segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Luiz Xavier da Costa/Poesia: Crime e Lenda

Vamos, sempre que possível, transcrever para este blog, alguns trabalhos literários de pessoas ligados a minha família, começando hoje com Luiz Xavier da Costa, com sua poesia Crime e Lenda

Esquálido jumento, ao léu abandonado,
Que assim se viu, depois de um labutar insano,
Dias, noites seguidas e de ano em ano,
Foi parar num jardim, pastando no gramado.

E foi, sem compaixão, detido e amarrado,
Por delito que o instinto, até no ser humano,
Não supõe seja mal, não crê que seja dano,
Nem sabe concluir, ao menos, se é pecado...

Reú da fôrça arbitrária, estúpida e falace,
Não tendo quem, pagando a multa, o resgatasse,
Ei-lo a cumprir, gemendo, a pena grave e dura!

Sem comer, nem beber, subsitir quem pode?...
E êsse animal sem dono, "expiatório bode",
Morreu de fome e sêde, entregue à Prefeitura!

Dêsse crime inaudito, originou-se a lenda
De um gemido que se ouve, às caladas da noite,
Quando alguém por ventura a passear se afoite
No jardim onde houve a tragédia tremenda

Um fantasma aparece, a suplicar que o atenda,
Que o deixe ali ficar, num canto, onde se acoite,
Escondido do algoz, resguardado do açoite,
A que se diz sujeito, em agonia horrenda!

E o notívago pára, assaltado de mêdo...
Permanece indeciso, até de manhã cedo,
Por estranho pavor dominado e tolhido...

Mas à luz da alvorada a dissipar a treva,
O lendário fantasma, ausentando-se, leva
Consigo o assombramento e o trágico gemido!

Nas conversas do vulgo, aquela aparição
É d'alma do verdugo, a sofrer noutra vida
O mesmo mal que fêz, a pena merecida
Onde todos os maus expiando culpa estão


Luiz Xavier da Costa nasceu na antiga povoação de Carapebas, hoje Afonso Bezerra (sede do município do mesmo nome), a 12 de agôsto de 1896. 
É filho de Francisco Horácio Xavier da Costa e Sabina Martins Bezerra Grilo.
Estudos primários com os seus parentes José Gabriel Avelino e Jacó Avelino Bezerra, de cuja casa comercial foi empregado, antes de mudar residência para a cidade de Macau, aos doze anos de idade. Jacó deu-lhe lições de gramática, aritmética e geografia, por um método simples: mandando-o decorar as lições dos compêndios.
Em Macau Luiz Xavier continuou no comércio, até estabelecer-se por conta própria, sempre fazendo literatura,  quanod ali se publicava algum jornal, como "Jornal de Macau", " O Povo", " A Tampa" e o " Ferrão".
Estudou sozinho, lendo o que podia. E chegou a ser advogado de réus pobres, dando expansão à sua vocação para as letras jurídicas, e suprindo a ausências de advogadoes em Macau.
Foi Secretário da Prefeitura local (1933-1935) e Prefeito do Município, no Governo  Mário Câmara, durante o afastamento, por licença, do titular respectivo.
Luiz Xavier é guarda-livros provisionado, comerciante e industrial salineiro. Mas, apesar dos múltiplos afazeres, não abandonou totalmentes a poesia. A lira está de atalaia para os momentos propícios.
Texto construído a partir do livro de Romulo Wanderley: Panorama da Poesia Norte-rio-grandense.

Completando as informações acima, vejamos alguns dados genealógicos de Luiz Xavier da Costa, a partir dos informes sobre seus pais.
Luiz Xavier da Costa era neto paterno de Antonio Francisco Xavier da Costa e Anna Joaquina Xavier da Costa, e pela materna de José Bezerra da Silva Grilo e Maria Ferreira da Costa Bezerra.
Os pais de Antonio Francisco Xavier da Costa eram Gonçalo José Barbosa e Marianna Rosa da Silva; Já os pais de Anna Joaquina eram Alexandre Xavier da Costa e Vicência Xavier da Silva.
Os pais de José Bezerra da Silva Grillo eram Antonio Barbosa da Silva e Sabina Martins dos Santos; os de Maria Ferreira da Costa Bezerra eram o tenente-coronel Antonio Francisco Bezerra da Costa e Vicência Ferreira da Costa.

