terça-feira, 3 de março de 2015

Silvério Martins Ramos e as dúvidas de Lúcia Tolson


João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG
Lúcia Tolson mora nos Estados Unidos e, de lá, me enviou um e-mail nos seguintes termos: Eu acabo de topar no nome acima (Silvério Martins de Oliveira) no seu artigo “Cartas da Ilha de Manoel Gonçalves” de 2/3/2011.  Tenho uma suspeita de que ele seja meu ancestral.  Não tenho, porém, os elementos para ligá-lo a meu trisavô Silvério Martins Ramos, além da semelhança de nomes e da proximidade no tempo e no espaço em que viveram.

Silvério Martins de Oliveira parece-me ter sido um dos habitantes da Ilha de Manoel Gonçalves em seus últimos anos, entre as décadas de 1820 e 1830.

Meu trisavô Silvério Martins Ramos morreu muito velho em Curralinho na década de 1930.  Ele era casado com Leonídia de Oliveira e tinha, entre outros filhos, um filho também chamado Silvério Martins Ramos (conhecido em família como Nozinho, que morreu centenário em Pendências no começo deste milênio). 

As únicas informações que tenho sobre os pais de Silvério Martins Ramos são que seu pai ficou viúvo de sua primeira mulher e depois casou-se com Anna, a mãe de Silvério, que morreu centenária em Curralinho na década de 1930.  De ambos casamentos esse senhor teve uma prole imensa, mas hoje não resta sequer lembrança do seu nome na família.  Suspeito que ele também fosse Silvério.

Será que o Senhor teria condições, sem lhe dar demasiado trabalho, de traçar a descendência de Silvério Martins de Oliveira até ela possivelmente bater em Silvério Martins Ramos?  Creio que haja uma ou no máximo duas gerações entre os dois, se eles são de fato parentes como suspeito.

Espero não estar abusando de sua boa vontade, mas é que fico animada demais quando encontro uma possível pista de história familiar nos seus artigos.

Em outro e-mail, pergunta se Francisca Martins de Oliveira, esposa de José Alves Martins, não seria uma das filhas do capitão Silvério Martins de Oliveira.

Para responder aos questionamentos de Lúcia, tenho as seguintes informações: O capitão Sílvério Martins de Oliveira era compadre do meu trisavô major José Martins Ferreira, por ter sido padrinho de meu tio-bisavô Manoel José Martins. Esteve em muitos eventos religiosos, na companhia do meu tetravô, o capitão João Martins Ferreira. Foi o primeiro Administrador da Mesa de Rendas de Macau e, também, foi um dos representantes de Apodi, na eleição para Junta Constitucional, em 1821. Sua esposa, dona Joanna  Nepomucena, era filha de   Anna Josepha Joaquina de Albuquerque (que morou um tempo na Ilha de Manoel Gonçalves) e do capitão Manoel Ignácio de Carvalho.

Sobre a existência de filhos do capitão Silvério não tenho documentação comprobatória, mas apenas suspeitas de que seriam: Antonia Silvéria de Oliveira, natural da Serra de Martins, que foi casada com Eliziário Antonio Cordeiro, natural de Lisboa; Silvéria Martins de Oliveira, Joana Nepomucena, mesmo nome da mãe; e Francisca Martins de Oliveira, citada por Lúcia Tolson.

Sobre o outro Silvério, o que temos é o seguinte: Em 1862, viúvo de Anna Raimunda da Luz, casou na capela de Nossa Senhora do Rosário da Várzea, com Anna Joaquina de Maria, filha de João Baptista do Espírito Santo e Maria Alves Lessa, tendo como testemunhas Manoel Pinto Queiroz e Vicente Barbalho Bezerra. Do seu primeiro casamento com Anna Raimunda, encontramos os seguintes filhos, segundo registros da Igreja: Maria, nascida em 1855, em Macau, tendo como padrinhos Christovão Francisco Gomes e Thomazia Martins Ferreira (irmã do major José Martins Ferreira); Manoel, nascido em 1856, batizado em Curralinho, teve como padrinhos José Alves Martins e Maria Gomes Pinheiro; Higino, nascido em 1858, tendo como padrinhos Marcolino José de Moraes; outra Maria, nascida em 1860, teve como padrinhos João Coelho da Silva e sua irmã Josefa Clementina de Moraes; Ritta Martins dos Passos, que casou com José Alves Barbosa (3º grau de consanguinidade), filho de Manoel Alves Barbosa e Anna Francisca Xavier, no sítio Curralinho, em 1871, na presença de Manoel Alves Barbosa e Vicente Rodrigues Ferreira.

