terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Comentário de Lúcia Tolson, EUA

Prezado Professor João Felipe,


Lá dos Estados Unidos, Lúcia escreveu: 
Este seu texto de encerramento do ano de 2013 realmente me tocou.  O Brasil precisa de mais vozes como a sua, além de mais educação, saúde e segurança.  Retransmiti seu texto para meus tios no Brasil.  Desejo-lhe daqui das terras distantes do Norte um feliz Ano Novo.  Que o seu trabalho possa ser cada vez mais divulgado!

Um abraço,

Lúcia Tolson

Pirangi do Norte, início de 2014


João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG
No verão, para fugir da rotina e ver novas paisagens, renovando nossas energias, saímos de Natal para Pirangi do Norte, 22 quilômetros de um lugar para outro. Fugimos do trânsito fatigante da capital, onde os sinais estão constantemente sem sincronia, e não funcionam a onda verde e as vias livres, para os engarrafamentos das praias da costa sul do Rio Grande do Norte.

Na chegada, notícia de um assalto, no dia anterior, praticado por cinco indivíduos contra a casa de um agente da Polícia Rodoviária Federal. As autoridades policiais continuam repetindo a mesma ladainha de sempre e tudo continua como antes. Falta inteligência no setor de segurança deste país.

Os sinais de comunicação já não funcionam bem na capital, e nas praias, mesmo as mais próximas, a coisa desanda. Telefones e internet se tornam um martírio para quem quer se comunicar. Mais ainda, os paredões fazem a festa das novas tribos e o inferno dos veranistas e moradores. Músicas da pior qualidade drogam as mentes jovens e atanazam o sono dos mais velhos.  As únicas coisas que se interiorizam, neste país, são o crime organizado, as aulas online de maldades (novelas), as drogas, com predomínio do crack, e as aulas online de mediocridade (os big brother da vida). É a coisa ruim chegando a todos os lugares.

Pirangi, e as praias vizinhas, mesmo com seus moradores habituais, os veranistas e milhares de turistas transitando por ela, não tem todos os serviços necessários para atender as demandas dos usuários. Nenhuma agência bancária, nem as oficiais estão por aqui. É o retrato do atraso, da falta de visão dos governantes.

O Rio Grande do Norte possui uma grande costa em relação ao seu tamanho. Praias de riquezas naturais e históricas não são aproveitadas pelos seus prefeitos e governador. O discurso do turismo continua pobre e sem ação concreta. As praias beneficiadas pelos royalties de petróleo só atraem políticos aventureiros que não levam benefícios para as mesmas. Carnavais são suas grandes realizações. As roubalheiras são as maiores. Mas os ladrões continuam flanando por aí. O que restou dos PRODETUR I e do PRODETUR II?

Na natureza, temos a noite para descansar nosso corpo físico e reiniciar novos programas instalados na nossa mente. As semanas, os meses e as estações do ano quebram as rotinas do dia a dia e são necessárias para que estejamos sempre recomeçando nossas vidas e nossas visões do mundo. Mas não é isso que acontece. Os condicionamentos são mais fortes que a nossa vontade de mudar. Estamos sempre usando a memória psicológica e as imagens do passado para começar o dia, a semana ou o mês. E por isso, nada muda de verdade.


E assim não avançamos como seres humanos. Tudo se repete, monotonamente. As pessoas contam seu tempo a partir dos eventos. Em 2014, por exemplo, vai ser assim: Veraneio, carnaval, semana santa, copa e eleições. Quando terminar o sonho da copa no Brasil, voltamos para realidade do dia a dia. Vamos ter os infames programas eleitorais, onde tudo vai ser prometido com a maior cara de pau. Os candidatos, que serão os de sempre, vão falar, inicialmente, em saúde, educação, segurança, planejamento estratégico, sustentabilidade, governança solidária, choque de gestão e outros termos novos que seus marqueteiros vão inventar. Depois, vão infernizar a vida dos adversários, dando início a sessão escândalos. Vai ser o sujo falando do mal lavado.

Quando tomarem posse, no início de 2015, os novos mandatários vão reclamar dos seus antecessores, se não foram os reeleitos. Segue o papo furado da governabilidade para justificar as composições partidárias e o preenchimento dos cargos comissionados. Contratam consultorias desnecessárias, pois, tudo que elas propõe, já foi proposto anteriormente, pela prata da casa. E, aí, já começa a próxima eleição. Os que saíram do governo, mas não fizeram o prometido, querem retornar. E o gigante pela própria natureza vai continuar deitado eternamente em berço esplêndido. 

A natureza quebra a monotonia da terra com suas catástrofes. Sensibilizamos-nos temporariamente. Os governos prometem tudo, mas em 6 meses tudo é esquecido. E no ano seguinte as mesmas catástrofes se repetem nos mesmos lugares, causando dores, principalmente, para os menos favorecidos, as principais vítimas.

A genealogia nos mostra que somos frutos de centenas de milhares de pessoas. Os indivíduos não se repetem, mas os condicionamentos de milhares de anos não nos deixam seguir um caminho diferente. Nem as religiões, nem os educadores, nem os filósofos e nem os psicólogos têm ajudado muito a humanidade.

Vez por outra aparece um messias na terra. Mas quando ele se vai, os seguidores esquecem os ensinamentos e o transformam num ídolo, deturpando tudo que foi proclamado. Buda disse que não precisávamos percorrer o mesmo caminho que ele. Seus ensinamentos iluminavam o caminho que tínhamos que seguir; Jesus ensinou que quando quiséssemos conversar com Deus, entrássemos em um quatro, fechássemos a porta e orássemos, dando como o exemplo o pai nosso, mas fazemos o contrário; Krishnamurti ensinou que prestássemos atenção na nossa mente, pois é ela quem tem o comando de tudo, mesmo dos que se dizem livres.  Mas, infelizmente não compreendemos o que eles disseram e a humanidade caminha sem muita evolução, comandada pelos expertos e enganadores.
 
