quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Nossa Senhora da Apresentação, Igreja, Freguesia e Imagem



João Felipe da Trindade
jfhipotenusa@gmail.com

Toda capela ou igreja tem o seu orago, isto é, o seu santo da invocação. Nossa Senhora da Conceição era o orago das capelas da Ilha de Manoel Gonçalves, de Jundiaí e de Guamaré; Nossa Senhora do Socorro era a de Utinga; enquanto São Miguel e Nossa Senhora dos Prazeres da matriz de Extremoz.
O dia 21 de novembro é celebrado como do dia em que Joaquim e Ana fizeram a apresentação da filha Maria ao templo de Jerusalém, segundo tradição da Igreja Católica. Diz Cascudo: foi nesse dia do ano de 1753 que Nossa Senhora da Apresentação procurou sua freguesia. Segundo o mestre: nessa época, numa manhã, foi visto, encalhado numa pedra que as marés respeitam, um caixão. Trazido para a praia, aberto numa curiosidade de terra menina, encontraram a imagem duma Nossa Senhora. Pequena e simples, o manto cobrindo-lhe a cabeça na convenção ritual para a cercadura da coroa simbólica, a Santa sustinha o Deus Menino na curva do braço esquerdo e estendia a destra, dedos unidos e vazios, num gesto de suspender o rosário ou de abençoar, timidamente.
Quando do início da colonização, após a construção do Forte dos Santos Reis Magos, em 1598, começou o trabalho de pacificação dos nossos índios a fim de garantir a fundação da nossa cidade do Natal, que se concretizou em 25 de dezembro de 1599. Nessa data nossa Matriz, na sua forma primitiva estava concluída. Não se sabe a data exata em que foi criada a Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, mas ela já existia muitos anos antes da aparição da imagem, coisa que muita gente não sabe.
Já tive oportunidade de apresentar, em vários artigos publicados no “O Jornal de Hoje”, batismos realizados na nossa Matriz, antes de 1700.
Aqui, para efeito de confirmação documental, apresento a imagem de um batismo que foi realizado no ano de 1691, na nossa Matriz de Nossa Senhora da Apresentação. O livro, de onde foi tirada essa imagem, está hoje no Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano.
Batismo na Matriz de Nossa Senhora da Apresentação, 1691


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Joaquim Rodrigues Ferreira, lá do Alto do Rodrigues




João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG
Em alguns testamentos e inventários, mais antigos, já faltam algumas folhas. O testamento de Joaquim Rodrigues, escrito de próprio punho, por exemplo, começa na página 4, e lá está escrito: ...for aberta a sucessão, serão herdeiros da referida terça os meus filhos, que existirem do segundo leito. Peço e espero que meus filhos do primeiro casamento não verão nesta disposição manifestação de menos amor e amizade às suas pessoas por minha parte.

Declaro que quero ser sepultado no cemitério do lugar em que falecer e que meu enterro deverá ser simples e sem pompa, correndo as despesas, por este feito, por conta de minha terça. Nomeio meus testamenteiros a minha mulher Ricardina Rodrigues Cavalcanti, Bacharel João Alves de Oliveira e Salustiano Francisco Cacho, na ordem que estão indicados: a todos e a cada um dos quais rogo, queiram aceitar esta minha incumbência.

Este é meu testamento e a última vontade para ser cumprida depois de minha morte e por ele revogo qualquer outro que por ventura exista. Recife, dez de março de mil oitocentos e noventa e nove. Joaquim Rodrigues Ferreira.

Esse testamento foi levado ao cartório do tabelião Apolinário Florentino de Albuquerque Maranhão, rua Dr. Feitosa, Recife, sendo testemunhas: Henrique Bernardes de Oliveira, José Carlos de Sá, Joaquim dos Anjos Nogueira, João Batista de Sá e Julião Barbosa de Souza, moradores em Recife.
No dia 24 de março de 1804, na cidade de Macau, em casa de residência do testador Joaquim Rodrigues Ferreira, a viúva Dona Ricardina, entregou ao Juiz João Teixeira de Souza, o testamento do seu marido, que faleceu, em seu sitio denominado Alto do Rodrigues, no dia anterior, às duas horas e vinte minutos da tarde, pouco mais ou menos.