No ano de 1904, faleceu Luis Martins Ramos. Segundo sua inventariante e esposa, Cosma Porcina Lessa, não tiveram filhos. Seus bens foram herdados pela dita Cosma e os irmãos dele: Rita Martins Passos, moradora em Boa Vista, com 50 anos, citada acima; Pedro Martins Ramos, com 55, casado com Alexandrina, moradores em Recife; Manoel Martins Ramos, com 49 anos, morador em Curralinho, citado acima, e casado com Maria Gomes dos Santos; José Martins Ramos, com 46 anos, casado com Maria Silvana de Mello, também morador em Curralinho e, citado acima; e João Martins Ramos, com 57 anos, casado com Damiana Rodrigues Lessa, moradores nas Oficinas.

Do casamento com Ana Joaquina, encontramos, até agora, Silvério, que  nasceu aos 22 de outubro 1863, e foi batizado aos 13 de novembro 1863, na capela das Oficinas, tendo como padrinhos Joaquim José Lessa e Maria dos Prazeres.  Esse Silvério é justamente o trisavô de Lúcia Tolson, que ela diz que casou com Leonídia.

Não encontrei nada que fizesse ligar o capitão Silvério Martins de Oliveira com Silvério, tetravô de Lúcia.

Sobre João Baptista do Espírito Santo e Maria Alves Lessa, pentavós de Lúcia, por parte de Anna Joaquina, encontramos os seguintes filhos: Joanna, nascida em 1843; as gêmeas Damiana e Cosma, nascidas em 1854; Josefa Rodrigues Lessa, que casou, em 1869, com Idalino Tranquilino de Sousa. Essas gêmeas, irmãs de Anna Joaquina, casaram com dois filhos do primeiro casamento de Silvério, pelo que se vê do inventário de Luis Martins Ramos.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

João de Deus Fonseca e Maria da Rocha Pimentel


João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG
O “Levante do Gentio Tapuia” (Guerra dos Bárbaros) foi praticamente um genocídio. Dos que restaram, muitos foram escravizados pelas famílias do militares participantes.

O capitão Theodósio da Rocha era natural do Rio São Francisco, Vila de Penedo, filho do capitão Damião da Rocha. Tinha 51 anos de idade, em 1708, pelo que consta de um assentamento de praça. No ano de 1696, ele foi nomeado, pelo capitão-mor Bernardo Vieira de Mello, como cabo do Presídio, de invocação de Nossa Senhora dos Prazeres, da Ribeira do Assú. Eram seus filhos, conforme livros de batismos ou de assentamentos: João da Rocha Vieira, Bonifácio da Rocha Vieira, Damião da Rocha Pimentel, Máximo da Rocha, Antonio Vaz Gondim, Theodósio da Rocha, Margarida da Rocha, Thereza da Rocha, e Marianna da Rocha.

O alferes Damião da Rocha Pimentel, que assentou praça em 1699, filho do capitão Theodósio da Rocha, se engraçou de Bárbara da Rocha, uma tapuia, escrava de sua irmã, viúva Margarida da Rocha (foi casada com o capitão José Porrate de Morais Castro). Daí nasceu uma filha natural, Maria da Rocha Pimentel.

Em 1744, na capela do Senhor Santo Antonio do Potengi, o Reverendo Manoel Alves de Figueiredo casou Maria da Rocha Pimentel com João de Deus da Fonseca, que era filho natural do licenciado Bento da Fonseca e da tapuia, Maria Barbosa, escrava que foi do alferes de Infantaria Antonio Barbosa de Aguiar, sendo testemunhas o capitão Bonifácio da Rocha, tio da nubente, e o coronel João Pereira (ilegível). Bento da Fonseca era cirurgião e esteve no Terço Paulista comandado por Manoel Álvares de Moraes Navarro.

