segunda-feira, 23 de abril de 2012

A filha de João Machado de Miranda e Rogério de Olanda



João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN e membro do IHGRN e do INRG
As informações genealógicas, muitas vezes, se escondem e reaparecem em outros momentos. A partir de um batismo, encontrei mais uma tia-pentavó, irmã do meu pentavô Antonio Dias Machado, lá de Utinga. Vamos conhecê-la através do batismo encontrado, já com algumas correções. Alguns Holandas do Rio Grande do Norte descendem dela.
Joachim, filho legítimo de Rogério de Olanda, natural da Freguesia de Nossa Senhora do Rosário da Várzea, e de sua mulher Anna Maria (da Conceição), natural, e moradores ambos desta Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação do Rio Grande do Norte, neto por parte paterna de Mascal  Pires e Branca da Costa, naturais da Freguesia de Nossa Senhora do Rosário da Várzea, e por parte materna de João Machado (de Miranda), e de sua mulher Leonor Duarte (de Azevedo), naturais desta Freguesia; foi batizado com os Santos Óleos aos quatro de abril de mil setecentos e sessenta e dois anos, na Capela de Nossa Senhora da Conceição de Jundiaí, desta dita Freguesia, pelo Reverendo Padre Lourenço Gracy de Mello, de licença minha; foram padrinhos Manoel Rodrigues Santiago, solteiro, e Dona Custódia do Sacramento, viúva, fregueses e moradores todos desta Freguesia; e pela certidão que veio do dito Reverendo Padre, fiz este assento em que por verdade, me assinei. João Freyre de Amorim.
A Capela de Nossa Senhora do Rosário da Várzea data de 1612. Hoje ela é Matriz com a mesma invocação, em Várzea, bairro de Recife. Na Igreja Matriz há uma placa que informa que foi sepultado, em 1648, o bravo Dom Antonio Filipe Camarão, governador dos Índios, que com seus arcos e flechas, defendeu a fé e a pátria contra o batavo inimigo. Escavações recentes, na sacristia, demonstram que os mortos das duas batalhas de Guararapes foram enterrados lá, nessa Igreja. Esse sobrenome Olanda, talvez venha dessa época.
Joachim, que se tornou Joaquim de Olanda Machado, casou aos dezoito de dezembro de 1803, na Capela da Senhora Santa Anna, do Engenho Ferreiro Torto, onde eram moradores, com Maria José da Conceição, natural da Paraíba, filha de André Dias Sargado e Francisca Antonia. Foram testemunhas o tenente-coronel Manoel Álvares Correa, viúvo, e João de Araújo Correa, casado.
A irmã de Joaquim de Olanda Machado, de nome Antonia Maria de Olanda, casou no dia treze de janeiro de 1774, na Capela de Nossa Senhora da Conceição de Jundiaí, com Manoel Pereira de Jesus, filho de Lino das Chagas Ferreira e de Agostinha Moreira, naturais da Freguesia de São José, da Capitania do Rio Grande. Estavam presentes como testemunhas o capitão Francisco da Costa de Vasconcellos e o sargento-mor Lourenço de Góis de Vasconcellos, solteiros. Nessa época o pai de Antonio, Rogério de Olanda, já era falecido, pois seu óbito ocorreu aos vinte e cinco de outubro de 1763, pouco tempo depois do nascimento de Joaquim. Era morador do Sítio Várzea.
Outra filha de Rogério e Anna Maria, de nome Fidélis Maria de Santa Anna, casou em 17 de junho de 1767, na Capela de Nossa Senhora da Conceição de Jundiaí, com Pedro Coitinho de Mattos, filho de Jorge de Mattos Camelo e de Dona Maria do Prado, sendo natural da Freguesia de Taipú, da Paraíba, tendo como testemunhas Joaquim de Morais Navarro e Manoel Álvares Correa.
Vejamos alguns netos de Rogério de Olanda e Anna Maria da Conceição, que encontramos até agora.
Manoel, filho de Pedro Coitinho e Fidélis, nasceu em 7 de maio de 1768, tendo sido batizado, por necessidade, no mesmo dia por João de Araújo, tendo em dois de junho recebido os santos óleos, na Capela de Jundiaí. Seu casamento, já com o nome de Manoel Coitinho de Mattos, foi aos 19 de maio de 1801, na Capela de Nossa Senhora da Conceição de Jundiaí, com Anna Maria, filha natural de Ignácia Maria, escrava de Salvador Maria da Trindade, sendo presentes, como testemunhas, o alferes Antonio José Luiz e Alexandre da Circuncisão, ambos casados.
Pedro, filho de Pedro Coitinho e de Fidélis, nasceu aos 30 de janeiro de 1776, tendo sido batizado aos dois de abril, do mesmo ano, tendo como padrinhos Antonio Rodrigues Santiago, solteiro, e Córdula Rodrigues, filha de Victoriano Rodrigues.
Adrianna, filho de Pedro Coitinho e de Fidélis, nasceu ao 4 de fevereiro de 1773, foi batizada na Capela de Jundiaí aos 29 de junho do dito ano, sendo seus padrinhos Bento do Rego Bezerra, e Bernarda Correa de Araújo, mulher do sargento-maior Rodrigo Álvares Correa.
Bernarda Correa, Antonio Rodrigues Santiago, Salvador Maria da Trindade, Manoel Álvares Correa, João de Araújo Correa, Manoel Rodrigues Santiago, que aparecem acima, são descendentes de Estevão Machado de Miranda e Antonio Vilela Cid, mártires de Uruassú. Dona Custódia do Sacramento era casada com o sargento-mor Antonio Rodrigues Santiago, outro descendente dos mártires. Córdula (ou Córdova) Rodrigues era bisneta de João Machado de Miranda. Há uma forte ligação dos meus hexavós, João Machado de Miranda e Leonor Duarte de Azevedo, com a família dos mártires. Não encontrei, ainda, o elo.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Casamento de Dona Adelaide Emília de Miranda Henriques

Aos dezessete de julho de mil oitocentos e trinta e três, em casas de residência do Excelentíssimo Presidente Manoel Lobo de Miranda Henriques, dispensado os proclamas por despacho dos Reverendíssimos Governadores do Bispado, precedendo uma justificação de solteiro, dado por ambos os nubentes, por despacho do Reverendo Vigário Geral; pelas sete horas da tarde em minha presença, se receberam por palavras de presente o Doutor Antonio de Cerqueira Carvalho da Cunha Pinto Junior, e Dona Adelaide Emília de Miranda Henriques, naturais da Cidade da Bahia, e moradores nesta do Natal: o nubente filho de Antonio Cerqueira Carvalho da Cunha Pinto, e de Dona Maria Marcelina Marques de Carvalho, já falecida, e a nubente, filha legitima de Manoel Lobo de Miranda Henriques e de Dona Anna Norberta de Miranda Henriques; e receberam as Bençãos segundo os ritos da Santa Igreja, sendo testemunhas o mesmo Presidente Manoel Lobo, e José Fernandes Carrilho, casados, e moradores nesta cidade: do que fiz este termo que assinei. Antonio Xavier  Garcia de Almeira, Vigário Interino

