segunda-feira, 19 de março de 2012

O batismo de José Georgino Alves de Sousa Avelino

Theodorico Bezerra, Presidente Juscelino e Senador Georgino Avelino

João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN e membro do IHGRN e do INRG

Todos os documentos que pesquisei sobre o Senador Georgino Avelino, até agora, informavam que ele nasceu no dia 31 de julho de 1888. Durante minhas pesquisas, nos livros de batismos de Angicos, não encontrei o referido assento. Supus em alguns momentos que ele pudesse ter se batizado em outra Freguesia.

O Jornalista Pedro Avelino e Maria das Neves Alves de Sousa, pais de Georgino, casaram em 27 de outubro de 1885, ele com 24 anos e ela com 20 anos. Nas proximidades do citado nascimento de José Georgino, o batismo que encontrei foi de sua irmã Maria (possivelmente Maria Albertina Leite), cujo registro transcrevo abaixo.

Aos 4 de janeiro de 1888, nesta Matriz, batizei solenemente a Maria, natural desta Freguesia, sendo padrinhos José Francisco Alves de Sousa e sua mulher Maria Ignácia Alves da Silva (Sousa), nascida a 4 de dezembro de 1887, e filha legítima de Pedro Celestino da Costa Avelino e Maria das Neves Alves Avelino, livres, brasileiros, moradores nesta Freguesia, do que mandei fazer este assento, em que assino. O Vigário Felis Alves de Sousa.

Os padrinhos de Maria eram seus avós maternos. Lembramos que Dona Maria das Neves era irmã do capitão J. da Penha e de José Anselmo.

Recebi de um neto do Senador Georgino Avelino, o Professor George Avelino Filho, pesquisador da Fundação Getulio Vargas, uma biografia extraída do Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, do Centro de Pesquisa e Documentos de História Contemporânea do Brasil, da dita Fundação, onde também se repetia a mesma data de nascimento para o Senador.

O tempo foi passando sem que o mistério tivesse se resolvido. Afonso Bezerra Sobrinho, que encontrei no município de Afonso Bezerra, tinha uma cisma que Georgino tinha nascido em Carapebas. Mas mesmo assim, o registro de batismo deveria ter ocorrido em Angicos.

Há poucos dias, ordenando algumas cópias de registros de batismo com o intuito de fotografá-las, encontrei o registro do nosso personagem, que transcrevo para cá.

Aos 5 de setembro de 1886, nesta Matriz, foi, de minha licença, solenemente batizado pelo Reverendo Cônego Antonio Eustáquio da Silva, José, natural desta Freguesia, sendo seus Padrinhos eu – Felis Alves de Sousa, Vigário da Freguesia, e Anna da Natividade Bezerra, nascido aos 31 de julho do dito ano, e filho legítimo de Pedro Celestino da Costa Avelino, e Maria das Neves Alves Avelino, livres, brasileiros, meus fregueses: do que mandei fazer este assento em que assino. O Vigário Felis Alves de Sousa.

O Vigário Felis Alves de Sousa era tio-bisavô de José Georgino pela parte materna. Dona Anna da Natividade Bezerra era filha de Matheus da Rocha Bezerra e Anna Angélica; casou com Vicente Maria da Costa Avelino. Daí nasceu Pedro Avelino. Era portanto, avó de José Georgino Alves de Sousa Avelino.
Dessa forma fica corrigida para todo o sempre a data de nascimento do Senador Georgino Avelino. A imagem do batismo de Georgino Avelino foi postada no blog  http://putegi.blogspot.com.

Você já ouviu falar em Natalópolis, Conde do Rio Grande, no capitão-mor Antonio Fernandes Furna, e no donatário Manoel Jordão? Conheça tudo isso no blog acima.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Natalópolis, já ouviu falar neste nome?


João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor de Matemática da UFRN, membro do IHGRN e do INRG

