segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Damásia Francisca Pereira e a lenda

 
Damásia Francisca Pereira e a Lenda
As tragédias, os escravos, os índios e as lendas estão sempre presentes na genealogia das famílias brasileiras. Algumas lendas parecem ser comuns a muitas famílias. Já vi várias genealogias que começam com a chegada, no Brasil, de três irmãos. Quando buscamos informações sobre nossos ancestrais nos deparamos com muitas surpresas.
No artigo anterior, transcrevemos a Lenda de Damasinha escrita por Aluízio Alves que afirmou, no seu texto: “abriu-se inquérito, ainda hoje existente no cartório de Angicos”.  Não li ainda esse inquérito para conferir as informações ali contidas, mas neste artigo, vamos transcrever alguns registros da Igreja para comparar com o que está escrito na lenda. Em primeiro lugar vamos transcrever o casamento de Damásia Francisca Pereira que era o nome de Damasinha.
Aos onze dias do mês de outubro de mil oitocentos e trinta e um, no Sítio Penedo, desta Freguesia, pelas quatro horas da tarde, depois de obtida a dispensa de impedimento de segundo, e terceiro graus de consanguinidade, e tendo precedido as canônicas denunciações, sem impedimento, confissão, e exame de Doutrina Cristã, ajuntei em matrimônio, e dei as bênçãos nupciais aos meus paroquianos Antonio Lopes Viégas, e Azevedo, e Damásia Francisca Pereira, naturais e moradores nesta Freguesia, ele filho legitimo de Francisco Lopes Viégas, já falecido, e de Anna Joaquina de Azevedo, e ela filha legitima de João Pereira Pinto, e de Michaella Archangela; sendo testemunhas Francisco de Borja Soares Raposo da Câmara, e Francisco Antonio Teixeira, casados. Do que para constar fiz este assento, que com as ditas testemunhas assino. O Vigário João Theotonio de Sousa e Silva.
Pelo registro acima, o marido de Damasinha era Antonio Lopes e não Francisco Lopes, como estava escrito na lenda. Francisco Lopes era na verdade o pai de Antonio Lopes, e, portanto o sogro de Damasinha. Além disso, como Francisco Lopes era irmão de Michaela Archangela, Antonio Lopes era primo legítimo de Damasinha.
Já levantei a hipótese, em outro artigo, que a esposa de Francisco de Borja, Anna Francisca dos Milagres, era filha de João Pereira Pinto e Michaela Archangela. Por isso, o marido dela estava nesse casamento de Damásia. Nesse artigo, consta que Damasinha foi madrinha, em 1832, de uma filha de Francisco de Borja e Anna Francisca dos Milagres.
O outro registro que transcrevemos para este artigo é o óbito de Damásia que também, em diversos outros documentos, é conhecida como Damásia Pereira Pinto, pois era filha de João Pereira Pinto, como visto acima. Diz o registro de óbito:
Damásia Pereira Pinto, mulher de Antonio Lopes Viégas, com a idade de 30 anos, foi sepultada nesta Matriz de grades abaixo a 18 de Agosto de 1844, envolta em branco, e por mim solenemente encomendada. E para constar fiz este assento, em que assino. O padre Felis Alves de Sousa, Vigário Encomendado de Angicos.
Na lenda consta que o crime aconteceu nos festejos do padroeiro de Angicos, São José, em 1843. Por essa informação deveria ter sido, então, nas proximidades do dia 19 de Março de 1843. Entretanto, Damasia Francisca Pereira foi sepultada no dia 18 de Agosto do ano seguinte, como registrado acima. Outro detalhe nesse óbito é que não há nenhuma informação sobre a causa da morte, sempre presente nos registros. Vejamos agora o óbito de Antonio Lopes Viégas, marido de Damásia.
Aos quinze de fevereiro de mil oitocentos e sessenta e nove foi sepultado no Cemitério desta Vila, o cadáver de Antonio Lopes Viégas, morador nesta Freguesia, viúvo, por falecimento de sua mulher Damasia Pereira Pinto, e falecido de um cancro, na idade de setenta anos, pouco mais ou menos, com os Sacramentos da Igreja, e foi amortalhado em branco, e por mim solenemente encomendado. Do que faço este termo, em que assino. O Vigário Felis Alves de Sousa.
Pela informação acima, Antonio Lopes Viégas permaneceu viúvo por 25 anos até morrer, possivelmente, por conta do crime.
Entre os filhos do casal acima, encontramos Pedro, que nasceu em 29 de junho de 1835; Antonio que nasceu em 15 de fevereiro de 1840; e Henriqueta que casou em 1 de julho de 1855, com Antonio Lopes Viégas, filho de Antonio Lopes Viégas e Izabel Maria da Conceição. Depois, enviuvando, Henriqueta casou com o viúvo Antonio Baptista de Oliveira. Os dois casamentos de Henriqueta foram na família Lopes Viégas.
Outra informação que se encontra na Lenda diz: “o tresloucado Lopes vai à casa do seu compadre João Felippe da Trindade, figura de saliência na vida municipal, e comunica-lhe sorrindo, o fato hediondo. Pelos registros da Igreja, João Felippe não era casado nessa época, e tinha apenas 24 anos. Se ele fosse compadre seria por ser padrinho dos filhos de Damasinha, mas não encontrei essa informação. Talvez, o compadre fosse o pai de João Felippe, João Miguel da Trindade.
As lendas, na maioria das vezes, são pedaços de verdades que ocorreram em tempos diferentes, lugares diferentes e personagens diferentes, algumas vezes da mesma família.

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