terça-feira, 17 de abril de 2012

2008. Eu estava lá

João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN e membro do IHGRN e do INRG
Sem sair da Genealogia e impaciente com as discussões sobre as contas municipais de 2008, resolvi me manifestar. O vereador Enildo Alves acusa seu parente Carlos Eduardo, ambos trinetos de José Alves Martins (meu tio bisavô), de milhares de ilegalidades em 2008, citando, entre elas, as gratificações concedidas nesse dito ano. Eu era Secretário de Administração da Cidade do Natal nessa data, e, por isso, cabe, da minha parte, alguns esclarecimentos, pois era o responsável pela elaboração das portarias.
A Lei de Responsabilidade Fiscal e a legislação relativa ao ano eleitoral de 2008 não vieram para estancar a administração, mas sim para regrar o comportamento dos dirigentes com relação ao último ano do mandato e à própria eleição.  Um exemplo disso são os concursos públicos. Se eles forem homologados antes de uma data limite, do próprio ano eleitoral, fica permitida a contratação durante o referido ano sem problemas. Outro exemplo são as incorporações concedidas às Secretárias Municipais Ana Míriam (descendente direta do meu trisavô, Vicente Ferreira Xavier da Cruz) e Elequicina Santos, servidoras de carreira da Prefeitura. As incorporações estão previstas na legislação municipal, inclusive na Lei Orgânica Municipal. Eram direito delas.
Mais ainda, não se deixa de conceder gratificações, previstas em lei, aos servidores, durante o ano eleitoral. As gratificações de servidores municipais, por conta da burocracia de Secretarias Municipais, grandes como a de Saúde e de Educação, têm tramitação lenta.
Muitas dessas gratificações do ano de 2008 eram de servidores da Saúde que deveriam ter tido suas gratificações concedidas há mais tempo, como, por exemplo, insalubridade e produtividade. Muitas delas só chegaram a Secretaria de Administração no segundo semestre. Nós fizemos um esforço muito grande para examiná-las a fim de que fossem concedidas o mais rápido possível, pois eram direitos líquido e certo dos mesmos servidores. Poderíamos ter concedido muito mais, mas não houve tempo hábil para examiná-las.
Outra questão que se levanta com muita frequência é com relação às contas da Prefeitura. Durante anos anteriores, a administração pública brasileira pagava para que os bancos mantivessem suas contas. Depois se procurou bancos que cobrassem menos para manter tais contas. Isso evoluiu, posteriormente, para alguns benefícios materiais para os governos municipais ou estaduais. Com a disputa acirrada entre os bancos públicos, caminhou-se para as consultas, onde se escolhia os bancos que dessem alguma contrapartida financeira.
A Prefeitura, antes dessa polêmica toda, teve um contrato com a Caixa Econômica Federal para ficar com suas contas, sem contestação de ninguém. Aí em 2008, chegou o Banco do Brasil oferecendo mais vantagens. Em princípio, o Prefeito não se interessou, pois a Caixa era o Banco através do qual vinha o dinheiro de vários projetos do Governo Federal. Mas, com as vantagens do Banco do Brasil, o Prefeito resolveu estimular as disputas entre esses dois bancos públicos. Por fim a melhor vantagem foi do Banco do Brasil. A Prefeitura, não podia se dar ao luxo de rejeitar, pois tinha dificuldades de receitas e muitas obrigações para honrar, principalmente, porque a contrapartida financeira era dento do exercício fiscal. Uma das cláusulas que me opus, nessas negociações, era a obrigação dos servidores fazerem seus empréstimos consignados apenas com o Banco do Brasil. Esse contrato não foi anulado pela administração que se seguiu. Muitas instituições públicas continuam vendendo suas contas para bancos, neste país. Não precisam da autorização da Câmara.
Com relação à Previdência, alertei o Prefeito sobre a impossibilidade de mexer nas suas contas, mas, infelizmente, o Prefeito entendia que podia fazer esse "empréstimo" para sanar dificuldades em setores essenciais para o funcionamento da Prefeitura. A Prefeitura devolveu o dinheiro que sacou, com juros e correções, segundo as taxas que ele deveria receber se estivesse aplicado, dentro do mesmo ano.
Com relação ao Parque da Cidade, ele não foi inaugurado várias vezes como dizem, mas sim, teve inaugurações de setores específicos daquela localidade. Uma obra como aquela não se faz de uma vez só. É como nossa Fortaleza dos Reis Magos, foram anos e mais anos para chegar ao estágio que está hoje.
Várias partes do Parque poderiam permanecer servindo a população, e tão somente aquelas contestadas pelos órgãos de fiscalização é que deveriam ser interditadas. Enildo, por que não devolveram o Parque ao povo até agora?
Outro ponto que chamo a atenção é que o prédio onde funcionava a Secretaria de Administração, Controladoria e Secretaria de Urbanismo e Meio Ambiente, comprado ao Banco do Brasil, passou por uma reforma, com dinheiro financiado, e hoje está abandonado. Por que senhores vereadores?
Enildo é um bom médico, mas politicamente não se comporta de forma política ou técnica, mas puramente pessoal. Está se tornando um tatafóbico.
Discordo da forma como Carlos Eduardo tem respondido a essa polêmica, mas concordo com Metello quando disse que: a paciência quando muitas vezes ofendidas se solta em desatino e loucura.
Cito, também, o capitão J. da Penha que escreveu no seu livro, O espiritismo e os sábios: "A verdade é, para mim, a única razão de ser de nossos ideais. Não sou dos inclementes na punição de nossas fraquezas, mas considero uma das mais puníveis, deixar deliberadamente que a mentira se combine com a tinta para a ocupação caligráfica do papel.
Transmitir a nossos semelhantes ideias deturpadas pela hipocrisia, antolha-se-me uma das mais requintadas vilezas da consciência.
Rebuçar com o vigor do colorido, a intensidade da imagem, a ductilidade da forma de um paramentoso estilo, a sinceridade a nos escapar da pena, é exercitar-se num dos mais repugnantes jogos da inteligência".
O TCE procedeu de forma correta. Os representantes do povo, pela obrigação que tem de conhecer a legislação, devem proceder da mesma forma.