Dona Ricardina apresentou, como filhos do coronel Joaquim Rodrigues Ferreira, os nomes que seguem. Do casamento com D. Generosa (Bela) Rodrigues da Silveira: Dona Olympia Rodrigues de Souza, 45 anos, casada com o tenente-coronel Joaquim Ildefonso Virgulino de Souza, residente em Macau; Odorico Rodrigues Ferreira, com 40 anos, casado (com Amélia Rodrigues Ferreira), morador e residente na Pendência; Anna Rodrigues Ferreira, de 35 anos, casada com Manoel Teixeira de Carvalho Filho, residente em Macau.

Do casamento com a inventariante, Dona Ricardina, listou os seguintes filhos: Rosa Rodrigues Cacho, com 27 anos, casada com Antonio de Castro Cacho, residente em Macau; Ricardo Rodrigues Ferreira, com 24 anos, casado, residente na cidade de Recife; Álvaro Rodrigues Ferreira, com 23 anos, solteiro, residente em Macau; Rodrigo Rodrigues Ferreira, com 22 anos, solteiro, residente em Macau; Laura Rodrigues de Oliveira, 20 anos, casada com José Fernandes de Oliveira, residente em Macau; Irineu Rodrigues Ferreira, com 19 anos, solteiro, residente em Macau; Delmiro Rodrigues Ferreira, 14 anos, residente em Macau; Marfisa Rodrigues Ferreira, com 13 anos, residente em Macau; João Rodrigues Ferreira, 11 anos, residente em Macau; Francisco Rodrigues Ferreira, 9 anos, residente em Macau.

No inventário aparecem vária terras que foram compradas pelo testador, em diversos municípios. A fim de reconstituir os nomes dessas localidades e seus donos, listamos aqui esses bens de raiz do falecido: Sítio denominado “Alto do Rodrigues” no município de Macau, compreendendo uma posse das sobras das terras do antigo Sítio “Sacco”, comprada a Rufino Álvares Clavassino Costa; noventa e seis braças de terras, no lugar denominado Ponciana, do município de Macau, comprada a João Albano Cabral e sua mulher (Justina Maria da Conceição); mais seis braças e meia de terras, no mesmo lugar Ponciana, a margem do Rio Assú, extremando-se com a terra de Theodoro Alves Guimarães, compradas aos herdeiros de Francisco de Sales Urbano; 22 braças de terras, em Macau, a margem direita do Rio Assú, comprada a Dona Josefa Ferreira Monteiro; nessa mesma Tabatinga, 12 braças de terras compradas a Dona Anna Rosa Fernandes de Jesus; nessa mesma Tabatinga, 14 braças de terras, compradas a Manoel Joaquim de Lima; 30 braças de terras, nessa mesma Tabatinga, compradas a Jerônimo Fernandes Gomes; meia braça de terras, na Tabatinga, comprada a Manoel Luiz Ferreira das Neves; 43 e 1/2 braças de terras no lugar denominado Buraco do Estevam, compradas a José Francisco dos Anjos; uma parte de terras em Gaspar Lopes, município de Angicos, comprada a Francisco Quilidônio da Costa Machado; duas partes de terras, no lugar denominado de Serra Aguda, município de Angicos, compradas a Francisco Xavier da Cunha Vasconcelos; 400 braças de terras, com fundos de 4 500 braças, no lugar denominado Baixa do Pau Branco, comprada a Francisco da Rocha Freire Cabeleira; uma posse da data de terras Curralinho, em Angicos, atualmente denominada Santa Rosa, comprada a Francisco Xavier de Souza e sua mulher; Uma parte de terra, no lugar denominado São Julião, comprada a Julião Barbosa de Souza e sua mulher.

Joaquim Rodrigues Ferreira era filho do português Manoel Rodrigues Ferreira e da assuense Izabel Martins Ferreira, que foram moradores na Ilha de Manoel Gonçalves.
Herdeiros de Joaquim Rodrigues Ferreira

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Meu tetravô e o testamento de Domingos Affonso Ferreira Jr.




