Prezado Professor João Felipe,
Lá dos Estados Unidos, Lúcia escreveu:
Este seu texto de encerramento do ano de 2013 realmente me tocou. O Brasil precisa de mais vozes como a sua, além de mais educação, saúde e segurança. Retransmiti seu texto para meus tios no Brasil. Desejo-lhe daqui das terras distantes do Norte um feliz Ano Novo. Que o seu trabalho possa ser cada vez mais divulgado!
Um abraço,
Lúcia Tolson
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
Pirangi do Norte, início de 2014
João Felipe da
Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN,
membro do IHGRN e do INRG
No verão, para fugir da rotina e ver novas
paisagens, renovando nossas energias, saímos de Natal para Pirangi do Norte, 22
quilômetros de um lugar para outro. Fugimos do trânsito fatigante da capital,
onde os sinais estão constantemente sem sincronia, e não funcionam a onda verde
e as vias livres, para os engarrafamentos das praias da costa sul do Rio Grande
do Norte.
Na chegada, notícia de um assalto, no dia
anterior, praticado por cinco indivíduos contra a casa de um agente da Polícia
Rodoviária Federal. As autoridades policiais continuam repetindo a mesma
ladainha de sempre e tudo continua como antes. Falta inteligência no setor de
segurança deste país.
Os sinais de comunicação já não funcionam bem
na capital, e nas praias, mesmo as mais próximas, a coisa desanda. Telefones e
internet se tornam um martírio para quem quer se comunicar. Mais ainda, os
paredões fazem a festa das novas tribos e o inferno dos veranistas e moradores.
Músicas da pior qualidade drogam as mentes jovens e atanazam o sono dos mais
velhos. As únicas coisas que se
interiorizam, neste país, são o crime organizado, as aulas online de maldades (novelas),
as drogas, com predomínio do crack, e as aulas online de mediocridade (os big
brother da vida). É a coisa ruim chegando a todos os lugares.
Pirangi, e as praias vizinhas, mesmo com seus
moradores habituais, os veranistas e milhares de turistas transitando por ela,
não tem todos os serviços necessários para atender as demandas dos usuários. Nenhuma
agência bancária, nem as oficiais estão por aqui. É o retrato do atraso, da
falta de visão dos governantes.
O Rio Grande do Norte possui uma grande costa
em relação ao seu tamanho. Praias de riquezas naturais e históricas não são
aproveitadas pelos seus prefeitos e governador. O discurso do turismo continua
pobre e sem ação concreta. As praias beneficiadas pelos royalties de petróleo
só atraem políticos aventureiros que não levam benefícios para as mesmas.
Carnavais são suas grandes realizações. As roubalheiras são as maiores. Mas os
ladrões continuam flanando por aí. O que restou dos PRODETUR I e do PRODETUR
II?
Na natureza, temos a noite para descansar
nosso corpo físico e reiniciar novos programas instalados na nossa mente. As
semanas, os meses e as estações do ano quebram as rotinas do dia a dia e são
necessárias para que estejamos sempre recomeçando nossas vidas e nossas visões
do mundo. Mas não é isso que acontece. Os condicionamentos são mais fortes que
a nossa vontade de mudar. Estamos sempre usando a memória psicológica e as
imagens do passado para começar o dia, a semana ou o mês. E por isso, nada muda
de verdade.
E assim não avançamos como seres humanos.
Tudo se repete, monotonamente. As pessoas contam seu tempo a partir dos
eventos. Em 2014, por exemplo, vai ser assim: Veraneio, carnaval, semana santa,
copa e eleições. Quando terminar o sonho da copa no Brasil, voltamos para
realidade do dia a dia. Vamos ter os infames programas eleitorais, onde tudo
vai ser prometido com a maior cara de pau. Os candidatos, que serão os de
sempre, vão falar, inicialmente, em saúde, educação, segurança, planejamento
estratégico, sustentabilidade, governança solidária, choque de gestão e outros
termos novos que seus marqueteiros vão inventar. Depois, vão infernizar a vida
dos adversários, dando início a sessão escândalos. Vai ser o sujo falando do
mal lavado.
Quando tomarem posse, no início de 2015, os
novos mandatários vão reclamar dos seus antecessores, se não foram os
reeleitos. Segue o papo furado da governabilidade para justificar as
composições partidárias e o preenchimento dos cargos comissionados. Contratam
consultorias desnecessárias, pois, tudo que elas propõe, já foi proposto
anteriormente, pela prata da casa. E, aí, já começa a próxima eleição. Os que saíram
do governo, mas não fizeram o prometido, querem retornar. E o gigante pela
própria natureza vai continuar deitado eternamente em berço esplêndido.
A natureza quebra a monotonia da terra com
suas catástrofes. Sensibilizamos-nos temporariamente. Os governos prometem
tudo, mas em 6 meses tudo é esquecido. E no ano seguinte as mesmas catástrofes se
repetem nos mesmos lugares, causando dores, principalmente, para os menos
favorecidos, as principais vítimas.
A genealogia nos mostra que somos frutos de
centenas de milhares de pessoas. Os indivíduos não se repetem, mas os
condicionamentos de milhares de anos não nos deixam seguir um caminho
diferente. Nem as religiões, nem os educadores, nem os filósofos e nem os psicólogos
têm ajudado muito a humanidade.
Vez por outra aparece um messias na terra.
Mas quando ele se vai, os seguidores esquecem os ensinamentos e o transformam num
ídolo, deturpando tudo que foi proclamado. Buda disse que não precisávamos
percorrer o mesmo caminho que ele. Seus ensinamentos iluminavam o caminho que
tínhamos que seguir; Jesus ensinou que quando quiséssemos conversar com Deus,
entrássemos em um quatro, fechássemos a porta e orássemos, dando como o exemplo
o pai nosso, mas fazemos o contrário; Krishnamurti ensinou que prestássemos atenção
na nossa mente, pois é ela quem tem o comando de tudo, mesmo dos que se dizem
livres. Mas, infelizmente não compreendemos
o que eles disseram e a humanidade caminha sem muita evolução, comandada pelos
expertos e enganadores.