Além disso, Jacob, citado acima, era tio do escritor Afonso Bezerra, pois, era irmão de João Baptista, ambos filhos de Anna Jovina, e, por isso, netos do tenente-coronel Antonio Francisco Bezerra da Costa. José Gabriel descendia do Cadete José Avelino, irmão de Anna Jovina. José Bezerra da Silva Grilo era irmão de Maria da Silva, avó de Afonso Bezerra.
Pelas informações acima, Luiz Xavier da Costa era parente de Afonso Bezerra, Gilberto Avelino, Edinor, Georgino Avelino, Pedro Avelino, Emygdio Avelino, Balthazar da Rocha Bezerra, Antonio Lopes Viégas, e descendia, também, via Gonçalo José Barbosa, de João Machado de Mirando e Leonor Duarte de Azevedo, que viveram no final do secúlo XVII e começo de XVIII em Utinga, distrito de São Goncalo.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Um novo livro de Genealogia

A EDUFRN, Editora da UFRN, concluiu a edição do livro: Notícias Genealógicas do Rio Grande do Norte, de autoria de João Felipe da Trindade. É um livro com 393 páginas, contendo 119 artigos publicados no " O Jornal de Hoje", da Cidade do Natal. Seu lançamento incial será no III Encontro de Genealogia Norteriograndense,   no dia 26/11/2011.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