Assim, 2014 vai ser, em essência, a repetição do que tem acontecido até agora. A única novidade é o próprio ano.



sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Comentário de Lúcia Tolson


Ainda sobre o artigo de Pirangi, recebi o seguinte comentário de Lúcia Tolson, lá dos Estados Unidos
Prezado Professor João Felipe,

Este seu texto de encerramento do ano de 2013 realmente me tocou.  O Brasil precisa de mais vozes como a sua, além de mais educação, saúde e segurança.  Retransmiti seu texto para meus tios no Brasil.  Desejo-lhe daqui das terras distantes do Norte um feliz Ano Novo.  Que o seu trabalho possa ser cada vez mais divulgado!

Um abraço,

Lúcia Tolson

Comentário sobre artigo, Demétrio Bezerra

Sobre o artigo - Pirangi do Norte, final de 2013, meu amigo lá de Brasília, Demétrio Bezerra, fez o seguinte comentário.

Caro João,
Enquanto isso o país se esmera desesperadamente na produção de soja, desmatando ainda mais o interior, que diante de uma lavoura extremamente "competitiva", mecanizada ao extremo e que só entope de veneno tanto o solo quanto o lençol freático, expulsa os menos preparados, os lavradores e pequenos e médios fazendeiros, que impossibilitados de acompanhar esta loucura dita produtiva, veem-se muitas vezes diante do único caminho possível: arrendar suas terras para ricos plantadores de soja, milho e cana-de-açúcar, que se socorrem muitas vezes do dinheiro público.

Este é hoje o princípio da crescente favelização, que nunca é citada por nossos anaalistas "sociais e econômicos" mas que repetem dia e noite as maravilhas do mercado. Que mercado?

Em contrapartida um pequeno percentual de nossa população, que está empregado em gordas "carreiras especiais", recebe polpudos salários muito maiores que os seus correspondentes menos favorecidos no próprio governo, bem como no setor privado, causando uma inflação que não é medida. E uma enorme especulação imobiliária, que deverá provocar o estouro desta bolha em 2014.

Quanto às drogas, com toda certeza fazem parte de um poderoso plano que vem do exterior, através de uma bem camuflada confusão, corroendo nossa sociedade pela base, tal como os ingleses fizeram com a China no Século XIX, não necessitando de exércitos para dominar aquele enorme e populoso país.

Por aqui ocorre há algumas décadas o mesmo, e esta estratégia dispensa ocupação militar, bastando "ocupar os desocupáveis com muita droga na cuca" e muita inutilidade televisiva.

Este empobrecimento é pior que o financeiro, na verdade trata-se do verdadeiro empobrecimento econômico-cultural.


terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Pirangi do Norte, final de 2013


João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN , membro do IHGRN e do INRG

Daqui, da praia de Pirangi, o francês de Navarra, João Lostau, dominava esta costa até os limites com a Paraíba. Sua principal atividade era a pescaria, e de seus portos exportava para várias localidades do Brasil e do exterior. Talvez tenha chegado por aqui antes dos portugueses construírem o forte dos Reis Magos, foi poupado, e a partir de 1601 recebeu várias sesmarias. Não se sabe o nome de sua esposa, mas uma de suas filhas, Maria, casou com o português Manoel Rodrigues Pimentel, que por sua vez gerou Joana Dorneles esposa de Francisco Lopes, e daí uma larga descendência, incluindo Cipriano Lopes Galvão.

Aqui próximo, em Pium, estava sua Casa Maior, segundo alguns autores, dos quais discordo,  umas das famosas casas de pedra construídas pelos franceses do século XVI. Tombada pelo patrimônio e pelos depredadores, restam apenas ruínas, sem merecer nenhum destaque da Ciência, do Turismo e dos governantes. Por lá esteve Joris Garstman, pouco depois do assassinato de Jacó Rabi. Foi para lá que rumaram os sobreviventes do massacre de Cunhaú, e talvez por isso, João Lostau foi preso e depois trucidado pelos súditos de Jacó Rabi.

Mas o ano está terminando. Um século se passou que o nosso Dom Quixote, capitão José da Penha, dentro de um movimento nacional, veio combater a oligarquia da família Maranhão, que está presente no nosso Rio Grande, através de Jerônimo de Albuquerque, segundo do nome, desde a construção do forte. Mas não se combate uma oligarquia, através de outra. A família Fonseca estava nesse caminho, mas Leônidas Hermes da Fonseca não vingou porque o pai dependia dos sustentadores da nossa oligarquia.

Um novo ano vai começar. E, nesse novo ano, completará um século que o capitão e deputado cearense, José da Penha, tombou vitimado pelos aliados do Padre Cícero Romão. Já se fala, novamente, na canonização deste último, como se a santidade de um indivíduo fosse fruto de milagres alcançados pelas pessoas. O próprio Jesus dizia que a cura nascia da fé do curado.

Nada parece mudar, de verdade, de um ano para outro, através dos séculos. As novidades vêm da ciência e da tecnologia, e nada de novo vem dos seres humanos. A saúde, a educação e a segurança são os retratos do despreparo dos nossos governantes deslumbrados, que não se tocam com a realidade das coisas. Falta sensibilidade. Os cobradores de impostos continuam implacáveis. Os que estão no poder, sejam eles do executivo, legislativo ou judiciário, cuidam primeiro deles próprios. Locupletam-se com as mordomias à custa do povo. Não abrem mão de qualquer vantagem, como tem feito o Papa Francisco.