segunda-feira, 9 de abril de 2012

Isabel Gondim, Nísia Floresta e Miguelinho


João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN e membro do IHGRN e do INRG
Muitos dos nossos ancestrais chegaram ao Rio Grande do Norte há mais de 300 anos. Outros estão aqui desde o início do século XVI.
Quando a viúva Maria da Conceição de Barros fez seu testamento, em 24 de dezembro de 1766, disse que era natural da nova Freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres da Vila de Extremoz, onde foi batizada, sendo filha de Manoel Rodrigues Coelho, e de sua mulher Izabel de Barros, ambos defuntos. Disse mais que foi casada com Francisco Pinheiro Teixeira, na Matriz de Nossa Senhora da Apresentação.
Examinando os documentos mais antigos de batismos da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, encontramos que Maria da Conceição Barros foi batizada em 8 de dezembro de 1694, na Igreja de São Miguel da Aldeia de Guajiru (Extremoz), pelo Padre João de Mattos, da Companhia de Jesus,  tendo como padrinhos o sargento-mor Manoel de Abreu e Maria das Neves. Outros filhos do capitão Manoel Rodrigues Coelho e de sua mulher Izabel de Barros, que aparecem nesses registros são: Ana, batizada em 21 de outubro de 1691; Francisco, em 12 de agosto de 1697; e Manoel,em 23 de abril de 1705. Em alguns outros documentos aparece como madrinha uma filha do casal de nome Paula.
Outra informação contida nos documentos, citados acima, dá conta que em 1710, Dona Maria da Conceição de Barros já era casada com Francisco Pinheiro Teixeira, e batizaram o filho Leonardo em 1711. Francisco Pinheiro Teixeira chegou ao nosso Rio Grande junto com os irmãos Padre Manoel Pinheiro Teixeira e José Pinheiro Teixeira, sendo eles originários de Arrifana de Sousa, Portugal. José Pinheiro Teixeira casou com Maria da Conceição de Oliveira filha do Provedor da Fazenda Real, Manoel Gonçalves Branco, e de Dona Catarina de Oliveira.
No seu testamento Dona Maria da Conceição diz que não houve descendência dos seus filhos Padre José Rodrigues Pinheiro e de Gonçalo Pinheiro. Inclui como herdeiros um filho do seu filho Manoel Pinheiro, já falecido, e os filhos de Leonardo Pinheiro, também falecido. Entre os filhos vivos, cita a viúva Francisca Antonia Teixeira (que foi casada com o lisboeta Manoel das Neves de Oliveira); Tecla Rodrigues, mulher de Francisco de Sousa e Oliveira; Bernardo Pinheiro; Anna Maria da Conceição, casada com o sargento-mor Manoel Antonio Pimentel de Mello; o padre Miguel Pinheiro Teixeira; Antonia Maria da Conceição, casada com o tenente-coronel Felipe Barbosa Tinoco; Francisco Pinheiro Teixeira; e Ignácio Pinheiro.
Alguns dados genealógicos a seguir foram extraídos dos livros de Arisnete Câmara sobre Isabel Gondim, de Adauto Câmara sobre Nísia Floresta, de Câmara Cascudo e Hélio Galvão, com algumas correções.Vejamos agora relação do casal Francisco Pinheiro Teixeira e Dona Maria da Conceição com Nísia Floresta e Frei Miguelinho.
Frei Miguelinho (Miguel Joaquim de Almeida Castro) era filho de Manoel Pinto de Castro, natural do Bispado de Penafiel (um dos testamenteiros de Dona Maria da Conceição) e de Francisca Antonia Teixeira, neto pela parte materna de Francisco Pinheiro Teixeira e Dona Bonifácia Antonia de Mello. Portanto, Miguelinho era bisneto de Francisco Pinheiro Teixeira e Dona Maria da Conceição de Barros.
Nísia Floresta (Dionísia Gonçalves Pinto), por sua vez, era filha de Dionísio Gonçalves Pinto e Antonia Clara, neta materna de Bento Freire de Revoredo e Mônica da Rocha Bezerra. Mônica era filha de Mônica Borges da Rocha Bezerra e de Leonardo Pinheiro (Coelho). Portanto, Nísia era trineta de Francisco Pinheiro Teixeira e Dona Maria da Conceição de Barros. Essa Mônica Borges era filha de Julião Borges e Mônica da Rocha Bezerra. Há registro sobre Julião e Mônica, como padrinhos, em 1705.
Dona Bonifácia Antonia de Melo e Manoel Antonio Pimentel de Mello, citados acima, eram irmãos, filhos de Estevão Velho de Mello e Joanna Ferreira de Mello. Uma filha de Manoel Antonio e Anna Maria, com o mesmo nome da mãe, Anna Maria da Conceição, casou com João Damasceno Xavier Carneiro, que quando enviuvou se tornou padre. No registro de casamento de João Damasceno, ele é dado como filho natural do Provedor da Fazenda Real, Antonio Carneiro de Albuquerque Gondim. Não aparece o nome da mãe no registro de casamento, mas surge no batismo de seu filho, Joaquim (foi padre, também), de 19 de janeiro de 1785. Ela era Ignez Ritta de Mello Monteiro. Aliás, no artigo que fizemos sobre a intriga do Provedor Antonio Carneiro com o Padre Feliciano Dornelas, noticiamos que Dona Maria da Apresentação, domiciliária no Sertão de Panema, esposa do Provedor acima, em 1783 tinha encaminhado para D. Maria I, solicitação de provisão contra seu marido para libelo de divórcio. Não sei se houve regularização da relação de Antonio Carneiro com Dona Ignez, pois eles foram pais, também, de Ignácia Ignez  Gondim que foi casada com José Ignácio  Marinho Gomes. Do último casal nasceu Clara Monteiro de Mello, que foi casada com José Ignácio Borges que geraram Isabel Deolinda de Mello Albuquerque Gondim que casou com Urbano Egydio da Silva Costa, pais da Professora Isabel Urbana de Albuquerque Gondim.
As professoras e escritoras Isabel Gondim e Nísia Floresta nasceram em Papari (hoje Município de Nísia Floresta). Frei Miguelinho nasceu em Natal. A localidade de Olho d'Água de Onça em Pernambuco teve seu nome alterado e hoje é o município de Frei Miguelinho

terça-feira, 3 de abril de 2012

Gonçalo José Barbosa e os sobrenomes diferentes



João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, sócio do INRG e do IHGRN
Muitas vezes as pessoas não compreendem porque, em suas famílias do passado, vários irmãos tinham sobrenomes diferentes. Sempre acham que era desleixo por partes dos pais. Entretanto, depois de pesquisar várias famílias, descobri que na verdade eles tentavam dar continuidade aos sobrenomes dos seus ancestrais no lugar de ficar repetindo o mesmo por várias gerações.
Francisco Xavier da Cruz e Lourença Dias da Rosa tiveram os seguintes filhos que detectei: Miguel Francisco da Costa Machado, Vicente Ferreira Xavier da Cruz, Joaquina Maria de Santa Ana, Mathildes Quitéria da Cruz e Gonçalo José Barbosa. Para confirmar essas relações de parentesco de gente com sobrenomes diferentes tive que utilizar várias informações paralelas, pois, ou não tinha o casamento deles ou quando tinha, não havia a informação dos pais. Para essas pessoas acima, utilizei a árvore de Jacob Avelino, documento de 1949, as informações de meu pai, e o casamento de Gonçalo José Barbosa. Neste caso, de onde surgiram esses sobrenomes? As mulheres, em sua maioria, tinham nomes religiosos; Miguel Francisco herdou Costa do avô paterno, João Barbosa da Costa, e Machado do avô materno, Antonio Dias Machado; Gonçalo ficou com Barbosa do avô paterno, citado acima; Vicente carrega o Xavier da Cruz do próprio pai. Uma curiosidade na descendência de João Barbosa da Costa e Damásia Soares é que os sobrenomes Ferreira e Melo, que não aparecem nos filhos, surgem, posteriormente, em vários descendentes, nas mais variadas combinações, entre elas Ferreira Barbosa, Costa Ferreira, Ferreira da Costa e,  Costa e Melo, . Possivelmente havia um Ferreira e um Melo nos ascendentes de João Barbosa da Costa ou de Damásia Soares. O desaparecimento dos livros mais antigos do Assú criou dificuldades para todos os genealogistas da região.
Mais vamos escrever um pouco sobre Gonçalo José Barbosa. Quando estava pesquisando minha família estranhei a presença dele nos eventos religiosos da minha família, pois desconhecia que era irmão de dois bisavós meus, Vicente Ferreira Xavier da Cruz e Miguel Francisco da Costa Machado
Gonçalo casou três vezes. O registro de casamento dele, em 29 de setembro de 1828, em Santana do Matos, com Maria Francisca das Virgens, dá conta que ele ficara viúvo de Francisca Ritta, de quem não tive maiores informações. Maria Francisca era filha de João Paes e Francisca Xavier. Houve dispensa de segundo grau de consanguinidade atingente ao primeiro, denunciando parentesco com a nubente. Com os sobrenomes reduzidos na forma acima, ficou difícil descobrir como se dava esse parentesco.
Aos 13 de Fevereiro de 1831, de novo viúvo, ele volta a casar, na mesma Matriz de Santana do Matos. Vejamos esse registro na íntegra.
Aos treze dias do mês de fevereiro de mil oitocentos e trinta e um, nesta Matriz de Santa Ana do Mattos, pelas onze horas da manhã, tendo precedido as canônicas denunciações sem impedimento, confissão, comunhão, e exame de doutrina cristã, ajuntei em matrimônio, e dei as bênçãos nupciais aos meus paroquianos Gonçalo José Barbosa, e Marianna Rosa da Silva, naturais e moradores nesta Freguesia, ele viúvo, por falecimento de sua mulher Maria Francisca, e filho legítimo de Francisco Xavier da Costa, e de Lourença Dias, já falecida, ela filha legitima de João de Barros Silva, e Jerônima Francisca da Costa, sendo testemunhas Francisco Xavier de Sousa, e Francisco Sales Sidrim, casados, desta Freguesia; do que para constar fiz este assento, que com as ditas testemunhas assino. João Theotonio de Sousa e Silva, Francisco Xavier de Sousa, Francisco de Sales Sedrinho.
Às vezes os nomes nos registros não batiam com as assinaturas, como ocorreu no caso acima.
 É nesse documento que surgem os nomes dos pais de Gonçalo: Francisco Xavier da Costa (na verdade da Cruz) e Lourença Dias (da Rosa). Os registros nem sempre são fiéis ou completos com relação aos nomes dos personagens presentes neles.
Alguns filhos de Gonçalo e Marianna, que encontrei, tinham, também, diversidades de sobrenomes, a saber: Antonio Francisco Xavier da Costa casado com Anna Joaquina Xavier da Costa; Lourença Silvério Xavier da Costa casada com Alexandre Francisco da Silva Bastos; Luiz Antonio Brasileiro casado com Anna Rosa da Silva; Januário Xavier de Menezes casado com Francisca Xavier da Silva; Francisco Xavier de Oliveira Bello casado a primeira vez com Rita da Natividade Xavier da Costa, e a segunda com Francisca Ritta Xavier de Maria; José Alves Xavier da Silva casado com Francisca Emiliana Xavier de Melo;  Rita Silvina Xavier da Costa casada com Alexandre Xavier da Costa; e João Xavier da Costa casado com Teresa de Jesus Xavier da Silva.
Nos filhos do casal, Gonçalo e Marianna, é possível ver de onde vem os sobrenomes de alguns, mas de outros não.  Oliveira, Brasileiro, Melo e Menezes de onde surgiram?