D. Joanna Martins de Sá e a Casa Grande


João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN e membro do INRG
Quando escrevi o artigo "Conservação da memória", citei um documento, do livro Breve Notícia Sobre a Árvore Genealógica da Família Casa Grande, escrito de Papari, por Manoel Lopes Macedo, onde ele descreve sua origem, vinda para o Brasil, filhos e sua ida para a Aldeia de Mipibu.
No seu livro acima citado, Antonio Soares de Macêdo, em continuação, escreveu: D. Joanna Martins, filha mais velha do coronel Manoel Lopes de Macedo, minha 3ª avó, casou com o capitão-mor José Ribeiro de Faria, meu 3º avô, o qual era natural do Rio São Francisco e morador na Capitania desta Província, hoje Estado. Tiveram eles de seu consórcio três filhos: Josefa Martins de Sá, que casou com o capitão Antonio Cabral de Macedo; D. Maria do O' de Faria, minha bisavó, casada com o coronel Jeronymo Cabral de Macedo, irmão do dito capitão Antonio Cabral; e D. Clara de Macedo. Escreveu ainda, Antonio Soares de Macêdo: no ano de 1741 veio o capitão-mor José Ribeiro de Faria para o Assú, com toda a sua família, filhas e genros, isto é, o capitão Antonio Cabral, e o coronel Jeronymo Cabral, os quais eram filhos de Mathias Cabral de Macedo e D. Margarida de Oliveira, naturais da mesma Ilha de São Miguel, cidade de Ponta Delgada, bispado de Angra. D. Clara de Macedo, última filha do capitão-mor José Ribeiro de Faria, tomou o hábito de N. Senhora do Carmo, viveu em companhia de sua irmã mais velha D. Josefa Martins, e foi doadora do sitio Icu ao Glorioso São João Baptista, orago desta Freguesia.
Nesse livro estranhei o fato da esposa do capitão-mor José Ribeiro de Faria se chamar Joanna Martins, pois não encontrei esse sobrenome nos pais nem nos avós dela, tanto do lado materno, como do paterno. Mas não fui adiante por falta de outros documentos. Entretanto, quando estava escrevendo o artigo anterior sobre a família de Anna Martins de Macedo, um outro fato me chamou a atenção: a presença de Joanna Martins, esposa do capitão-mor José Ribeiro de Faria, no casamento de João Marinho de Macedo com Joanna Gomes Torres. Naquele artigo mostramos que Anna Martins de Macedo tinha uma irmã chamada Joanna Martins de Sá, sendo ambas filhas de João Martins de Sá e Clara Macedo.
Sei que as coincidências podem nos levar a cometer equívocos, mas mesmo assim, minha mente martelava na hipótese da esposa de José Ribeiro de Faria ser filha de João Martins de Sá e D. Clara de Macedo, e não de Manoel Lopes Macedo e Bárbara Freire de Amorim. Minha hipótese tomou corpo quando encontrei em um dos livros de batismo, mais antigo desta Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, enviado por Fábio Arruda, o seguinte batismo: aos (ilegível) de junho do ano de 1712, na Capela de Nossa do O', da Ribeira do Mipibu, batizei e pus os santos óleos a Antonio filho do capitão-mor Joseph Ribeiro de Faria e de sua mulher Joanna Martins de Sá. Foram padrinhos o capitão Antonio Vieira da Silva, e Anna de Macedo mulher de João Marinho, eu, o Coadjutor desta Matriz, em ausência do Reverendo Vigário fiz este assento em que me assinei. Padre Antonio de Andrade de Arahujo.
Esse batismo, acima, dá o nome completo de Joanna e reforça mais ainda a sua ligação com os Martins de Sá, pois escolheu como madrinha de seu filho, Anna Martins de Macedo, que acredito era sua irmã.
Observamos, ainda, que Joanna tinha uma filha de  nome Josefa Martins de Sá, e outra de nome Clara de Macedo, tudo concorrendo para que essa Joanna seja na verdade a filha de João Martins de Sá e Clara Macedo, como suposto acima.
Quando se lê o livro "Breve Notícia Sobre a Árvore Genealógica da Família Casa Grande Residente no Assú", se observa que Antonio Soares de Macêdo, como ele mesmo diz, procedeu as mais minuciosas indagações, mas ainda assim, suspeito que cometeu um equívoco quando nomeou Joanna Martins como a filha mais velha de Manoel Lopes de Macedo. Com certeza, na memória dos mais velhos daquela época constava Manoel Lopes de Macedo como um ascendente deles. Outro detalhe que observo naquele trabalho da Casa Grande, é que a esposa do Manoel Lopes Macedo, primeiro do nome, se chamava Adelaide Cabral de Macedo, mesmo sobrenome dos genros de Joanna Martins de Sá.
Deixo aqui essa minha contribuição sujeita a contestação ou corroboração, lembrando que parte da venda desse livro, editado por Wandyr Villar, citado neste artigo ajudará o Hospital Infantil Varela Santiago.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Barras e Enseadas do Rio Grande do Norte, em 1799


João Felipe da Trindade
jfhipotenusa@gmail.com
Na sua luta pelo desenvolvimento do Rio Grande do Norte, Caetano da Silva Sanches, o capitão-mor da Capitania, mandou para o Conde de Linhares a relação das Barras e Enseadas do Rio Grande do Norte, no ano de 1799, exigida pela Rainha de Portugal, com o intuito de animar o comércio local. A seguir a carta ofício enviada ao Conde, transcrita do CMD/UNB. O documento tem duas vias. É interessante observar que a segunda via, era na verdade reescrita, tendo portanto, e, naturalmente, algumas divergências com a primeira.
Ofício do capitão-mor do Rio Grande do Norte Caetano da Silva Sanches ao Secretário de Estado de Mar e Ultramar, Conde de Linhares, D. Rodrigo de Souza Coutinho, enviando relação das Barras e Enseadas existentes no Rio Grande do Norte.

Recebi a carta de Vossa Excelência de 20 de agosto de 1798, em que foi servido dizer-me que foi presente a Sua Majestade a minha carta de 25 de abril e a mesma Senhora procurará todos os mais de animar o comercio direto deste governo para essa capital, se eu mandar uma relação exata dos portos que há neste governo, da grandeza e porte dos navios que podem aqui abordar, e da facilidade de estabelecer aqui alfândegas, onde os gêneros paguem tanto, quanto pagam nos outros portos do Brasil.

