. Vou renovar o pedido a Maria. Abraços de J. da Penha.”