João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG
Segundo Zilda Fonseca, em “Desbravadores da capitania de Pernambuco, seus descendentes, suas sesmarias”, Domingos Affonso Ferreira Jr. nasceu em 1781, filho de Domingos Affonso Ferreira e Maria Theodora Moreira de Carvalho. Enquanto Maria Theodora faleceu aos 9 de dezembro de 1803, seu marido, Domingos,  faleceu, no ano seguinte, aos 5 de fevereiro, menos de dois meses depois. O inventário destes dois últimos durou muitos anos. Em 1810, o inventariante, Bento José da Costa, ainda pedia avaliações das terras e bens, aqui no Rio Grande do Norte, sendo seu representante e administrador das terras do Assú, José Álvares Lessa.
Aos 28 de março de 1814, Domingos Jr. fez seu testamento, iniciando com as seguintes palavras: Digo eu, Domingos Affonso Ferreira (Jr.), que estando de cama temendo a morte, não sabendo a hora, e por estar em meu perfeito juízo ordeno meu testamento pela maneira seguinte. Primeiramente encomendo a minha alma a Santíssima Trindade que me criou e queira receber minha alma no céu, assim como fez a Jesus Cristo, unigênito do Padre, que uniu os homens, encomendo-me a Maria Santíssima, Anjo de minha guarda, Santo do meu nome queiram ser os medianeiros diante de Deus.
Nomeou como seus testamenteiros, o cunhado, coronel Bento José da Costa, Dona Joanna Cândida de Lima, e Dona Izabel Maria Ferreira. Declarou que era natural da Vila do Recife, filho de Domingos Affonso Ferreira e Dona Maria Theodora Moreira de Carvalho. Disse mais, que do melhor da sua fazenda fosse para o afilhado José Affonso Ferreira. Deixou mais ainda, quantia em dinheiro, para as tias D. Catarina Angélica, Dona Joaquina da Conceição e Dona Joanna Cândida, e para sobrinha e afilhada Dona Maria, filha de sua irmã Izabel Maria Ferreira. Nomeou como seus herdeiros universais seus irmãos machos e fêmeas.
Afirmou, ainda, que de posse dele havia um sítio na Ponte de Uchoa, com casa de vivenda, por conta do que lhe ia tocar por herança dos seus falecidos pais, cujos bens se achavam pro indivisos. Declarou que tinha contas com seu cunhado Bento José da Costa, com outro cunhado, José Antonio Alves de Souza, e com sua irmã Izabel Maria Ferreira.
Aos 23 de abril de 1814, pouco tempo depois do seu testamento, Domingos Jr. faleceu, solteiro, na Boa Vista, sem deixar sucessão.
No seu inventário, o que chama a nossa atenção é o número de pessoas que lhe deviam. A quase totalidade dos devedores estava, também, no inventário dos seus pais. É possível que ele tenha herdado essas dívidas ativas. Na lista, em ordem alfabética, aparecem, entre os muitos devedores, Antonio Lopes Viegas, Francisco Antonio Teixeira, lá do Assú,  e Bernardo José da Costa, irmão de Bento José da Costa.  Algumas dívidas já estavam a cargo de outras pessoas, entre elas o  inventariante Bento.
Em 1815, José Álvares Lessa, já era falecido, como se poder ver, em “Questão de Limites”, de um ofício do vereador Manoel Ignácio Pereira do Lago para o escrivão geral da Vila Nova da Princesa, Manoel de Melo Montenegro Pessoa. Por isso, nas dívidas ativas de Domingos Affonso Ferreira Junior, encontramos, que a cargo de João Martins Ferreira (meu tetravô) ficou uma dívida do falecido José Álvares Lessa, administrador das Fazendas do Assú, e consta da conta que com ele se ajustou em dezesseis de outubro de mil oitocentos e onze, o qual não deixou bens e sim algumas dívidas. Mais ainda, a cargo do dito João Martins, parte das dívidas que deviam as fazendas do Assú, de mil setecentos e noventa e oito a mil oitocentos e quatro, e mais ainda, as dívidas que deviam outras fazendas desde mil oitocentos e quatro a mil oitocentos e onze.
Além das terras compradas por Bento José da Costa e seu sogro,   Domingos Affonso Ferreira, em 1797, havia mais duas Sesmarias recebidas por este último em 1798, tudo aqui no Rio Grande do Norte. O capitão João Martins Ferreira foi administrador das terras do Assú, com base na Ilha de Manoel Gonçalves, e pelo visto deve ter assumido com o falecimento de Lessa. Outro detalhe é que a esposa de João Martins Ferreira se chamava Josefa Clara Lessa, possivelmente, filha do falecido José Álvares.
Felipe Neri Ferreira, irmão de Domingos