Em cuja observância remeto a Vossa Excelência a relação inclusa de todos os portos que há neste governo desde o principio dele da parte Sul, até o fim para o Norte; e de todas as Barras nomeadas na dita relação pode entrar na desta cidade embarcação, que nade na água que declara a mesma relação. Esta capitania a vinte e tantos anos é que principiou a ter algum estabelecimento no que respeita as produções da terra, como principal açúcar, e algodões, que antes se ia buscar o primeiro gênero a Pernambuco, e desse tempo para cá, se tem fundada algumas Engenhocas que fabricam seus açucares, e os agricultores empregados nas plantações dos algodões; porém a rigorosa seca que houve em três anos sucessivos, quais foram os de 1791, 1792 e 1793, os derrotou, e depois desses anos de seca tem sido os invernos muito escassos de chuvas, de sorte que tem feito desanimar a alguns por não terem produzido os ditos gêneros, e se terem empenhado com as ditas plantações, ainda que eu os tenha animado para continuarem, e assim o vão fazendo. No que respeita da grandeza, e porte dos navios que podem aqui se abordar, digo a Vossa Excelência que pode vir, por agora, a esta porto uma embarcação da lotação de trezentas caixas, porque esta se pode carregar de açúcar, algodões, couros e alguma sola, porém não neste anos, porquanto os efeitos dele já se exportaram para Pernambuco e só para o ano vindouro, fazendo-me Vossa Excelência a mercê de avisar-me de certeza de vir, para eu deter os gêneros e cientificar aos agricultores, e todos os mais desta Capitania para se animarem com mais freqüência tanto nas suas plantações, como em procurar os mais gêneros, e os exportarem para este porto, na esperança de terem melhor estabelecimento nos seus negócios. E quanto a facilidade de estabelecer aqui alfândega, onde os gêneros paguem tanto, quanto pagam nos outros portos do Brasil, respondo a Vossa Excelência que nesta cidade há o ofício de Juiz de Alfândega, o qual  anda anexo ao que serve o cargo de Provedor da Fazenda Real, como também o de Escrivão de Alfândega ao de Escrivão da Fazenda Real, cujos cargos há muitos anos assim se acham estabelecidos, pelo que me parece, falando reverente, que estando este Juízo já criado de tão antigo, e existindo não haverá dúvida de facilidade de pagarem os direitos que se devem pagar na alfândega, assim como se pagam nos outros portos do Brasil, e só se necessitará criarem-se  alguns oficiais mais, que forem precisos a mesma alfândega.
Cidade do Natal do Rio Grande do Norte em 1 de março de 1799.Caetano da Silva Sanches.