Encontramos o batismo de uma filha do casal acima, como também de uma neta.

Michaella, filha legítima de João de Deus da Fonseca e de sua mulher Maria da Rocha (Pimentel), naturais ambos e moradores desta Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação do Rio Grande do Norte, neta por parte paterna de Bento da Fonseca, natural desta Freguesia e avó incógnita (omitiram o nome de Maria Barbosa) e por parte materna de Bárbara da Rocha, de Nação Tapuia, e de Damião da Rocha, natural desta dita Freguesia, foi batizada com os santos óleos aos vinte e cinco de março de mil setecentos e sessenta e um anos, na Capela do Senhor Santo Antonio do Potengi, desta Freguesia, pelo Reverendo Padre Manoel Antonio de Oliveira, de licença minha; foram padrinhos o capitão João Marques, homem solteiro, morador na Freguesia do Assú, e Dona Ângela de Moraes, solteira, filha da viúva Dona Margarida da Rocha, freguesa e moradora desta dita Freguesia e pela certidão que veio do dito Reverendo Padre que não continha mais, fiz este assento em que por verdade assinei, João Freire de Amorim, vigário.

Ancelmo, filho natural de Anna da Fonseca, e de pai incógnito, neto por parte materna de João de Deus da Fonseca e de sua mulher Maria da Rocha, naturais desta Freguesia, nasceu no fim de novembro de mil setecentos e oitenta e sete e foi batizada com os santos óleos, de licença minha, na Capela de Santo Antonio do Potengi, aos trinta de junho de mil setecentos e oitenta e oito, pelo Reverendo Bonifácio da Rocha Vieira; foram padrinhos o alferes Anselmo José de Figueiredo (Faria) e sua mulher Mariana da Rocha Bezerra, moradores nesta Freguesia. E não se continha mais no dito assento, de que mandei fazer este, em que por verdade me assino. Pantaleão da Costa de Araújo vigário do Rio Grande.

Outros filhos, de João de Deus da Fonseca e de Maria da Rocha Pimentel, foram encontrados em alguns batismos, como padrinhos: Damião da Rocha (Pimentel) e Maria dos Santos, ainda solteiros, foram padrinhos de uma escravinha de Anselmo José de Faria, em 1773.

Dona Margarida da Rocha tinha uma escrava, que depois passou para Ângela de Morais, sua filha, de nome Ludovina, filha de Luiz de Freitas e Rufina da Cunha, cujos três filhos tiveram como padrinhos, outros filhos de João de Deus e Maria da Rocha: Hilária, em 1772, foi apadrinhada por Estanilau Pinheiro Teixeira, morador no Assú, e Úrsula Leite de Oliveira, filha de João; José, em 1769, teve como padrinhos, Lourenço da Fonseca e a mãe Maria da Rocha; Ludovina teve mais um filho, também, José, em 1771, cujos padrinhos foram Lourenço da Fonseca e a irmã Marcelina.

 Antonia de Oliveira Leite foi madrinha junto com o pai, João de Deus, de Maria, filha de Luis Pereira e Jacinta da Rocha, em 1761; os dois novamente padrinhos em 1765, de José, filho de Braz da Rocha e Maria de Figueira, sendo a mãe de Braz da Rocha, a índia dona Bárbara da Rocha.

Um filho de João de Deus da Fonseca, que aparece em um assentamento de praça, é João da Rocha da Fonseca. Outro filho, Bento da Fonseca, mesmo nome do avô, faleceu em 1789, com 26 anos de idade.
O que chama a atenção, nesses registros, são as filhas com sobrenome Leite de Oliveira.  Esse sobrenome parece vir através de Damião da Rocha Pimentel. Será que Dona Antonia Oliveira, esposa do capitão Theodósio e mãe de Damião, seria irmã de João Leite de Oliveira, e ambos filhos do capitão-mor desta capitania,  Antonio Vaz Gondim?



quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Uma Felizarda que mudou de nome, na Crisma


João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, sócio do IHGRN e do INRG
Felizarda foi batizada, na Capela de São Gonçalo do Potengi, pelo Padre Francisco Bezerra de Góis, aos 15 de fevereiro de 1698. Era filha de Manoel da Costa Rego e de Theodósia da Rocha e teve como padrinhos George de Grasciman e Andrezza Soares, esposa de Francisco Pereira.