Durante as pesquisas sobre o capitão-mor do Rio Grande, Manoel de Abreu Soares, surgiram muitas outras informações que eu desconhecia. Algumas delas necessitam dos documentos comprobatórios para atestar sua validade, mas como elas vão se repetindo em diversos autores e na internet, trago para esse espaço para conhecimento de todos e uma discussão maior.
Vicente Lemos escreveu no seu livro sobre os capitães-mores do Rio Grande: tinha D. João IV doado nesse mesmo ano (1654) uma parte do território do Rio Grande a Manoel Jordão, do qual não chegou a tomar posse, por ter naufragado na ocasião do desembarque (Coreografia Brasílica de Ayres do Casal, tom. 2º, pag. 185. Thomaz Pompeu, Geografia Geral, 4ª edição.
Câmara Cascudo, no livro História do Rio Grande do Norte, estranhando, disse de Manoel Jordão: de quem desconheço vida e feitos justificativos da mercê de D. João IV, autor de tão curiosa forma de agradecimento aos seus vassalos norte-rio-grandenses.
Júlio Gomes de Senna, no livro Ceará-mirim, exemplo nacional, acrescenta que Aires do Casal quando registrou esse fato, chamou Natal de Natalópolis.
Gottfried Heinrich Handelmann, no livro História do Brasil, traduzido pelo IHGB, e publicado pelo MEC, escreveu: Nos anos 1654-1656 fez o Rei D. João IV doação da capital, Natal, com suas dependências, a Manoel Jordão; porém, quando esse donatário aqui chegou para tomar posse, naufragou a sua embarcação à entrada, no Rio Potengi, ele próprio pereceu, e os seu feudo reverteu à Coroa. Mais tarde elevou o Rei D. Pedro II esta mesma terra à categoria de condado, em favor de Lopo Furtado de Mendonça (1689), resta saber, contudo se com esse título, conde do Rio Grande, acaso estava ligado algum direito de posse, pois não se falou mais nisso.
Júlio Gomes de Senna, no livro citado acima, comenta que o titulo de Conde foi inicialmente para Francisco Barreto de Menezes que passou para sua filha Antonia, e esta por intermédio do casamento, para o seu esposo Almirante Lopo Furtado de Mendonça.
Na internet encontro que Felipe Alberto Folque de Mendonça, um dos pretendentes ao Reino de Portugal, se intitula 3º Conde do Rio Grande.
Encontro através da internet pessoas com o nome de Manoel Jordão. Desconfio que Aires do Casal juntou pedaços de histórias para construir essa sobre a doação de D. João IV. Quanto ao condado, resta saber se esse Rio Grande era o nosso.
Em um de seus artigos em Velhas Figuras, Cascudo diz: Vicente Lemos acreditava que a primeira nomeação de Vaz Gondim para o Rio Grande do Norte tinha sido em janeiro de 1656. Parece ter sido muito antes. Em 8 de abril de 1657, o Governador Geral do Brasil, Francisco Barreto de Menezes, o vencedor de Guararapes, informa a Vaz Gondim: com esta remeto a V. M, patente para continuar no exercício desse posto. Se a nomeação fosse de 1656 não era possível aparecer essa patente, no ano seguinte, mandando continuar no exercício. O prazo mínimo de governo era de três anos. Expirado o prazo legal e o Governador mandava o Capitão-mor continuar. Em 7 de abril de 1659, o mesmo Governador Geral oficiava ao Senado da Câmara do Natal, comunicando que Vaz Gondim continuava na administração. O Senado da Câmara havia solicitado a permanência do capitão mor pelos excelentes trabalhos que havia empreendido.
Continua Cascudo. Governara de 1654 a 1656, de 1657 a 1659 e fora a pedido do Senado da Câmara, reconduzido para 1660-61-62. Ficou até 5 de Dezembro de 1663.
Hélio Galvão, entretanto, diz que para o Rio Grande o primeiro capitão-mor despachado foi Antonio Fernandes Furna (nomeado por carta de 6 de junho de 1654,  parente de Calabar, mas pelo visto de fidelidade provada à causa brasileira. Diz mais adiante, que substituiu-o em princípios de 1656, Antonio Vaz Gondim.
Com relação a esses capitães-mores é possível que todos estejam parcialmente certos e, talvez, as datas de governo sejam diferentes, como também o tempo dos mandatos. Era um período de reconstrução, após a saída dos holandeses. Pode ter acontecido o seguinte: Veio Antonio Fernandes Furna por conta da nomeação em 1654; depois, na sequencia, assumiu Manoel de Abreu Soares, por conta da nomeação de 1656, tendo governado por pouco tempo; Em seguida veio Antonio Vaz Gondim, tendo começado no fim de 1656 ou no começo de 1657, e durado mais de seis anos, nessa sua investidura.
Com relação a esse Antonio Fernandes Furnas, encontramos nos documentos sobre pagamento de tropas, aqui no Rio Grande do Norte,  anotações sobre um filho dele de nome Luiz de Sousa Furna. Ele foi socorrido com pagamento em dois períodos: de 12/10/1729 até 27/8/1731 e de 27/8/1731 até 26/8/1733.

terça-feira, 13 de março de 2012

Uma sesmaria, quase esquecida, para Manoel de Abreu Soares

Dentro do meu projeto de reconhecimento do capitão-mor desta Capitania que foi Manoel de Abreu Soares, noticio aqui mais um documento sobre esse ilustre potiguar, uma sesmaria que quase não é incluida, por esquecimento dos copistas.

No livro das sesmarias, editado pela Fundação Vingt-un Rosado e Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, parte da Coleção Mossoroense, encontramos a seguinte Nota: Ao fazer a conferência geral das cópias e depois de encadernadas, verifiquei que os copistas omitiram esta data, que agora copio e dou numeração intercalada. Jm Ignácio.
A dita sesmaria recebeu o número 3A. Copiamos para cá o trecho inicial da sua petição: O capitão Manoel de Abreu Soares, morador nesta Capitania do Rio Grande que ele tendo seu gado e família para ajudar a povoar a dita Capitania e lhe faltam terras para o poder fazer, e porque tem servido à Majestade há vinte e seis anos contínuos nestas guerras de que até agora não tem recebido mercê alguma, e porque na Ribeira de Goiana estão umas terras que ficaram por falecimento de Francisco Teixeira, morador que foi desta Capitania, de que não ficaram herdeiros, as quais terras partem pelo rio Jacú acima ficando da banda norte o rio O...
A data dessa sesmaria é  16 de maio de 1660.

segunda-feira, 12 de março de 2012

A petição de Paschoal Gomes de Lima

Maria Magdanela, filha de Paschoal Gomes de Lima, 1701

Em artigo anterior falamos sobre um alvará, de 1681, concedido pelo Príncipe Regente e Governador de Portugal e Algarves, D. Pedro II (irmão do Rei Afonso VI), que comprova que Manoel de Abreu Soares foi capitão-mor do Rio Grande, em 1656. Esse alvará apareceu em uma petição do filho, Pascoal Gomes de Lima, que requereu os benefícios do dito documento, quarenta e oito anos depois de sua expedição.
Em Julho de 1729, o alferes Pascoal Gomes de Lima, morador na Capitania do Rio Grande, requereu ao Rei Dom João V (o Freirático), filho de D. Pedro II, acima, o posto de escrivão da ouvidoria, da cidade da Paraíba que se achava vago, ou, em falta deste, o de oficial da Fazenda Real que é o da abertura, ou de Provedor da Fazenda Real do Rio Grande, que também se achava vago, por ser ele, na época, filho legítimo e único do capitão-mor Manoel de Abreu Soares, com base no sobredito alvará concedido, para filho ou filha do capitão-mor Manoel de Abreu Soares.
A fim de comprovar sua filiação, foram apresentadas testemunhas ao Juiz Ordinário Theodósio de Freire Amorim. Deram seus testemunhos as seguintes pessoas; Comissário Geral Manoel de Mello Albuquerque, casado, 65 anos; licenciado Francisco Alves Bastos, casado, Juiz de Órfãos, 50 anos; Pascoal Freire de Crasto, casado, mestre da Capela, 82 anos; sargento-mor Bento Teixeira Ribeiro, casado, morador na Ribeira do Mipibú, 68 anos. Todos eles confirmaram, sob juramento, que Pascoal Gomes de Lima era filho legítimo do capitão-mor Manoel de Abreu Soares, e que naquela data todos os irmãos do requerente eram já defuntos. Foi dito, também, por alguns, que a esposa de Manoel de Abreu Soares, e mãe de Pascoal, era Dona Maria de Siqueira.
O outro documento que faz menção ao potiguar Manoel de Abreu Soares como capitão-mor de nossa Capitania é o que lhe concedeu o título de capitão-mor de toda a infantaria de soldados pretos e índios, em 1688, por conta do aperto em que várias nações bárbaras tinha posto à capitania do Rio Grande. Foi ordenado, por Mathias da Cunha, do Conselho de Sua Majestade, ao Governador da Capitania de Pernambuco, João da Cunha Souto Maior, que mandasse duzentos infantes com seus capitães e governador dos índios, com quatrocentos arcos, e o terço de Henrique Dias, com cem soldados pretos, para fazerem aos Bárbaros a guerra ofensiva que estava pedindo a sua solução e estrago dos moradores da Capitania do Rio Grande.