Assim, 2014 vai ser, em essência, a repetição
do que tem acontecido até agora. A única novidade é o próprio ano.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
Comentário de Lúcia Tolson
Ainda sobre o artigo de Pirangi, recebi o seguinte comentário de Lúcia Tolson, lá dos Estados Unidos
Prezado Professor João Felipe,
Este seu texto de encerramento do ano de 2013 realmente me tocou. O Brasil precisa de mais vozes como a sua, além de mais educação, saúde e segurança. Retransmiti seu texto para meus tios no Brasil. Desejo-lhe daqui das terras distantes do Norte um feliz Ano Novo. Que o seu trabalho possa ser cada vez mais divulgado!
Um abraço,
Lúcia Tolson
Comentário sobre artigo, Demétrio Bezerra
Sobre o artigo - Pirangi do Norte, final de 2013, meu amigo lá de Brasília, Demétrio Bezerra, fez o seguinte comentário.
Caro João,
Enquanto isso o país se esmera desesperadamente na produção de soja, desmatando ainda mais o interior, que diante de uma lavoura extremamente "competitiva", mecanizada ao extremo e que só entope de veneno tanto o solo quanto o lençol freático, expulsa os menos preparados, os lavradores e pequenos e médios fazendeiros, que impossibilitados de acompanhar esta loucura dita produtiva, veem-se muitas vezes diante do único caminho possível: arrendar suas terras para ricos plantadores de soja, milho e cana-de-açúcar, que se socorrem muitas vezes do dinheiro público.
Este é hoje o princípio da crescente favelização, que nunca é citada por nossos anaalistas "sociais e econômicos" mas que repetem dia e noite as maravilhas do mercado. Que mercado?
Em contrapartida um pequeno percentual de nossa população, que está empregado em gordas "carreiras especiais", recebe polpudos salários muito maiores que os seus correspondentes menos favorecidos no próprio governo, bem como no setor privado, causando uma inflação que não é medida. E uma enorme especulação imobiliária, que deverá provocar o estouro desta bolha em 2014.
Quanto às drogas, com toda certeza fazem parte de um poderoso plano que vem do exterior, através de uma bem camuflada confusão, corroendo nossa sociedade pela base, tal como os ingleses fizeram com a China no Século XIX, não necessitando de exércitos para dominar aquele enorme e populoso país.
Por aqui ocorre há algumas décadas o mesmo, e esta estratégia dispensa ocupação militar, bastando "ocupar os desocupáveis com muita droga na cuca" e muita inutilidade televisiva.
Este empobrecimento é pior que o financeiro, na verdade trata-se do verdadeiro empobrecimento econômico-cultural.
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
Pirangi do Norte, final de 2013
Professor da UFRN , membro do IHGRN e do INRG
Daqui, da praia de Pirangi, o francês de
Navarra, João Lostau, dominava esta costa até os limites com a Paraíba. Sua
principal atividade era a pescaria, e de seus portos exportava para várias
localidades do Brasil e do exterior. Talvez tenha chegado por aqui antes dos
portugueses construírem o forte dos Reis Magos, foi poupado, e a partir de 1601
recebeu várias sesmarias. Não se sabe o nome de sua esposa, mas uma de suas
filhas, Maria, casou com o português Manoel Rodrigues Pimentel, que por sua vez
gerou Joana Dorneles esposa de Francisco Lopes, e daí uma larga descendência,
incluindo Cipriano Lopes Galvão.
Aqui próximo, em Pium, estava sua Casa Maior, segundo alguns autores, dos quais discordo,
umas das famosas casas de pedra construídas pelos franceses do século XVI.
Tombada pelo patrimônio e pelos depredadores, restam apenas ruínas, sem merecer
nenhum destaque da Ciência, do Turismo e dos governantes. Por lá esteve Joris
Garstman, pouco depois do assassinato de Jacó Rabi. Foi para lá que rumaram os
sobreviventes do massacre de Cunhaú, e talvez por isso, João Lostau foi preso e
depois trucidado pelos súditos de Jacó Rabi.
Mas o ano está terminando. Um século se
passou que o nosso Dom Quixote, capitão José da Penha, dentro de um movimento
nacional, veio combater a oligarquia da família Maranhão, que está presente no
nosso Rio Grande, através de Jerônimo de Albuquerque, segundo do nome, desde a
construção do forte. Mas não se combate uma oligarquia, através de outra. A
família Fonseca estava nesse caminho, mas Leônidas Hermes da Fonseca não vingou
porque o pai dependia dos sustentadores da nossa oligarquia.
Um novo ano vai começar. E, nesse novo ano,
completará um século que o capitão e deputado cearense, José da Penha, tombou
vitimado pelos aliados do Padre Cícero Romão. Já se fala, novamente, na
canonização deste último, como se a santidade de um indivíduo fosse fruto de
milagres alcançados pelas pessoas. O próprio Jesus dizia que a cura nascia da
fé do curado.
Nada parece mudar, de verdade, de um ano para
outro, através dos séculos. As novidades vêm da ciência e da tecnologia, e nada
de novo vem dos seres humanos. A saúde, a educação e a segurança são os retratos
do despreparo dos nossos governantes deslumbrados, que não se tocam com a
realidade das coisas. Falta sensibilidade. Os cobradores de impostos continuam
implacáveis. Os que estão no poder, sejam eles do executivo, legislativo ou
judiciário, cuidam primeiro deles próprios. Locupletam-se com as mordomias à
custa do povo. Não abrem mão de qualquer vantagem, como tem feito o Papa
Francisco.
