terça-feira, 30 de outubro de 2012

João Teixeira de Barros e a família Tetéo de Macau



João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG

Lá de Macau, quem me mandou um e-mail foi Afonso de Ligório Lemos, que atuou na política desse município como vereador, vice-prefeito e prefeito. Como leitor do Jornal de Hoje tem acompanhado meus artigos sobre as origens das cidades e famílias daquela região. Revela que tem uma enorme vontade de escrever um livro sobre Macau e a região. Disse mais, que tinha um bom material sobre a família Lemos e Tetéo, e que colocava a minha disposição, caso me interessasse.
Sobre a família, informa que seu bisavô, Feliciano Tetéo, foi superintendente da Guarda Nacional, e, também, intendente de Macau; que Pedro Tetéo, seu avô, era coronel da Guarda Nacional e delegado da cidade de Macau, por vários anos; que Francisquinha Lemos, conhecida como política, sem ter mandato, teve grande participação nos governos de José Varela e de Aluízio Alves.
Como tudo que se refere à região de Macau me interessa, pedi que me avisasse quando viesse a Natal, pois gostaria de conversar e ver os documentos ofertados. Conversei, posteriormente, com o jornalista Túlio Lemos, seu filho, sobre meu interesse em conversar com Afonso.
Eu já tenho algumas informações sobre a família Teixeira de Barros e Tetéo. Mas essas informações são esparsas e faltam alguns elos que só poderiam ser elucidados por membros da família. Aqui, vou colocar algumas  que já apurei, começando com o bisavô de Afonso.
Feliciano, semibranco, filho de João Teixeira de Barros e Anna Gomes da Costa, nasceu aos vinte e um de março de mil oitocentos e cinquenta e um e foi batizado, solenemente, pelo padre Elias Barbalho Bezerra, na capela das Oficinas, a nove de junho do mesmo ano; foram padrinhos Vicente Rodrigues Ferreira, casado, e Francisca Ferreira, solteira, e para constar fiz este termo em que me assino. Padre Elias Barbalho Bezerra, coadjutor pro pároco do Assú.
Os pais de Feliciano, João Teixeira de Barros e Anna Gomes da Costa, contraíram núpcias em 2 de maio de 1850, na capela de São José das Oficinas, tendo como testemunhas Francisco Moreira da Silva Jr. e Vicente Ferreira Rodrigues, padrinho no batizado acima. Infelizmente no registro de casamento não aparecem os pais dos nubentes. Vejamos o casamento de Feliciano. O livro, onde consta o registro desse casamento, é uma transcrição do original. Encontramos nessas transposições de registros vários erros. Por isso, acredito que escreveram João Ferreira no lugar de João Teixeira, embora alguns filhos do casal apareçam com sobrenome Ferreira.
Aos doze de novembro de 1871, na capela do Rosário, Feliciano Ferreira Tetéo casou com Adelaide Maria do Espírito Santo. Ele, filho de João Ferreira de Barros e Anna Gomes Ferreira. Ela, filha de Pedro Nolasco da Fonseca e Maria Ignácia de Jesus. Foram testemunhas Floriano Ferreira Tetéo e Antonio Barbosa Pimentel.
Temos, também, o registro de batismo do avô de Afonso. Pedro, filho de Feliciano Ferreira Tetéo e Adelaide Maria da Fonseca, nasceu aos 28 de junho de 1881, e foi batizado em 1 de julho de 1881, tendo como padrinhos João Coelho da Silva e Emília Ferreira Tetéo. Essa Emília era irmã de Feliciano. Nasceu aos 12 de fevereiro de 1859.
No livro de alistamento eleitoral, encontrado no Museu José Elviro, há os registros, como eleitores, de alguns filhos de João Teixeira de Barros, que são listados a seguir. Secundes Teixeira de Barros, prático, 52 anos; Feliciano Ferreira Tetéo, empregado no Porto, 40 anos; José Teixeira de Barros, 30 anos, marítimo; Manoel Ferreira Tetéo, 29 anos, marchante; André Ferreira Tetéo, 39 anos, marchante.
Nesses registros eleitorais não aparecem os nomes das mães dos eleitores. Esse Secundes Teixeira de Barros era filho de João Teixeira de Barros e Francisca Xavier da Silva. Casou, na capela de Nossa Senhora da Conceição de Macau, com Juvina Maria da Conceição, filha de José Mendes da Costa e Faustina Maria da Conceição. Além disso, encontramos o batismo de Manoel, filho de Secundes Teixeira de Barros e Juvina Maria da Conceição, nascido aos 5 de março de 1858, e batizado aos 24 do mesmo mês e ano.
No casamento de João Teixeira de Barros com Anna Costa não consta que ele era viúvo. Portanto, não pode ser o mesmo que casou com Francisca Xavier, em 1825. Suspeito que esse segundo João Teixeira de Barros seja filho ou sobrinho do primeiro, cujo registro de casamento segue: Em 15 de abril de 1825, na capela de Nossa Senhora da Conceição da Ilha de Manoel Gonçalves, Frei Francisco de Santa Teresa casou João Teixeira de Barros, 20 anos com Francisca Xavier, 18 anos. Ele, filho de Manoel Teixeira de Barros e Antonia Maria da Conceição, e ela, filha de João Pereira da Silva e Maria dos Santos Rosa. Foram testemunhas João Martins Ferreira (meu tetravô) e Ignácia Teixeira de Barros, casados.
Além de Secundes e, talvez, João Teixeira de Barros, encontramos três  filhos de João e Francisca: Aos 24 de abril de 1831, nasceram Cosma e Damiana, que foram batizadas na capela de São José das Oficinas, em 4 de setembro do mesmo ano; aos 29 de novembro de 1855, na Fazenda Amargoso, Joaquim Teixeira de Barros casou com Anna Senhorinha da Conceição, filha de José Joaquim de Sousa e Maria Joaquina de Jesus.
Os livros e documentos importantes para História de Macau, que estão no Museu José Elviro, já estão sendo digitalizados?