segunda-feira, 26 de março de 2012

O Conde que arribou na Ilha de Manoel Gonçalves

conde Maurício Augustus, Conde de Benyowsky

João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN e membro do IHGRN e do INRG

Na Penny Cyclopaedia of the Society for the Diffusion of Useful Knowledge, encontramos as seguintes informações: Mauritius Augustus, Conde de Benyowsky, magnata húngaro, nasceu em Worbuena ou Verbowna, domínio hereditário de sua família no condado de Nittria no reino da Hungria, no inicio do ano de 1741 (outros dão seu nascimento como em 20 de setembro de 1746). Era filho de Samuel Conde de Benyowsky, um general da cavalaria no serviço do Imperador da Áustria, e de Rosa, baronesa de Revay.
Na sequência, a dita enciclopédia relata grande parte das aventuras do Conde, com base, principalmente, no livro intitulado Memórias e Viagens de M. A. Conde de Benyowsky, escrito por ele mesmo. Uma das informações importantes para nosso artigo é que, segundo a enciclopédia, ele partiu de Baltimore para o Porto de St. Augustine, na costa leste de Madagascar, em 25 de outubro de 1784, no navio que foi chamado de Intrepid. Devido à gravidez de Madame Benyowsky, o conde deixou sua família na América. A viagem, desde o principio foi lenta e azarada. No inicio de janeiro de 1785, o Intrepid chegou à costa do Brasil, de onde Benyowsky escreveu a última carta que seus amigos tenham recebido. Cerca de um mês depois o navio encalhou na Ilha de Juan Gonçalves (na verdade Ilha de Manoel Gonçalves, como veremos), e não foi antes de abril que ele saiu em boas condições de navegabilidade. Benyowsky partiu, então, pelo Atlântico em direção ao continente Africano.
É no projeto Resgate Barão do Rio Branco, projeto ultramar da UFPE, que vamos encontrar o sumário do que aconteceu com o Navio Intrepid que arribou na Ilha de Manoel Gonçalves.
Em 27 de maio de 1785, o governador da Capitania de Pernambuco, José Cesar de Menezes, enviou ofício ao Secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Martinho de Mello e Castro, encaminhando o sumário abaixo, e seus complementos.
"Nas praias de Manoel Gonçalves, distrito da Capitania do Rio Grande do Norte, arribou em princípios de janeiro, próximo pretérito, o navio americano denominado Intrépido, comandado por Lucas David, e mandando eu pelo Doutor Provedor da Fazenda Real da dita Capitania praticar as diligências, que em tais casos determina o Régio Alvará, de cinco de outubro de mil setecentos e quinze, satisfez com o sumário, que ponho com esta na presença de Vossa Excelência, do qual se mostra que saindo o dito navio de Baltimore para o Cabo da Boa Esperança, e Madagascar, por causa dos ventos e correnteza das águas, e também por falta de água e lenha, arribara ao mencionado distrito, de donde continuou sua viagem depois que proveu do necessário; e não fez comércio algum enquanto ali se deteve".
Para praticar as diligências, acima referidas, foram para Ilha de Manoel Gonçalves as seguintes pessoas: Provedor Doutor Antonio Carneiro de Albuquerque Gondim; Escrivão Antonio José de Sousa e Oliveira; Meirinho da Real Fazenda, José Ribeiro da Silva; o seu escrivão João Cardoso Batalha; os oficiais nomeados pelos capitães-mores interinos da Capitania José Barbosa Goveia, militar, Antonio da Rocha Bezerra, vereador mais velho, a saber: o sargento José da Costa Pereira, Comandante da Tropa paga, por não haver outro oficial maior, na dita tropa; o mestre carpinteiro Francisco da Rocha; o mestre calafate Alexo Silva.
Na Ilha de Manoel Gonçalves foram tomados os muitos depoimentos dos tripulantes e passageiros, que praticamente contaram a mesma história relatada no sumário. Entre eles, depoentes, estavam o Conde, já citado acima, várias mulheres, e o comandante na Ilha, José Pereira Vas Botelho. Em síntese, disseram que o navio saiu de Baltimore para o Cabo da Boa Esperança e Madagascar, no início de outubro, mas as correntezas e os ventos dificultaram a viagem. As correntezas levaram para os baixos do Cabo de São Roque, mas não puderam contorná-lo. Por conta da dilatação da viagem, começou a faltar tanto água, como lenha. Procuraram avistar terras para suprir suas necessidades, chegando ao Cabo de Tubarão. Tentaram fazer reparo e o provimento das necessidades fora da Barra, sem intenção de entrar nela. Usaram bandeiras para se comunicar com uns pescadores que estavam numa jangada próxima ao Navio Intrepid. Entretanto, eles fugiram. Mas no outro dia, apareceu um português que subiu no navio e se ofereceu para levar para mais próximo da terra, pois seria melhor para provimento de água e lenha. Mas, o navio encalhou em um banco de areia, aumentando as avarias. Com dez pessoas e duas bombas não conseguiram conter o volume de água que entrava a cada hora cinco pés ou sete palmos. Tiveram que jogar ao mar cinco peças, vários mastros, paus e outros objetos. Para escaparem, o General (conde de Benyowsky) e vários passageiros saíram em um Escaler para a terra. Na Ilha de Manoel Gonçalves pediram auxílio ao capitão mandante José Pereira Vas Botelho, 50 anos, capitão da Cavalaria Auxiliar do Regimento da Ribeira do Assú, residente naquelas praias,  que acudiu, em vista do perigo, e mandou um prático, outro português, para entrar na Barra, onde estavam agora consertando o navio.
Informou, o Conde sobre o material encontrado no navio, que tudo era dele, depoente, que levava para as suas fábricas de açucares, e aguardente, como caldeira de cobre, e ferro, bacias do mesmo; moinhos vários, alguma pólvora, espingarda de caçar para negócio, e uns pretos da África; tijolos para alguma obra, e cal. O Conde fez seu depoimento em Latim que foi vertido no português, e assinou com o Ministro nomeado Antonio Carneiro.
Nas suas credenciais constava, entre outras, como Conde do Sacro Romano Império a Benyowsky, magnata do Reino da Hungria e da Polônia, Comendador da Ordem da Águia Branca, Cavalheiro da Ordem Real Militar de São Luiz, Camarista de Sua Majestade Imperial e General maior da mesma Majestade.