Em um dos trechos do documento, complementa: E para isso era necessário nomear capitão-mor de toda essa gente, pessoa de grande valor e experiência. Respeitando eu o bem que estas qualidades na de Manoel de Abreu Soares, que nela assiste, e aos muitos anos que tem servido a Sua Majestade nas guerras de Pernambuco, ocupando todos os postos até o de capitão de infantaria, capitão-mor da mesma capitania do Rio Grande e, ultimamente, da de Sergipe d'El Rei; e tendo consideração o se me representar pelo Procurador dos moradores do Rio Grande, que fosse ele sujeito, a que se remetesse o socorro que se me pedia: esperando que nas obrigações que lhe tocarem em ocupação de tanta importância, se haverá muito conforme a opinião que se tem de sua pessoa e confiança que faço do seu merecimento: hei por bem de o eleger e nomear, como em virtude do presente elejo e nomeio capitão-mor de toda a infantaria soldados pretos e índios.
Sobre essa participação de Manoel de Abreu Soares, há várias referências de Taunay, em sua Guerra dos Bárbaros, hoje disponível na internet. Entre elas, citamos: Ao mesmo tempo mandara servir no teatro das operações o experimentado e bravo, embora já muito idoso, Manoel de Abreu Soares, homem de tão bela fé de ofício. Agiria autonomamente procurando socorrer a Albuquerque Câmara. Partira Soares sem detença de Natal para as margens do Piranhas ocupando um lugar chamado de Olho d'Água e depois Poço Verde onde construiu um estacada.
Segundo alguns autores, nessa época Manoel de Abreu Soares, já era octogenário. Em outro artigo trataremos da descendência de Manoel de Abreu Soares.
Os sites sobre São Gonçalo do Amarante informam, erradamente, que Pascoal Gomes de Lima era português, e chegou lá, proveniente de Pernambuco, em 1710, junto com outro português, Ambrósio Miguel Sirinhaém. Mas na verdade, Jerônimo da Cunha, o avô, já tinha sesmaria por aqui em 1605; o pai, Manoel de Abreu Soares, nasceu aqui, no Rio Grande; há vários registros de Pascoal, antes de 1710, por aqui. Antes de se escrever qualquer outro livro sobre São Gonçalo, há necessidade de se consultar as fontes primárias, no lugar de ficar repetindo erros.
Por falar em equívocos, o Senador Georgino Avelino nasceu em 1886, e não em 1888, como se propaga. Escreveremos sobre isso.
Já está nas livrarias, meu livro, editado pela UFRN, Notícias Genealógicas do Rio Grande do Norte, com 119 artigos publicados, no "O Jornal de Hoje".

João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN e membro do IHGRN e do INRG

quinta-feira, 8 de março de 2012

segunda-feira, 5 de março de 2012

Nós o esquecemos, o Rei não

Nós o esquecemos, o Rei não
João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN e membro do IHGRN e do INRG
Manoel de Abreu Soares não aparece na relação dos capitães-mores de Vicente de Lemos, e essa omissão se repete nos demais livros de nossos autores. A segunda nomeação de Antonio Vaz Gondim para capitão-mor do Rio Grande contém o seguinte trecho: E com igual procedimento se haver no governo da capitania do Rio Grande em que assistiu por mais de seis anos, procedendo a contento daqueles moradores, fazendo muitas obras necessárias para conservação daquela praça e fortaleza dos Reis Magos. Daí, Lemos deduziu que Vaz Gondim foi nomeado em 1656, e, por isso, foi o primeiro capitão-mor depois da saída dos holandeses. O documento de nomeação de Antonio Vaz Gondim, possivelmente contém um erro, relativamente ao tempo que ele foi pela primeira vez capitão-mor, pois nessa data o nomeado foi outro.

Manoel de Abreu Soares nasceu nesta Capitania do Rio Grande. Seu pai, Jerônimo da Cunha, recebeu três sesmarias, sendo duas em 1605 e outra em 1610, as duas primeiras pelo Pitimbú, no caminho de Cajupiranga, e a terceira pelo Rio Potengi. Os nossos livros dão destaque a sua participação na Guerra dos Bárbaros, nomeado que foi como capitão-mor de toda a infantaria de soldados, pretos e índios, em 1688. Mas, antes disso tudo, teve uma participação heroica nos combates contra os holandeses e, foi nomeado capitão-mor da Capitania do Rio Grande, no ano de 1656, pouco tempo depois da saída dos holandeses. Foi, também, capitão-mor de Sergipe d' El Rei. Dois documentos fazem referência à passagem dele como capitão-mor da Capitania do Rio Grande: um Alvará expedido pelo Rei de Portugal em 1681, e a nomeação como capitão-mor de Infantaria dos soldados, pretos e índios, em 1688. Vejamos o documento de 1681.