terça-feira, 23 de outubro de 2012

O desabafo de Valério e o efeito borboleta

João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG
Museu Popular Djalma Maranhão
Há poucos dias o presidente do Tribunal de Contas do Rio Grande do Norte fez, neste mesmo jornal, um artigo desabafando todas as suas angústias quanto ao destino dos órgãos de contas, em face dos pronunciamentos de juristas e não juristas desta terra, bem como do entendimento de alguns ministros dos tribunais superiores sobre as competências das Câmaras Municipais para julgamento dos atos de gestão dos prefeitos. Fez uma análise perfeita levando em conta o preparo do órgão técnico e a falta de isenção das atuais câmaras para uma análise correta e um julgamento imparcial. Todos os munícipes, juristas ou não, vereadores ou não, deveriam ler o desabafo de Valério.
Qualquer individuo que tenha acompanhado o pleito eleitoral nos diversos municípios deste Estado viu que a campanha se desenrolou debaixo de paixões avassaladoras sem o mínimo de senso crítico. Toda essa paixão desenfreada contamina as Câmaras e faz delas órgãos sem a menor isenção para julgar qualquer coisa.
As contas de 2008 do prefeito Carlos Eduardo foram examinadas debaixo dessa falta de isenção. Foram os próprios vereadores, em entrevista nos jornais que reconheciam seu desconhecimento sobre contas. Quem não sabe manda para quem sabe, para quem se preparou para examinar devidamente. Mas esses vereadores, sem isenção, não procederam dessa forma. Isso levaria tempo e atrapalharia o plano de tornar o prefeito inelegível. Cada um, a seu modo, tentava exercer sua vingança pessoal, ou não queria se incompatibilizar com os gestores de benesses.
Pior que tudo isso foi o despreparo no julgamento. A Câmara além de não ouvir o órgão técnico auxiliar, que era o Tribunal de Contas, não abriu uma comissão de inquérito para a devida apuração. Não houve, na verdade, apuração dos fatos, um por um, mas simplesmente, como diz o acusador-mor, evidências no Diário Oficial do Município. Ora, indícios sem apuração, implica julgamento incorreto. Nem tudo que parece é. Quantas pessoas foram ouvidas pela Câmara sobre as supostas irregularidades? Quem estava envolvido diretamente nas ditas irregularidades? Para a defesa de qualquer acusado deveria ser apresentado o processo completo com as ditas irregularidades para que se produzissem as devidas defesas. Ou não é assim que tem que ser feito senhores juristas? O prefeito foi convocado para se defender ou mandaram simplesmente um ofício pedindo esclarecimento das vagas insinuações?
Recordamos aqui alguns pontos, da minha compreensão. Não havia necessidade da prefeitura consultar a Câmara sobre a venda, pois ela não gerava nenhum endividamento; muitos dos atos de pessoal publicados no Diário Oficial do Município não eram simples concessão do prefeito, mas direito dos servidores, e tudo isso fazia parte da previsão orçamentária da Prefeitura; a administração municipal não ficou se lamentando dos erros do passado, mas diante de dificuldades financeiras foi em busca de recursos da ordem de 40 milhões. Aritmeticamente, não houve prejuízo de 9 milhões, mas um acréscimo de 31 milhões nos cofres municipais; a administração municipal, mesmo agindo de forma incorreta, não se apropriou dos recursos da previdência municipal, mas se socorreu temporariamente daqueles dinheiros para evitar o caos municipal, tendo devolvido em tempo os recursos, mesmo a Câmara Municipal tendo tentado prejudicar a cidade. O prefeito preferiu se arriscar a ver a cidade caminhar para o abandono. Pergunto aos munícipes de Natal. Houve, realmente, espaço e tempo para o acusado responder com propriedade, e não de forma resumida, como fiz acima, as questões suscitadas?
Entro agora na questão, que denomino o erro de Micarla. Quando cheguei à Administração Municipal em 2003, a situação financeira não era boa, como de costume. Já no segundo semestre participei de reunião com o prefeito com a finalidade de cortar orçamentos e recursos, a fim de equilibrar as finanças, principalmente, por conta de obrigações extras e quedas de receitas no segundo semestre. Esse procedimento se estendeu por todos os anos seguintes. Tudo isso dificultava mais ainda a correção dos diversos planos de cargos e salários dos servidores. O aumento acima da inflação do salário mínimo ia corrigindo algumas situações, mas criava ao mesmo tempo algumas distorções. Todas as projeções que fazíamos para melhorar a situação dos servidores iam além da capacidade financeira da prefeitura.
A prefeita fez uma escolha quando assumiu. Resolveu melhorar o salário dos servidores, como era para ser feito. Só que cometeu um grande equívoco, por falta de assessoramento e incompetência da Câmara, pois não houve previsão das consequências, quando resolveu dar, de uma vez só, muitos benefícios, onerando assustadoramente a despesa com pessoal e encargos, por vários anos pela frente. Como na Teoria do Caos, o efeito borboleta provocou um furacão nas finanças da Prefeitura que impossibilitou a administração municipal de cuidar de outras questões essenciais da população de Natal, agora, e por mais alguns anos pela frente. Já com os dados do orçamento de 2013, constatamos que a despesa realizada com pessoal e encargos em 2011, já ultrapassava em mais de R$ 342 milhões a realizada em 2008. Os investimentos que em 2008 foram de R$ 233.117.000,00 caíram para R$ 78.964.000,00. O item outras despesas correntes evoluiu de R$ 431.690.000,00 para tão somente R$ 594.900.000,00.
Um detalhe que chama a atenção, mas é muito comum na elaboração do orçamento é a previsão, a menos, para os anos seguintes. Para pessoal e encargos, embora a despesa realizada em 2011 já tivesse alcançado mais de 846 milhões, a despesa fixada nesse item, para 2012, foi de aproximadamente 717 milhões e a prevista, para 2013, de aproximadamente 739 milhões.
Infelizmente, a nossa cidade vai ser penalizada por mais alguns anos, a menos que surja algum fato novo que mude essa realidade.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Desabafo - Valério Mesquita

