segunda-feira, 21 de julho de 2014

Escravos, depoimento de Manoel da Rocha Bezerra




João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG

Auto de perguntas a Manoel da Rocha Bezerra, em continuação do interrogatório feito na Vila de Macau, a cerca da questão dos africanos.

Aos 3 dias do mês de agosto do ano do nascimento do Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e setenta, nesta cidade do Assú, comarca do mesmo nome da província do Rio Grande do Norte, em casa de residência do delegado de polícia em exercício do termo do Assú, capitão Luiz José Soares de Macedo, comigo escrivão interino de seu cargo abaixo nomeado, aí, perante o cidadão Manoel da Rocha Bezerra, pelo dito delegado lhe foram feitas as seguintes perguntas. 

Perguntado qual o seu nome, idade, estado, filiação, naturalidade, e profissão? Respondeu chamar-se Manoel da Rocha Bezerra, de setenta e sete anos, casado, filho legítimo de Balthazar da Rocha Bezerra, já falecido, natural desta Freguesia, e empregado na mesa das rendas provinciais da Vila de Macau.

Perguntado pelo delegado se conhece em Macau José Joaquim de Moura e Silva, e se sabe que ele vendera clandestinamente uma mulher livre como escrava pela quantia de oitocentos mil réis, quando e a quem? Respondeu que conhece José Joaquim de Moura e Silva, e sabe que ele vendeu a seu próprio pai Balthazar de Moura e Silva uma escrava de nome Benedicta, crioula, e que ouviu dizer que a venda se efetuara por oitocentos mil réis. Perguntando, ele delegado, se ele respondente sabe em que se funda o correspondente de Macau, para dizer em uma correspondência inserida no “Liberal do Norte”, de onze de junho deste ano, e datada de quatro do mesmo junho, que ali fora vendida por José Joaquim de Moura e Silva uma mulher livre? Respondeu que não sabia, mas que ouviu dizer que esta correspondência fora feita por pessoas desafetas ao mesmo José Joaquim de Moura e Silva, e a Joaquim Rodrigues Ferreira. Perguntado mais pelo delegado, se ele respondente sabia que em poder de Joaquim Rodrigues Ferreira, existem como escravos três pessoas livres, como também, além destes, outras pessoas livres em poder de alguém como escravo, segundo diz o mesmo correspondente? Respondeu que sabe que Joaquim Rodrigues Ferreira possui de oito a dez escravos entre os quais Antonia e duas filhinhas, cujo nome não se recorda; e que por ser a mesma Antonia filha de negra de Angola presume-se que nasceu de ventre livre; e quanto aos outros a que alude a correspondência, ele respondente não sabe.

Perguntado mais pelo delegado, se sabe de quem é filha a dita escrava Antonia? Respondeu que é filha de uma escrava de nome Josefa pertencente ao pai de Joaquim Rodrigues Ferreira. Perguntado mais pelo delegado se sabe de quem o pai de Joaquim Rodrigues Ferreira houve a dita escrava Josefa? Respondeu que não sabia.

Perguntado mais pelo delegado se sabia que no lugar Camoropim estiveram uns africanos que desembarcaram na Ilha de Manoel Gonçalves, vindos em uma escuna que ali aportou no ano de mil oitocentos e trinta e cinco; e se sabe que alguns desses africanos ou filhos dos mesmos são por alguém conservados em cativeiro, como diz o capitão Francisco Trajano Xavier da Cunha, em sua carta de vinte e oito de julho próximo passado, dirigida a esta delegacia por ocasião de ter sido chamado para dizer o que sabia a cerca daquela correspondência? Respondeu que é voz publica na Vila de Macau, que, na Ilha de Manoel Gonçalves aportou um barco no qual vinham africanos, e que dali seguira o mesmo barco para o Ceará, onde ouviu dizer que foram tomados os mesmos africanos pela justiça, em consequência de serem contrabandos; mas que do tempo em que isso se deu não recorda: tendo-lhe dito o mesmo Francisco Trajano Xavier da Cunha, que o finado D. Manoel de Assis Mascarenhas, quando presidente desta província, mandara sindicar desse fato por intermédio das autoridades daquela Ilha de Manoel Gonçalves, onde era então Juiz de Paz, Joaquim Álvares da Costa, mas que não sabe, ele respondente, se ali ficaram africanos vindos no mesmo barco.