Não existe educação de fato neste país. As
nossas crianças e nossos jovens não são estimulados para a liberdade e, por
consequência, para o conhecimento da verdade. Muito pelo contrário, o ensino,
as ideologias, as religiões, os partidos, as filosofias, e as mídias concorrem
para manter o máximo de indivíduos sob domínio total. Os sistemas se alimentam
da dependência dos indivíduos. Vejam o exemplo de Lula. Já está na televisão
fazendo terrorismo eleitoral com o programa bolsa família. As religiões, que
são criadas dia a dia, usam os pobres recursos de suas ovelhas para construir
castelos de enganação e casas de milagres. Tomam contam do espaço político e
midiático.
Com as cadeias em petição de miséria, escolas
mal instaladas, postos de saúde de quinta categoria, anos seguidos de seca,
destruindo nossa agricultura e pecuária, e desnutrindo nossas crianças, se tem
o descaramento de destruir um estádio e um ginásio, e, no local, construir
outro estádio pomposo, para atender a máfia internacional e a vaidade nacional.
Além disso, obras iniciadas ou inauguradas são abandonadas por falta de uso ou
de manutenção. O Forte foi para o IPHAN, o Presépio para o Banco do Brasil e,
com certeza, a Lagoa Manoel Felipe vai para outra entidade, breve.
O calendário escolar é antecipado para atender
o calendário do futebol. Até a comercialização de produtos é alterada para
atender as determinações da entidade internacional do futebol.
Em 2013 o Brasil não acordou, apenas levantou
sonâmbulo e saiu desvairado pelas ruas. Políticos e bandidos se aproveitaram do
movimento.
Terminamos o ano sem nenhum avanço de
qualidade, e vamos continuar nos entorpecendo com o futebol, os diversos tipos
de bolsa, o crack e as eleições. Os partidos já estão decidindo quem são, entre
eles, os candidatos que temos que escolher. Não interessa o desenvolvimento
humano do país e do estado, mas simplesmente a sobrevivência deles e dos seus
descendentes e aparentados. Vejam o exemplo de nossa Câmara Municipal. Seus
vereadores de menos idade não se livraram das práticas dos mais antigos e
repetem os mesmos erros. Anteciparam, descaradamente, a eleição da mesa
diretora.
A droga (de todo tipo e natureza) ocupa os
mais distantes lugares deste país e vai destruindo nossos jovens e tornando a
violência uma coisa corriqueira. Os governantes não se juntam para resolver
esse mal que neutraliza qualquer ação social que se programe.
Presidente Dilma, a capacidade de comprar
mais coisas não melhora a qualidade de vida das pessoas. Muitas vezes piora. Sem
uma educação de verdade, uma saúde de verdade e uma segurança de verdade, não
vamos para canto nenhum.
Que no ano de 2014, uma onda de energia do
Universo invada nossos cérebros e produza em cada um dos governantes e
governados mentes mais saudáveis para que possamos viver com mais simplicidade
e qualidade de vida. Que todos os governos criem Ouvidorias e Vedorias que
funcionem de verdade.
![]() |
| Ruínas da Casa Maior de João Lostau |
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Baltazar Soares, da Fazenda Curralinho, e a Baronesa de Serra Branca
João Felipe da
Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN,
sócio do IHGRN e do INRG
Nos estudos genealógicos de Manoel Américo de Carvalho Pita,
sobre as famílias de Santana do Matos, Balthazar Soares aparece como genro do
fundador de Angicos, tenente Antonio Lopes Viegas, e como sogro de Luiz da Rocha
Pita, nada confirmado até agora. Encontro informações sobre um Balthazar Soares
que não sei se é o mesmo.
Pelo livro de óbitos de Santana do Matos, o cadáver de Balthazar Soares, branco, foi sepultado aos onze de dezembro de mil
oitocentos e vinte e cinco, na Matriz de Santa Ana do Mattos, falecido com a
idade de oitenta e quatro anos de idade, casado que era com Isabel Maria de
Figueredo; e o da sua esposa, por sua vez, foi sepultado aos vinte de janeiro
de mil oitocentos e vinte e seis, na mesma matriz, falecida com setenta e oito anos de idade.
Pelos registros acima, Balthazar deve ter nascido por volta
de 1741, e D. Isabel por volta de 1748. Além desses registros, encontramos,
também, assentamentos de praça de dois filhos de Balthazar, no Assú. Em tais
registros não aparece a mãe dos assentados.
João Baptista Xavier, filho do capitão Balthazar Soares,
natural da Freguesia do Assú, idade de 32 anos, cabelos castanhos, olhos
pretos, altura 5p e 2pm, praça na 4ª Companhia em 10 de setembro de 1779, e por
despacho do ilustríssimo Sr. Governador, de 26 de junho de 1806, e cumpra-se do
Vedor Geral, passou para esta companhia, casado, vive de criar de gado.
Antonio da Silva Barbosa, filho de Balthazar Soares,
natural, e morador nesta Ribeira do Assú, branco, solteiro, de estatura baixa,
dentes grandes, olhos pequenos, e azuis, nariz grande, sem barba, de idade de
dezesseis anos, assenta praça em revista de vinte e sete de Julho de 1789.