A decisão da Câmara Municipal de Natal de não aprovar as contas do ano de 2008, aprovadas pelo TCE, suscitou uma série de questionamentos sobre o papel dos Tribunais de Contas. O presidente do Tribunal de Contas do Rio Grande do Norte, em artigo no O Jornal de Hoje, chama a atenção para as possíveis consequências desse descaso com esse órgão técnico, se as aprovações ficaram, tão somente, nas mãos das Câmaras Municipais. Por isso, posto na íntegra o artigo do ilustre presidente.



quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A parte e o todo - Heisenberg



Von Holst buscou sua viola, sentou-se entre os dois rapazes e juntou-se a eles na execução da Serenata em ré maior, uma obra da juventude de Beethoven. Ela é transbordante de alegria e força vital; a confiança na ordem central dissipa a covardia e o cansaço. Enquanto eu ouvia, fortaleceu-se minha convicção de que, avaliadas pela escala temporal humana, a vida, a música e a ciência prosseguiriam para sempre, ainda que nós mesmos não sejamos mais do que visitantes transitórios, ou, nas palavras de Niels Bohr, simultaneamente espectadores e atores do grande drama da vida. Werner Heisenberg

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A carta de João Ferreira Domingues Carneiro

Complementando o artigo anterior, vejamos na íntegra, a carta do Juiz João Ferreira Domingues Carneiro

João Ferreira Domingues Carneiro, o Juiz

João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG
A Genealogia já interessa muitas pessoas neste país. Sempre recebo pedido de informações de algumas em busca de seus antepassados.
Mario Bittemilher manda um e-mail com as seguintes informações: minha bisavó, por parte de pai, era filha de escravos em Macau e foi entregue a um padre. O nome dela era Francisca Antônia da Conceição (1894-1991), sendo seus pais biológicos Jerônimo Antônio de Souza e Antonia Maria da Conceição, e teve como pais adotivos João Ferreira Domingues Carneiro e Antonia Joana da Conceição. Com esses dados pedia orientação para pesquisar sobre essas pessoas. Depois, ele mandou mais informações, dizendo que ela foi criada pelo padre Carneiro, filho de João Ferreira Domingues Carneiro e Antonia Joana da Conceição, e que seu pai adotivo era Juiz, e que o padre foi para o Rio de Janeiro.
 Com as informações acima, procurei o livro de Monsenhor Severino, Levitas do Senhor, que trata da biografia de diversos padres, e entre eles encontrei o Padre Francisco Otaviano da Nóbrega Domingues Carneiro. Nesse livro há a transcrição do batismo do padre Francisco, constante do arquivo paroquial de Macau: aos vinte e cinco de outubro de mil oitocentos e noventa e seis, na Igreja Matriz, o Reverendo José Calazans Pinheiro, batizou solenemente a Francisco, nascido a trinta de setembro do dito ano, filho legítimo do Dr. João Ferreira Domingues Carneiro e Josefina da Nóbrega Domingues Carneiro, sendo seus padrinhos Joaquim Álvares da Nóbrega e Francisca Herculana da Nóbrega, representados por Francisco Tertuliano de Albuquerque e Raimunda Adelaide de Saboia Albuquerque, do que para constar fiz este termo que assino. Cônego Vigário Estevão Jose Dantas, encarregado da Freguesia.
O batismo acima corrige a informação sobre a mãe do padre e fica a dúvida se o Juiz Domingues Carneiro teve uma segunda esposa. Pegando carona nas informações de Mário Bittemilher, resolvi descobrir mais sobre o Juiz.
Sem muitas informações nos meus arquivos fui à busca da Hemeroteca da Biblioteca Nacional. O Caixeiro, do jornalista Pedro Avelino, datado de junho de 1893, trata de uma tentativa de assassinato contra o ilustre Juiz de Direito da Comarca do Seridó Dr. Domingues Carneiro. Está registrado: Parece que o bandidismo disfarçado e hipócrita não podia tolerar ali a presença de um magistrado superiormente inteligente e enérgico, como o honrado Dr. Carneiro, que não se quis prestar, nem se prestará jamais a manivela de quem quer que seja. E, como a impunidade do crime e os arranjos judiciários não encontrassem molde no reto espírito do digno moço, tornou-se preciso eliminá-lo.
 Pelas 9/2 horas da noite achava-se a vítima na residência do honrado capitalista e fazendeiro capitão Joaquim Álvares da Nóbrega, e tomara assento á mesa do chá, com a família do seu ilustre hóspede e vários amigos. Corriam cordiais e animadas palestras e refeição, quando, de repente, por uma janela fronteira, sicários mascarados apontam a cabeça do juiz de direito e desfecham as garruchas.
Por um casual e feliz movimento, que então fizera Dr. Carneiro, as balas não o atingem, ficando, porém, ferido por vários bagos de chumbo na cabeça e nos ombros. O Dr. Belarmino Pinagé, que se achava ao lado do juiz de direito, escapou igualmente de ser morto, e bem assim o jovem Josué da Nóbrega, filho do dono da casa.
Mas, essa história não cessou com o atentado, em 24 de junho de 1893. O Juiz escreveu uma longa carta no jornal "O Caixeiro", em 3 de outubro de 1893, respondendo acusações feitas, em outro jornal, por conta de acontecimento ocorridos, em 18 de agosto de 1893, na Vila de Santa Luzia,   por Januncio, Diógenes e Abdon Nóbrega, "parentes ingratos e desprezíveis, que, sem coragem de atacar a descoberto, procuraram aquele meio para incomodar, ridicularizar e caluniar ao seu honrado e respeitável tio o capitão Joaquim Álvares da Nóbrega, que tem o grande crime de ser meu dedicado amigo, e haver por duas vezes estado próximo de ser meu sogro". Nessa carta conta que os inimigos "vendo providencialmente nulificada a ação de bacamarte e de bala posta em ação contra mim na noite de 24 de junho, não hesitaram nem tiveram a mão trêmula, ao propinarem o veneno que devia fatalmente vitimar, como vitimou, as duas inocentes moças, condenadas porque foram sucessivamente minhas noivas".
No mesmo jornal acima, outra edição, encontramos que Dr. João Ferreira Domingues Carneiro casou, em Caicó, em 14 de outubro de 1893. Na notícia não fala quem era a noiva. Pelo batismo de Francisco, acredito que era Josefina Nóbrega, possivelmente, parente, do amigo Joaquim Álvares da Nóbrega, que, aliás, foi padrinho do futuro padre.
Em 25 de junho de 1892, houve uma permuta de Comarcas. Felipe Nery de Brito Guerra saiu de Macau para a Comarca do Seridó e Dr. Domingues Carneiro o caminho contrário. No Diário do Natal, de 3 de dezembro de 1909, Dr. Carneiro Domingues comunica que assumiu, no dia anterior, o Cargo de Chefe de Polícia.
A família parecia ser de Pernambuco, pois, Dr. Domingues foi promotor público da Comarca de Caruaru, pelo menos até 1891. Além disso, através do jornal, A Província, encontramos nota de missa de sétimo dia, de sua mãe Dona Emília Francisca de Lemos Ramos, a ser celebrada em 25 de abril de 1900, na Matriz do Corpo Santo, Recife.