Perguntado mais pelo delegado, se sabia de quem era filha Benedita, vendida por José Joaquim de Moura e Silva? Respondeu que era filha de Joaquina, escrava que foi de Balthazar de Moura e Silva. Perguntado mais pelo delegado se ainda existe Joaquina, e de que nação é, e se escrava, ou livre? Respondeu que ainda existe na Vila de Macau, é de nação angola, e hoje liberta pelo dito Balthazar de Moura e Silva; em consequência dos bons serviços a ele prestados. Perguntado mais pelo delegado se sabe donde houve Balthazar de Moura e Silva, a dita escrava Joaquina? Respondeu que por herança do sogro Antonio Joaquim de Sousa. Perguntado mais pelo delegado se sabe de quem a houve Antonio Joaquim de Sousa? Respondeu que não sabia.

Aqui encerrou o auto de perguntas que foi escrito por Luiz da Circuncisão Ferreira Cabeça e assinado em 23 de setembro de 1870.

Este documento foi extraído do jornal “O Assuense”, de 6 de outubro de 1870, digitalizado pela Hemeroteca Nacional.
Manoel da Rocha Bezerra, casou na Ilha de Manoel Gonçalves em 1829, com Josefa Jacinta de Vasconcelos. Era tio-avô do jornalista Pedro Avelino; Francisco Trajano Xavier da Cunha, viúvo, em 1826, de Maria Ignácia Fernandes Pimenta, casou em 1829, nas Oficinas, com Senhorinha Clara dos Anjos, irmã de Josefa Jacinta de Vasconcelos.

O português Antonio Joaquim de Sousa era casado com Thomázia Martins Ferreira, filha do capitão João Martins Ferreira. A filha deles, Josefa Martins de Sousa, casou com o português Balthazar de Moura e Silva, e daí nasceu José Joaquim de Moura e Silva. Este último casou, em 1871, com Antonia Leopoldina de Sousa, filha de Pedro Virgulino de Sousa e Maria Rodrigues Ferreira, esta última, irmã de Joaquim Rodrigues Ferreira, ambos filhos do português Manoel Rodrigues Ferreira e Izabel Martins Ferreira.



terça-feira, 15 de julho de 2014

Siminéa e Tavelho




João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG

Até pouco tempo não tinha, nos meus arquivos, qualquer registro sobre membros da família Siminéa. Isso para mim era estranho, pois eles eram oriundos de Angicos. A professora Crisan Siminéa, nascida lá, era a mais próxima de meu pai, por ser colega dos Correios e Telégrafos. Vi muitas vezes, na minha infância, a viúva, D. Maria do Carmo, mãe de Crisan, caminhando pelas ruas de Natal.

Depois conheci, no Sebo Vermelho, José Helmut Cândido, que se dizia parente do capitão José da Penha. Abimael me apresentou Idelzuite, irmã de Helmut, e foi através dela que recebi informações sobre alguns ascendentes deles, aparecendo aí, também, um Siminéa. Segundo essas informações, Helmut era filho de José Cândido de Sousa e Maria Leopoldina de Sousa (nascida em Santana do Matos,  em 2 de julho de 1901). Neto por parte paterna de Francisco das Chagas Siminéa e Josefa Veneranda Alves de Sousa e materna de Manoel Aniceto Lopes e Ana Leopoldina Lopes.