Eu, O Príncipe como Regente, e Governador dos Reinos de Portugal, e Algarves: faço saber aos que este meu Alvará virem, que tendo respeito aos serviços, que Manoel de Abreu Soares, filho de Hierônimo da Cunha, e natural da Capitania do Rio Grande, me fez nas guerras do Brasil, em praça de soldado, cabo de esquadra, sargento, alferes, ajudante, capitão de Infantaria, e capitão-mor do Rio Grande, por espaço de vinte e um anos, dez meses, e três dias, desde o primeiro de agosto de seiscentos e trinta e oito, até dez de fevereiro de seiscentos e sessenta e um = e neste tempo se achar em Pernambuco na entrada que se fez pela campanha do inimigo, no encontro do Engenho de Santo André; na peleja que se travou com o Conde de Nassau a vista de Porto Calvo, e mais encontros que com ele houve, na Campanha, passando a nado o Rio São Francisco, e em tudo fazer sua obrigação a que também acudiu no socorro com que o Mestre de Campo Luiz Barbalho Bezerra veio do Rio Una a Bahia. Tornando a Pernambuco, no ano de seiscentos e quarenta e cinco, se achar, outrossim, nos assaltos que se deram aos Holandeses, e Índios na Freguesia de São Lourenço; em várias ocasiões de peleja, em que o inimigo recebeu muita perda, saindo ferido de uma pelourada na perna esquerda; na que sucedeu na fronteira da Força dos Afogados, e Cinco Pontas, indo reconhecer o posto com trabalho, e risco; e assim mais nas marchas das Capitanias do Norte, e sucessos dela.

Por ordem que se lhe deu ir ao Rio São Francisco a conduzir gado para Infantaria; na primeira batalha dos Guararapes assinalar entre os mais; e assistindo por Cabo de cinco Companhias no posto de Salinas, fronteira ao Recife, ter alguns encontros com os inimigos; socorrer por vezes ao Governador Henrique Dias na marcha que fez a Paratibe; e nas jornadas da campanha da Paraíba. Na segunda batalha dos Guararapes obrar com valor, e ser ferido com uma bala por um ombro; no assalto que se deu ao inimigo com a sua Companhia, e outra à sua ordem, em Cunhaú; nas emboscadas do Paço de Barreta, e peleja que travou com os Holandeses, ser ferido de uma pelourada; e nos mais que houve, marchas que se fizeram, e sítios que se puseram ao Forte de Salinas, Casa do Rego, e Forte de Altená, até se recuperarem as Fortalezas do Recife, procedendo de modo, que lhe deram dois escudos de vantagem. Passando depois à Capitania do Rio Grande, marchar quarenta léguas pelo Sertão em seguimento dos Tapuias. E sendo provido no posto de capitão-mor da mesma Capitania no ano de seiscentos, e cinquenta e seis, proceder como muito devia.
Em satisfação de tudo, e de atualmente estar servindo com cuidado e zelo, de capitão-mor de Sergipe, em que tem despedido muito de sua fazenda. Hei por bem de lhe fazer mercê (além de outra que pelos mesmos respeitos lhe fiz) deste Alvará de Ofício de Justiça, ou Fazenda, para filha ou filho. E este se cumprirá inteiramente como nele se conclui, sem dúvida alguma, e valerá, como Carta sem embargos de ordenação do Lº 2º ttº 40, em contrário. E se passou por duas vias, uma só haverá efeito, e pagou de novo direito vinte réis que se carregarão ao Tesoureiro Hieronimo da Nóbrega de Azevedo a folhas quatrocentos e quatorze. André Serrão de Carvalho o fez em Lisboa, a vinte e dois de julho de seiscentos e oitenta e um. O secretário André Lopes de Souza o que escreveu.

Assim, pelo visto acima, nossos livros devem incluir na relação dos nossos capitães-mores, o potiguar Manoel de Abreu Soares.

Esse Alvará foi usado, somente em 1729, pelo seu filho, alferes Pascoal Gomes de Lima, assunto que vamos tratar em outro artigo.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Oligarquia, anarquia, ditadura

Recebi de Francisco Augusto, cópia de uma Conferência de J. da Penha. Pela referência, que ele me mandou, consegui o original do Jornal do Ceará, digitalizado através do Projeto Resgate da Memória Hemorográfica Brasileira. Fiz uma transcrição que posto neste blog, pela importância do documento.

Oligarchia, anarchia, dictadura
Conferencia  de  J.  da  Penha,  realizada  no  Pavilhão Internacional - RJ