Assinatura posta no depoimento na Ilha de Manoel Gonçalves, Costa do Rio Grande do Norte, em 1785

Vídeo: Pajuçara 360 - Fábio Arruda de Lima, genealogista - TUDO NA HORA - O portal de notícias de Alagoas

 Fábio Arruda é um dos maiores conhecedores dos Engenhos do Nordeste e grande genealogista.
Veja a entrevista dada por ele.

Vídeo: Pajuçara 360 - Fábio Arruda de Lima, genealogista - TUDO NA HORA - O portal de notícias de Alagoas

domingo, 25 de março de 2012

The Courtly Lives - Maurycy August Beniowski

O Conde esteve no Rio Grande do Norte, precisamente, na Ilha de Manoel Gonçalves, por acaso, em virtude de ventos e correntes de água. Ele saiu de Baltimore com destino a Ilha de Madagascar. Teve que fazer uma parada para abastecer de água e lenha. Veja um pouco da vida desse Conde.

The Courtly Lives - Maurycy August Beniowski

segunda-feira, 19 de março de 2012

O batismo de José Georgino Alves de Sousa Avelino

Theodorico Bezerra, Presidente Juscelino e Senador Georgino Avelino

João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN e membro do IHGRN e do INRG

Todos os documentos que pesquisei sobre o Senador Georgino Avelino, até agora, informavam que ele nasceu no dia 31 de julho de 1888. Durante minhas pesquisas, nos livros de batismos de Angicos, não encontrei o referido assento. Supus em alguns momentos que ele pudesse ter se batizado em outra Freguesia.

O Jornalista Pedro Avelino e Maria das Neves Alves de Sousa, pais de Georgino, casaram em 27 de outubro de 1885, ele com 24 anos e ela com 20 anos. Nas proximidades do citado nascimento de José Georgino, o batismo que encontrei foi de sua irmã Maria (possivelmente Maria Albertina Leite), cujo registro transcrevo abaixo.

Aos 4 de janeiro de 1888, nesta Matriz, batizei solenemente a Maria, natural desta Freguesia, sendo padrinhos José Francisco Alves de Sousa e sua mulher Maria Ignácia Alves da Silva (Sousa), nascida a 4 de dezembro de 1887, e filha legítima de Pedro Celestino da Costa Avelino e Maria das Neves Alves Avelino, livres, brasileiros, moradores nesta Freguesia, do que mandei fazer este assento, em que assino. O Vigário Felis Alves de Sousa.

Os padrinhos de Maria eram seus avós maternos. Lembramos que Dona Maria das Neves era irmã do capitão J. da Penha e de José Anselmo.

Recebi de um neto do Senador Georgino Avelino, o Professor George Avelino Filho, pesquisador da Fundação Getulio Vargas, uma biografia extraída do Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, do Centro de Pesquisa e Documentos de História Contemporânea do Brasil, da dita Fundação, onde também se repetia a mesma data de nascimento para o Senador.

O tempo foi passando sem que o mistério tivesse se resolvido. Afonso Bezerra Sobrinho, que encontrei no município de Afonso Bezerra, tinha uma cisma que Georgino tinha nascido em Carapebas. Mas mesmo assim, o registro de batismo deveria ter ocorrido em Angicos.

Há poucos dias, ordenando algumas cópias de registros de batismo com o intuito de fotografá-las, encontrei o registro do nosso personagem, que transcrevo para cá.

Aos 5 de setembro de 1886, nesta Matriz, foi, de minha licença, solenemente batizado pelo Reverendo Cônego Antonio Eustáquio da Silva, José, natural desta Freguesia, sendo seus Padrinhos eu – Felis Alves de Sousa, Vigário da Freguesia, e Anna da Natividade Bezerra, nascido aos 31 de julho do dito ano, e filho legítimo de Pedro Celestino da Costa Avelino, e Maria das Neves Alves Avelino, livres, brasileiros, meus fregueses: do que mandei fazer este assento em que assino. O Vigário Felis Alves de Sousa.

O Vigário Felis Alves de Sousa era tio-bisavô de José Georgino pela parte materna. Dona Anna da Natividade Bezerra era filha de Matheus da Rocha Bezerra e Anna Angélica; casou com Vicente Maria da Costa Avelino. Daí nasceu Pedro Avelino. Era portanto, avó de José Georgino Alves de Sousa Avelino.
Dessa forma fica corrigida para todo o sempre a data de nascimento do Senador Georgino Avelino. A imagem do batismo de Georgino Avelino foi postada no blog  http://putegi.blogspot.com.

Você já ouviu falar em Natalópolis, Conde do Rio Grande, no capitão-mor Antonio Fernandes Furna, e no donatário Manoel Jordão? Conheça tudo isso no blog acima.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Natalópolis, já ouviu falar neste nome?


João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor de Matemática da UFRN, membro do IHGRN e do INRG

Durante as pesquisas sobre o capitão-mor do Rio Grande, Manoel de Abreu Soares, surgiram muitas outras informações que eu desconhecia. Algumas delas necessitam dos documentos comprobatórios para atestar sua validade, mas como elas vão se repetindo em diversos autores e na internet, trago para esse espaço para conhecimento de todos e uma discussão maior.
Vicente Lemos escreveu no seu livro sobre os capitães-mores do Rio Grande: tinha D. João IV doado nesse mesmo ano (1654) uma parte do território do Rio Grande a Manoel Jordão, do qual não chegou a tomar posse, por ter naufragado na ocasião do desembarque (Coreografia Brasílica de Ayres do Casal, tom. 2º, pag. 185. Thomaz Pompeu, Geografia Geral, 4ª edição.
Câmara Cascudo, no livro História do Rio Grande do Norte, estranhando, disse de Manoel Jordão: de quem desconheço vida e feitos justificativos da mercê de D. João IV, autor de tão curiosa forma de agradecimento aos seus vassalos norte-rio-grandenses.
Júlio Gomes de Senna, no livro Ceará-mirim, exemplo nacional, acrescenta que Aires do Casal quando registrou esse fato, chamou Natal de Natalópolis.
Gottfried Heinrich Handelmann, no livro História do Brasil, traduzido pelo IHGB, e publicado pelo MEC, escreveu: Nos anos 1654-1656 fez o Rei D. João IV doação da capital, Natal, com suas dependências, a Manoel Jordão; porém, quando esse donatário aqui chegou para tomar posse, naufragou a sua embarcação à entrada, no Rio Potengi, ele próprio pereceu, e os seu feudo reverteu à Coroa. Mais tarde elevou o Rei D. Pedro II esta mesma terra à categoria de condado, em favor de Lopo Furtado de Mendonça (1689), resta saber, contudo se com esse título, conde do Rio Grande, acaso estava ligado algum direito de posse, pois não se falou mais nisso.
Júlio Gomes de Senna, no livro citado acima, comenta que o titulo de Conde foi inicialmente para Francisco Barreto de Menezes que passou para sua filha Antonia, e esta por intermédio do casamento, para o seu esposo Almirante Lopo Furtado de Mendonça.
Na internet encontro que Felipe Alberto Folque de Mendonça, um dos pretendentes ao Reino de Portugal, se intitula 3º Conde do Rio Grande.
Encontro através da internet pessoas com o nome de Manoel Jordão. Desconfio que Aires do Casal juntou pedaços de histórias para construir essa sobre a doação de D. João IV. Quanto ao condado, resta saber se esse Rio Grande era o nosso.
Em um de seus artigos em Velhas Figuras, Cascudo diz: Vicente Lemos acreditava que a primeira nomeação de Vaz Gondim para o Rio Grande do Norte tinha sido em janeiro de 1656. Parece ter sido muito antes. Em 8 de abril de 1657, o Governador Geral do Brasil, Francisco Barreto de Menezes, o vencedor de Guararapes, informa a Vaz Gondim: com esta remeto a V. M, patente para continuar no exercício desse posto. Se a nomeação fosse de 1656 não era possível aparecer essa patente, no ano seguinte, mandando continuar no exercício. O prazo mínimo de governo era de três anos. Expirado o prazo legal e o Governador mandava o Capitão-mor continuar. Em 7 de abril de 1659, o mesmo Governador Geral oficiava ao Senado da Câmara do Natal, comunicando que Vaz Gondim continuava na administração. O Senado da Câmara havia solicitado a permanência do capitão mor pelos excelentes trabalhos que havia empreendido.
Continua Cascudo. Governara de 1654 a 1656, de 1657 a 1659 e fora a pedido do Senado da Câmara, reconduzido para 1660-61-62. Ficou até 5 de Dezembro de 1663.
Hélio Galvão, entretanto, diz que para o Rio Grande o primeiro capitão-mor despachado foi Antonio Fernandes Furna (nomeado por carta de 6 de junho de 1654,  parente de Calabar, mas pelo visto de fidelidade provada à causa brasileira. Diz mais adiante, que substituiu-o em princípios de 1656, Antonio Vaz Gondim.
Com relação a esses capitães-mores é possível que todos estejam parcialmente certos e, talvez, as datas de governo sejam diferentes, como também o tempo dos mandatos. Era um período de reconstrução, após a saída dos holandeses. Pode ter acontecido o seguinte: Veio Antonio Fernandes Furna por conta da nomeação em 1654; depois, na sequencia, assumiu Manoel de Abreu Soares, por conta da nomeação de 1656, tendo governado por pouco tempo; Em seguida veio Antonio Vaz Gondim, tendo começado no fim de 1656 ou no começo de 1657, e durado mais de seis anos, nessa sua investidura.
Com relação a esse Antonio Fernandes Furnas, encontramos nos documentos sobre pagamento de tropas, aqui no Rio Grande do Norte,  anotações sobre um filho dele de nome Luiz de Sousa Furna. Ele foi socorrido com pagamento em dois períodos: de 12/10/1729 até 27/8/1731 e de 27/8/1731 até 26/8/1733.