A partir daí, fui fazer novas buscas nos arquivos que fotografei, onde primeiramente encontrei, em um livro de proclamas de Angicos, o que se segue: Quer casar o cidadão Francisco Pedro das Chagas Siminéa, solteiro, filho legítimo de Manoel Alexandre dos Santos Tavelho e de Antonia Francisca Pereira da Conceição, com 32 anos de idade, com D. Josefa Veneranda Alves de Souza, solteira, filha legítima de José Alexandre Alves de Sousa e D. Cândida Leopoldina de Souza, com 25 anos de idade, os contraentes são naturais e moradores nesta Freguesia de São José de Angicos. Aqueles que souberem algum dos impedimentos de que trata o artigo 7 do decreto nº 181 de 24 de janeiro de 1890, que possa anular este casamento, poderão exibi-lo neste cartório devidamente provado, e sob as penas da lei,  os com malícia não o impeçam. Cartório do Escrivão de Paz em audiência nesta Vila de Angicos, 7 de junho de 1892. Alexandre Vespaziano de Souza Pinheiro.

Esses dois nomes raros, Siminéa e Tavelho, não encontrei fora dessas famílias, nem, também, como santos ou localidades. Minha hipótese é de que seriam oriundos de apelidos. Na internet, um nome que é sugerido, quando colocamos a palavra Siminéa, é Chimenea (ou Chiminea), que é traduzido como lareira, chaminé, ou lugar de fogo. Como os membros dessa família são ruivos, é possível que Siminéa seja uma variação desse nome espanhol, que gerou esse apelido. 

Com a notícia sobre os pais de Francisco Pedro, fiz nova varredura, pois o nome Tavelho não tinha encontrado até então. Finalmente, acho o casamento deles. Eram Lopes Viegas e Pereira Pinto.

Aos dez dias do mês de junho de mil oitocentos e cinquenta e sete, às oito horas da manhã, nesta Vila de Angicos, em Oratório Particular, tendo precedido dispensa de sanguinidade, e das canônicas denunciações, confissão, e exame de doutrina cristã, em minha presença e das testemunhas João Felippe Teixeira de Souza, e José Vitaliano Teixeira de Souza, casados, e moradores nesta Freguesia, se uniram em matrimônio, por palavras de presente, e tiveram as bênçãos nupciais, os meus fregueses Manoel Alexandre dos Santos Tavelho, e Antonia Maria da Conceição, naturais e moradores nesta Freguesia, filhos legítimos: ele, de Alexandre Lopes Viegas de Azevedo, e Constância Maria do Espírito Santo; e ela de Gonçalo Pereira Pinto, e Maria Angélica da Conceição, falecida. Do que para constar faço este termo em que assino com as referidas testemunhas. Vigário Felis Alves de Souza.

Os nomes de Manoel Alexandre e de sua esposa Antonia Francisca sofreram alterações em alguns registros. Em dois outros registros de filhos, por exemplo, o nome do pai de Francisco Pedro das Chagas Siminéa era Manoel Alexandre de Azevedo Sousa. 

Alexandre Lopes Viegas de Azevedo, pai de Manoel Alexandre, era filho de Antonio Lopes Viegas e Francisca Pereira da Conceição e neto, por parte paterna, do tenente Antonio Lopes Viegas, fundador de Angicos, e de Anna Barbosa da Costa. Foi ele, em 1862, quem fez doação de uma sorte de terra ao “Glorioso Patriarca São José”, orago de Angicos. Alexandre casou, em 1824, com sua prima, Constância Maria do Nascimento, filha legítima de Antonio Martins dos Santos e Felippa Maria Duarte, esta última filha do tenente fundador.

O pai de Crisan, Francisco Siminéa Filho, era irmão de José Cândido de Sousa, pai de Helmut, ambos filhos de Francisco Pedro das Chagas Siminéa.