E  se  maior  não  é o  pasmo  que nos  alcança,  é  que  muito  grande,  por via  de  regra,  é  o  desconhecimento aqui  da  vida  estadual.  Alberto  Maranhão, por exemplo, já  não  encobre suas  trapaças  administrativas.  Tem  o desassombro  dos  temperamentos  improbidosos.  Trapaceia  às  escancaras.
Outrora,  para  comprar,  depois  de governador,  por  conta  do  Estado, a casa  em que residia,  simulou  a  venda a  um  dos  seus  testas  de  ferro  e só alguns  meses  depois  fechado  era  o negócio,  a  seu  contento.
(Vantajoso é bem  de compreender, para todo  o  mundo,  menos  para ele  Alberto  inconcebivelmente  honesto  nas suas  transações,  apostolicamente  desambicioso  em  toda  a  sua vida,  trombeteiam  os  seus  assalariados  de  imprensa).
Hoje,  não.  Alforriou-se de  vez  desses constrangimentos.  Negocia  às claras:  trafica  ao  meio  dia  em  ponto,  alardeia  o  seu  desassombro governamental  e  gaba-se  de  não  ser tolo...
Isso  quanto  a  negócios  bem  se compreende.
O  ano  passado  contraiu  na  Europa  um  empréstimo  de  cinco  mil contos  ao  tipo  de  69,  noticiou  o Jornal  do  Comércio  daqui.
Os juros foram  os  mais  exorbitantes do  mundo.  As  gorjetas  para os  intermediários  foram  elevadíssimas e  o  prazo de  cinquenta  anos.  Em suma:  o  Estado  venturoso  do  Rio Grande  do  Norte  recebeu  três  mil  e tantos  contos  de réis,  vai  pagar fatalmente perto  de  dez  mil  e  sobrecarregou  o  seu  orçamento, que era  de mil  e  duzentos  contos,  com  os  pesadíssimos  ônus  desse  empréstimo  tão malbaratado.
Alberto  reemprestou-o quase todo aos  seus  queridos  parentes e com  eles então  contratou  uns  tantos  melhoramentos    duvidosos para o  Natal dos Pobres,  relativamente,  alguns  desses felizardos  ofereceram  como garantia, o  seu  parentesco rendoso  e  a  indiferença  do povo  por  esses  arranjos ilícitos.
Não  contente  de  tamanhas  desenvolturas,  Alberto  comprou  a  si  próprio e  aos  seus  cunhados, por cem vezes  mais do que  devia,  terrenos  tão valorizados  que  até  nunca  tiveram dono.  E  impossível  ser  mais  impudente  de  que  esse governador  traficante.
O  pretexto  de  escolas  agrícolas  e outros  disfarces  com  que  esse  despejado  governador  enxovalha  a  sua função  e  ludibria  o  povo  complacente,  foi  o  que  veio  a  lume.
E  esse mesmo povo, talvez porque de tempos  remotíssimos  o  venham  flagelando  os vendavais  das secas dolorosas  em  que  se  lhes  depaupera as  crenças  e  as  energias,  ou porque de  fato,  pelas  suas  qualidades  ingênuas  mereça a canga  deste  opróbrio — esse  povo  suporta  sem  indícios palpitantes  do  desagravo,  a que tem  direito,  a  ignomínia  de  tanto despudor,  o  cativeiro  desmoralizante  de  usurpadores  tão  acanalhados.
O  palácio,  até  pouco  tempo,  era uma  como  feira  política.  Em  vez  das autoridades,  dos  funcionários,  dos amigos,  Alberto  só  congregava  em torno  de seu  balcão,  os  agentes  de compras  e os  corretores  seus  associados.  Era,  como  bem  lhe  chamou alguém,  se  a profecia  não falha, o último representante  político  da  cigana de Nazareth.
Dos  Machados,  essa  outra  superfetação  que afeia,  infecciona  e  degrada  os  órgãos essenciais  da  Republica na Paraíba  do  Norte,  eu  não quero tirar o gosto  de  escapela-los com sua mestria ao dr. Coelho Lisboa.
Pernambuco,  Alagoas,  Sergipe, Espírito  Santo,  Goiás  e  Piauí,  rastejam  todos  pelo  mesmo  nível  de decadência, maculando-se  com  a  tisna das mesmas imoralidades,  atascando-se  no  lodo profundo  das  mesmas corrupções.
As  diferenças  locais  não  invalidam esta  sentença,  nem prevalecem  para atenuar-lhe  o  merecido  rigor.  Os exames  em  Maceió,  não  envergonhariam  os  de  Natal, por  exemplo.
Por  toda  parte  a  mesma  desfaçatez  na  desonestidade  impunida,  a mesma  artificialidade  na política  exploradora,  a  mesma  prevaricação  na magistratura  das  oligarquias.  O  mesmo  desbragamento  no  ataque  aos  oposicionistas inermes,  os  mesmos congressos  de  nulos  e  de  servis e para tributar  o  povo,  sem  direitos,  sem liberdades,  céptico  e  de  esperanças amortalhadas,  se  o  honrado  concidadão que hoje governa a  Republica, imitasse — o  que  não  ha  de  suceder — os seus  antecessores  estigmatizados, carcomidos  pela  execração.
Porque  o  sr.  Bulhões,  ou  porque os  seus  companheiros quase todos sem  a  consciência  do  que  deva  ser política republicana,  estômagos  incontentáveis,  monarquistas  descrentes, uns  discípulos  de  Verres,  outros de  Barras, — a  obra  prima  da  corrupção,  como  lhe  chamou  Bonaparte, hão  de perenizar-se  nos  galarins  de um poder,  que  não  é  somente  ilegítimo, senão também  nefasto  ao  princípio  da  ordem  e  as  necessidades  do progresso?
As  oligarquias  devem  morrer.  E hão  de  morrer,  meus  concidadãos. Não  falta  muito.  Conservá-las,  seria  o  mais  inepto,  sobre  ser  o  mais perigoso  do  todos  os  nossos  crimes.
E  ao  que se  vê,  nem  será  possível a  ninguém, por  mais  que  envide  todas  as  suas  forças,  ampará-las  muitos anos,  ou  perpetuá-las  na  história...
Não  se  pereniza  nas sociedades senão  o  que  é  natural  e  se  ajusta  aos interesses  comuns,  seja  como  tendência,  ou  seja  como produto  do espírito  da  coletividade  em  progresso,  em  busca  do  seu  bem  estar, guiando  para  a  verdade  e  a justiça.
Não  há,  nem  houve jamais razão para  desesperar-nos  das  forças  limitativas  do tempo,  nem  das  energias recuperadas  da  Federação  Brasileira, mutilada,  agora  nos  seus  direitos,  cerceada  na  sua  influência.  onerada  nas suas  dívidas,  abalada  nos  seus  destinos, apoucada  na  sua  reputação enquanto  frondescer  a  árvore  maldita,  que  agasalha  a  descendência  dos falsificadores  da  Constituição  de  24 Fevereiro.
Para  desarraigá-lo  do  solo  constitucionalizando  a  Republica,  abatida intercadentemente,  como  todas  as  suas irmãs  da  América  do  Sul,  por  delírios  de  indisciplina  e  alucinação  de revoltas,  há  de  surgir,  na  ocasião mais  propícia,  um  milagroso poder, seja qual for.  E  esse  poder  que  todos  pressentimos  sem  desalentos  que nos desviem ou  sofreguidões,  que nos  decepcionem,  ou  há  de  ser  a força  centrípeta do  Catete,  a  honestidade  perseverante do  Chefe  do  Executivo ou  o  braço  vingador  e  irresistível  da  própria  multidão. E que  sempre  esta  foi  capaz  de  resgatar  pelo  heroísmo,  os  erros  da  pusilanimidade,  os excessos    da  sua  condescendência,  verdade  é  que  ninguém ignora.
Das  oligarquias para a  anarquia não  levamos  nós  dilatados  séculos de  ânsias,  de dúvidas,  nem  de  aviltamentos;  ao  contrário,  já  estamos na  segunda;  esperamos  pouco  para vencer o caminho.
J. da Penha (Jornal do Ceará. Ano VIII. Nº 1382. 07.08.1911)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Antigos Batismos, velhas capelas