Não existe educação de fato neste país. As nossas crianças e nossos jovens não são estimulados para a liberdade e, por consequência, para o conhecimento da verdade. Muito pelo contrário, o ensino, as ideologias, as religiões, os partidos, as filosofias, e as mídias concorrem para manter o máximo de indivíduos sob domínio total. Os sistemas se alimentam da dependência dos indivíduos. Vejam o exemplo de Lula. Já está na televisão fazendo terrorismo eleitoral com o programa bolsa família. As religiões, que são criadas dia a dia, usam os pobres recursos de suas ovelhas para construir castelos de enganação e casas de milagres. Tomam contam do espaço político e midiático.

Com as cadeias em petição de miséria, escolas mal instaladas, postos de saúde de quinta categoria, anos seguidos de seca, destruindo nossa agricultura e pecuária, e desnutrindo nossas crianças, se tem o descaramento de destruir um estádio e um ginásio, e, no local, construir outro estádio pomposo, para atender a máfia internacional e a vaidade nacional. Além disso, obras iniciadas ou inauguradas são abandonadas por falta de uso ou de manutenção. O Forte foi para o IPHAN, o Presépio para o Banco do Brasil e, com certeza, a Lagoa Manoel Felipe vai para outra entidade, breve.

O calendário escolar é antecipado para atender o calendário do futebol. Até a comercialização de produtos é alterada para atender as determinações da entidade internacional do futebol.

Em 2013 o Brasil não acordou, apenas levantou sonâmbulo e saiu desvairado pelas ruas. Políticos e bandidos se aproveitaram do movimento.

Terminamos o ano sem nenhum avanço de qualidade, e vamos continuar nos entorpecendo com o futebol, os diversos tipos de bolsa, o crack e as eleições. Os partidos já estão decidindo quem são, entre eles, os candidatos que temos que escolher. Não interessa o desenvolvimento humano do país e do estado, mas simplesmente a sobrevivência deles e dos seus descendentes e aparentados. Vejam o exemplo de nossa Câmara Municipal. Seus vereadores de menos idade não se livraram das práticas dos mais antigos e repetem os mesmos erros. Anteciparam, descaradamente, a eleição da mesa diretora.

A droga (de todo tipo e natureza) ocupa os mais distantes lugares deste país e vai destruindo nossos jovens e tornando a violência uma coisa corriqueira. Os governantes não se juntam para resolver esse mal que neutraliza qualquer ação social que se programe.

Presidente Dilma, a capacidade de comprar mais coisas não melhora a qualidade de vida das pessoas. Muitas vezes piora. Sem uma educação de verdade, uma saúde de verdade e uma segurança de verdade, não vamos para canto nenhum.

Que no ano de 2014, uma onda de energia do Universo invada nossos cérebros e produza em cada um dos governantes e governados mentes mais saudáveis para que possamos viver com mais simplicidade e qualidade de vida. Que todos os governos criem Ouvidorias e Vedorias que funcionem de verdade.
Ruínas da Casa Maior de João Lostau


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Feliz Natal


Baltazar Soares, da Fazenda Curralinho, e a Baronesa de Serra Branca


João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, sócio do IHGRN e do INRG
Nos estudos genealógicos de Manoel Américo de Carvalho Pita, sobre as famílias de Santana do Matos, Balthazar Soares aparece como genro do fundador de Angicos, tenente Antonio Lopes Viegas, e como sogro de Luiz da Rocha Pita, nada confirmado até agora. Encontro informações sobre um Balthazar Soares que não sei se é o mesmo.

Pelo livro de óbitos de Santana do Matos,  o cadáver de Balthazar Soares, branco,  foi sepultado aos onze de dezembro de mil oitocentos e vinte e cinco, na Matriz de Santa Ana do Mattos, falecido com a idade de oitenta e quatro anos de idade, casado que era com Isabel Maria de Figueredo; e o da sua esposa, por sua vez, foi sepultado aos vinte de janeiro de mil oitocentos e vinte e seis, na mesma matriz,  falecida com setenta e oito anos de idade.

Pelos registros acima, Balthazar deve ter nascido por volta de 1741, e D. Isabel por volta de 1748. Além desses registros, encontramos, também, assentamentos de praça de dois filhos de Balthazar, no Assú. Em tais registros não aparece a mãe dos assentados.

João Baptista Xavier, filho do capitão Balthazar Soares, natural da Freguesia do Assú, idade de 32 anos, cabelos castanhos, olhos pretos, altura 5p e 2pm, praça na 4ª Companhia em 10 de setembro de 1779, e por despacho do ilustríssimo Sr. Governador, de 26 de junho de 1806, e cumpra-se do Vedor Geral, passou para esta companhia, casado, vive de criar de gado.

Antonio da Silva Barbosa, filho de Balthazar Soares, natural, e morador nesta Ribeira do Assú, branco, solteiro, de estatura baixa, dentes grandes, olhos pequenos, e azuis, nariz grande, sem barba, de idade de dezesseis anos, assenta praça em revista de vinte e sete de Julho de 1789.