terça-feira, 13 de março de 2012

Uma sesmaria, quase esquecida, para Manoel de Abreu Soares

Dentro do meu projeto de reconhecimento do capitão-mor desta Capitania que foi Manoel de Abreu Soares, noticio aqui mais um documento sobre esse ilustre potiguar, uma sesmaria que quase não é incluida, por esquecimento dos copistas.

No livro das sesmarias, editado pela Fundação Vingt-un Rosado e Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, parte da Coleção Mossoroense, encontramos a seguinte Nota: Ao fazer a conferência geral das cópias e depois de encadernadas, verifiquei que os copistas omitiram esta data, que agora copio e dou numeração intercalada. Jm Ignácio.
A dita sesmaria recebeu o número 3A. Copiamos para cá o trecho inicial da sua petição: O capitão Manoel de Abreu Soares, morador nesta Capitania do Rio Grande que ele tendo seu gado e família para ajudar a povoar a dita Capitania e lhe faltam terras para o poder fazer, e porque tem servido à Majestade há vinte e seis anos contínuos nestas guerras de que até agora não tem recebido mercê alguma, e porque na Ribeira de Goiana estão umas terras que ficaram por falecimento de Francisco Teixeira, morador que foi desta Capitania, de que não ficaram herdeiros, as quais terras partem pelo rio Jacú acima ficando da banda norte o rio O...
A data dessa sesmaria é  16 de maio de 1660.

segunda-feira, 12 de março de 2012

A petição de Paschoal Gomes de Lima

Maria Magdanela, filha de Paschoal Gomes de Lima, 1701

Em artigo anterior falamos sobre um alvará, de 1681, concedido pelo Príncipe Regente e Governador de Portugal e Algarves, D. Pedro II (irmão do Rei Afonso VI), que comprova que Manoel de Abreu Soares foi capitão-mor do Rio Grande, em 1656. Esse alvará apareceu em uma petição do filho, Pascoal Gomes de Lima, que requereu os benefícios do dito documento, quarenta e oito anos depois de sua expedição.
Em Julho de 1729, o alferes Pascoal Gomes de Lima, morador na Capitania do Rio Grande, requereu ao Rei Dom João V (o Freirático), filho de D. Pedro II, acima, o posto de escrivão da ouvidoria, da cidade da Paraíba que se achava vago, ou, em falta deste, o de oficial da Fazenda Real que é o da abertura, ou de Provedor da Fazenda Real do Rio Grande, que também se achava vago, por ser ele, na época, filho legítimo e único do capitão-mor Manoel de Abreu Soares, com base no sobredito alvará concedido, para filho ou filha do capitão-mor Manoel de Abreu Soares.
A fim de comprovar sua filiação, foram apresentadas testemunhas ao Juiz Ordinário Theodósio de Freire Amorim. Deram seus testemunhos as seguintes pessoas; Comissário Geral Manoel de Mello Albuquerque, casado, 65 anos; licenciado Francisco Alves Bastos, casado, Juiz de Órfãos, 50 anos; Pascoal Freire de Crasto, casado, mestre da Capela, 82 anos; sargento-mor Bento Teixeira Ribeiro, casado, morador na Ribeira do Mipibú, 68 anos. Todos eles confirmaram, sob juramento, que Pascoal Gomes de Lima era filho legítimo do capitão-mor Manoel de Abreu Soares, e que naquela data todos os irmãos do requerente eram já defuntos. Foi dito, também, por alguns, que a esposa de Manoel de Abreu Soares, e mãe de Pascoal, era Dona Maria de Siqueira.
O outro documento que faz menção ao potiguar Manoel de Abreu Soares como capitão-mor de nossa Capitania é o que lhe concedeu o título de capitão-mor de toda a infantaria de soldados pretos e índios, em 1688, por conta do aperto em que várias nações bárbaras tinha posto à capitania do Rio Grande. Foi ordenado, por Mathias da Cunha, do Conselho de Sua Majestade, ao Governador da Capitania de Pernambuco, João da Cunha Souto Maior, que mandasse duzentos infantes com seus capitães e governador dos índios, com quatrocentos arcos, e o terço de Henrique Dias, com cem soldados pretos, para fazerem aos Bárbaros a guerra ofensiva que estava pedindo a sua solução e estrago dos moradores da Capitania do Rio Grande.

Em um dos trechos do documento, complementa: E para isso era necessário nomear capitão-mor de toda essa gente, pessoa de grande valor e experiência. Respeitando eu o bem que estas qualidades na de Manoel de Abreu Soares, que nela assiste, e aos muitos anos que tem servido a Sua Majestade nas guerras de Pernambuco, ocupando todos os postos até o de capitão de infantaria, capitão-mor da mesma capitania do Rio Grande e, ultimamente, da de Sergipe d'El Rei; e tendo consideração o se me representar pelo Procurador dos moradores do Rio Grande, que fosse ele sujeito, a que se remetesse o socorro que se me pedia: esperando que nas obrigações que lhe tocarem em ocupação de tanta importância, se haverá muito conforme a opinião que se tem de sua pessoa e confiança que faço do seu merecimento: hei por bem de o eleger e nomear, como em virtude do presente elejo e nomeio capitão-mor de toda a infantaria soldados pretos e índios.
Sobre essa participação de Manoel de Abreu Soares, há várias referências de Taunay, em sua Guerra dos Bárbaros, hoje disponível na internet. Entre elas, citamos: Ao mesmo tempo mandara servir no teatro das operações o experimentado e bravo, embora já muito idoso, Manoel de Abreu Soares, homem de tão bela fé de ofício. Agiria autonomamente procurando socorrer a Albuquerque Câmara. Partira Soares sem detença de Natal para as margens do Piranhas ocupando um lugar chamado de Olho d'Água e depois Poço Verde onde construiu um estacada.
Segundo alguns autores, nessa época Manoel de Abreu Soares, já era octogenário. Em outro artigo trataremos da descendência de Manoel de Abreu Soares.
Os sites sobre São Gonçalo do Amarante informam, erradamente, que Pascoal Gomes de Lima era português, e chegou lá, proveniente de Pernambuco, em 1710, junto com outro português, Ambrósio Miguel Sirinhaém. Mas na verdade, Jerônimo da Cunha, o avô, já tinha sesmaria por aqui em 1605; o pai, Manoel de Abreu Soares, nasceu aqui, no Rio Grande; há vários registros de Pascoal, antes de 1710, por aqui. Antes de se escrever qualquer outro livro sobre São Gonçalo, há necessidade de se consultar as fontes primárias, no lugar de ficar repetindo erros.
Por falar em equívocos, o Senador Georgino Avelino nasceu em 1886, e não em 1888, como se propaga. Escreveremos sobre isso.
Já está nas livrarias, meu livro, editado pela UFRN, Notícias Genealógicas do Rio Grande do Norte, com 119 artigos publicados, no "O Jornal de Hoje".