Selos do Capitão José da Penha

De vez em quando aparece uma novidade sobre o capitão J. da Penha. De Recife, João Batista, que trabalhou nos Correios, me envia selos com a efigie do famoso capitão. Vejam




domingo, 14 de outubro de 2012

Lei Orcamentaria Anual -Projeto de Lei 2013 - Cidade do Natal

2013_Lei_Orcamentaria_Anual___LOA_Projeto_de_Lei_LOA_2013_658.pdf (objeto application/pdf)

Conheça o orçamento previsto para 2013, para a Cidade do Natal. Você não precisa entrar nos detalhes, mas nos grandes números. Todo o futuro de Natal depende dos recursos previstos bem como das despesas obrigatórias. Lá, no Orçamento, veja o quadro da evolução das despesas, bem como da evolução das receitas.
Aos candidatos resta ter mais cuidado com o que prometem, pois, com certeza as finanças da Prefeitura não estão boas. A evolução das despesas com pessoal e encargos dá uma noção das dificuldades para as futuras administações equilibrarem as finanças da Prefeitura da Cidade do Natal. Aprende mais sobre isso, e mande as informações para o vereador que você colocou na futura Câmara.
João Felipe

terça-feira, 9 de outubro de 2012

As pesquisas e o futuro de Natal


João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG
Eu não acredito que tenha havido manipulação por parte dos institutos de pesquisas com relação à eleição para prefeito da cidade do Natal. Acho, na verdade, que há necessidade de introduzir novas variáveis nas pesquisas que ajudem perceber as migrações de votos de um candidato para outro. Por que em pouco tempo um quadro quase consolidado se transforma em uma situação não esperada? Não foi somente a fé de Mineiro que fez o quadro mudar. Alguma coisa a mais aconteceu que não conseguimos perceber e que precisa ser estudada, caso contrário, os institutos ficarão totalmente desacreditados.
O mundo é outro e as comunicações entre as pessoas se dão de forma rápida. Não me parece que tenha havido um acontecimento inesperado que fez a população se manifestar diferente do que era esperado. Os institutos devem imediatamente ir atrás da pesquisa real e descobrir onde se deu a maior migração de votos e como isso aconteceu. Para a pesquisa de segundo turno, uma pergunta bem formulada, também, pode ter uma indicação dessa modificação.
Havia uma avaliação positiva da participação de Mineiro no último debate. Mas, a boa performance em um debate não é suficiente para que um eleitor faça a escolha do futuro governante da cidade. Alguma informação perversa circulou entre os eleitores? Alguma propaganda subliminar atingiu em cheio a mente dos votantes?
Os buracos, o lixo, o trânsito mais difícil, os problemas na saúde são reflexos de problemas de administração da cidade. O que aconteceu que penalizou a cidade em poucos anos? Quais as causas que deram origem a essa transformação? É possível reverter isso em pouco tempo? Se nós não sabemos a origem disso, não saberemos, com efeito, fazer uma boa escolha.
Não tive oportunidade de examinar a proposta orçamentária para 2013, antes de fazer este artigo, pois, não encontrei no site da Prefeitura, mas examinei o orçamento de 2012. Por ele tive acesso a evolução da receita do tesouro e da despesa, desde 2008. Um detalhe importante que me chamou a atenção foi a evolução da despesa com pessoal e encargos. Segundo os dados da Secretaria de Planejamento do Município de Natal, a despesa realizada com esse ítem foi, em 2008, de R$ 503.610.000,00 e, em 2010, de R$ 733.106.000,00, isto é, no ano de 2010, a prefeitura já gastava, com pessoal e encargos, 229 milhões reais a mais por ano. Imagine o impacto desse valor sobre o orçamento municipal, considerando que a receita total (incluindo aí recursos federais), deste último ano, foi R$ 1.194.394.000,00. Com uma receita tão pequena e com outras obrigações, sobrou pouco para manutenção e investimento de toda a cidade. Na verdade em 2008, o investimento foi de mais de 227 milhões, enquanto no ano de 2010 foi de aproximadamente 84 milhões.
Outro detalhe que tomamos conhecimento são as dívidas que Prefeitura está acumulando com os fornecedores. Além disso, neste segundo semestre, usando a justificativa da lei eleitoral e da lei de responsabilidade, nenhuma vantagem legal está sendo dada ao servidor. Com isso, entraremos o ano de 2013 com muitas despesas represadas que causarão grande pressão ao futuro governante. Mais uma coisinha: a Prefeitura não tem um terreno para construir uma escola ou uma unidade de saúde. Teria que desapropriar. E o dinheiro para isso?
A situação em 2013 não se modificará substancialmente, mesmo que o futuro Prefeito tome uma série de providências. Não vislumbro nenhuma medida que possa reduzir a despesa com pessoal e encargos, em valores significativos. Uma receita que poderia ajudar seria proveniente da dívida ativa, mas não é fácil. Outra, a proveniente dos inadimplentes do IPTU, também de difícil solução. Não é com o governo federal ou com o governo estadual que as contas da Prefeitura serão equilibradas. O mundo permanecerá em crise por um bom tempo. Neste segundo semestre, como já sabemos, o Fundo de Participação caiu significativamente, penalizando os municípios.
Os balanços da prefeitura deste ano são boas fontes para exame dos candidatos, como também o orçamento de 2013 já encaminhado para a Câmara Municipal.
Como resolver os problemas que afetam nossa cidade, se o equilíbrio das contas da prefeitura não é uma questão simples de resolver? Que candidato tem mais condições de comandar essa falência?
Boa sorte Natal.
Visite nosso blog http://putegi.blogspot.com onde continuamos postando assuntos genealógicos como, por exemplo, Dr. Cipriano Galvão da Trindade, médico cuja família está entrelaçada com os Lopes Galvão e os Trindade de Papari.