Encontramos mais uma referência ao capitão Balthazar em  um “Diário Oficial da União” de 1906, de onde extraímos trechos que o capitão Absalão Fernandes da Silva Bacilon, juiz distrital em exercício da Vila de Santana do Mattos, da comarca do Assú, escreveu: Faço saber aos que o presente edital, com o prazo de 90 dias virem, que, por parte de D. Belisária Wanderley de Carvalho e Silva, baronesa de Serra Branca, me foi dirigida a petição do teor seguinte: Cidadão juiz distrital, em exercício, da Vila de Santana do Matos. A baronesa de Serra Branca, D. Belisária Wanderley de Carvalho e Silva, viúva e ora residente na cidade do Assú, sede desta comarca, diz, por seu procurador e advogado, abaixo assinado: que é senhora e possuidora de uma data ou lote de terras na serra de Santana, deste distrito, e na parte a que ora dão os nomes de Pelado e Lagoinha; que a extensão superficial da área desta terra, conforme a respectiva concessão, é de uma légua de largura sobre três de comprimento, pegando de um olho de água que ali se acha em um riacho, denominado Caiçarinha, que deságua para parte do Assú; que a dita terra estende-se na chapada daquela serra, e tem sido cultivada e possuída, delimitando-se, ao norte, pelas sinuosidades desta mesma serra e quebra das águas, como vulgarmente se diz, ficando neste lado a antiga fazenda Curralinho de Balthazar Soares; limita-se, no sul, com terras da fazenda do riacho  da Areia, que foi do capitão-mor Cypriano Lopes Galvão, ao poente, com terras que foram do capitão Felix Gomes Pequeno, e ao nascente com terras da ribeira do Putegy, onde atualmente está o sítio Bodó e outros, que tendo a suplicante por si e seus antecessores uma posse de longíssimo tempo, se não imemorial, pela povoação e cultura constantes das ditas terras, há menos de um ano, os confrontantes Joaquim Bezerra, viúvo e morador em S. Bento, Antonio Florêncio, morador em Cipós de Leite, João Lopes de Araújo Galvão, morador em Areia ou Furna da Onça e as mulheres destes, cujos nomes a suplicante ignora, bem como Miguel Rodrigues e sua mulher D. Francisca, Antonio Hermógenes e sua mulher D. Constância, e o cidadão Cícero Rodrigues, moradores no lugar Catunda e todos no vizinho distrito de Currais Novos, têm feitos roçados e picadas nos matos dos terrenos sempre possuídos e cultivados pela suplicante e seus antecessores, sob o pretexto de uma linha novamente tirada entre este município e aquele de Currais Novos ter apanhado pequena parte dos mesmos terrenos.
Continuando, mais adiante, a baronesa justifica: A referida terra foi pedida em 1764 por D. Adriana de Hollanda Vasconcellos, e não tendo voltado de Portugal esse pedido com a confirmação, o tenente-coronel Francisco de Souza e Oliveira, em 1804, requereu e lhe foi concedida a mencionada terra por data da sesmaria, com três léguas de cumprimento e uma de largura, tendo o ponto de partida e limites acima descritos; em 1822 o capitão Felix Gomes Pequeno que já havia comprado a mesma terra ao dito donatário, requereu a certidão daquela data pra realizar a sua propriedade.

Adquirindo esta mesma terra o capitão Felix Gomes Pequeno, pela forma por que ficou dito, em 1810 a vendeu ao capitão Antonio da Silva de Carvalho, e esta venda foi ratificada pelos herdeiros do mesmo capitão Felix Gomes, por escritura pública passada em 22 de julho de 1858, com tudo se vê do documento.

Por morte dos sogros da suplicante, o mesmo capitão Antonio da Silva de Carvalho e sua mulher, D. Maria da Silva Veloso, passou essa terra aos seus herdeiros, um dos quais era o falecido marido da suplicante, Felipe Nery de Carvalho e Silva, barão de Serra Branca, e este comprando as partes dos demais, ficou possuindo toda aquela terra.

Falecendo o barão de Serra Branca, sem herdeiros necessários, a suplicante sucedeu-lhe no todo da herança dos bens por ele deixado, não só por sua meação como por ter sido instituída, em testamento, sua herdeira universal, e por isso hoje lhe pertence exclusivamente a terra de que se trata e cuja demarcação ora se requer.

Em “Velhos Inventários do Seridó”, Olavo de Medeiros Filho, tratando do inventário de D. Adriana de Holanda e Vasconcelos, que foi casada com Cipriano Lopes Galvão, Felix Gomes Pequeno e Antonio da Silva e Souza, cita, também, como confrontante da Data de Terra, na Serra de Santa Ana, o capitão Balthazar Soares da Silva, do sítio denominado Curralinho.

Quem sabe mais alguma coisa sobre Balthazar Soares?



domingo, 22 de dezembro de 2013

O que nos falta é ciência e tenência

O que nos falta é ciência e tenência
Tomislav R. Femenick – Mestre em economia e contador