Antigos batismos, velhas capelas
João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN e membro do IHGRN e do INRG
As nossas capelas são mais velhas do que indicam as datas em seus frontispícios. Muitas dessas datas foram colocadas após alguma reforma, além do que todas as ditas capelas e igrejas foram reconstruídas, pois muitas delas eram de taipa. Hoje vamos dar notícias aqui de alguns batismos do início do século XVIII, em algumas dessas capelas ou igrejas, e conhecer os nossos moradores daquela época.
Durante a Guerra dos Bárbaros, muitas pessoas vieram para cá, algumas delas de São Paulo para compor o Terço Paulista. Entre elas José Porrate de Morais Castro e seus primos, os irmãos Manuel Álvares de Morais Navarro e José de Morais Navarro. José Porrate aqui casou, em 1707, na Capela de Santo Antonio com Dona Margarida da Rocha, filha do capitão Theodósio da Rocha e Dona Antonia de Oliveira. Em 3 de junho de 1713, na Capela de Santo Antonio da Ribeira do Potegi, o Vigário Simão Rodrigues de Sá batizou a Sebastiana, filha do capitão José Porrate de Morais Castro e de sua mulher Dona Margarida da Rocha. Foi padrinho o sargento-mor Joseph de Morais Navarro.
Alguns nomes de pessoas são mais antigos do que pensamos, como podemos observar no batismo seguinte. Em 29 de janeiro de 1713, na Igreja de São Miguel do Guajirú, de licença do Padre Simão Rodrigues de Sá, batizou o Reverendo Padre Superior Pedro Taborda a Fabiana, filha de Manuel Álvares e de sua mulher Andreza Gonçalves. Foram padrinhos o capitão Bento Fernandes e Izabel Gonçalves, filha de Ignácio Gonçalves.
Alguns nomes se repetem com frequência nas descendências de algumas famílias, o que pode causar muitos equívocos, se não forem observadas corretamente as datas dos eventos. Genealogia sem data é um perigo. Em 5 de dezembro de 1712 na Capela do Senhor Santo Antonio da Ribeira do Potegi, o Padre Simão Rodrigues de Sá batizou a João, filho do capitão Manoel Correa Pestana e de sua mulher Joanna de Freitas (da Fonseca). Foram padrinhos o Alferes Felis de Souza e Domingas da Fonseca, mulher do capitão João da Costa de Almeida. Esse que foi batizado era, também,  João da Costa de Almeida que casou em 1739 com Catherina de Oliveira e Mello, filha natural do sargento-mor Gregório de Oliveira e Mello e Luiza de Freitas Palhano.
Uma presença constante nos documentos mais antigos desta capitania é de Estevão Velho de Mello, natural de Igarassú. Em 19 de abril de 1713, na Capela de Jundiaí, de licença do Vigário Simão Rodrigues de Sá, o Padre Pedro Fernandes batizou a Manoel Antonio, filho de Estevão Velho de Mello e de sua mulher Joanna Ferreira de Mello. Foram padrinhos o capitão Domingos de Morais Navarro e Maria Magdanella, filha do coronel Gonçalo da Costa Faleiros. Esse que foi batizado era Manoel Antonio Pimentel de Mello que casou com Anna Maria da Conceição, filha de Francisco Pinheiro Teixeira e Maria Conceição de Barros. Bonifácia Antonia de Mello, irmã de Manoel Antonio, casou com Francisco Pinheiro Teixeira (segundo do nome), irmão de Anna Maria. Francisco Pinheiro e Bonifácia geraram Antonia Teixeira, que gerou, com Manoel Pinto de Casto, ao nosso frei Miguelinho.
Um dos filhos de Theodósio da Rocha tinha o mesmo nome do que foi capitão-mor da nossa Província, Antonio Vaz Gondim. Em 14 de junho de 1713, na Capela do Senhor São Gonçalo do Potigi, de licença do Padre Simão Rodrigues de Sá, o Padre João Fernandes Barbosa batizou a Marcelina, filha de Antonia do Livramento, mulher solteira, e de Antonio Vaz Gondim. Foram padrinhos o sargento-mor Manuel de Abreu Friellas e sua filha Dona Marcelina de Abreu Soares.
Sebastião Pimentel foi presidente da nossa Província. Um dos seus filhos era o alferes Alberto Pimentel que casou, em 1694, com Dona Francisca Tavares de Mello, filha do Francisco de Oliveira Banhos e Antonia Tavares de Mello. Em 29 de junho de 1713, na Paroquial de Nossa Senhora da Apresentação, o Padre Simão Rodrigues de Sá, batizou a Pedro, filho do alferes Alberto Pimentel e de sua mulher Francisca de Oliveira (o nome muda a cada registro). Foram padrinhos Pedro Ferreira de Mello e o coronel Manoel Gomes Torres.
Em 29 de junho de 1713, na Paroquial de Nossa Senhora da Apresentação, de licença do Padre Simão Rodrigues de Sá, batizou o Padre Bernardo de Farias Freire, a Luzia, filha de Manoel da Silva Queiroz e de sua mulher Maria da Silva Freire. Foram padrinhos Manoel Rodrigues Taborda e Francisca de Oliveira, mulher do alferes Alberto Pimentel. Há um outro Manoel da Silva Queiroz, filho de Francisco Fernandes de Carvalho e Maria Gomes da Silva, que talvez seja neto desse mais antigo. Gaspar Freire de Carvalho, que casou com Clara Martins de Macedo, era filho do coronel Manoel da Silva Queiroz e Maria da Silva Freire.
Em 15 de abril de 1713, na Paroquial de Nossa Senhora da Apresentação, de licença do Padre Simão Rodrigues de Sá, batizou o Padre Manoel Pinheiro Teixeira a Joseph, filho de Francisco Pinheiro Teixeira e de sua mulher Maria da Conceição (Barros). Foram padrinhos o Procurador da Fazenda Real, capitão-mor José Barbosa Leal e Dona Domingas de Mello, mulher do alferes Francisco Barbosa da Costa. José Barbosa Leal, depois de ter passado por Angola, Luanda e ter servido por mais de 22 anos ao Reino de Portugal, foi nomeado, em 1696, por Bernardo Vieira de Mello, Comissário Geral de Cavalaria da Capitania do Rio Grande.
Como em muitas histórias genealógicas, chegaram de Arrifana de Sousa, Bispado do Porto,  Portugal, três irmãos: Padre Manoel Pinheiro Teixeira, Francisco Pinheiro Teixeira e José Pinheiro Teixeira.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O Fogo de Pedra de Abelhas (I)