A primeira esposa de José Alexandre Alves de Sousa, Maria Leopoldina Josefa Carolina, era falecida em 1864. Josefa Veneranda nasceu por volta de 1867, e, portanto, era filha do segundo casamento dele, que foi com Cândida Leopoldina. Assim, Francisco Siminéa e José Cândido eram primos legítimos do capitão José da Penha.
José Cândido e Maria Leopoldina



quinta-feira, 10 de julho de 2014

A viagem de Leão Veloso, última parte




João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, sócio do IHGRN e do INRG

Eis-me pisando sobre o solo de Mossoró (10 de agosto de 1861), lugar de minhas simpatias, e que incontestavelmente virá a ser um dos pontos mais importante da província pela vantajosa posição topográfica em que se acha.

Colocada em uma extensa e linda esplanada que se alonga até a barra, 7 léguas ao sul, a Vila de Mossoró contém um sofrível povoado, cujo número de edifícios talvez exceda de 120, e um comércio já bastante agitado até ali se observa.

O Reverendo Vigário Antonio Joaquim Rodrigues, que, como os habitantes de Apodi, jazia também em dúvida a respeito do dia certo em que o Exmo. Sr. Presidente deveria ali passar, foi quem, indo ao seu encontro já quase dentro da rua, ofereceu a sua casa para o nosso alojamento, tratando-nos com aquela afabilidade e franqueza que lhe são tão notáveis.

Conta Francisco Othílio, relator da viagem, que foi convidado para ir à casa de umas moças, que haviam também assistido à festa no Caicó, para ouvi-las tocar violão e flauta e cantar algumas modinhas, tendo se dirigido para lá em companhia do inspetor João Carlos, amigo da família. Aí faz o seguinte comentário: quem tem visitado a nossa capital onde a maior parte das moças é tão acanhada, e sem gosto para música, que juízo não fará dos mais lugares! Eu, porém nesta viagem fui testemunha do contrário, encontrando moças verdadeiras apreciadoras de música, e até de alguma instrução. 

Ás três horas da tarde (do dia 11) principiaram a chegar os cavalos para o nosso transporte, e às 5 horas já perdíamos de vista alguns edifícios da Vila de Mossoró, da qual me apartava com saudades. Neste trajeto teve S. Exc. de visitar um armazém que existe na distância de uma légua, pequeno receptáculo de diversos gêneros que são exportados daquela Vila em barcaças, as quais nas enchentes das marés chegam até ali; depois do que tomamos o caminho que devia levar-nos a Macáo, pernoitando-se na Fazenda Umari, duas léguas distante de Mossoró, onde chegamos favorecidos pelo astro da noite que já derramava um pequeno clarão. E assim às 3 horas da madrugada deixamos Umari, chegando-se ao lugar denominado Entrada, pequeno povoado da costa entre Macáo e Mossoró, às 10 horas.

Descansamos em casa de um homem, de nome João Filippe, o qual nos hospedou segundo a sua posição e circunstancias, suprindo algumas falhas, que todavia não eram para estranhar em um lugar como aquele falto de certos recursos, os seus modos afáveis.

Seriam pouco mais ou menos 3 horas da tarde, quando deixamos a Entrada, tocando às seis horas na Ponta do Mel, onde nos demoramos somente enquanto tomávamos uma fartada de peixe fresco, em casa do senhor Paulo Gomes da Costa, que já prevenido se achava de que por ali passaríamos; continuando depois a nossa marcha para Cacimbas de Vianna, fazenda do Major José Martins Ferreira, aonde chegamos às dez horas da noite.

Duas noites e um dia foi quanto nos demoramos em Cacimbas de Vianna, onde passamos muito bem, não só em razão do cavalheirismo com que fomos tratados pelo major José Martins Ferreira, mas também pelas comodidades que oferece aquele agradável sítio.

Ainda estávamos desfrutando o agradável sono da madrugada do dia 14 quando um homem nos bateu à porta anunciando que em um porto distante dali meia légua pequena se achava uma barcaça convenientemente tripulada para transportar-nos a Macáo, acrescentando mais que algumas pessoas que deviam acompanhar-nos se achavam a bordo da mesma barcaça.
Posta a bordo a nossa bagagem, embarcamos. Eram 7 horas quando fizemos de vela. Uma breve viagem de 2 a 3 horas, o mais tardar nos prometiam os homens da tripulação e o Sr. André de Miranda experimentados naquele trajeto, que compreende três légua marítimas.