Desde a década de 1990 que o Brasil está situado entre as dez ou quinze maiores economia do planeta, mas não conseguimos entrar no seleto clube das potencias do primeiro mundo. Estamos quase chegando lá, sem nunca chegar. Sempre ficamos da fila do gargarejo. A pergunta inevitável é: O que acontece e qual é causa? Talvez a resposta esteja nas notícias divulgadas recentemente, que colocam o Brasil entre as nações com menor qualidade de ensino e menor índice de produção científica e registro de patentes de novas descobertas. Então o que nos falta? Obstinação para buscar e ciência para alicerçar o nosso desenvolvimento. Sem ciência não há como chegarmos ao céu do primeiro mundo. Somente para confirma essa afirmação, convido os leitores para um passeio pela história do nascimento da ciência.
Os primeiros estudos científicos foram desenvolvidos pelos filósofos que se dedicavam à filosofia da natureza. A história aponta os gregos e chineses como os precursores desses estudos. Podemos dizer que o ponto de partida foi dado quando Leucipo de Mileto (460-380 a.C.) e Demócrito de Abdera (cerca de 460-370 a.C.) desenvolveram a teoria de que todas as matérias são compostas por átomos, cujas propriedades seriam: forma, tamanho, impenetrabilidade e movimento. Até então a opinião predominante era que as matérias eram compostas de terra, água, fogo e ar. Quatro pensadores gregos deram a base para a separação entre o “raciocínio simplesmente lógico” e o “raciocínio lógico ordenado”. Tales de Mileto (624-548 a.C.) exclui os deuses da origem da natureza, Pitágoras (580-507 a.C.) concebeu a relação matemática como base das coisas, Parmênides (515-540 a.C.) criou a lógica formal (alicerçada no princípio da não contradição, segundo o qual o “ser” é e o “não-ser” não é) e Demócrito (460-370 a.C.) formulou a teoria sobre a constituição da matéria. Eles geraram o embrião da ciência atual.
Os chineses da antiguidade adotavam a ideia de cinco elementos básicos: terra, água, fogo (em comum com os gregos), metal e madeira. Essa teoria foi sistematizada pelo filósofo, historiador, político, naturalista, geógrafo e astrólogo Zou Yan, ou Tsou Yen (305-240 a.C.), tido como o fundador de todo o pensamento científico chinês. Das especulações teoréticas, os gregos e chineses migraram para o uso prático.
Na Grécia as descobertas foram o relógio de água, as máquinas movidas com força motriz hidráulica ou de ar comprimido. No campo das ciências naturais, as pesquisas se expandiram pela astronomia, geografia, zoologia, botânica e medicina etc.
Na China antiga os estudos teóricos eram voltados para conceituações morais (confucionismo, taoismo etc.), porém a ação era principalmente voltada para a exploração do mundo natural. As pesquisas no campo da física e da química resultaram na invenção da pólvora, do balão de ar quente e da bússola magnética. Os estudos sobre mecânica levam à construção da besta e do sismógrafo. Na medicina testaram o tratamento da malária. Também, estudaram e fizeram aplicação prática com elementos de engenharia hidráulica, botânica e astronomia.
Outros povos da antiguidade também enveredaram nos estudos das ciências. Na Mesopotâmia e no Egito houve importantes estudos no campo da engenharia de construção, medicina, matemática e astronomia.
Por que não aprendemos com a história? Se quisermos entrar no maravilhoso mundo dos países desenvolvidos há que se melhorar o ensino em todos os níveis, fazer pesquisas e criar condições concretas para uma ciência verde-amarela, sem xenofobismo.

O Mossoroense. Mossoró, 20 dez. 2013.


Gente da Freguesia de Santa Rita da Cachoeira


João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor de Matemática da UFRN e membro do INRG

Hoje iniciamos um passeio pelo Trairi. Vamos encontrar outros lugares como Bananeiras, Brejo de Areia, Guarabira, Araruna, Cuité; outros sítios e fazendas; mais famílias, como Gomes de Mello, Ferreira de Macedo, Arruda Câmara, Fernandes Pimenta e outras mais. Começamos com o livro de casamento. Está escrito no dito livro de abertura de casamentos: Servirá este livro para nele se lançar os assentos de casamentos da Freguesia de Santa Rita da Cachoeira: vai todo numerado e rubricado com a rubrica =Justino = de que uso; e no termo de encerramento, na última página, se vê o numero de suas folhas. Do que para constar faço este termo de Abertura, que assino. Villa de Jardim, em visita, 20 de Novembro de 1859. Francisco Justino Pereira de Brito. Vejamos o primeiro registro de casamento que consta no  livro.

Aos cinco de Maio de mil oitocentos e cinqüenta e nove pelas onze horas da manhã, havidas as Cerimônias Canônicas, e examinados em Doutrina Cristã e Confissão Sacramental, Juxta Sac.Conc. Trid., uni em matrimonio, e dei as Bênçãos Nupciais aos contraentes Olympio Balduíno de Freitas, e Anna Adelina de Faria, aquele natural, e morador na freguesia de Araruna, e esta nesta Freguesia, ele filho legítimo de Antonio de Freitas Chaves e Francisca Romana do Espírito Santo, ela filha legitima de João de Faria Costa, e Maria Alexandrina da Conceição, em presença das testemunhas Manoel Januário  de Faria, e Antonio (ilegível) de Freitas, moradores na Freguesia de Araruna, do que para constar fiz este termo, que assino. Antonio Dias da Cunha, vigário Encomendado da Freguesia.

Segue outro casamento de filho de João de Faria Costa e Maria Alexandrina.
 Aos vinte e dois de Julho de mil oitocentos e cinqüenta e nove, pelas cinco horas da tarde, no lugar denominado, São Bento desta Freguesia, havidas as Cerimônias Canônicas, e exame de Doutrina Cristã, e confissão Juxta Sac. Conc. Trid., não constando impedimento, uni em matrimonio, e dei as bênçãos nupciais aos contraentes João Clementino de Faria, e Cordulina Ursulina da Rocha, aquele natural e morador nesta Freguesia, esta natural da Freguesia de Bananeiras, e moradora nesta, ele filho de João de Faria da Costa, e Maria Alexandrina de Jesus, ela filha legitima de José Pereira da Rocha e Anna Joaquina de Mello, em presença das testemunhas Manoel Thomaz de Faria, e Bernardino Gomes de Faria, aquele morador na Freguesia de Araruna, este nesta Freguesia, do que para constar fiz este assento em que assino. Antonio Dias da Cunha, Vigário Encomendado da Freguesia.