Recebi mais uma colaboração de Marcos Pinto

O  "FOGO  DE  PEDRA  DE  ABELHAS". (I).
Marcos Pinto


                      A  primeira  denominação  toponímica  do  atual  município  de  Felipe  Guerra-RN   foi  "PEDRA  D'ABELHAS", que    deriva do fato  histórico  de  que existia,  e  ainda  existe, um  enorme  bloco  calcário  com um buraco  em  sua  estrutura, que  ao  longo  de  remoto  tempo  tem servido como  espécie  de  colméia  natural, proporcionando  a  situação  de  grandes  enxames  de  abelhas  nativas  da  região. Esta  pedra  está  situada  na encarpa  da serra  do  Apodi, ao  lado  da  estrada  que  dá  acesso  ao  sítio  "Brejo  de  Felipe  Guerra", antigo  "Brejo do Apodi". Até  o  ano  de  1948  esta  estrada  constituía  o  caminho  de  todos  os  viajantes  e  comboeiros  que  demandavam  da  região  do  Oeste e Alto Oeste  no  rumo  de  Mossoró.  Daí que  a  antiga  cidade  denominada  de  "Pedra  de  Abelhas"  surgiu  como  núcleo  estradeiro.                                                                                                                                                                                            
                    Com  exceção  da  família  GURGEL  DO  AMARAL, oriunda  de  Aracati-CE,  todas  as  famílias  do  município  de  Felipe  Guerra  tem  origem  na  fértil "Várzea  do  Apodi", cujas  terras  de  aluvião  tem  sido  a  força  motriz  do  progresso  e  do  desenvolvimento   do  Vale  e  do  município  do  Apodi.  Para  adentrar  no  assunto  que  dá  título  à  este  despretensioso  artigo, há que se  ressaltar  que,  desde  o  dia  em que  houve  o  rompimento  político  entre  as  famílias  PINTO  e  GURGEL, ocorrido  no dia  02 de Dezembro  de  1897, entre  os  patriarcas  Coronel  ANTONIO  FERREIRA  PINTO  e  Coronel  FRANCISCO  GURGEL  DE  OLIVEIRA (Bisavô materno  de  Laire Rosado),nasceu  uma  predisposição  político/ belicosa  entre  o  povo de  "Pedra  de  Abelhas" e os  Apodienses.  Neste dia, o  Cel. FERREIRA  PINTO  fez  veemente  protesto  perante  os seus  pares,  na  tribuna  da Assembléia  Legislativa  potiguar (Investido  no primeiro mandato de Deputado Estadual) contra  a  injustificada  atitude  de  rompimento  político  do  Coronel  GURGEL  com  o  Dr.  Pedro  Velho, responsável  pela    instalação   do  regime  republicano  no  RN  em 1889.  Ocorre  que o  patriarca  da  família  GURGEL  em  "Pedra  D'Abelhas" - O  Capitão  TIBÚRCIO  VALERIANO GURGEL  DO  AMARAL (Natural do Aracatí-CE),era  tio  materno  do  Coronel  Francisco  Gurgel  de  Oliveira (Coronel  Gurgel) e, como tal, apoiou  a  tomada  de  decisão  política  do  sobrinho.  Tibúrcio  era  o  pai  de  TILON GURGEL  DO  AMARAL.  A partir  daí, nasceu  o  espírito  de  rivalidades  recíprocas  entre  os  Apodienses  e  os  "Pedrenses  de  Abelhas", cuja  rixa  perdurou  até  o  ano  de  1963,(18.09.1963)  quando  o  então  Distrito  de  "Pedra  de  ABelhas"  foi  elevado  ao  predicamento  de  cidade  e  município, com  o  nome  de  FELIPE  GUERRA, em  homenagem  a  um  cunhado de  Tilon  Gurgel.  Felipe  Guerra  era  casado  com  uma  irmã  de Tilon  Gurgel.  Faço a  observação  de  que  o  Dr. Felipe  Guerra  não  trouxe  nenhum  benefício  para  a  comuna  de  "Pedra  de  Abelhas",  para  tutelar   a  razão  de  ter  o  seu  nome  como  patrono  toponímico  do  novel  município. 
                     Apesar  de  liames  familiares  existentes  entre  os  Coronéis  FERREIRA  PINTO  e  GURGEL -  o  primeiro  tinha  a  avó paterna  como  irmã  do  pai  do  segundo, ou seja, dona  JOAQUINA  MARIANA  DE  JESUS  era  irmã  do  Tenente-Coronel  Antonio  Francisco  de  Oliveira  -  pai  do  Coronel  Francisco  Gurgel  de  Oliveira (Coronel  Gurgel),  a  indisposição  política  foi  se  acirrando  entre  essas  duas  famílias  tradicionais.  No  ano  de  1913  houve  uma  ligeira  trégua, com  os  casamentos  de  dois componentes da  família  PINTO  com  duas moças  da  família  GURGEL:   Dr. Vicente  Ferreira  Pinto, Promotor  Público, filho  do  Coronel  FERREIRA  PINTO, com  a  Srita  FILOMENA  GURGEL, irmã  de  Tilon  Gurgel , e  o  agropecuarista  FRANCISCO DIÓGENES  FILHO (Sêo  Diógenes - pai  de  Zé  Diógenes) casou  com  CAETANA  GURGEL  FILHA (Dona  Caetaninha) também  irmã  de  Tilon  Gurgel.  Sêo  Diógenes  era  sobrinho  materno   do  Dr. Vicente  Pinto.  Em  1919  reacendeu  a  intriga  familiar  e  política  entre  estas famílias, originada  no  fato  de  que  dois  componentes  da  família  PINTO  abriram  dissidência  política  -  Os  Srs. SEBASTIÃO  PAULO  FERREIRA  PINTO  e  seu  primo  JOÃO  DE  DEUS  FERREIRA  PINTO, que  se  aliaram  à  cerrada  oposição  à  família  PINTO, liderada  por  Tilon  Gurgel.  A  partir  deste  ano  de  1919  o  município  de  Apodi  e  seu  povo  passou  a  ser  teatro  de  correrias  e  tropelias  protagonizadas  por  jagunços  componentes  da  milícia  particular  comandada  por  DÉCIO   HOLANDA, cearense  do  Pereiro, onde  em  1927  "acoitou" o bandido  Lampião  e  seu  bando, na  sua  fazenda  de  nome  "Bálsamo".  Neste mesmo  ano  de  1913,  o  Coronel  FRANCISCO  FERREIRA  PINTO  casou  com  sua  prima  MARIA  SALOMÉ  DIÓGENES  PINTO (Irmã  de  Sêo  Diógenes), que  fora  adotada  em  criança  pelo  Coronel  JOÃO  JÁZIMO  DE  OLIVEIRA  PINTO  e  esposa  ISABEL  SABINA  DE  OLIVEIRA  FILHA (Bebela  de  João  Jázimo). Aquí, cabe  fazer  uma  explicação  de  cunho  genealógico:  João  Jázimo  casou  com  uma parente  e  enteada  do  seu  genitor.  Bebela  era  irmã  de  Francisco  Diógenes  Paes  Botão, que  casou  com  Antonia (Toinha - Filha do Coronel  Ferreira  Pinto  e  de  Claudina  Pinto)  e foram  pais  de  Salomé  Pinto  e  Sêo  Diógenes.  Salomé  era, ao  mesmo  tempo, sobrinha  materna  de seus pais  adotivos João  Jázimo  e sobrinha  materna  da  mulher  de  João  Jázimo  - no  caso  Bebela.   Sêo  Diógenes  passou  por  uma  situação de  extremo  vexame  em  02  de  Maio  de  1934,  quando  o  Coronel  Francisco  Pinto  foi  assassinado  em Apodi, tendo  como  mandante o  seu  cunhado  Tilon  Gurgel, mancomunado  com  o  não  menos  truculento  Luiz  Leite.  Sêo  Diógenes  era, ao  mesmo  tempo, cunhado  do  Coronel  Francisco  Pinto (Casado com sua  irmã  Salomé) e  de  Tilon  Gurgel (irmão de  sua  esposa  Caetaninha).