Relação das Barras e Enseadas que há nesta Capitania do Rio Grande do Norte, principiando do Sul para o Norte.
De Sagi a Formoza distam quatro léguas, esta tem uma Enseada grande, em que pode nela dar fundo a maior Nau. Da dita Formoza a Barra do Cunhaú dista uma légua, esta Barra é estreita, e tem uma pedra no meio em que só entram barcos a carregar os efeitos daquele Distrito com risco. Do dito Cunhaú a Pipa distam duas léguas, esta tem uma Enseada grande que podem dar fundo defronte da primeira barreira que faz no meio da Enseada, embarcações de alto bordo. Da Pipa a Tabatinga medem só quatro léguas, esta tem uma Enseada pequena aonde dão fundo barcos por causa de tempo. De Tabatinga ao Pirangi distam três léguas, tem esta uma Enseada pela parte Norte, em que podem dar fundo embarcações grandes. Do dito Pirangi a Ponta-Negra distam três léguas, tem esta uma Enseada de quase uma légua de comprido, toda ela muito funda e limpa. Da dita Ponta Negra a Barra desta cidade distam três léguas; esta Barra entre um Picão, e outro tem cinco braças de fundo, e da parte de dentro tem mais de seis, e da parte de fora defronte da Fortaleza  pode fundear embarcações de alto bordo. As ditas Enseadas acima declaradas, e Barra de Cunhaú tudo fica ao Sul desta Cidade.
Para o Norte
Desta dita cidade ao Genipabu distam duas léguas, tem uma grande Enseada com muito fundo e limpa em que podem fundear muitas embarcações pela parte do Norte da ponta. Do dito Genipabu a Ponta Gorda, chamada Cabo de São Roque, distam seis léguas, tudo é limpo, e só em terra é que tem baixo. Do dito Cabo, ou Ponta Gorda a Petitinga distam três léguas, e corre um baixio, ficando pela parte de dentro deste um canal com cinco braças de fundo, por onde navegam barcos, e quando se vêem obrigados do tempo vão dar fundo na dita Petitinga; esta tem uma Enseada com uma légua de comprido muito funda, e limpa. Os ditos baixos são chamados de São Roque, e defronte da dita Petitinga há uma aberta de mais de uma légua de comprido com fundo bastante, e campo em que podem fundear, distante da terra um quarto de légua, pouco mais ou menos, embarcações grandes, e passada esta aberta confrontando com uma barreira vermelha continuam os ditos baixos até os Olhos de Água, que são cinco léguas, ficando-lhe também canal por onde navegam barcos. Dos ditos Olhos de Água até a Cutia distam doze léguas: tem baixos vizinhos a terra, em se livrando deles em toda esta distancia pode dar fundo qualquer embarcação, por ser limpo e fundo. Da dita Cutia até a Caiçara distam três léguas, e como toda esta distancia tudo são baixos, e entre estes há um canal por onde navegam barcos; os baixos que ficam da parte do mar do dito canal ficam distantes da terra três léguas. Da Caiçara a Água-Maré distam sete léguas, tudo são baixos de Coroa de areia com distância de terra duas léguas, e em outras partes menos; ao mar das ditas Coroas três léguas, são baixos de pedra e areia, entre os ditos baixos há um canal por onde navegam os barcos. De Água-Maré a Manoel Gonçalves, Distrito de Assú, distam sete léguas, tem uma Barra, em que só entram barcos em águas vivas, por ter a dita Barra pouco fundo, e os ditos barcos vão aí a carregar sal, peixes, e outros efeitos. Do dito Manoel Gonçalves a Barra do Assú dista uma légua, em que entram barcos em águas vivas por ter a dita Barra pouco fundo, e da parte de dentro é fundo bastante, e é Rio com oito léguas de comprido e um quarto de léguas pouco mais ou menos de largo. Os ditos barcos vão aí carregar sal, peixes, algodões, couros e solas. Da dita Barra do Assú a Ponta do Mel distam seis léguas, toda esta distância é limpa, e livre de baixos, e só os tem perto da terra. Esta Ponta faz uma Enseada limpa em que podem dar fundo pela parte Norte dela embarcações grandes. Da Ponta do Mel a Redonda distam duas léguas, esta tem uma Enseada grande e limpa, e pela parte Norte dela podem dar fundo embarcações grandes, ao Mar da dita Enseada seis léguas, pouco mais ou menos, a caminho de Nordeste tem um baixo, e que chamam Baixo de João Cunha, que terá de comprido um quarto de légua, pouco mais ou menos. Da dita Redonda a Barra de Moçoró distam três léguas, e nela só entram barcos com águas vivas por ter pouco fundo, e da parte de dentro dela é fundo bastante, e tem o Rio na Enseada cinco léguas de comprido, e terá meia légua de largo pouco mais ou menos. Os ditos barcos vão aí a carregar sal, algodões, alguns couros e solas. A dita Barra é o fim desta Capitania. Caetano da Silva Sanches.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Anna Martins de Macedo e João Marinho de Carvalho