Encontramos mais uma referência ao capitão Balthazar em um “Diário Oficial da União” de 1906, de onde extraímos
trechos que o capitão Absalão Fernandes da Silva Bacilon, juiz distrital em
exercício da Vila de Santana do Mattos, da comarca do Assú, escreveu: Faço
saber aos que o presente edital, com o prazo de 90 dias virem, que, por parte
de D. Belisária Wanderley de Carvalho e Silva, baronesa de Serra Branca, me foi
dirigida a petição do teor seguinte: Cidadão juiz distrital, em exercício, da
Vila de Santana do Matos. A baronesa de Serra Branca, D. Belisária Wanderley de
Carvalho e Silva, viúva e ora residente na cidade do Assú, sede desta comarca,
diz, por seu procurador e advogado, abaixo assinado: que é senhora e possuidora
de uma data ou lote de terras na serra de Santana, deste distrito, e na parte a
que ora dão os nomes de Pelado e Lagoinha; que a extensão superficial da área
desta terra, conforme a respectiva concessão, é de uma légua de largura sobre
três de comprimento, pegando de um olho de água que ali se acha em um riacho,
denominado Caiçarinha, que deságua para parte do Assú; que a dita terra
estende-se na chapada daquela serra, e tem sido cultivada e possuída, delimitando-se,
ao norte, pelas sinuosidades desta mesma serra e quebra das águas, como
vulgarmente se diz, ficando neste lado a antiga fazenda Curralinho de Balthazar
Soares; limita-se, no sul, com terras da fazenda do riacho da Areia, que foi do capitão-mor Cypriano
Lopes Galvão, ao poente, com terras que foram do capitão Felix Gomes Pequeno, e
ao nascente com terras da ribeira do Putegy, onde atualmente está o sítio Bodó
e outros, que tendo a suplicante por si e seus antecessores uma posse de longíssimo
tempo, se não imemorial, pela povoação e cultura constantes das ditas terras,
há menos de um ano, os confrontantes Joaquim Bezerra, viúvo e morador em S.
Bento, Antonio Florêncio, morador em Cipós de Leite, João Lopes de Araújo Galvão,
morador em Areia ou Furna da Onça e as mulheres destes, cujos nomes a
suplicante ignora, bem como Miguel Rodrigues e sua mulher D. Francisca, Antonio
Hermógenes e sua mulher D. Constância, e o cidadão Cícero Rodrigues, moradores
no lugar Catunda e todos no vizinho distrito de Currais Novos, têm feitos
roçados e picadas nos matos dos terrenos sempre possuídos e cultivados pela
suplicante e seus antecessores, sob o pretexto de uma linha novamente tirada
entre este município e aquele de Currais Novos ter apanhado pequena parte dos
mesmos terrenos.
Continuando, mais adiante, a baronesa justifica: A referida
terra foi pedida em 1764 por D. Adriana de Hollanda Vasconcellos, e não tendo
voltado de Portugal esse pedido com a confirmação, o tenente-coronel Francisco
de Souza e Oliveira, em 1804, requereu e lhe foi concedida a mencionada terra
por data da sesmaria, com três léguas de cumprimento e uma de largura, tendo o
ponto de partida e limites acima descritos; em 1822 o capitão Felix Gomes
Pequeno que já havia comprado a mesma terra ao dito donatário, requereu a
certidão daquela data pra realizar a sua propriedade.
Adquirindo esta mesma terra o capitão Felix Gomes Pequeno,
pela forma por que ficou dito, em 1810 a vendeu ao capitão Antonio da Silva de
Carvalho, e esta venda foi ratificada pelos herdeiros do mesmo capitão Felix
Gomes, por escritura pública passada em 22 de julho de 1858, com tudo se vê do
documento.
Por morte dos sogros da suplicante, o mesmo capitão Antonio
da Silva de Carvalho e sua mulher, D. Maria da Silva Veloso, passou essa terra
aos seus herdeiros, um dos quais era o falecido marido da suplicante, Felipe
Nery de Carvalho e Silva, barão de Serra Branca, e este comprando as partes dos
demais, ficou possuindo toda aquela terra.
Falecendo o barão de Serra Branca, sem herdeiros
necessários, a suplicante sucedeu-lhe no todo da herança dos bens por ele
deixado, não só por sua meação como por ter sido instituída, em testamento, sua
herdeira universal, e por isso hoje lhe pertence exclusivamente a terra de que
se trata e cuja demarcação ora se requer.
Em “Velhos Inventários do Seridó”, Olavo de Medeiros Filho, tratando
do inventário de D. Adriana de Holanda e Vasconcelos, que foi casada com
Cipriano Lopes Galvão, Felix Gomes Pequeno e Antonio da Silva e Souza, cita,
também, como confrontante da Data de Terra, na Serra de Santa Ana, o capitão Balthazar
Soares da Silva, do sítio denominado Curralinho.
domingo, 22 de dezembro de 2013
O que nos falta é ciência e tenência
O que nos falta
é ciência e tenência
Tomislav R. Femenick – Mestre em economia e contador
Desde a década de 1990 que o Brasil está situado
entre as dez ou quinze maiores economia do planeta, mas não conseguimos entrar
no seleto clube das potencias do primeiro mundo. Estamos quase chegando lá, sem
nunca chegar. Sempre ficamos da fila do gargarejo. A pergunta inevitável é: O
que acontece e qual é causa? Talvez a resposta esteja nas notícias divulgadas
recentemente, que colocam o Brasil entre as nações com menor qualidade de
ensino e menor índice de produção científica e registro de patentes de novas
descobertas. Então o que nos falta? Obstinação para buscar e ciência para
alicerçar o nosso desenvolvimento. Sem ciência não há como chegarmos ao céu do
primeiro mundo. Somente para confirma essa afirmação, convido os leitores para
um passeio pela história do nascimento da ciência.