sábado, 6 de outubro de 2012

PARA PENSAR NESTE MOMENTO

Outro texto que recebemos e que merece nosso acolhimento tem como referência principal o Parque da Cidade

Meus caros e caras
Segue um texto * que recebi, para nossa reflexão. Acho que precisamos meditar um pouco com muita frieza nesse momento para tomarmos a decisão certa. Eu também já cometi erros, confiando em candidatos que não honraram meu voto. Mas acho que está na hora de pensarmos mais com a razão do que com a emoção.
A situação de nossa cidade é crítica. Vi há pouco tempo uma declaração sobre o "desperdício de dinheiro público aplicado no Parque da Cidade". Pensei: Porque que todo o investimento em meio ambiente é contestado, especialmente por engenheiros civis, que por desconhecimento ou conveniência (conivência?) política, não enxergam a dimensão e importância de uma cidade como Natal, ter uma Unidade de Conservação da Natureza, do grupo de proteção integral, da categoria Parque, totalmente dentro de seu território. Uma área de recarga de aquífero, para uma cidade onde praticamente metade da água de abastecimento vem do aquífero, e sendo a região do Parque da Cidade já reconhecido por várias instituições como a principal área de recarga do aquífero. Uma área onde uma espécie endêmica, talvez única no planeta foi descoberta naturalmente convivendo naquele habitat. O que para a biologia mundial é uma grande descoberta, para o engenheiro desinformado é uma "obra faraônica". Um monumento arquitetônico feito por um dos mais renomados arquitetos do mundo - Oscar Niemeyer, brasileiro, que em qualquer lugar do mundo receberia acolhimento como PATRIMÔNIO público, o pobre engenheiro chama de desperdício de dinheiro... 
Entendo que está chegando a hora de tomarmos uma posição. Sem sectarismos, nem devaneios.
Como contribuição envio o texto abaixo*, que recebi de pessoas que defendem a campanha de Carlos Eduardo, e que achei bem interessante para refletirmos.
Abraços a todos e a todas.
Leo
* Nota: O texto ao qual Leonardo se refere e que reproduziu em seguida, é “Você aguenta um 2º turno?”,  do Prof. João Felipe da Trindade.

A favor do voto útil em Carlos Eduardo

Recebi este texto de Dr. Ion que reproduzo aqui. Mais uma reflexão para a campanha em Natal
Ion Mascarenhas de Andrade
A eleição municipal da cidade mais importante do estado coloca muita coisa em jogo; o futuro dos natalenses e o futuro do Rio Grande do Norte. Levando esta verdade em conta, o mínimo que se pode esperar  das candidaturas em disputa é que elas sejam projetos autênticos focados na questão municipal.
Vamos considerar todas as graves  implicações do risco da continuidade de um modelo conservador e descomprometido com a cidade na área da saúde, nas grandes questões postas pelos projetos de mobilidade e das grandes obras, no Plano Diretor, na educação, na Assistência social….Vivemos uma crise profunda de gestão, mas também de valores.
Se o lançamento de uma candidatura inviável à prefeitura com o propósito de fortalecer um projeto político pessoal poderia ser considerada antiética e lesiva aos interesses da cidade, a profundidade da crise e os riscos   relacionados ao projeto conservador emergem como fatores agravantes, pois se joga com efeitos potencialmente desastrosos para todos.
Sabemos que cada etapa comporta ameaças e se houver segundo turno teremos todos que lutar para fazer valer a alternativa mais progressista para a cidade, se não houver um segundo turno a luta será a de reconstruir a cidade, portanto, seja como for é a luta é que é a variável permanente.
A opção por tentar resolver para o lado mais progressista a eleição no primeiro turno não é uma desistência de lutar, mas o desejo, aí sim ardente, de que a próxima etapa seja a da luta construtiva e do preparo para a recuperação da cidade.
Ninguém sabe de que o futuro é feito, mas as alternativas dadas e o que elas projetam como consequências são bem diferentes. A Câmara Municipal projetada pelas pesquisas deve renovar uma  expressiva maioria conservadora, o fim da campanha para vereadores liberará uma força política de forte magnitude, (os vereadores e candidatos conservadores já fora das campanhas pessoais), para a conversão dos seus votos em eleitores do projeto conservador, uma razão a mais para a reflexão quanto às dificuldades que o segundo turno oferecerá.
É bom refletirmos, pois a vida é dura e as derrotas são perdas mesmo. Por Natal o meu voto é por decidir para o campo progressista o quanto antes, Por isto não há lugar para dúvidas. O voto útil é o voto em Carlos Eduardo.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Dr. Cipriano Galvão da Trindade