João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN e membro do IHGRN e do INRG

quinta-feira, 8 de março de 2012

segunda-feira, 5 de março de 2012

Nós o esquecemos, o Rei não

Nós o esquecemos, o Rei não
João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN e membro do IHGRN e do INRG
Manoel de Abreu Soares não aparece na relação dos capitães-mores de Vicente de Lemos, e essa omissão se repete nos demais livros de nossos autores. A segunda nomeação de Antonio Vaz Gondim para capitão-mor do Rio Grande contém o seguinte trecho: E com igual procedimento se haver no governo da capitania do Rio Grande em que assistiu por mais de seis anos, procedendo a contento daqueles moradores, fazendo muitas obras necessárias para conservação daquela praça e fortaleza dos Reis Magos. Daí, Lemos deduziu que Vaz Gondim foi nomeado em 1656, e, por isso, foi o primeiro capitão-mor depois da saída dos holandeses. O documento de nomeação de Antonio Vaz Gondim, possivelmente contém um erro, relativamente ao tempo que ele foi pela primeira vez capitão-mor, pois nessa data o nomeado foi outro.

Manoel de Abreu Soares nasceu nesta Capitania do Rio Grande. Seu pai, Jerônimo da Cunha, recebeu três sesmarias, sendo duas em 1605 e outra em 1610, as duas primeiras pelo Pitimbú, no caminho de Cajupiranga, e a terceira pelo Rio Potengi. Os nossos livros dão destaque a sua participação na Guerra dos Bárbaros, nomeado que foi como capitão-mor de toda a infantaria de soldados, pretos e índios, em 1688. Mas, antes disso tudo, teve uma participação heroica nos combates contra os holandeses e, foi nomeado capitão-mor da Capitania do Rio Grande, no ano de 1656, pouco tempo depois da saída dos holandeses. Foi, também, capitão-mor de Sergipe d' El Rei. Dois documentos fazem referência à passagem dele como capitão-mor da Capitania do Rio Grande: um Alvará expedido pelo Rei de Portugal em 1681, e a nomeação como capitão-mor de Infantaria dos soldados, pretos e índios, em 1688. Vejamos o documento de 1681.

Eu, O Príncipe como Regente, e Governador dos Reinos de Portugal, e Algarves: faço saber aos que este meu Alvará virem, que tendo respeito aos serviços, que Manoel de Abreu Soares, filho de Hierônimo da Cunha, e natural da Capitania do Rio Grande, me fez nas guerras do Brasil, em praça de soldado, cabo de esquadra, sargento, alferes, ajudante, capitão de Infantaria, e capitão-mor do Rio Grande, por espaço de vinte e um anos, dez meses, e três dias, desde o primeiro de agosto de seiscentos e trinta e oito, até dez de fevereiro de seiscentos e sessenta e um = e neste tempo se achar em Pernambuco na entrada que se fez pela campanha do inimigo, no encontro do Engenho de Santo André; na peleja que se travou com o Conde de Nassau a vista de Porto Calvo, e mais encontros que com ele houve, na Campanha, passando a nado o Rio São Francisco, e em tudo fazer sua obrigação a que também acudiu no socorro com que o Mestre de Campo Luiz Barbalho Bezerra veio do Rio Una a Bahia. Tornando a Pernambuco, no ano de seiscentos e quarenta e cinco, se achar, outrossim, nos assaltos que se deram aos Holandeses, e Índios na Freguesia de São Lourenço; em várias ocasiões de peleja, em que o inimigo recebeu muita perda, saindo ferido de uma pelourada na perna esquerda; na que sucedeu na fronteira da Força dos Afogados, e Cinco Pontas, indo reconhecer o posto com trabalho, e risco; e assim mais nas marchas das Capitanias do Norte, e sucessos dela.

Por ordem que se lhe deu ir ao Rio São Francisco a conduzir gado para Infantaria; na primeira batalha dos Guararapes assinalar entre os mais; e assistindo por Cabo de cinco Companhias no posto de Salinas, fronteira ao Recife, ter alguns encontros com os inimigos; socorrer por vezes ao Governador Henrique Dias na marcha que fez a Paratibe; e nas jornadas da campanha da Paraíba. Na segunda batalha dos Guararapes obrar com valor, e ser ferido com uma bala por um ombro; no assalto que se deu ao inimigo com a sua Companhia, e outra à sua ordem, em Cunhaú; nas emboscadas do Paço de Barreta, e peleja que travou com os Holandeses, ser ferido de uma pelourada; e nos mais que houve, marchas que se fizeram, e sítios que se puseram ao Forte de Salinas, Casa do Rego, e Forte de Altená, até se recuperarem as Fortalezas do Recife, procedendo de modo, que lhe deram dois escudos de vantagem. Passando depois à Capitania do Rio Grande, marchar quarenta léguas pelo Sertão em seguimento dos Tapuias. E sendo provido no posto de capitão-mor da mesma Capitania no ano de seiscentos, e cinquenta e seis, proceder como muito devia.
Em satisfação de tudo, e de atualmente estar servindo com cuidado e zelo, de capitão-mor de Sergipe, em que tem despedido muito de sua fazenda. Hei por bem de lhe fazer mercê (além de outra que pelos mesmos respeitos lhe fiz) deste Alvará de Ofício de Justiça, ou Fazenda, para filha ou filho. E este se cumprirá inteiramente como nele se conclui, sem dúvida alguma, e valerá, como Carta sem embargos de ordenação do Lº 2º ttº 40, em contrário. E se passou por duas vias, uma só haverá efeito, e pagou de novo direito vinte réis que se carregarão ao Tesoureiro Hieronimo da Nóbrega de Azevedo a folhas quatrocentos e quatorze. André Serrão de Carvalho o fez em Lisboa, a vinte e dois de julho de seiscentos e oitenta e um. O secretário André Lopes de Souza o que escreveu.

Assim, pelo visto acima, nossos livros devem incluir na relação dos nossos capitães-mores, o potiguar Manoel de Abreu Soares.

Esse Alvará foi usado, somente em 1729, pelo seu filho, alferes Pascoal Gomes de Lima, assunto que vamos tratar em outro artigo.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Oligarquia, anarquia, ditadura

Recebi de Francisco Augusto, cópia de uma Conferência de J. da Penha. Pela referência, que ele me mandou, consegui o original do Jornal do Ceará, digitalizado através do Projeto Resgate da Memória Hemorográfica Brasileira. Fiz uma transcrição que posto neste blog, pela importância do documento.