Mal, porém, pensavam eles que daquela vez tinham de ver falhar todos os seus cálculos, pretendendo marcar uma viagem que fazíamos a mercê dos ventos. Com efeito, apenas a embarcação que nos conduzia principiou a demandar os mares da costa, vento contrário logo soprou e toca a bordejar; acontecendo por duas vezes que fomos tão fora, que quase perdíamos a terra de vista. 

Eram 2 horas da tarde, e nós tendo em frente a barra não a podíamos ganhar. Ainda àquela hora navegávamos com proa de mar quando caiu o vento nordeste, pelo qual tanto suspirávamos; virou-se então de bordo, e a barcaça cortando suavemente as águas levou-nos à Macáo, onde aportamos às 4 horas da tarde.

Algumas pessoas em cujo número estava o Sr. Deocleciano foram esperar-nos à praia, tomando S.Exc. a casa deste Sr. por quem fomos bem hospedados.

Conta Francisco Othílio, que por atraso do vapor Jaguaribe, só começaram a viagem de regresso para Natal às 9 horas dia 22 de agosto e, às 9 horas da noite já estavam em Pititinga.

Para encerrar, algumas observações: Foi em Cacimbas de Vianna, localizada, hoje, em Porto do Mangue, que nasceu minha avó, Maria Josefina Martins Ferreira. Batizada em Angicos, teve como padrinho o seu avô paterno, major José Martins Ferreira, um dos primeiros povoadores da Ilha de Macau, vindo da Ilha de Manoel Gonçalves. O major era trisavô paterno e materno do ex-governador Aluízio Alves e materno do deputado federal Aristófanes Fernandes.
Deocleciano, que hospedou o presidente, deveria ser o tenente-coronel, Deocleciano Ernesto de Albuquerque Mello, que foi administrador de rendas em Macau e agente da Companhia Pernambucana. Era pai do doutor Euclides Deocleciano de Albuquerque, que foi vice-presidente da nossa província.
José Martins Ferreira, meu trisavô, paterno


quarta-feira, 2 de julho de 2014

A viagem de Leão Veloso (III)




João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG

Nem todas as edições do jornal “O Recreio” foram digitalizadas pela Biblioteca Nacional e, por isso, faltam algumas edições que falam da viagem do Presidente Leão Veloso. Conta Câmara Cascudo, que escreveu “A Jornada Presidencial de 1861” (Velhas Figuras, Vol. 2), que um dos membros da comitiva presidencial era o Ajudante de Ordens do Presidente, Manuel Ferreira Nobre, autor de “Breve Notícia sobre a Província do Rio Grande do Norte”. Segundo Cascudo, Leão Veloso embarcou no “Jaguaribe” a 9 de julho chegando à Macau a 10.

Mas continuando nosso relato anterior, vejamos mais alguns lugares por onde passou a comitiva do Presidente.

Ás 3 horas da tarde selaram-se os cavalos e partimos, acompanhando-nos o mesmo capitão Severino e mais algumas pessoas; e às 7 da noite chegamos ao Boqueirão, fazenda do capitão Miguel Esteves de Queiroz, 4 léguas distantes da serra.

É com razão que muitas vezes se diz que o diabo não é tão feio como o pintam; este chistoso ditado é bem aplicado ao que me disseram da ladeira do Martins, a qual nada tem que faça arrepiar, e ao contrário é maravilhosamente acessível.

Eram 7 da manhã. Eis-me pois, amados leitores, na Serra de Martins, ou Cidade da Imperatriz, um dos pontos de tanta nomeada da Província. Falando-vos porém com franqueza e verdade dir-vos-ei que bastante me surpreendeu a sua perspectiva, não quanto ao local sobre que se acha plantada, por ser uma vasta e bela planície, mas em vista da sua péssima edificação, que revela o regresso espantoso em que vai aquela cidade. O seu solo, porém, é fertilíssimo e o clima puro e salutar.