Um amigo do Rio de Janeiro, Carlos Beserra, sabendo do minha procura pela origem dos Trindade, me manda uma reportagem sobre Dr. Cipriano Galvão da Trindade que posto aqui, socializando a informação. Pelo que observo nesse artigo, ele deveria ser da mesma família do escritor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras, Virgílio Trindade.
Já coloquei neste blog algumas informações sobre os Lopes Galvão. Esta agora com certeza é de um descendente dessa família. Espero que as pessoas que estejam acessando este blog façam comentários contribuindo para que avancemos mais na genealogia no Brasil.
Sempre deixo meu e-mail para que as pessoas possam se comunicar também de outra forma.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

João Felipe na Memória Viva da TVU


Nesta quinta-feira, estarei sendo entrevistado na TV Universitária – UFRN, no programa Memória Viva, no horário abaixo. No domingo dia 07.10.2012 será reprisado no horário de 16 horas, excepcionalmente, por conta da programação nacional das eleições, que ocupará o horário das 17 horas.

QUINTA-FEIRA: DIA 04.10.2012

19h00 – TVU NOTÍCIAS

19h30 – MEMÓRIA VIVA: “João Felipe da Trindade (Mestre em Matemática)”

20h30 – HORÁRIO POLÍTICO – LOCAL

O Massacre de Uruassú, na carta do capitão Lopo Curado



Essa carta está no livro "Valeroso Lucideno" de Frei Manuel Calado. Foi escrita 20 dias após o massacre de Uruassú.
 
“Relação das últimas tiranias, e crueldades, que os pérfidos holandeses usaram com os moradores do Rio Grande, escrita pelo Capitão Lopo Curado aos dois mestres de campo, e governadores da liberdade de Pernambuco, João Fernandes Vieira, e André Vidal de Negreiros, cujo traslado de verbo ad verbum, é o seguinte:

Em particular aviso a Vossas Senhorias do memorável sucesso do Rio Grande, depois das duas matanças que fizeram os tiranos Flamengos, acompanhados de bárbaros Tapuias e Pitiguares, e nesta derradeira, certo que é incrível a tirania, no qual servirá de maior exemplo, e que escureça todas quantas têm sucedido no mundo em tempo dos imperadores romanos antigos; memória que haverá enquanto durar o dito; pois o sangue derramado de tantos inocentes, clama aos céus justiça, e aos príncipes da terra favor, a tomar vingança de tais tiranos: e para relatar os sucessos, e modos que houve entre os ditos Flamengos de suas deslealdades, e traições, é tomar o tempo a Vossas Senhorias, ainda que o mesmo o há de manifestar; porque tais tiranos quer Deus que os conheçam, para que a cristandade veja, que mais vale passar por todos os tormentos da morte, que viver morrendo entre o nome de tal gente. Patente é a Deus, e ao mundo, e o será daqui em diante às mais remotas nações dele, a traição que usaram os ditos holandeses com os pobres moradores do Rio Grande, estando em uma cerca recolhidos por se livrarem dos bárbaros Tapuias, e Brasilianos, passando, e padecendo nela havia três meses notáveis misérias, nos quais foram acometidos por muitas vezes dos tais inimigos, que ainda não fartos do sangue, que fizeram derramar ao povo de Cunhaú, e casa forte de João de Lostao, pretenderam esgotar o desta pobre gente cercada, para que nela se acabasse o nome português daquela Capitania, para o que dezesseis dias, e noites os tiveram em cerco, assim Tapuias, como Brasilianos e Flamengos, nos quais lhes deram terríveis batarias sem as poderem levar, usando de um ardil, para com ele fazer a obra que pretendiam. E foi, que armaram uns carros emadeirados, levando-os diante de si, com mosquetaria, e outros instrumentos de guerra para chegarem à dita cerca, mas não foi bastante este artifício, porque setenta portugueses que havia nela, ainda que poucos no número, mais muitos no esforço, os arredaram de si de maneira com quinze armas de fogo, e os mais com paus tostados, que lhe quebraram os carros, e os puseram em fugida com perda do dito inimigo de vinte homens, sem da nossa parte perigar nenhum, e vendo os ditos Flamengos que os não podiam render, lhes cometeram que se entregassem, pois eles eram ali vindos da fortaleza, e seu tenente, para os guardarem assim dos ditos selvagens, como dos Flamengos moradores, que com os ditos estavam, os quais lhes tinham feito aquela guerra. E vendo os ditos moradores o tão pouco que se podiam fiar da palavra de tiranos, disseram, que enquanto ali estivessem Tapuias, e Brasilianos, queriam antes morrer, que se entregar; e que tinham bom exemplo na traição das mortes, que fizeram no Cunhaú na casa forte de João de Lostao, ao que lhes responderam, que em nome de S. Alteza o Príncipe de Orange, lhes requeriam se entregassem, e não usassem mais de armas, prometendo-lhes vidas, e fazendas, na maneira que até então os gozavam, e fazendo o contrário que mandariam vir uma peça de artilharia da fortaleza, e com ela os bateriam, e não escaparia nenhum, e os teriam por alevantados. E considerando os ditos cercados, que já não tinham mantimentos nenhuns, nem munições para sustentar as armas, fiados nas palavras dos ditos Flamengos, lhes disseram que fizessem disso um papel, o qual fez o tenente, e os mais oficiais de guerra, em que se assinaram, e nele lhes prometeram de os guardar dos ditos selvagens Tapuias, e Brasilianos, e conservar com a vida, e fazenda; e feito o sobredito, pediram que em reféns haviam de levar cinco moradores para a fortaleza, o que lhes foi concedido: os quais foram Estêvão Machado de Miranda. Vicente de Souza Pereira, Francisco Mendes Pereira, João da Silveira, Simão Correia, deixando eles dez soldados de guarda da dita cerca, e gente que nela estava; e tomaram todas as armas de fogo, e paus tostados com que os moradores se tinham defendido. Estavam mais recolhidos para segurarem suas vidas na fortaleza o P. Vigário Ambrósio Francisco Ferro, Antônio Vilela o Moço, Joseph do Porto, Francisco de Bastos, e Diogo Pereira, e prisioneiros João Lostao Navarro, Antônio Vilela Cide. Em dois do presente mês de outubro chegou uma lancha do Recife ao Rio Grande, e conforme a execução que se fez, trouxe ordem para matar a todos os moradores de dez anos para cima, como ao diante se verá; em três do dito mês véspera de S. Francisco mandaram os Flamengos da fortaleza sair a todos os moradores que nela estavam, que foram os acima nomeados dizendo que já estavam seguros dos Tapuias, porquanto se tinham ido para o sertão, e que fossem em companhia da tropa que ia em sua guarda para a cerca aonde estavam os outros moradores, visto haver lá muitos mantimentos com que se podiam sustentar, e não estando na dita fortaleza passando fomes por falta de mantimentos, e que iam seguros porquanto tinham lá na dita cerca aos ditos dez soldados, que lhes tinham deixado para sua guarda. No mesmo ponto lançaram aos ditos, que estavam na fortaleza, e em batéis os levaram pelo rio acima três léguas, acompanhados dos soldados, e os lançaram fora no porto do dito rio, chamado de Huruauassu meia légua da dita cerca, na qual acharam passante de duzentos Brasilianos bem armados com Antônio Paraupaba escaramuçando em um cavalo, e tanto que estiveram em terra, os Flamengos despiram nus aos ditos moradores, e os mandaram pôr de joelhos (o que eles receberam com muna paciência, e os olhos em Deus) e logo chamaram aos Brasilianos para os matar, o que se executou logo, fazendo nos corpos destes mártires tais anatomias, que são incríveis; e não contentes com elas, os ditos Flamengos os ajudaram a matar, assim arrancando os olhos a uns, e tirando as línguas a outros, e cortando as partes vergonhosas, e metendo-lhas nas bocas. No mesmo instante que os acabaram de matar, foram os ditos Flamengos à cerca deixando os Brasilianos no lugar em que tinham feito os martírios nomeados para a segunda execução; e aos moradores disseram, que os senhores do Concelho do Recife os mandavam chamar, para o que estava um barco logo para partirem, e que fossem em sua companhia para os embarcarem, e vendo os sobreditos que era a viagem tão apertada, sem lhes darem demora alguma, e sem saberem dos que eram mortos, e disseram todos juntos, e cada um por si, que eles iam morrer, porque seus corações lhos diziam; e despedindo-se com lágrimas, e suspiros de mulheres, filhos, irmãos e irmãs, foram todos dando graças a Deus, e mui conformes, por morrerem por seu Deus, e por seu Rei, e sua pátria, e dizendo estas mesmas palavras aos tiranos algozes que os levavam; e chegando aonde estavam os sobreditos Brasilianos lhos entregaram, e com a tirania, e desumanidade que em seus corações habita, os mataram, sem ficar nenhum; na qual execução se fizeram as maiores anatomias, e martírios nos corpos destes mártires, que são coisas que a boca não pode pronunciar. E acabante as ditas mortes deixaram os corpos postos ao sol, e sobre a terra, e sem sepultura nenhuma, e os membros tão divididos em partes, que não se conhecia quais eram os de cada um dos ditos mártires. No mesmo instante foram os mesmos tiranos Flamengos, e Brasilianos à cerca, aonde somente ficaram as pobres viúvas, e órfãos, e as acabaram de despojar de todos seus bens, deixando-as a muitas nuas, e com