terça-feira, 4 de novembro de 2014

José Ramos de Oliveira e Izabel Maria da Costa




João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, sócio do IHGRN e do INRG
José de Oliveira Ramos, dono do Engenho Salgado, lá em Porto de Galinhas, foi preso, logo no início da Revolução de 1817, e, mesmo com os apelos do seu amigo Tollenare, só foi liberado com o fracasso da mesma. O rico comerciante português e grande traficante de escravos, Bento José da Costa, não foi afetado pelas mudanças de poder. Na revolução, sua filha Maria Theodora casou com um dos líderes da mesma, Domingos José Martins. Posteriormente, casou seu filho Bento com Emília Júlia, filha de outro participante da Revolução, Gervásio Pires Ferreira, e, também, outra filha Izabel Maria da Costa, com José Ramos de Oliveira, filho do preso da revolução, José de Oliveira Ramos.

José Ramos de Oliveira e sua esposa foram padrinhos do meu bisavô, o tenente-cirurgião Francisco Martins Ferreira, como se vê do registro.

Francisco, filho legítimo do Major Jose Martins Ferreira, e de D. Josefina Maria Ferreira, nascido, aos sete de outubro de mil e oitocentos e quarenta e um, foi batizado aos seis de janeiro de quarenta, e dois em Macáo pelo Padre João Francisco Pimentel que lhe impôs, de minha licença, os santos óleos. Foram padrinhos o tenente-coronel José Ramos de Oliveira, e sua mulher Dona (Izabel) Maria da Costa, por seus procuradores em Macáo. Manoel Januario B. Cavalcanti. Vigário Encarregado de Angicos.

Quatro anos depois desse batizado, o padrinho faleceu, como podemos ver da notícia que encontramos no Anuário Político, Histórico e Estatístico do Brasil (Hemeroteca Nacional): o comendador José Ramos de Oliveira, um dos mais ricos capitalista de Pernambuco, principal acionista da Companhia Beberibe, membro da comissão diretora das obras do teatro público, cônsul de Dinamarca, e presidente da Associação Comercial da praça, faleceu em Pernambuco, no dia 7 de julho de 1846, em consequência de uma espinha no rosto, ao pé do nariz, a qual foi escarificada e tratada sem proveito.

Em 1848, Dona Izabel Maria da Costa Ramos, já viúva de José Ramos de Oliveira, fez seu testamento nomeando, como testamenteiros, seus irmãos Bento José da Costa (Jr.) e Joaquim José da Costa e mais seu guarda-livros João Evangelista da Costa e Silva. Nomeou, também, seu irmão Manoel José da Costa (futuro barão das Mercês), como tutor dos seus filhos menores Bento José Ramos de Oliveira de 10 anos e 4 meses, e Anna Isabel Ramos de Oliveira de 8 anos e 6 meses. Mesmo com a nomeação do tutor, deixou a responsabilidade, para que fossem conservados, tratados, educados e dirigidos, seus filhos, até alcançarem a maioridade, para sua irmã Francisca Escolástica Josefa da Costa.

Entre os bens da viúva constava, aqui na região do Assú, meia légua de terra no Rio Salgado, no lugar Santa Luzia, em que estava sentada a Fazenda do mesmo nome, com casa, currais e umas benfeitorias, tudo avaliado por quatro centos mil réis. Era seu procurador, aqui, Manoel de Melo Montenegro Pessoa.

Na Vila do Príncipe, o casal inventariado possuía duas Fazendas, Baixa Verde e Malhada. A primeira, que tinha como criador Manoel Casado da Fonseca, media meia légua de comprido e meia légua de largura, confinando pelo Sul com o Rio Seridó, pelo Norte com terras da Fazenda Malhada, pelo Nascente com terras de Pedra Branca, e pelo Poente com terras do Sitio Barra do Riacho Fundo. A segunda, na beira do Rio Seridó, que tinha como criador José Casado da Fonseca, media uma légua de comprido, com três léguas de fundo, confinando pelo Norte com a Fazenda dos Patos, pelo Nascente com as terras da Fazenda Saco dos Martins, pelo Sul com terras da Barra do Riacho Fundo, e pelo Poente com o Rio Seridó. 