Em 20 de abril de 1706, portanto, com 8 anos, vamos reencontrá-la, na Capela de Santo Antônio do Potengi, sendo madrinha de Hilário, filho de Antônio Gonçalves de Amorim e de Perpétua de Barros, e nessa ocasião, foi citada como Felizarda Filgueira, filha da viúva Theodósia da Rocha, sendo, portanto, seu pai, Manoel da Costa Rego, falecido; três anos depois, em 11 de junho de 1709, foi madrinha, lá na Igreja de São Miguel de Guajurú, de Domingos filho de Domingos Carvalho da Silva e de sua mulher Catarina de Barros, sendo citada como Felizarda Figueira da Rocha; em 12 de abril de 1710, foi madrinha, na Igreja de São Miguel de Guajurú, de Clara, filha do capitão João Leite de Oliveira e de Damázia de Morais; em 07 de fevereiro de 1711, na mesma Igreja de São Miguel de Guajurú, foi madrinha de Felizarda filha de Bartolomeu da Costa e de Damázia de Araújo acompanhada do irmão, José Barbosa Rego, este batizado em 1694, na Matriz de Nossa Senhora da Apresentação.

Mas quem era Theodósia da Rocha, mãe de Felizarda? Nos registros de batismos mais antigos, desta Província do Rio Grande do Norte, são apresentadas duas Theodósia da Rocha. Uma que foi casada com Manoel da Costa Rego e outra que era filha do capitão Theodósio da Rocha. Pensei, inicialmente, que representavam a mesma pessoa, principalmente, por conta da variação que a Igreja fazia em seus registros. Mas, examinando muitos registros fui me convencendo que eram pessoas distintas. Por fim, descobri que a filha do capitão Theodósio da Rocha faleceu, em 1775, solteira, com mais de cem anos e, portanto, não podia ser a esposa de Manoel da Costa Rego.

Voltemos para dona Felizarda. Como seguiu sua vida, posteriormente? Para responder, vamos ao seu segundo casamento (não temos registros de 1712, até 1726), quando ela tinha 29 anos, e onde há referência à mudança do seu nome, por crisma.

Aos cinco de maio de mil setecentos e vinte e sete, na Igreja de São Miguel da Aldeia de Guajirú, em presença do Reverendo Padre Superior do Guajirú, Jerônimo de Sousa, da Companhia de Jesus, de licença minha, e sendo presentes por testemunhas Domingos Barreto, e o capitão João Leite de Oliveira (compadre da nubente), da Freguesia do Rio Grande, se casaram Joana Figueira, que antes da Crisma se chamava Felizarda Figueira, viúva que ficou do sargento-mor Francisco Rodrigues Coelho, natural e moradora no Rio Grande, Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, com João Rodrigues da Silva, filho de Manuel Rodrigues, e de sua mulher Cosma Gomes da Silva, natural da Freguesia de Nossa Senhora da Luz, deste Bispado, e morador neste Rio Grande, Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação. Manuel Correa Gomes, Vigário.

Suponho que esse Francisco Rodrigues Coelho fosse o filho do tenente-coronel Manoel Rodrigues Coelho e Izabel de Barros, que foi batizado aos 12 de agosto de 1697, tendo com padrinhos Manoel Rodrigues Alioza e Damázia de Morais. Não há menção à Igreja, mas outros irmãos de Francisco se batizaram na Igreja de São Miguel da Aldeia de Guajirú, inclusive Maria da Conceição Barros, em 8 de dezembro (dia de Nossa Senhora da Conceição) de 1694, que foi casada com o português de Arrifana de Sousa, Francisco Pinheiro Teixeira.

Do matrimônio com Francisco Rodrigues Coelho, encontrei uma filha,  Francisca Xavier Filgueira, cujo casamento segue. Observamos que no registro o sobrenome que se escreve é Figueira no lugar de Filgueira.