outros opróbrios, que passo em silêncio. Julguem agora Vossas Senhorias o que fariam as pobres viúvas, quando souberam dos mesmos algozes, que todos os homens eram mortos, e tão cruelmente, para que os olhos se aprestaram a fontes, e as bocas, para as funerais lamentações de seus consortes, pois é de ver (meus senhores) que até isto estes tiranos tiraram a esta pobre gente, porque querendo lamentar com suspiros, e lágrimas seus desventurados dias; estes tais lho não queriam consentir, e as fizeram calar, ora com ruins palavras, ora com pés, e mãos, dando-lhe de bofetadas, e coices, e ameaçando-as, que as haviam de matar se choravam; e por não passar em silêncio nas pessoas, e nomes de alguns mártires, os declararei por a constância que tiveram em suas mortes, e martírio, Antônio Baracho casado o amarraram em um poste, e vivo lhe arrancaram a língua, e depois o coração, e desta maneira morreu, cortando-lhe suas partes secretas, e metendo-lhas na boca ainda em vivo. A Mateus Moreira o abriram por as costas, e lhe tiraram também o coração, e as últimas palavras, estando neste martírio, que disse, foram louvar a Deus, dizendo: Louvado seja o Santíssimo Sacramento. E porque na morte destes Inocentes, houvessem admiráveis circunstâncias, relatarei a Vossas Senhorias algumas coisas que sucederam mais milagrosas que humanas. Um mancebo por nome João Martins o levaram para morrer com os mais, e sendo todos mortos à vista do sobredito, lhe cometeram que dariam a vida se tomasse armas contra sua nação, a que ele respondeu com alegre rosto: Não me desampara Deus desta maneira, essas tomei sempre contra os tiranos, e não contra minha Fé, Pátria, e Rei. E que o matassem logo porque estava invejando as mortes de seus companheiros, e a glória que tinham recebido, e quando o não quisessem matar, ele mesmo os persuadiria a que o fizessem.
Dois mancebos casados, um chamado Manuel Álvares Ilha, e outro Antônio Femandes, depois de estarem em terra cheios de feridas, e nus da cinta para cima, meteram as mãos nas algibeiras, e puxando cada um por sua faca, e investindo com os Brasilianos mataram logo a três deles, e feriram a quatro ou cinco, fazendo isto com as ânsias da morte, e logo caíram mortos outra vez. Estêvão Machado de Miranda tinha uma menina de sete anos sua filha na fortaleza em sua companhia, e trazendo-a consigo a receber o martírio, vendo a dita menina que os Flamengos queriam matar a seu pai, como aos outros presentes, se abraçou com ele, pedindo a vida do pai com as lamentações, e entendimentos de mulher de muitos anos, e os Flamengos a tiraram dos braços do dito pai, ao que lhe disse o dito: Filha, dize a tua mãe que se fique embora, que no outro mundo nos veremos. E desta maneira o mataram, e a menina tirou a saia depois do pai morto, e se foi para ele, e cobrindo-lhe o rosto, e chorando, e pedindo que a matassem também, a quem os ditos algozes lançaram mão da dita saia, e trouxeram a menina a sua mãe, e ela, e os mais contaram o caso. Uma filha de Antônio Vilela o Moço mataram sendo criança pequena, pegando-lhe os Tapuias à vista dos Flamengos em uma perna, e dando-lhe com a cabeça em um pau, e a fizeram em dois pedaços. E a outra filha de Francisco Dias o Moço a mataram também, e a abriram em duas partes com um alfanje. E a uma mulher casada com Manuel Rodrigues Moura, depois do dito morto, lhe cortaram as mãos, e os pés, e a sobredita mulher em três dias naturais esteve deitada no chão viva, e acabou dando a alma ao Criador.
Diversos martírios deram neste dia aos corpos dos mártires, e houve nele muitos milagres patentes, e vistos, que quis Deus mostrar que os tais iam a gozar da bem-aventurança.
Sucedeu pois que aquela noite que padeceram se ouvisse uma música no céu sobre a fortaleza do Rio Grande, e ouvindo-a a mulher de um flamengo chamado Gesman (Joris Garstman) governador das armas nesse Recife, se levantou chamando por algumas mulheres, e também por suas escravas para que ouvissem a música que ia no céu, o qual caso testificou a sobredita; certo presságio que foram os anjos que acompanhavam as almas destes mártires para o céu. Na cerca donde tinham saído os ditos mártires estava entre outras meninas uma filha de Diogo Pinheiro de idade de oito anos, chamada Adriana, e dando-lhe vontade de chorar, entrou para uma camarinha por não ser vista, aonde achou uma mulher com um azorrague na mão, e lhe disse: Cala-te filha, que com este azorrague que aqui vês, hão de ser castigados estes que fazem estas crueldades, como logo saberás.
Atribulada a menina saiu para fora, e vendo as mulheres a mudança dela, lhe perguntaram o que tinha? E como assombrada contou o sucesso, e dai a pouco chegou a nova dos inocentes mortos, que certo bem parece que a Virgem Senhora Nossa tem tomado o castigo destes tiranos à sua conta. Naquela mesma noite houve grande cheiro de incenso na dita cerca, que durou muito tempo, e foi patente a todos, sem se saber donde o dito cheiro procedia senão do céu. Houve também entre estes mártires grandes penitências, sem saberem uns dos outros, e ao dia que padeceram, jejuavam todos a pão, e água, assim os da fortaleza, como os da cerca, não sabendo uns dos outros, ao outro dia por manhã pediram licença as mulheres para irem a enterrar os corpos mortos, e não lh'o consentiram; o que os escravos fizeram às escondidas, e não se achou um palmo de pano para os amortalharem a nenhum, por deixarem as ditas mulheres em estado que ficaram despidas de todo, achou-se que todos estes corpos estavam com cilícios, e os que os não tinham com cordas cingidas, e algumas tão metidas por a carne que mal apareciam. E sabe-se que durante o tempo que estavam cercados houve extraordinárias penitências, e até os meninos as faziam, sendo todos nus, e com cordas cingidas, e todos os dias se faziam procissões com um Santo Crucifixo, esperanças claras destas almas estarem gozando da bem-aventurança. Sobre a sepultura aonde foi enterrado o P. Vigário Ambrósio Francisco Ferro se achou quinze dias depois da sua morte uma posta de sangue fresca sem corrupção, como se naquela hora fosse derramado, mostras bastantes, que o tal brada ao céu justiça. Muitas outras coisas milagrosas sucederam, dignas de se recontarem, que deixo ao tempo, no qual fio não passará, e todas acima declaradas foram vistas, e juradas, e autênticas por vinte cinco mulheres que o inimigo botou nesta Paraíba, com suas famílias, as ditas chegaram de maneira, e tão transfiguradas que mais parecem pessoas ressuscitadas que viventes corpos.
O Bolestrate as mandou deitar aqui, e a algumas lhes concedeu alguma roupa que traziam sobre os corpos, mas em as querendo desembarcar em terra as despiram de maneira que apenas trouxeram camisas, as quais lhe largaram por já não terem préstimo para serviço de outro corpo. Vossas Senhorias perdoem o compêndio da carta, que lhes afirmo que se houvera de relatar o que se tem passado naquela Capitania houvera mister muitas mãos de papel, contudo o faço destas sobre ditas coisas acima, que não faltarão curiosos para o fazer do mais que falta, porque Deus o permite, e manda que sejam públicas as maldades destes tiranos.
Deus guarde a Vossas Senhorias, hoje vinte e três de outubro de mil e seiscentos e quarenta e cinco anos. Lopo Curado Garro”.
Parte de uma Genealogia de Antonio Vilela Cid e Estevão Machado de Miranda