Os primeiros estudos científicos foram desenvolvidos
pelos filósofos que se dedicavam à filosofia da natureza. A história
aponta os gregos e chineses como os precursores desses estudos. Podemos dizer
que o ponto de partida foi dado quando Leucipo de Mileto (460-380 a.C.)
e Demócrito de Abdera (cerca de
460-370 a.C.) desenvolveram a teoria de que todas as matérias são compostas por
átomos, cujas propriedades seriam: forma, tamanho, impenetrabilidade e
movimento. Até então a opinião predominante era que as matérias eram compostas
de terra, água, fogo e ar. Quatro pensadores gregos deram a base para a
separação entre o “raciocínio simplesmente lógico” e o “raciocínio lógico
ordenado”. Tales de Mileto (624-548 a.C.) exclui os deuses da origem da
natureza, Pitágoras (580-507 a.C.) concebeu a relação matemática como base das coisas,
Parmênides (515-540 a.C.) criou a lógica formal (alicerçada no princípio da não
contradição, segundo o qual o “ser” é e o “não-ser” não é) e Demócrito (460-370
a.C.) formulou a teoria sobre a constituição da matéria. Eles geraram o embrião
da ciência atual.
Os chineses da antiguidade adotavam a ideia de cinco
elementos básicos: terra, água, fogo (em comum com os gregos), metal e madeira.
Essa teoria foi sistematizada pelo filósofo, historiador, político,
naturalista, geógrafo e astrólogo Zou Yan, ou Tsou Yen (305-240 a.C.), tido
como o fundador de todo o pensamento científico chinês. Das especulações
teoréticas, os gregos e chineses migraram para o uso prático.
Na Grécia as descobertas foram o relógio de água, as
máquinas movidas com força motriz hidráulica ou de ar comprimido. No campo das ciências
naturais, as pesquisas se expandiram pela astronomia, geografia, zoologia, botânica e medicina etc.
Na
China antiga os estudos teóricos eram voltados para conceituações morais
(confucionismo, taoismo etc.), porém a ação era principalmente voltada para a
exploração do mundo natural. As pesquisas no campo da física e da química resultaram
na invenção da pólvora, do balão de ar quente e da bússola magnética. Os
estudos sobre mecânica levam à construção da besta e do sismógrafo. Na medicina
testaram o tratamento da malária. Também, estudaram e fizeram aplicação prática
com elementos de engenharia hidráulica, botânica e astronomia.
Outros
povos da antiguidade também enveredaram nos estudos das ciências. Na
Mesopotâmia e no Egito houve importantes estudos no campo da engenharia de
construção, medicina, matemática e astronomia.
Por que
não aprendemos com a história? Se quisermos entrar no maravilhoso mundo dos
países desenvolvidos há que se melhorar o ensino em todos os níveis, fazer
pesquisas e criar condições concretas para uma ciência verde-amarela, sem
xenofobismo.
O Mossoroense. Mossoró, 20 dez.
2013.
Gente da Freguesia de Santa Rita da Cachoeira
Professor
de Matemática da UFRN e membro do INRG
Hoje iniciamos um passeio pelo Trairi. Vamos
encontrar outros lugares como Bananeiras, Brejo de Areia, Guarabira, Araruna,
Cuité; outros sítios e fazendas; mais famílias, como Gomes de Mello, Ferreira
de Macedo, Arruda Câmara, Fernandes Pimenta e outras mais. Começamos com o
livro de casamento. Está escrito no dito livro de abertura de casamentos:
Servirá este livro para nele se lançar os assentos de casamentos da Freguesia
de Santa Rita da Cachoeira: vai todo numerado e rubricado com a rubrica =Justino
= de que uso; e no termo de encerramento, na última página, se vê o numero de
suas folhas. Do que para constar faço este termo de Abertura, que assino. Villa
de Jardim, em visita, 20 de Novembro de 1859. Francisco Justino Pereira de
Brito. Vejamos o primeiro registro de casamento que consta no livro.
Aos cinco de Maio de mil oitocentos e
cinqüenta e nove pelas onze horas da manhã, havidas as Cerimônias Canônicas, e
examinados em Doutrina Cristã e Confissão Sacramental, Juxta Sac.Conc. Trid., uni
em matrimonio, e dei as Bênçãos Nupciais aos contraentes Olympio Balduíno de Freitas,
e Anna Adelina de Faria, aquele natural, e morador na freguesia de Araruna, e
esta nesta Freguesia, ele filho legítimo de Antonio de Freitas Chaves e
Francisca Romana do Espírito Santo, ela filha legitima de João de Faria Costa,
e Maria Alexandrina da Conceição, em presença das testemunhas Manoel
Januário de Faria, e Antonio (ilegível) de
Freitas, moradores na Freguesia de Araruna, do que para constar fiz este termo,
que assino. Antonio Dias da Cunha, vigário Encomendado da Freguesia.
Segue outro casamento de filho de João de
Faria Costa e Maria Alexandrina.
Aos
vinte e dois de Julho de mil oitocentos e cinqüenta e nove, pelas cinco horas
da tarde, no lugar denominado, São Bento desta Freguesia, havidas as Cerimônias
Canônicas, e exame de Doutrina Cristã, e confissão Juxta Sac. Conc. Trid., não
constando impedimento, uni em matrimonio, e dei as bênçãos nupciais aos
contraentes João Clementino de Faria, e Cordulina Ursulina da Rocha, aquele
natural e morador nesta Freguesia, esta natural da Freguesia de Bananeiras, e
moradora nesta, ele filho de João de Faria da Costa, e Maria Alexandrina de
Jesus, ela filha legitima de José Pereira da Rocha e Anna Joaquina de Mello, em
presença das testemunhas Manoel Thomaz de Faria, e Bernardino Gomes de Faria,
aquele morador na Freguesia de Araruna, este nesta Freguesia, do que para
constar fiz este assento em que assino. Antonio Dias da Cunha, Vigário
Encomendado da Freguesia.