Aos quinze de outubro de mil setecentos e trinta e seis anos, na Igreja do Senhor São Miguel do Guajirú, desta Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação do Rio Grande do Norte, feitas as denunciações nesta Matriz e na dita Missão para cuja parte é a contraente moradora, e apresentado os banhos corridos da Freguesia de Goyaninha, donde o contraente é natural e morador, sendo me apresentado um mandado do Ilustríssimo Senhor Bispo, pelo qual me mandava receber por palavras aos contraentes, tendo os ditos satisfeitos a penitência imposta pela dispensa que alcançaram para poderem casar, sem se descobrir impedimento, sendo presentes por testemunhas o Reverendíssimo Cura de Goianinha, o licenciado Antonio de Andrade de Araújo, o capitão Duarte Pinheiro Rocha, Maria Gomes, viúva do tenente-coronel Francisco Xavier Ribeiro, e Dona Maria Magdalena, mulher do sargento-mor Hilário de Castro Rocha, pessoas todas conhecidas e moradores desta dita Freguesia, de licença minha, o Reverendíssimo Senhor Padre Pedro Nogueira, superior da sobredita Missão de Guajirú, assistiu ao matrimônio que entre si contraíram o sargento-mor Jorge Lopes Galvão, natural da Freguesia de Goianinha e nela morador, filho legítimo do capitão Cipriano Lopes Pimentel, já defunto, e de sua mulher Dona Thereza da Silva, e Dona Francisca Xavier Figueira, natural desta freguesia de Nossa Senhora da Apresentação do Rio Grande do Norte, filha legitima do sargento-mor Francisco Rodrigues (Coelho), já defunto, e de sua mulher Joana Figueira, moradores desta dita Freguesia, guardando em tudo a forma do Sagrado Concilio Tridentino. E logo lhes deu as bênçãos, e pelo assento que me veio do dito Reverendíssimo Superior, mandei fazer este em que por verdade assinei. Manuel Correa Gomes.

A imagem a seguir é de um livro de batismo, da Matriz de Nossa Senhora da Apresentação, que está arquivado no Instituto Histórico de Pernambuco. É o batismo de Felizarda, filha de Manoel da Costa Rego e Theodósia da Rocha.
Felizarda ou Joanna


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Posses na Câmara Municipal de Macau, alguns registros




João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, sócio do IHGRN e do INRG
Como já tive oportunidade de escrever antes, encontrei, no velho Museu José Elviro, livros da Câmara Municipal de Macau, que não estavam ao alcance dos visitantes ou dos pesquisadores. É, pois, desses livros que extraí alguns registros da vida política dessa Vila, que transcrevo para cá. 

Começamos com o termo de juramento do cidadão brasileiro naturalizado, Balthazar de Moura e Silva, como abaixo se declarou:

Aos dez do mês de setembro do ano de mil oitocentos e cinquenta e seis, nesta Vila de Macáo (era como escreviam naquele tempo), na Sala das Sessões da Câmara Municipal, onde se achava a mesma reunida, em sessão extraordinária, aí compareceu o cidadão brasileiro naturalizado, Balthazar de Moura e Silva, casado com brasileira, com filhos, natural de Mondin de Bastos, Freguesia de São Pedro de Athei, Arcebispado de Braga, em Portugal, e apresentou a Câmara a sua carta de naturalização, que lhe pôs o visto, e depois de registrada, lhe deferiu o juramento, conforme o art. 9º da Carta de Lei de 23 de outubro de 1832, pela forma seguinte: Juro aos Santos Evangelhos abdicar e guardar fidelidade à Constituição e Leis do País e reconhecer o Brasil por minha Pátria desde hoje em diante: o que preenchido, foi lavrado este termo, em que assinou com a Câmara o juramentado. Eu, José Vicente Leão, Secretário da Câmara, o escrevi. Assinaturas dos vereadores e de Balthazar.

No começo de 1857, tomava posse na Câmara Municipal de Macau o suplente de vereador, capitão João Martins Fernandes, na legislatura que estava se encerrando. Logo em março desse mesmo ano, tomavam posse os novos vereadores: Balthazar de Moura e Silva, Antonio Joaquim de Souza Junior, Gorgônio Ferreira de Carvalho, Manoel de Souza Monteiro, o comandante superior Jerônimo Cabral Pereira de Macedo, Manoel Antonio Fernandes Junior e o tenente Francisco Martins de Miranda. Aqui transcrevemos apenas o deste último. 