Oligarchia, anarchia, dictadura
Conferencia  de  J.  da  Penha,  realizada  no  Pavilhão Internacional - RJ

E  se  maior  não  é o  pasmo  que nos  alcança,  é  que  muito  grande,  por via  de  regra,  é  o  desconhecimento aqui  da  vida  estadual.  Alberto  Maranhão, por exemplo, já  não  encobre suas  trapaças  administrativas.  Tem  o desassombro  dos  temperamentos  improbidosos.  Trapaceia  às  escancaras.
Outrora,  para  comprar,  depois  de governador,  por  conta  do  Estado, a casa  em que residia,  simulou  a  venda a  um  dos  seus  testas  de  ferro  e só alguns  meses  depois  fechado  era  o negócio,  a  seu  contento.
(Vantajoso é bem  de compreender, para todo  o  mundo,  menos  para ele  Alberto  inconcebivelmente  honesto  nas suas  transações,  apostolicamente  desambicioso  em  toda  a  sua vida,  trombeteiam  os  seus  assalariados  de  imprensa).
Hoje,  não.  Alforriou-se de  vez  desses constrangimentos.  Negocia  às claras:  trafica  ao  meio  dia  em  ponto,  alardeia  o  seu  desassombro governamental  e  gaba-se  de  não  ser tolo...
Isso  quanto  a  negócios  bem  se compreende.
O  ano  passado  contraiu  na  Europa  um  empréstimo  de  cinco  mil contos  ao  tipo  de  69,  noticiou  o Jornal  do  Comércio  daqui.
Os juros foram  os  mais  exorbitantes do  mundo.  As  gorjetas  para os  intermediários  foram  elevadíssimas e  o  prazo de  cinquenta  anos.  Em suma:  o  Estado  venturoso  do  Rio Grande  do  Norte  recebeu  três  mil  e tantos  contos  de réis,  vai  pagar fatalmente perto  de  dez  mil  e  sobrecarregou  o  seu  orçamento, que era  de mil  e  duzentos  contos,  com  os  pesadíssimos  ônus  desse  empréstimo  tão malbaratado.
Alberto  reemprestou-o quase todo aos  seus  queridos  parentes e com  eles então  contratou  uns  tantos  melhoramentos    duvidosos para o  Natal dos Pobres,  relativamente,  alguns  desses felizardos  ofereceram  como garantia, o  seu  parentesco rendoso  e  a  indiferença  do povo  por  esses  arranjos ilícitos.
Não  contente  de  tamanhas  desenvolturas,  Alberto  comprou  a  si  próprio e  aos  seus  cunhados, por cem vezes  mais do que  devia,  terrenos  tão valorizados  que  até  nunca  tiveram dono.  E  impossível  ser  mais  impudente  de  que  esse governador  traficante.
O  pretexto  de  escolas  agrícolas  e outros  disfarces  com  que  esse  despejado  governador  enxovalha  a  sua função  e  ludibria  o  povo  complacente,  foi  o  que  veio  a  lume.
E  esse mesmo povo, talvez porque de tempos  remotíssimos  o  venham  flagelando  os vendavais  das secas dolorosas  em  que  se  lhes  depaupera as  crenças  e  as  energias,  ou porque de  fato,  pelas  suas  qualidades  ingênuas  mereça a canga  deste  opróbrio — esse  povo  suporta  sem  indícios palpitantes  do  desagravo,  a que tem  direito,  a  ignomínia  de  tanto despudor,  o  cativeiro  desmoralizante  de  usurpadores  tão  acanalhados.
O  palácio,  até  pouco  tempo,  era uma  como  feira  política.  Em  vez  das autoridades,  dos  funcionários,  dos amigos,  Alberto  só  congregava  em torno  de seu  balcão,  os  agentes  de compras  e os  corretores  seus  associados.  Era,  como  bem  lhe  chamou alguém,  se  a profecia  não falha, o último representante  político  da  cigana de Nazareth.
Dos  Machados,  essa  outra  superfetação  que afeia,  infecciona  e  degrada  os  órgãos essenciais  da  Republica na Paraíba  do  Norte,  eu  não quero tirar o gosto  de  escapela-los com sua mestria ao dr. Coelho Lisboa.
Pernambuco,  Alagoas,  Sergipe, Espírito  Santo,  Goiás  e  Piauí,  rastejam  todos  pelo  mesmo  nível  de decadência, maculando-se  com  a  tisna das mesmas imoralidades,  atascando-se  no  lodo profundo  das  mesmas corrupções.
As  diferenças  locais  não  invalidam esta  sentença,  nem prevalecem  para atenuar-lhe  o  merecido  rigor.  Os exames  em  Maceió,  não  envergonhariam  os  de  Natal, por  exemplo.
Por  toda  parte  a  mesma  desfaçatez  na  desonestidade  impunida,  a mesma  artificialidade  na política  exploradora,  a  mesma  prevaricação  na magistratura  das  oligarquias.  O  mesmo  desbragamento  no  ataque  aos  oposicionistas inermes,  os  mesmos congressos  de  nulos  e  de  servis e para tributar  o  povo,  sem  direitos,  sem liberdades,  céptico  e  de  esperanças amortalhadas,  se  o  honrado  concidadão que hoje governa a  Republica, imitasse — o  que  não  ha  de  suceder — os seus  antecessores  estigmatizados, carcomidos  pela  execração.
Porque  o  sr.  Bulhões,  ou  porque os  seus  companheiros quase todos sem  a  consciência  do  que  deva  ser política republicana,  estômagos  incontentáveis,  monarquistas  descrentes, uns  discípulos  de  Verres,  outros de  Barras, — a  obra  prima  da  corrupção,  como  lhe  chamou  Bonaparte, hão  de perenizar-se  nos  galarins  de um poder,  que  não  é  somente  ilegítimo, senão também  nefasto  ao  princípio  da  ordem  e  as  necessidades  do progresso?
As  oligarquias  devem  morrer.  E hão  de  morrer,  meus  concidadãos. Não  falta  muito.  Conservá-las,  seria  o  mais  inepto,  sobre  ser  o  mais perigoso  do  todos  os  nossos  crimes.
E  ao  que se  vê,  nem  será  possível a  ninguém, por  mais  que  envide  todas  as  suas  forças,  ampará-las  muitos anos,  ou  perpetuá-las  na  história...
Não  se  pereniza  nas sociedades senão  o  que  é  natural  e  se  ajusta  aos interesses  comuns,  seja  como  tendência,  ou  seja  como produto  do espírito  da  coletividade  em  progresso,  em  busca  do  seu  bem  estar, guiando  para  a  verdade  e  a justiça.
Não  há,  nem  houve jamais razão para  desesperar-nos  das  forças  limitativas  do tempo,  nem  das  energias recuperadas  da  Federação  Brasileira, mutilada,  agora  nos  seus  direitos,  cerceada  na  sua  influência.  onerada  nas suas  dívidas,  abalada  nos  seus  destinos, apoucada  na  sua  reputação enquanto  frondescer  a  árvore  maldita,  que  agasalha  a  descendência  dos falsificadores  da  Constituição  de  24 Fevereiro.
Para  desarraigá-lo  do  solo  constitucionalizando  a  Republica,  abatida intercadentemente,  como  todas  as  suas irmãs  da  América  do  Sul,  por  delírios  de  indisciplina  e  alucinação  de revoltas,  há  de  surgir,  na  ocasião mais  propícia,  um  milagroso poder, seja qual for.  E  esse  poder  que  todos  pressentimos  sem  desalentos  que nos desviem ou  sofreguidões,  que nos  decepcionem,  ou  há  de  ser  a força  centrípeta do  Catete,  a  honestidade  perseverante do  Chefe  do  Executivo ou  o  braço  vingador  e  irresistível  da  própria  multidão. E que  sempre  esta  foi  capaz  de  resgatar  pelo  heroísmo,  os  erros  da  pusilanimidade,  os excessos    da  sua  condescendência,  verdade  é  que  ninguém ignora.
Das  oligarquias para a  anarquia não  levamos  nós  dilatados  séculos de  ânsias,  de dúvidas,  nem  de  aviltamentos;  ao  contrário,  já  estamos na  segunda;  esperamos  pouco  para vencer o caminho.
J. da Penha (Jornal do Ceará. Ano VIII. Nº 1382. 07.08.1911)