Em 1849, Dona Izabel já era falecida. Entre os documentos, do inventário, encontramos um pleito do tutor de Anna Izabel, no inicio de 1860, ao Juiz de Órfãos, nos termos a seguir: Diz Manoel José da Costa, tutor da órfã D. Anna Izabel Ramos de Oliveira, filha do finado comendador José Ramos de Oliveira, que tem contratado casar sua tutelada, a qual já conta dezenove anos de idade, com o Bacharel Bento José da Costa, primo legítimo da mesma senhora. E porque apesar de entender o suplicante, que esse consórcio é vantajoso para sua tutelada não pode, todavia, realizá-lo sem o consentimento de V. Sª, vem requerer a V. Sª, digne-se concedê-lo mandando passar para este fim o respectivo alvará.

Com a expedição do alvará veio o casamento da filha da inventariada com o filho do inventariante: Aos onze de fevereiro de 1860, na capela de Nossa Senhora da Conceição de Ponte de Uchoa, pelas sete horas e meia da noite, dispensados em segundo grau de consanguinidade, e juntamente os banhos, por sua Excelência Reverendíssima, como consta dos documentos, que ficam em meu poder, e não apareceu impedimento algum, de licença do Reverendo Coadjutor Pro pároco, Manoel Cirillo de Oliveira, em presença do Padre Agostinho de Lima Cavalcante de Lacerda, e das testemunhas Bento José da Costa, e Comendador Manoel José da Costa, casados, ele morador na freguesia do Cabo, este nesta, se receberam em matrimônio por palavras de presente o Bacharel Bento José da Costa, com Dona Anna Izabel Ramos de Oliveira, ele filho de Bento José da Costa, e Dona Emília Júlia Pires Ferreira, esta filha do finado José Ramos de Oliveira e Dona Izabel Maria da Costa Ramos, ambos moradores e naturais desta Freguesia, e logo receberam as bênçãos nupciais do Rito Romano: do que para constar mandei fazer este assento que me assinei. O Vigário Manoel Joaquim Chavier Sobreira.
José Ramos de Oliveira, falecido em 1846

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Bento José da Costa Junior e Emília Júlia Pires Ferreira




João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG
No dia 6 de março de 1817, teve início, em Recife, uma revolução, também conhecida como Revolução dos Padres. Teve curta duração, e dela resultou o assassinato de André de Albuquerque Maranhão, que chefiou, por curto espaço de tempo, os rebeldes do Rio Grande do Norte. Quem também pagou com a vida, por dela participar, foi nosso Frei Miguelinho, arcabuzado em Salvador, em 12 de junho de 1817. Nessa mesma data e lugar, também foi arcabuzado, outro líder desse movimento de independência, o capixaba Domingos José Martins.

Domingos, que vinha namorando escondido por cinco anos, Maria Theodora da Costa, casou, logo após a tomada do poder, no dia 14 de março, na Capela da Jaqueira. A noiva da Revolução, como ficou conhecida, era filha de Bento José da Costa e Anna Maria Theodora Moreira de Carvalho.   Bento e o sogro, Domingos Affonso Ferreira, além de participarem de várias arrematações de dízimos, aqui no Rio Grande do Norte, eram donos de muitas terras na Região das Salinas, incluindo aí, a Ilha de Manoel Gonçalves, Ilha de Macau, e Cacimbas do Vianna, fazenda de muitos gados. Com a morte de Domingos Affonso Ferreira, no começo do século XIX, Bento ficou com praticamente todas as terras, mas em 1834 faleceu, e as terras herdadas pelos filhos, principalmente as da região salineira, foram vendidas somente em 1868, por Bento José da Costa Junior e a esposa Emília Júlia Pires Ferreira para José Gomes de Amorim.