Agora, o casamento de um membro da família Fernandes Pimenta e na seqüência, das famílias Gomes de Mello e Arruda Câmara
Aos vinte e três de Maio de mil oitocentos e cinqüenta e nove, pelas oito horas da manhã, no lugar denominado (ilegível), desta Freguesia, havidas as Cerimônias Canônicas, e exame de Doutrina Cristã, e Confissão Sacramental, Juxta Sac. Conc. Tridentinum, e não constar impedimento, uni em matrimonio e dei as bênçãos nupciais aos contraentes José Felis da Silva, e Cândida Maria da Conceição, naturais e moradores, ele filho legitimo de Joaquim Felis de Lima, e Antonia Maria da Conceição, e ela filha de José Fernandes Pimenta, já falecido, e Rita Maria da Conceição, em presença das testemunhas Honofre Barbosa de Lima, e Pedro Barbosa de Lima, moradores nesta Freguesia, do que para constar fiz este termo em que assino. Antonio Dias da Cunha, Vigário Encomendado da Freguesia.

Aos dezessete de Outubro do ano de mil oitocentos e cinqüenta e nove, pelas onze horas da manhã, no lugar denominado Caiçara de Baixo, desta Freguesia, havidas as Cerimônias Canônicas, e exame de Doutrina Cristã, e confissão sacramental, Juxta Sac. Conc. Trid., não constando impedimento, uni em matrimonio e dei as bênçãos nupciais aos contraentes Manoel Gomes de Oliveira, e Maria Perpétua de Mello, ele natural e morador na Freguesia de Guarabira, e ela natural e moradora nesta Freguesia, aquele filho de João José dos Reis e Maria José Soledade, e esta filha de João d’Arruda Câmara, e Emerenciana Gomes de Mello, em presença das testemunhas Onofre Barbosa de Lima e Francisco de Salles Bezerra, moradores nesta Freguesia, do que para constar, fiz este termo em que assino. Antonio Dias da Cunha, Vigário Encomendado da Freguesia.

Vejamos dois casamentos no mesmo dia, da família Ferreira de Macedo. Vicente e Antonio eram irmãos do Barão de Araruna, Estevão José da Rocha.
Aos vinte e quatro de Novembro do ano de mil oitocentos e cinqüenta e nove, pelas onze horas da manhã, no lugar denominado de Santo Antonio, desta Freguesia, havidas as Cerimônias Canônicas, e exame de Doutrina Cristã, e Confissão Sacramental, Juxta Sac. Conc. Trid., não constando impedimento, uni em matrimonio, e dei as bênçãos nupciais, a Manoel Zacharias de Macedo, e Josefa Felismina de Macedo, aquele natural e morador na Freguesia de Cuité, e esta natural e moradora nesta Freguesia, ele filho legitimo de Vicente Ferreira de Macedo, e Theodora Maria de Jesus, e ela filha legítima de João de Faria Costa, e Maria Alexandrina de Jesus, em presença das testemunhas Olympio Balduíno de Freitas e Trajano José de Faria, aquele morador na Freguesia de Cuité, e esta nesta Freguesia, do que para constar fiz este assento, em que assino. Antonio Dias da Cunha, Vigário Encomendado da Freguesia.

Aos vinte quatro de Novembro de mil oitocentos e cinqüenta e nove, pelas nove horas da manhã, no lugar denominado Santo Antonio, desta freguesia, havidas as cerimônias canônicas, e exame de Doutrina Cristã, confissão, Juxta Sac. Conc. Trid., não constando impedimento, uni em matrimonio, e dei as bênçãos nupciais, aos contraentes Candido José Meira e Maria Avelino de Faria, ele natural e morador na Freguesia de Cuité, e ela natural e moradora nesta Freguesia, aquele filho legitimo de Antonio Ferreira de Macedo, e Thereza Maria de Jesus, e ela filha legítima  de Miguel Rodrigues do Nascimento e Virginia Francelina de Jesus, em presença das testemunhas José Gomes de Mello e João Amâncio de Macedo moradores nesta Freguesia, do que para constar, fiz este termo que assino. Antonio Dias da Cunha, Vigário da Freguesia.


José Gomes de Mello era casado com Úrsula de Macedo, filha de Antonio Ferreira de Macedo e Thereza Maria de Jesus. Francisco Umbelino, filho de José e Úrsula, casou com Felismina, neta de Vicente e Teodora, e, também, de Antonio Ferreira de Macedo  e Thereza e Maria de Jesus

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Krishnamurti: o Instrutor do Mundo

Jiddu Krishnamurti
O grande mestre Krishnamurti ainda jovem. 

Se você quer conhecer um mestre dos tempos atuais, leia algum trabalho ou veja algum vídeo sobre esse espírito avançado do nosso tempo. 
Você pode acessar os sites sobre ele na internet. 

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Natal e o Forte dos Reis Magos


João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG
Encontramos, em um dos jornais antigos da Hemeroteca Nacional: esta Província foi descoberta em 1499, antes de Pedro Álvares Cabral fundear em Porto Seguro, segundo afirma Mello Moraes na sua Corografia Brasileira, fundado em Herrera, - História das Índias – dizem que Alonso de Hogeda e Américo Vespúcio em 1499 encontraram em 5 graus ao sul equinocial uma terra alagada e segundo todas as probabilidades uma das bocas do rio dá Piranhas ou Apodi (hoje Mossoró) e que não seguiram mais ao sul pelas correntes das águas.

Em 1501, os portugueses chantaram o marcos de Touros, aqui no nosso Rio Grande do Norte, e, depois disso, não há notícias da presença deles, nas nossas terras, por décadas, diferentemente dos franceses que aqui aportaram desde 1503, se consorciando com nossos índios, militarmente, comercialmente e maritalmente. Pudsey, que esteve aqui com os holandeses, diz que os Cariris são originários da miscigenação dos franceses com os tapuias.