Aos dezessete do mês de março de 1857, nesta Vila de Macau (aqui na forma que permanece), achando-se a Câmara reunida, na Sala da Casa destinada para as sessões, compareceu o tenente Francisco Martins de Miranda e prestou perante ela juramento da forma seguinte: Juro aos Santos Evangelhos desempenhar as obrigações de vereador da Câmara desta Vila e de promover quanto em mim couber os meios de sustentar a felicidade pública; depois do que houve a Câmara por apossado do Cargo de Vereador e para constar mandei lavrar este termo que com o juramentado assinou. Vila de Macau. Em Sessão Extraordinária de 17 de março de 1857. Os vereadores e Francisco Martins de Miranda.

Além dos vereadores, outros cargos foram empossados nesse ano de 1857, tendo algumas pessoas acumulado funções. Para Juiz de Paz do Distrito da Vila de Macau: tenente José Martins de Sá, Gôrgonio Ferreira de Carvalho, tenente Francisco Martins de Miranda e alferes Christovão de Farias Leite; para Secretário da Câmara, alferes Francisco Xavier da Cunha Vasconcelos; emprego de Procurador da Câmara, Joaquim Varella Venâncio Borges; nomeado pelo governo da província, tomou posse como 1º suplente do Delegado de Polícia do Termo da Vila de Macau, o tenente José Martins de Sá; para cargo de Fiscal, da Vila de Macau, Vicente Ferreira dos Reis e Vicente Ayres de Souza Monteiro.

Mais adiante, nesse mesmo ano, tomaram posse como suplentes de vereador, João Garcia Valladão, capitão Manoel Pereira Farto, Carlos Antonio de Araújo, Eufrásio Alves de Oliveira, Targino Xavier da Cunha e Joaquim Rodrigues Ferreira.

Para subdelegado da Polícia da Povoação de Guamaré, tomou posse o tenente Onofre José Soares.

Algumas dessas pessoas citadas acima são descendentes de moradores da Ilha de Manoel Gonçalves. O vereador Manoel Antonio Fernandes Junior era filho de Manoel Antonio Fernandes e Maria Martins Pureza, neto, portanto, do capitão João Martins Ferreira e de Josefa Clara Lessa. Foi casado com Maximina Anália da Silveira Borges, filha de Joaquim Ignácio da Silveira Borges e Anna Joaquina de Jesus Silveira; o vereador Antonio Joaquim de Souza Junior, outro neto do capitão João Martins Ferreira, era filho de Antonio Joaquim de Souza e Thomazia Martins Ferreira; a irmã dele, Josefa Martins de Souza, foi casada com o vereador Balthazar de Moura e Silva, que enviuvando casou com outra neta do capitão João Martins Ferreira, de nome Maria Petronilla Fernandes, filha de José Joaquim Fernandes e Maria Martins Ferreira.

João Garcia Valladão era um dos portugueses que vieram da Ilha e fundou Macau. Faleceu em 1860; Joaquim Rodrigues Ferreira era filho do português e fundador de Macau, Manoel Rodrigues Ferreira, e de Izabel Martins Ferreira; Christovão Farias Leite, casou em Guamaré, em 1826, mas batizou o filho João, em 1832, na Ilha de Manoel Gonçalves.

Os documentos encontrados no Museu José Elviro precisam da atenção das autoridades de Macau. Eles devem ser digitalizados, urgentemente, pois são úteis para a reconstituição da História do Município. Quem não tem história, não tem identidade.
Batismo de João, de Christovão de Farias Leites Jr, na Ilha de Manoel Gonçalves.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Manoel José Martins, o tutor




João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG
Alguns construtores da História do Rio Grande do Norte, muitas vezes, não têm seus nomes escritos nos livros do presente. Não são lembrados nem pelos seus parentes que sobrevivem hoje. Se não foram militares, escritores, políticos e não exerceram atividade mais significativa ficam esquecidos para sempre. 