Além de uma pequena capela que se acha desde muito abandonada pelo seu estado de ruína, tem a Matriz onde se celebram os atos religiosos. Em consequência do desabamento há bem pouco tempo de duas torres que tem dos lados, precisa a mesma Matriz de um grande conserto, o qual suponho que tão cedo se não fará porque as pessoas mais abastadas do lugar, que podiam concorrer com suas esmolas para esse fim, conservam o grande prejuízo de não quererem cooperar para o asseio de uma Matriz cujo vigário diverge de suas opiniões! É bem censurável esse extravagante pensar de almas tão mesquinhas.

A casa em que nos aboletamos foi ministrada pelo Reverendo Vigário Antonio de Souza Martins, com quem muito simpatizei, e que nos tratou com a melhor franqueza e boa vontade.

Seriam 4 da tarde quando encetamos a marca pra a Vila de Paus dos Ferros 8 léguas ao norte da Cidade de Imperatriz.

Ás 7 da manhã do dia 4 deixamos Currais Velhos, onde chegamos às 7 horas e meia da noite, de que não tive saudades, acompanhado-nos  os padres Bernardino José de Queiroz e Joaquim Manoel de Oliveira, que haviam chegados àquela  fazenda em a noite antecedentes, e encontrado em caminho outras muitas pessoas que iam ao nosso encontro.

Eram 8 e meia hora.  Como me acho na Vila de Pau dos Ferros, darei dela uma pequena amostra aos leitores. Aquela Vila acha-se situada ao norte do rio denominado Apodi; seu local é alguma coisa pedregoso, e pouco plano; e demasiadamente árido o seu solo. Além da Matriz, que não é lá das mais asseadas, e que se acha ainda por acabar, não há um só edifício que chame a atenção de quem quer que por ali tenha de passar: a edificação, em geral, de má construção, não excede a quarenta casas, algumas das quais são de tamanho, ou talvez menores que os “belixes de Iguarassú”.

A casa onde nos hospedaram foi a em que funciona a Câmara Municipal (uma das melhores) mandada preparar antecedentemente pelo Reverendo Bernardino José Queiroz que tratou-nos belissimamente, bem como os Srs. majores Gurjão e Epifanio, pessoas mais notáveis daquela Vila.

Somente dois dias nos demoramos naquele lugar, inclusive o da chegada, e por isso na tarde de 5 estávamos de volta para Portalegre, pernoitando-se na fazenda Tesoura, propriedade da mãe do padre Joaquim Manoel, a quem já conhecem os leitores. Ali chegamos com o ar do dia, cavalgando em um excelente animal; o melhor que montei durante toda a minha viagem. 

Por falta de uma das edições do Jornal “O Recreio”, complemento o relato de Othílio com informações de Câmara Cascudo que escreveu: Em Portalegre ficam com Manuel Antonio Pinto, deixando a Vila, indo dormir em Cajuais, de Antonio Gomes Pinto. No dia 7, descansam em Monte Alegre, de Antonio da Silva Lisbôa, almoçando-se curimatãs e linguiças, alcançando Apodi, onde a recepção era dirigida Pelo Juiz de Direito da Maioridade (Martins), Dr. Delfino Augusto Cavalcanti de Albuquerque, que presidira o Rio Grande do Norte em 1871. A 9 recomeçam a peregrinação, indo a povoação de S. Sebastião, onde Othílio cita o Cruzeiro de Pedra que não chegou a  ver. Dia10, às 10 da manhã, estão em Mossoró.
Para concluir esta parte, algumas observações: Miguel Esteves de Queiroz foi membro do Conselho de Intendência Municipal de Patú. O Padre Antonio de Souza Martins foi outro que deixou descendência no nosso Rio Grande do Norte, como fizeram Padre Thomaz Pereira de Araújo e Padre Francisco de Brito Guerra.

Falecimento de Pedro Leão Veloso