Agora, o casamento de um membro da família
Fernandes Pimenta e na seqüência, das famílias Gomes de Mello e Arruda Câmara
Aos vinte e três de Maio de mil oitocentos e
cinqüenta e nove, pelas oito horas da manhã, no lugar denominado (ilegível),
desta Freguesia, havidas as Cerimônias Canônicas, e exame de Doutrina Cristã, e
Confissão Sacramental, Juxta Sac. Conc. Tridentinum, e não constar impedimento,
uni em matrimonio e dei as bênçãos nupciais aos contraentes José Felis da
Silva, e Cândida Maria da Conceição, naturais e moradores, ele filho legitimo
de Joaquim Felis de Lima, e Antonia Maria da Conceição, e ela filha de José
Fernandes Pimenta, já falecido, e Rita Maria da Conceição, em presença das
testemunhas Honofre Barbosa de Lima, e Pedro Barbosa de Lima, moradores nesta
Freguesia, do que para constar fiz este termo em que assino. Antonio Dias da
Cunha, Vigário Encomendado da Freguesia.
Aos dezessete de Outubro do ano de mil
oitocentos e cinqüenta e nove, pelas onze horas da manhã, no lugar denominado
Caiçara de Baixo, desta Freguesia, havidas as Cerimônias Canônicas, e exame de
Doutrina Cristã, e confissão sacramental, Juxta Sac. Conc. Trid., não constando
impedimento, uni em matrimonio e dei as bênçãos nupciais aos contraentes Manoel
Gomes de Oliveira, e Maria Perpétua de Mello, ele natural e morador na
Freguesia de Guarabira, e ela natural e moradora nesta Freguesia, aquele filho
de João José dos Reis e Maria José Soledade, e esta filha de João d’Arruda Câmara,
e Emerenciana Gomes de Mello, em presença das testemunhas Onofre Barbosa de
Lima e Francisco de Salles Bezerra, moradores nesta Freguesia, do que para
constar, fiz este termo em que assino. Antonio Dias da Cunha, Vigário
Encomendado da Freguesia.
Vejamos dois casamentos no mesmo dia, da
família Ferreira de Macedo. Vicente e Antonio eram irmãos do Barão de Araruna,
Estevão José da Rocha.
Aos vinte e quatro de Novembro do ano de mil
oitocentos e cinqüenta e nove, pelas onze horas da manhã, no lugar denominado
de Santo Antonio, desta Freguesia, havidas as Cerimônias Canônicas, e exame de
Doutrina Cristã, e Confissão Sacramental, Juxta Sac. Conc. Trid., não constando
impedimento, uni em matrimonio, e dei as bênçãos nupciais, a Manoel Zacharias
de Macedo, e Josefa Felismina de Macedo, aquele natural e morador na Freguesia
de Cuité, e esta natural e moradora nesta Freguesia, ele filho legitimo de
Vicente Ferreira de Macedo, e Theodora Maria de Jesus, e ela filha legítima de
João de Faria Costa, e Maria Alexandrina de Jesus, em presença das testemunhas
Olympio Balduíno de Freitas e Trajano José de Faria, aquele morador na
Freguesia de Cuité, e esta nesta Freguesia, do que para constar fiz este
assento, em que assino. Antonio Dias da Cunha, Vigário Encomendado da
Freguesia.
Aos vinte quatro de Novembro de mil
oitocentos e cinqüenta e nove, pelas nove horas da manhã, no lugar denominado
Santo Antonio, desta freguesia, havidas as cerimônias canônicas, e exame de
Doutrina Cristã, confissão, Juxta Sac. Conc. Trid., não constando impedimento,
uni em matrimonio, e dei as bênçãos nupciais, aos contraentes Candido José
Meira e Maria Avelino de Faria, ele natural e morador na Freguesia de Cuité, e
ela natural e moradora nesta Freguesia, aquele filho legitimo de Antonio
Ferreira de Macedo, e Thereza Maria de Jesus, e ela filha legítima de Miguel Rodrigues do Nascimento e Virginia
Francelina de Jesus, em presença das testemunhas José Gomes de Mello e João Amâncio
de Macedo moradores nesta Freguesia, do que para constar, fiz este termo que
assino. Antonio Dias da Cunha, Vigário da Freguesia.
José Gomes de Mello era casado com Úrsula de
Macedo, filha de Antonio Ferreira de Macedo e Thereza Maria de Jesus. Francisco
Umbelino, filho de José e Úrsula, casou com Felismina, neta de Vicente e
Teodora, e, também, de Antonio Ferreira de Macedo e Thereza e Maria de Jesus
quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Krishnamurti: o Instrutor do Mundo
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
Natal e o Forte dos Reis Magos
Professor da UFRN,
membro do IHGRN e do INRG
Encontramos,
em um dos jornais antigos da Hemeroteca Nacional: esta Província foi
descoberta em 1499, antes de Pedro Álvares Cabral fundear em Porto Seguro,
segundo afirma Mello Moraes na sua Corografia Brasileira, fundado em Herrera, -
História das Índias – dizem que Alonso de Hogeda e Américo Vespúcio em 1499
encontraram em 5 graus ao sul equinocial uma terra alagada e segundo todas as
probabilidades uma das bocas do rio dá Piranhas ou Apodi (hoje Mossoró) e que
não seguiram mais ao sul pelas correntes das águas.
Em
1501, os portugueses chantaram o marcos de Touros, aqui no nosso Rio Grande do
Norte, e, depois disso, não há notícias da presença deles, nas nossas terras,
por décadas, diferentemente dos franceses que aqui aportaram desde 1503, se
consorciando com nossos índios, militarmente, comercialmente e maritalmente.
Pudsey, que esteve aqui com os holandeses, diz que os Cariris são originários
da miscigenação dos franceses com os tapuias.