Manoel José Martins nasceu em Macau, como podemos ver do registro a seguir: Manoel, branco, filho natural de José Martins Ferreira e Delfina Maria dos Prazeres, moradores nesta Freguesia, nasceu aos dezenove de abril de mil oitocentos e trinta, e foi solenemente batizado, com os Santos Óleos, aos vinte e um de maio do mesmo ano, em Macau, pelo Reverendo José Beraldo de Carvalho, de minha licença, o qual (José Martins) disse em minha presença reconhecia o dito párvulo por seu filho, e me pediu fizesse essa declaração para todo tempo constar, foram padrinhos o capitão Silvério Martins de Oliveira e sua mulher Joanna Nepomucena; do que para constar mandei fazer este assento, e por verdade assino. O Vigário João Theotônio de Souza e Silva.

Esse registro acima é o primeiro de quatro, dispostos continuamente, onde José Martins Ferreira faz o reconhecimento dos filhos: Manoel, José, Josefa e Joaquim.

Encontramos Manoel com vários sobrenomes: Manoel José Martins, Manoel José Martins Ferreira, Manoel Martins Ferreira. Em 1847, já em Cacimbas de Viana, ainda solteiro, ele foi padrinho, junto com Josepha Clara Martins, de Justino, filho legítimo de Bartholomeu P. da Silva e Izabel Maria da Conceição. Em 1857, ambos casados, Manoel José Martins Ferreira e Josepha Clara Martins foram padrinhos de Manoel, filho legítimo de João Alves Martins e Anna Maria de Jesus. Esse João Alves Martins, que quando casou tinha o nome de João Martins Ferreira, era irmão de Manoel José Martins, embora não aparecesse na lista dos reconhecidos pelo pai José Martins Ferreira.

Vejamos seu casamento: Aos vinte e oito de novembro de mil oitocentos e cinquenta, pelas 4 horas da tarde, na fazenda das Cacimbas de Vianna, na Freguesia do Assú, foram unidos e abençoados em matrimônio, de minha licença, pelo Reverendo Silvério Bezerra de Menezes, os contraentes, meus fregueses, Manoel Martins Ferreira, e Prudência Maria Teixeira, brancos, servatis ex more servandis: foram testemunhas José Martins Ferreira e João Gomes Carneiro: do que faço este assento em que assino. Felis Alves de Souza, Vigário Colado de Angicos.

Nesse registro não aparecem os nomes dos pais dos nubentes. Acredito que essa Prudência era filha de Francisco Antonio Teixeira de Sousa e Marianna Lopes Viegas, pois no inventario desta última, do ano de 1839, aparece uma filha do casal, com a idade de seis anos, com esse nome. Os Teixeira de Sousa tinham fazendas em Cacimbas de Vianna. No ano de 1853, Manoel José Martins e João Lins Teixeira de Souza (irmão de Prudência), foram testemunhas do casamento de escravos de João Teixeira de Souza e de João Gomes Carneiro (casado com Anna Joaquina Teixeira de Souza).
Não encontrei um registro sequer de filhos do casal Manoel José e Prudência. Acho que eles não tiveram filhos e, talvez, isso foi  determinante para Manoel José assumir a tutoria dos filhos de seu irmão José Alves Martins, assassinado em 1871. Eram nove, tendo o mais velho a idade de 18 anos e o mais moço, 4 anos. 

No inventário acima podemos observar o zelo que Manoel José Martins teve, prestando contas periodicamente do mesmo. À medida que os herdeiros ganhavam o direito da herança ela era repassada aos mesmos, sem nenhuma contestação, sendo o último a receber o caçula Manoel Alves Martins.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Senador, os Alves vieram de Macau