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Nossa Atlântida, por Edgar Barbosa


Nossa Atlântida
Macau nasceu do mar revolto e se estendeu por terra, com o seu povo de salineiros e de pescadores, ouvindo e aprendendo o marulho bravio das ondas. O destino quis que ela tivesse um nome evocativo das longas e aventurosas viagens aos portos do longínquo Oriente. Um nome que se pronuncia imaginando iates, gôndolas, falúas, barcos de velas brancas, gemendo cantigas de gajeiros e arfando nas enseadas de países distantes.
Mas, no burburinho de tantas sugestões românticas que esse nome desperta, ninguém conseguiu fazer ressurgir do abismo em que se afogou, a ilha de Manoel Gonçalves, a nossa perdida Atlântida, que ainda não encontrou o seu Platão.
A Ilha de Manoel Gonçalves, tal como nos parece na imaginação sempre disposta a iludir-se e a sonhar, não foi nenhuma dessas cidades contra as quais a ira oceânica se desmandou implacavelmente. Era uma feliz aldeia de pescadores sem vícios nem crimes que chamassem a si o castigo dos elementos. O mar, em luta com a terra, enrolava parceis e recifes, arrastando-os no dorso das vagas. A humilde ilhota de pescadores, no meio do tremendo campo de batalha, assistia inquieta às escaramuças que arrancavam pedaços do seu solo. E enfim, um dia, apenas viçou sobre a imensidão oceânica o pugilo derradeiro de terra, pedestal de uma cruz que abria os braços, clamando e perdoando. Os habitantes fugidos da ilha condenada e moradores da margem direita do rio foram em procissão de ladainhas e preces, buscar o cruzeiro que o oceano havia respeitado. E em Macau os seus primitivos povoadores continuaram a amar e venerar os velhos santos, as queridas imagens e a cruz que abençoara a agonia da ilha perdida.
Foi assim que morreu, há muitas dezenas de anos, a ilha de Manoel Gonçalves, afogada no delta indomável do Rio Piranhas. Mas, do amarfanhado lençol marinho que a sepulta ela por vezes aparece, como uma Vitória Régia, numa ressurreição. As suas ruínas, as pedras das suas casas, os tijolos das suas calçadas onde tantos meninos brincaram e correram, cantando e sorrindo para o mar, ainda afloram aos olhos supersticiosos dos pescadores, pelas noites de lua.
A Ilha de Manoel Gonçalves morreu para que a cidade de Macau nascesse. Nenhuma semente de terra dessas milhares que Deus semeou pelo mar teve um destino tão lindo. Macau surgiu, cresceu para o oceano revolto, transformou a água invasora em pirâmides de sal que cintilam como um diadema de imperatriz. E já agora não é mais possível trocar por nenhum ouro do mundo toda a pobre existência ignorada da ilha que morreu do mal de ser feliz.
EDGAR BARBOSA