Esse casal foi padrinho em um batismo, aqui no Rio Grande do Norte, em 1845, como podemos ver do registro a seguir: Maria, filha do major José Martins Ferreira e sua mulher Dona Josefina Martins Ferreira, nasceu a dois de junho de 1845, e foi batizada a dezoito de agosto de 1846, no dito Comissário, por mim solenemente. Foram padrinhos Bento José da Costa (Jr.) e Dona Emília Júlia Pires Ferreira, por procuração ao capitão Pedro Alves Ferreira, e Dona Josefa Christiniana Ferreira, do que para constar fiz este assento, em que me assino. Manoel Januário Bezerra Cavalcanti, pároco colado do Assú.

O Comissário acima era em Cacimbas do Vianna, hoje pertencente ao município de Porto do Mangue, onde residiam nessa época meus trisavós, o major José Martins e sua esposa Josefina Maria. Os padrinhos de Maria moravam em Recife, onde casaram conforme o registro abaixo.

Aos vinte e cinco dias do mês de abril de mil oitocentos e vinte e cinco, com despacho do Ilustríssimo Senhor Vigário Capitular, Jerônimo Gonçalves dos Santos, pelas cinco horas da tarde nesta Freguesia, no Oratório da casa de residência de Gervásio Pires Ferreira, feitas as denunciações na forma do Sagrado Concílio Tridentino, nesta Matriz do Santíssimo Sacramento da Boa Vista, em três dias sucessivos, por despacho do mesmo Ilustríssimo Senhor Vigário Capitular donde a nubente é moradora, e nas suas Igrejas Paroquiais da cidade do Recife, donde o nubente é natural e morador, tendo a nubente justificada sua menor idade e sua naturalidade, e dispensados do grau de parentesco em que se acham ligados, sem se descobrir impedimento algum, de minha licença, em presença do Reverendo Vigário Virgínio Rodrigues Campello, e das testemunhas Gervásio Pires Ferreira, casado, morador nesta Freguesia, e o coronel Bento José da Costa, casado, morador no Recife, se receberam por palavras de presente Bento José da Costa Junior e Dona Emília Júlia Pires Ferreira, brancos; ele, nubente, filho legítimo do coronel Bento José da Costa e Dona Anna Maria Theodora Moreira de Carvalho, e a nubente filha legítima de Gervásio Pires Ferreira, e de Dona Genoveva Perpétua  de Jesus Caldas; e logo receberam as bênçãos nupciais conforme o Rito Romano, como consta da certidão, banhos, despacho, mandado de casamento e dispensa que ficam no arquivo desta Matriz; do que mandei fazer este assento que por verdade assinei. Vigário José de Sousa Serrano.

O português Domingos Affonso Ferreira era primo legítimo de Gervásio Pires Ferreira, pois sua mãe, Isabel Pires, era irmã de Domingos Pires Ferreira, pai de Gervásio. Daí o parentesco de Bento Junior com Emília Júlia, via Anna Maria Theodora, filha de Domingos Affonso.

Quando as capitanias foram transformadas em províncias, estas foram inicialmente governadas por uma junta governativa. Em Pernambuco, ela tinha sete membros e governou de setembro de 1821 a setembro de 1823, tendo entre seus membros, Gervásio Pires Ferreira, como seu presidente; Felippe Nery Ferreira, filho de Domingos Affonso Ferreira; e Bento José da Costa, genro de Domingos Affonso Ferreira.

Para finalizar, transcrevemos o batismo de uma filha do tenente-coronel Bento, irmã de Bento Junior: aos dezessete dias do mês de fevereiro do ano de mil oitocentos e cinco, na Capela de Nossa Senhora da Conceição das Barreiras (conhecida posteriormente com Capela da Jaqueira), de minha licença, batizou e pôs os Santos Óleos o Padre Antonio Gomes, da Congregação do Oratório, a Francisca, branca, nascida aos nove do dito mês e ano, filha de Bento José da Costa e sua mulher Anna Maria Theodora, esta natural da Freguesia de São Pedro Gonçalves do Recife, e neta paterna de Antonio José da Costa, e de Maria da Costa, e materna de Domingos Affonso Ferreira e de Maria Theodora Moreira de Carvalho. Foram padrinhos Bernardo José da Costa por procuração sua que apresentou Alexandre Affonso Ferreira e Maria Theodora Moreira de Carvalho, solteira. O vigário Gabriel Bezerra Bittencourt. A batizada devia ser Francisca Escolástica Josefa da Costa, que casou com Antonio da Silva Junior.