João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN e membro do INRG
Os moradores mais antigos do Rio Grande do Norte, com certeza, têm mais chances de serem ancestrais de milhares de pessoas que habitam nosso Estado, nos dias de hoje. Por isso, vamos transcrever para cá informações que encontramos no fim do século XVII e começo do século XVIII.
Em 06 de outubro de 1688, João Martins de Sá e sua esposa Clara de Macedo batizavam, na Capela de Nossa Senhora da Expectação (Nossa Senhora do O', Mipibu), sua filha Joanna (Martins), sendo padrinhos Antonio Moreira e Anna da Silveira.  Em 19 de Agosto de 1691, na Capela de Mipibu, batizaram Salvador, sem registro dos padrinhos. Nessa data Dona Clara Macedo, já tinha falecido, possivelmente de parto. Outros filhos do casal João Martins de Sá e Clara de Macedo, que encontramos, não aparecem seus batismos nesse livro de registros da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação. Entretanto, eles são citados como padrinho ou madrinha. Nos registros que confirmam a filiação, eles são apresentados como filhos do capitão João Martins de Sá. Eram eles Anna Martins de Macedo e Manoel Martins de Sá.
Anna Martins de Macedo, em 1703, já aparece casada com João Marinho de Carvalho. É desse casal que damos sequencia a seguir, apresentando os filhos encontrados.
Francisco foi batizado em 13 de outubro de 1706, na Capela de São Gonçalo do Potegi, tendo como padrinhos José Ribeiro e Catherina Duarte, mulher de Manoel Rodrigues Santiago; Ignácio foi batizado em 12 de agosto de 1708, tendo como padrinhos Manoel Rodrigues de Sá e sua irmã Joanna Rodrigues; João e Theodósio foram batizados em 14 de julho de 1704, na capela de Nossa Senhora do O' da Aldeia do Mipibu, tendo como padrinhos, o primeiro: sargento-mor Diogo Pereira Malheiro e Joanna Martins, filha de João Martins de Sá, e portanto, tia de João, o segundo: capitão João Martins de Sá e Luzia Nunes, filha de Luis (ilegível).
João Marinho de Macedo e seu irmão Ignácio Marinho de Carvalho, ambos moradores na Ribeira do Mipibu, casaram, respectivamente, com duas filhas do Coronel Joseph Gomes Torres e de sua mulher Catherina Barbosa de Lima, na época falecida. Elas se chamavam Joanna Gomes Torres e Feliciana Gomes Torres e eram naturais da Freguesia de Sam Lourenço de Tejucupapo de Pernambuco e moradoras na Freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres do Curato de Goyaninha
O casamento de João e Joanna foi realizado no dia 24 de fevereiro de 1732, na Igreja de Nossa Senhora do O' da Missão do Mipibu, na presença do Padre Francisco Xavier de Barros e das testemunhas sargento-mor Antonio Rodrigues Santiago, casado, sargento-mor Manuel Teixeira Casado, também casado, Joanna Martins mulher de Joseph Ribeiro de Faria, morador em Goyaninha, Damasia Gomes da Camera, mulher do coronel Theodósio Freyre de Amorim.
O casamento de Ignácio e Feliciana ocorreu  no dia 23 de abril de 1732, também na Igreja de Nossa Senhora de Mipibu, na presença do Padre Antonio de Arahujo e Sousa, e das testemunhas coronel Theodósio Freyre de Amorim, o sargento-mor Bartolomeu Ferreira de Carvalho, casado, Izabel Rodrigues, mulher do alferes Salvador de Arahujo Correa, e Joanna Gomes Torres, mulher do capitão João Marinho de Macedo.
Ignácio assistiu um tempo na Freguesia de Assu, e João na de Nossa Senhora do Socorro de Utinga, por isso, as denunciações foram feitas também nessas freguesias. Outro detalhe interessante era que os nubentes tiveram que justificar que não se tratava de rapto.
Em 14 de julho de 1734, na Capela de Nossa Senhora do O' da Missão do Mipibu, na presença do Reverendo Padre frei Boaventura (ilegível), missionário apostólico, e das testemunhas coronel Theodósio Freyre de Amorim, o tenente Faustino da Sylveira, Plácida da Sylva Freyre, mulher do dito, e Dona Custódia do Sacramento mulher do sargento-mor Antonio Rodrigues Santiago, casou Clara Martins de Macedo, filha de João Marinho de Carvalho e de Anna Martins de Macedo, com Gaspar Freyre de Carvalho, filho do Coronel Manuel da Sylva Queiros, e Maria da Silva Freyre. Gaspar era morador na Freguesia de Nossa Senhora dos Remédios do Cajupiranga, tendo assistido na Freguesia do Senhor Sam Miguel das Missões do Guajiru.
Manoel Martins de Sá, que tinha o mesmo nome de um tio, irmão de sua mãe, Anna Martins de Macedo, também casou com uma filha do Coronel José Gomes Torres e Dona Catherina Barbosa de Lima. Ela se chamava Maria Dias (ilegível), morava em Goyaninha e era natural de Sam Lourenço de Tejucupapo, como suas irmãs, acima. Esse casamento foi em 17 de fevereiro de 1738, na Capela de Nossa dos Remédios do Cajupiranga, tendo como celebrante Padre Frei Felix Maria, Capuchino Superior da Missão do Mipibu, e na presença das testemunhas Antonio Cabral, Anna Martins de Macedo, mulher do capitão João Marinho de Carvalho (pais do noivo), Alferes Gaspar Freyre de Carvalho e sua mulher Clara Martins de Macedo.
Outros registros que acrescentamos aqui, que descobrimos após a publicação deste arquivo são os seguintes.
Em 9 junho de 1751, na Capela de Nossa Senhora do Rosário de Cajupiranga, na presença do Padre João Gomes Freyre, e das testemunhas capitão João Marinho de Carvalho e Alferes Gaspar Freyre de Carvalho, Mathias Marinho de Carvalho, filho de João Marinho de Carvalho e Anna Martins de Macedo, desposou Vicência Gomes da Sylva, filha do sargento-mor Francisco Fernandes de Carvalho e Maria Gomes da Sylva.
Em 26 de agosto de 1756, na Matriz Mamanguape, Freguesia de Sam Pedro e São Paulo, na presença do Reverendo Padre e das testemunhas Antonio Payva da Rocha e Theodosio Freyre de Amorim, Antonio Marinho de Carvalho, filho de João Marinho de Carvalho e Anna Martins de Macedo, desposou Antonia Payva da Rocha, filha do sargento-mor Antonio de Payva da Rocha e Úrsula Ribeiro. Houve dispensa do 4º grau de consanguinidade pelo Padre Frei Juvenal de Santo Albano, que estava em Missão.
A título de informação, em 1646, ocorreu a Batalha de Tejucupapo entre holandeses e a população local tendo à frente as quatros mulheres: Maria Quitéria, Maria Camarão, Maria Clara e Joaquina. Tejucupapo era Distrito de Goiana Pernambuco.
Para conhecer melhor sobre a Batalha de Tejucupapo faça uma  visita ao  site do youtube
  http://www.youtube.com/user/heroinasdetejucupapo