Com a instituição das capitanias hereditárias, João de Barros e seus herdeiros tentaram por duas vezes se apossar do seu legado, mas fracassaram. Outros viajantes e piratas devem ter, ao longo desse tempo, nos visitado, mas somente em 1597 resolveu o Rei de Portugal, Felipe II da Espanha, tomar conta da sua colônia, dando ordens a Mascarenhas Homem e Feliciano Coelho, para construir um forte, expulsar os franceses e povoar nossa terra.

O Forte dos Reis Magos é o símbolo maior do nosso Rio Grande do Norte e da cidade do Natal. Diferentemente do que ocorreu em outras localidades, sua construção precedeu a fundação da cidade do Natal.

No dia 25 de dezembro de 1597 Mascarenhas Homem entrava no Rio Potengi, e no dia 6 de janeiro de 1598 dava início à construção do forte. Em 24 de junho do dito ano de 1598, concluída a primeira versão, ele foi entregue a Jerônimo de Albuquerque (mais tarde Maranhão), que tinha a missão de defender nossa terra e trabalhar a paz junto aos índios para a fundação da cidade. Foi um processo demorado. Somente em 11 de junho de 1599 foi feita a aliança com os indígenas, na capital da Paraíba.

A partir daí se iniciou a fundação da cidade com a demarcação de seus limites e a construção da matriz, a meia légua do Forte. Acredito que programaram tudo para que o ato de fundação se desse no aniversário de dois anos da entrada no Rio Potengi. As datas estavam sempre associadas aos eventos religiosos: Natal, Reis Magos, São João e novamente Natal. Em alguns registros aparecem nomes como cidade dos Reis, Santiago, cidade do Rio Grande, Natal, ou Natal dos Reis.

A partir de 1600, com a posse de João Rodrigues Colaço, como capitão-mor, começaram as concessões de sesmarias, sendo o primeiro beneficiado, o próprio capitão-mor, por ato de Manoel Mascarenhas Homem. Essa sesmaria foi comprada, posteriormente, pelo padre vigário da capitania, Gaspar Gonçalves Rocha.

A 2ª já foi concedida por Colaço para os padres jesuítas. Na relação de terras concedida até a data de 1612, quando houve uma revisão, citamos alguns: Jacque de Py; Manoel Rodrigues; João Lostau, com grande descendência, no Brasil; Antonio Gonçalves Minhoto; Francisco Coelho, talvez aquele vitimado pelos holandeses; Bartholomeu Ledo; os irmãos Antonio de Albuquerque e Mathias de Albuquerque, filhos de Jerônimo de Albuquerque, Dona Úrsula, filha de Antonio Cavalcanti; Catharina da Costa, filha de Jorge Gonçalves; Jerônimo Cunha, pai do depois capitão-mor, Manoel de Abreu Soares; Francisco da Cunha, filho de Jerônimo Cunha; Manoel de Abreu; Jerônimo de Ataíde; José do Porto; Maria Rodrigues; Maria de Albuquerque; Manoel Rodrigues Faleiros, talvez ascendente de Pedro e Gonçalo da Costa Faleiros; Manoel Vaz de Oliveira; Inez Duarte, possivelmente a esposa de Antonio Vilela Cid; Antonio Machado; Beatriz do Pania, filha do alferes Luis Gomes; e Antonio Vilela. Foram 185 concessões, muitas delas distantes da nova cidade, tendo alguns dos beneficiados recebidos mais de uma sesmaria.

O núcleo da cidade não prosperou muito em termos de habitação. Nossos povoadores tinham preferências pelas localidades mais distantes da matriz, talvez pela qualidade da terra.

Os holandeses, quando aqui tiveram, não trouxeram nenhum benefício, muito pelo contrário, pois além de promover massacres contra nossos habitantes, destruíram a cidade na conquista, assim a mantiveram, enquanto estiveram por aqui, e pioraram na hora da saída.

Com vimos em artigo anterior, alguns cronistas dizem, até agora não comprovado, que, em 1654, D. João IV doou, para Manoel Jordão, parte do território do Rio Grande, que alguns dizem ter sido Natal, por isso chamado de Natalópolis, e que ele não tomou posse por ter naufragado na entrada do Rio Potengi, e, por isso, o feudo retornou a Coroa; a segunda informação dava conta que D. Pedro II, de Portugal, concedeu o título de Conde do Rio Grande para filho ou filha de Francisco Barreto de Menezes, por sua participação na luta contra os holandeses. Lopo Furtado foi beneficiado por casar com a filha de Francisco Barreto. Segundo alguns, foi o primeiro titular que teve o Brasil.

Nosso Forte passou por várias reformas até ter chegado ao formato atual. O IPHAN, que tomou posse recentemente do Forte, realiza novas reformas, mas, antes disso, um grupo de arqueólogos promove, atualmente, escavações mostrando os vários pisos e intervenções no Forte. Devemos ter novidades sobre a história desse símbolo da nossa terra.


Na Hemeroteca Nacional, encontramos uma descrição da nossa cidade, no ano de 1883: Natal, ou Rio Grande do Norte, pequena, mas bonita por sua posição na península formada pelo Rio Potengi e o oceano, com três praças e dois grandes largos, cinco ruas extensas e retas atravessadas por outras cinco; sendo notáveis os seguintes edifícios: Igrejas de Nossa Senhora da Apresentação (matriz), Nossa Senhora do Rosário, Santo Antônio e Bom Jesus; palácio do governo, assembleia provincial, câmara municipal, tesouro da fazenda, tesouro provincial, alfândega, atheneu, quartel de linha, quartel de polícia, hospital militar, casa de caridade e cadeia.




terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A morte de D. Altina, esposa de José da Penha


João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, sócio do IHGRN e do INRG
Cem anos atrás, o capitão José da Penha incendiou este Rio Grande do Norte com suas palavras flamejantes. Mas antes disso, o capitão mais atrevido das nossas forças armadas se envolveu em outros episódios de luta. As críticas que pronunciou através do artigo "Traído e Caluniado", em defesa de Lauro Sodré, publicado no Jornal do Ceará, em 1904, acabaram gerando sua prisão. No jornal “A Província” de Pernambuco encontramos o relato da morte de D. Altina, no Forte do Brum.