Com
a instituição das capitanias hereditárias, João de Barros e seus herdeiros
tentaram por duas vezes se apossar do seu legado, mas fracassaram. Outros
viajantes e piratas devem ter, ao longo desse tempo, nos visitado, mas somente
em 1597 resolveu o Rei de Portugal, Felipe II da Espanha, tomar conta da sua colônia,
dando ordens a Mascarenhas Homem e Feliciano Coelho, para construir um forte,
expulsar os franceses e povoar nossa terra.
O
Forte dos Reis Magos é o símbolo maior do nosso Rio Grande do Norte e da cidade
do Natal. Diferentemente do que ocorreu em outras localidades, sua construção
precedeu a fundação da cidade do Natal.
No
dia 25 de dezembro de 1597 Mascarenhas Homem entrava no Rio Potengi, e no dia 6
de janeiro de 1598 dava início à construção do forte. Em 24 de junho do dito
ano de 1598, concluída a primeira versão, ele foi entregue a Jerônimo de
Albuquerque (mais tarde Maranhão), que tinha a missão de defender nossa terra e
trabalhar a paz junto aos índios para a fundação da cidade. Foi um processo
demorado. Somente em 11 de junho de 1599 foi feita a aliança com os indígenas,
na capital da Paraíba.
A
partir daí se iniciou a fundação da cidade com a demarcação de seus limites e a
construção da matriz, a meia légua do Forte. Acredito que programaram tudo para
que o ato de fundação se desse no aniversário de dois anos da entrada no Rio Potengi.
As datas estavam sempre associadas aos eventos religiosos: Natal, Reis Magos,
São João e novamente Natal. Em alguns registros aparecem nomes como cidade dos
Reis, Santiago, cidade do Rio Grande, Natal, ou Natal dos Reis.
A
partir de 1600, com a posse de João Rodrigues Colaço, como capitão-mor, começaram
as concessões de sesmarias, sendo o primeiro beneficiado, o próprio
capitão-mor, por ato de Manoel Mascarenhas Homem. Essa sesmaria foi comprada,
posteriormente, pelo padre vigário da capitania, Gaspar Gonçalves Rocha.
A
2ª já foi concedida por Colaço para os padres jesuítas. Na relação de terras
concedida até a data de 1612, quando houve uma revisão, citamos alguns: Jacque
de Py; Manoel Rodrigues; João Lostau, com grande descendência, no Brasil; Antonio
Gonçalves Minhoto; Francisco Coelho, talvez aquele vitimado pelos holandeses; Bartholomeu
Ledo; os irmãos Antonio de Albuquerque e Mathias de Albuquerque, filhos de
Jerônimo de Albuquerque, Dona Úrsula, filha de Antonio Cavalcanti; Catharina da
Costa, filha de Jorge Gonçalves; Jerônimo Cunha, pai do depois capitão-mor,
Manoel de Abreu Soares; Francisco da Cunha, filho de Jerônimo Cunha; Manoel de
Abreu; Jerônimo de Ataíde; José do Porto; Maria Rodrigues; Maria de Albuquerque;
Manoel Rodrigues Faleiros, talvez ascendente de Pedro e Gonçalo da Costa
Faleiros; Manoel Vaz de Oliveira; Inez Duarte, possivelmente a esposa de
Antonio Vilela Cid; Antonio Machado; Beatriz do Pania, filha do alferes Luis
Gomes; e Antonio Vilela. Foram 185 concessões, muitas delas distantes da nova
cidade, tendo alguns dos beneficiados recebidos mais de uma sesmaria.
O
núcleo da cidade não prosperou muito em termos de habitação. Nossos povoadores
tinham preferências pelas localidades mais distantes da matriz, talvez pela
qualidade da terra.
Os
holandeses, quando aqui tiveram, não trouxeram nenhum benefício, muito pelo
contrário, pois além de promover massacres contra nossos habitantes, destruíram
a cidade na conquista, assim a mantiveram, enquanto estiveram por aqui, e
pioraram na hora da saída.
Com
vimos em artigo anterior, alguns cronistas dizem, até agora não comprovado,
que, em 1654, D. João IV doou, para Manoel Jordão, parte do território do Rio
Grande, que alguns dizem ter sido Natal, por isso chamado de Natalópolis, e que
ele não tomou posse por ter naufragado na entrada do Rio Potengi, e, por isso,
o feudo retornou a Coroa; a segunda informação dava conta que D. Pedro II, de
Portugal, concedeu o título de Conde do Rio Grande para filho ou filha de
Francisco Barreto de Menezes, por sua participação na luta contra os
holandeses. Lopo Furtado foi beneficiado por casar com a filha de Francisco
Barreto. Segundo alguns, foi o primeiro titular que teve o Brasil.
Nosso
Forte passou por várias reformas até ter chegado ao formato atual. O IPHAN, que
tomou posse recentemente do Forte, realiza novas reformas, mas, antes disso, um
grupo de arqueólogos promove, atualmente, escavações mostrando os vários pisos
e intervenções no Forte. Devemos ter novidades sobre a história desse símbolo
da nossa terra.
Na
Hemeroteca Nacional, encontramos uma descrição da nossa cidade, no ano de 1883:
Natal, ou Rio Grande do Norte, pequena, mas bonita por sua posição na península
formada pelo Rio Potengi e o oceano, com três praças e dois grandes largos,
cinco ruas extensas e retas atravessadas por outras cinco; sendo notáveis os
seguintes edifícios: Igrejas de Nossa Senhora da Apresentação (matriz), Nossa
Senhora do Rosário, Santo Antônio e Bom Jesus; palácio do governo, assembleia provincial,
câmara municipal, tesouro da fazenda, tesouro provincial, alfândega, atheneu,
quartel de linha, quartel de polícia, hospital militar, casa de caridade e
cadeia.