João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG
No velório da escritora Ana Maria Cascudo Barreto, estávamos em uma roda de amigos, quando Severino Vicente provocou o Senador Garibaldi Alves: João Felipe diz que os Alves vieram de Macau. Garibaldi, então, falou: mas não foi de Angicos?
Comecei a responder, mas a chegada contínua de pessoas impediu a complementação do assunto. Por isso, dou continuidade àquela conversa interrompida, neste artigo, embora já tenha tratado desse assunto em outros artigos.
Em 1810, administrava a Ilha de Manoel Gonçalves, pião de várias terras da região do Assú, José Álvares Lessa. Em 1818, o português e morador da Ilha de Manoel Gonçalves, João Martins Ferreira escrevia para o governador da província, José Ignácio Borges, dando notícia da invasão da dita ilha por corsários ingleses. Era casado com Josefa Clara Lessa, possivelmente, filha de José Álvares Lessa. Em 1823, capitão, encontramos João Martins Ferreira como testemunha ou padrinhos em várias localidades do Assú.
A invasão contínua das águas oceânicas sobre a Ilha foi obrigando seus moradores a se deslocaram para outras localidades, sendo a preferência maior pela então Ilha de Macau, ainda sem habitantes, tendo somente, por lá, alguns práticos. Na lista dos primeiros habitantes de Macau aparecem o capitão João Martins Ferreira, seu filho major José Martins Ferreira e mais quatro genros, segundo a tradição oral.
No período que vai de 1830 até 1834, encontramos os batismos de quatro filhos do major José Martins Ferreira e Delfina Maria dos Prazeres. Nesses registros, onde esses filhos têm seus registros um atrás do outro, por se tratar de reconhecimento de paternidade, consta que eles foram batizados em Macau, embora em outros registros, encontrados isoladamente, as localidades de alguns batismos sejam diferentes. No caso de José Alves Martins, o segundo filho dessa lista, ele foi batizado em Guamaré.
Pois bem, José Alves Martins, casou com Francisca Martins de Oliveira, no dia 27 de novembro de 1852, em Curralinho. Não havia informações dos pais dos nubentes. Em uma das mensagens de um Presidente desta província do Rio Grande do Norte, vamos encontrar a notícia do assassinato dele, em 1871, na povoação de Rosário, por um sócio, João Rodrigues Ferreira.
Em uma das minhas viagens a cidade do Assú, encontrei, no Fórum João Celso da Silveira Filho, o inventário do falecido, tendo como inventariante, e ao mesmo tempo tutor dos filhos órfãos, seu irmão mais velho, Manoel José Martins, ambos inventariante e inventariado moradores em Cacimbas do Viana.
Na relação desses filhos constavam: José Alves Martins (Jr.), 18 anos; João Alves Martins, 13; Francisco Alves Martins, 12; Joaquim Alves Martins, 11; Militão Alves Martins, 10; Josefina Emília Alves Martins, 8; Delfino Alves Martins, 7; Maria, 5; e o caçula Manoel Alves Martins, com 4 anos de idade.
Em 10 de janeiro de 1879, Dona Josefina Emília casou com Absalão Fernandes da Silva Bacilon, natural de Santana do Matos.  Esse casal gerou Dona Maria Fernandes (D. Liquinha) e Dona Jesuína, que casaram, respectivamente, com Manoel Alves Filho e Jose Fernandes Silva.
Manoel Alves Martins, o mais novo de todos os filhos do José Alves Martins, em 1888, foi emancipado por completar 21 anos. Casou, primeiramente, com Joaquina Teixeira Martins, nascendo desse casamento, aos 2 de dezembro de 1890, um único filho, Manoel Alves Martins Filho.  Enviuvando, casou com Maria Ignácia da Conceição. Desse casamento, nasceram vários filhos, entre eles Manoel Alves Filho, aos 10 de agosto de 1894, que casou com sua prima legítima Maria Fernandes (D. Liquinha). Martins desapareceu do sobrenome dos descendentes.
O percurso, portanto, da família Alves, aqui no Rio Grande do Norte, foi Ilha de Manoel Gonçalves, em seguida Macau, depois Cacimbas do Viana (Porto do Mangue), Santana do Matos, e, finalmente, a mais conhecida, Angicos. Os Fernandes (aqui desapareceram os sobrenomes Alves e Martins) onde a maior estrela foi Aristófanes, filho de Jose Fernandes da Silva e Jesuína Fernandes, permaneceram em Santana do Matos.
Inicialmente, alguns dos filhos do major José Martins Ferreira se assinavam como Martins Ferreira, mas com a chegada de outros filhos, com o mesmo nome, do seu segundo casamento com Josefina Maria Ferreira, foi introduzido o sobrenome Alves, que talvez seja originário de José Álvares Lessa, português de Leça da Palmeira, e antigo administrador da Ilha de Manoel Gonçalves.

Batismo de José Alves Martins