Preso na fortaleza do Brum desde o dia 18 de dezembro último (1904), o alferes do 17º batalhão José da Penha Alves de Sousa, foi ontem ao anoitecer ferido por um dolorosíssimo golpe.

Esse distinto oficial, que veio do Ceará sem nota de culpa aguardar aqui deliberação do marechal ministro da guerra, a cuja ordem se acha preso, trouxe consigo a sua esposa Altina Alves de Sousa, senhora assaz formosa, ornada de belos dotes de coração e de espírito e extremosamente dedicada ao marido e à duas filhinhas que constituíam a alegria e a consolação do casal através da vida forasteira e acidentada que constitui quase sempre a carreira militar.

O alferes José da Penha, por sua vez, nutria pela família um afeto extremo e um desvelo a toda prova, de sorte que, fossem quais fossem as atribulações da existência, havia de reinar entre eles uma felicidade relativa, a felicidade do lar pelo menos.

No entanto, D. Altina, senhora altamente impressionável, não estava satisfeita; não por si, mas por julgar-se um obstáculo à carreira do marido. Daí a tresloucada ideia do suicídio que a assaltou, ideia que por mais de uma vez pretendeu levar a efeito, conseguindo fazê-lo afinal ontem (9 de janeiro de 1905) às seis e meia horas da noite.

De nada valeram as prevenções e as cautelas do alferes José da Penha e da criada Damiana, uma criada de rara dedicação que acompanhava D. Altina desde a infância.

A desventurada senhora, não se sabe como, conseguiu uma cápsula para o revólver que o marido tinha o cuidado de trazer sempre descarregado e fechado na mala, e, ontem à citada hora, apoderando-se da arma, carregou-a e disparou-a contra a têmpora direita.

Ao estampido, o alferes José da Penha, que tomava café da parte de fora com dois outros oficiais, correu, como muitas outras pessoas, para o ponto de onde ele partira – um compartimento de tabique situado a um canto da sala cedida ao casal. Ali deparou, preso do mais doloroso assombro, uma cena desoladora. A esposa jazia por terra, insensível e banhada em sangue; a morte fora instantânea.

 A inditosa moça desprendera-se da vida sem uma contração de agonia, sem um traço de amargura no rosto e, quando mais tarde a vimos naquela mesma sala, então transformada em uma câmara mortuária, parecia mais uma criatura serenamente adormecida de que um cadáver. Apenas traziam à ideia o tristíssimo sucesso algumas manchas vermelhas sobressaindo nas ataduras brancas que abraçavam a cabeça da morta.

- Logo que teve conhecimento do fato o general Serra Martins compareceu a aquela praça de armas e providenciou para que se iniciassem imediatamente os competentes inquéritos: militar e civil. Neste intuito comunicou o ocorrido ao Dr. Chefe de polícia que fez seguir para ali o Dr. Glycério Gouveia, delegado do 1º distrito. Além desta autoridade compareceu também o Dr. Souza Paraízo, delegado do 2º distrito.
Entre os muitos oficiais que foram à fortaleza do Brum enquanto lá estivemos, notamos os tenentes coronéis Alberto Gavião e Eduardo Silva.
Reinava geral desolação entre as pessoas ali reunidas, desolação a que nos associamos, apresentando condolências ao brioso oficial.

Dois dias depois da publicação acima, o alferes escreveu para a redação.

Senhor redator: - De par com os meus agradecimentos pela tocante e carinhosa notícia do inesquecível sucesso do dia 9, aceitai uma breve explicação, a que não posso renunciar.

Afirmaste que era minha desventurada esposa, altamente impressionável, conjeturando-se um obstáculo à minha carreira do que lhe advieram tendências para suicidar-se. Consente-me que vos ministre mais acertados informes.

Desgraçadamente mais do que pura impressionabilidade, comandam o corpo e o espírito as prepotências da alienação mental, que a martirizaram três vezes no curto lapso de oito anos. De cada uma, conforme fosse o delírio ou a mania, deixava ou não de ter, consoante a lei que preside ao desdobrar daquela triste moléstia, as impulsões suicidas, o que lhes servem de instrumento os objetos mais inconcebíveis, confirmam todos os profissionais, de qualquer procedência ou escola.

Cessada a causa dessa obstinação intraduzível, que fazem somente ideia pouquíssimas pessoas, o que mais torturava aquela alma de santa, era justamente o horror de suas “criminosas tentativas”, como lhes chamava ela.

Repugnava-lhe às crenças religiosas, restauradas nos momentos de trégua, achar desculpa, mesmo estando alienada, para quem atentava contra a própria vida. E quando de fato se restabelecia de todo, transpunha os limites do normal o seu desejo de viver para os nossos filhos. E os modestos incitamentos, com que me impelia à conquista do seu mais forte ideal – um nome para seu esposo, adquirido na luta pela justiça e pela liberdade, - ultrapassavam identicamente a zona, em que se agitam as fragilidades comuns à maioria das pessoas do seu sexo.

Tanto assim, que o meu derradeiro tributo à sua alma, será imolar-me sempre quando for oportuno, aos meus ideais, em que apoia minha consciência de crente e homem livre.


Reiterando meus comovidos agradecimentos, subscrevo-me vosso patrício e admirador. J. da Penha.