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
A morte de D. Altina, esposa de José da Penha
João Felipe da
Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN,
sócio do IHGRN e do INRG
Cem anos atrás, o capitão José da Penha incendiou este Rio
Grande do Norte com suas palavras flamejantes. Mas antes disso, o capitão mais
atrevido das nossas forças armadas se envolveu em outros episódios de luta. As
críticas que pronunciou através do artigo "Traído e Caluniado", em defesa de Lauro Sodré, publicado no Jornal do Ceará, em 1904, acabaram gerando sua prisão. No jornal “A Província” de Pernambuco
encontramos o relato da morte de D. Altina, no Forte do Brum.
Preso na fortaleza do Brum desde o dia 18 de dezembro último
(1904), o alferes do 17º batalhão José da Penha Alves de Sousa, foi ontem ao
anoitecer ferido por um dolorosíssimo golpe.
Esse distinto oficial, que veio do Ceará sem nota de culpa
aguardar aqui deliberação do marechal ministro da guerra, a cuja ordem se acha
preso, trouxe consigo a sua esposa Altina Alves de Sousa, senhora assaz formosa,
ornada de belos dotes de coração e de espírito e extremosamente dedicada ao
marido e à duas filhinhas que constituíam a alegria e a consolação do casal
através da vida forasteira e acidentada que constitui quase sempre a carreira
militar.
O alferes José da Penha, por sua vez, nutria pela família um
afeto extremo e um desvelo a toda prova, de sorte que, fossem quais fossem as
atribulações da existência, havia de reinar entre eles uma felicidade relativa,
a felicidade do lar pelo menos.
No entanto, D. Altina, senhora altamente impressionável, não
estava satisfeita; não por si, mas por julgar-se um obstáculo à carreira do
marido. Daí a tresloucada ideia do suicídio que a assaltou, ideia que por mais
de uma vez pretendeu levar a efeito, conseguindo fazê-lo afinal ontem (9 de
janeiro de 1905) às seis e meia horas da noite.
De nada valeram as prevenções e as cautelas do alferes José
da Penha e da criada Damiana, uma criada de rara dedicação que acompanhava D.
Altina desde a infância.
A desventurada senhora, não se sabe como, conseguiu uma
cápsula para o revólver que o marido tinha o cuidado de trazer sempre
descarregado e fechado na mala, e, ontem à citada hora, apoderando-se da arma,
carregou-a e disparou-a contra a têmpora direita.
Ao estampido, o alferes José da Penha, que tomava café da
parte de fora com dois outros oficiais, correu, como muitas outras pessoas,
para o ponto de onde ele partira – um compartimento de tabique situado a um
canto da sala cedida ao casal. Ali deparou, preso do mais doloroso assombro,
uma cena desoladora. A esposa jazia por terra, insensível e banhada em sangue;
a morte fora instantânea.
A inditosa moça
desprendera-se da vida sem uma contração de agonia, sem um traço de amargura no
rosto e, quando mais tarde a vimos naquela mesma sala, então transformada em
uma câmara mortuária, parecia mais uma criatura serenamente adormecida de que
um cadáver. Apenas traziam à ideia o tristíssimo sucesso algumas manchas
vermelhas sobressaindo nas ataduras brancas que abraçavam a cabeça da morta.
- Logo que teve conhecimento do fato o general Serra Martins
compareceu a aquela praça de armas e providenciou para que se iniciassem
imediatamente os competentes inquéritos: militar e civil. Neste intuito
comunicou o ocorrido ao Dr. Chefe de polícia que fez seguir para ali o Dr. Glycério
Gouveia, delegado do 1º distrito. Além desta autoridade compareceu também o Dr.
Souza Paraízo, delegado do 2º distrito.
Entre os muitos oficiais que foram à fortaleza do Brum
enquanto lá estivemos, notamos os tenentes coronéis Alberto Gavião e Eduardo
Silva.
Reinava geral desolação entre as pessoas ali reunidas,
desolação a que nos associamos, apresentando condolências ao brioso oficial.
Dois dias depois da publicação acima, o alferes escreveu
para a redação.
Senhor redator: - De par com os meus agradecimentos pela
tocante e carinhosa notícia do inesquecível sucesso do dia 9, aceitai uma breve
explicação, a que não posso renunciar.
Afirmaste que era minha desventurada esposa, altamente
impressionável, conjeturando-se um obstáculo à minha carreira do que lhe
advieram tendências para suicidar-se. Consente-me que vos ministre mais
acertados informes.
Desgraçadamente mais do que pura impressionabilidade,
comandam o corpo e o espírito as prepotências da alienação mental, que a
martirizaram três vezes no curto lapso de oito anos. De cada uma, conforme
fosse o delírio ou a mania, deixava ou não de ter, consoante a lei que preside
ao desdobrar daquela triste moléstia, as impulsões suicidas, o que lhes servem de
instrumento os objetos mais inconcebíveis, confirmam todos os profissionais, de
qualquer procedência ou escola.
Cessada a causa dessa obstinação intraduzível, que fazem
somente ideia pouquíssimas pessoas, o que mais torturava aquela alma de santa,
era justamente o horror de suas “criminosas tentativas”, como lhes chamava ela.
Repugnava-lhe às crenças religiosas, restauradas nos
momentos de trégua, achar desculpa, mesmo estando alienada, para quem atentava
contra a própria vida. E quando de fato se restabelecia de todo, transpunha os limites
do normal o seu desejo de viver para os nossos filhos. E os modestos incitamentos,
com que me impelia à conquista do seu mais forte ideal – um nome para seu
esposo, adquirido na luta pela justiça e pela liberdade, - ultrapassavam identicamente
a zona, em que se agitam as fragilidades comuns à maioria das pessoas do seu
sexo.
Tanto assim, que o meu derradeiro tributo à sua alma, será
imolar-me sempre quando for oportuno, aos meus ideais, em que apoia minha
consciência de crente e homem livre.
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