O pedido de Independência para a Capitania do Rio Grande

Este documento foi extaído do CMD/ UNB. Alguns trechos são de difícil leitura, e, por isso, tanto lemos a primeira via como a segunda para se aproximar o melhor possível da verdade. A segunda via é uma cópia da primeira, e, por isso, sua disposição é um pouco diferente. Assim fica mais fácil fazer correções. 


Carta para a rainha D. Maria I, pedindo a separação administrativa da Capitania do Rio Grande do Norte da de Pernambuco.
Foi Vossa Majestade Fidelíssima servida promover-me no posto de Governador desta Capitania do Rio Grande do Norte, e persuadido eu da Real Grandeza de Vossa Majestade, a quem eu por mim, e por parte dos mais indivíduos domiciliários da nossa Capitania tributamos a maior humiliação e profunda submissão, como fiéis Vassalos, ponho na Real Presença de Vossa Majestade uma causa importante que Vossa Majestade como Augustíssima Soberana Senhora dará as precisas providências para os mesmos fiéis Vassalos se verem livres dos incômodos que experimentam.
Esta Cidade do Natal é a capital da dita Capitania, e das mais antigas: tem de longitude mais de cento e vinte léguas que confina ao Norte para os Sertões com a Capitania do Ceará Grande, e para o Sul com a da Paraíba: a Barra desta Cidade tem suficiência para por ela entrarem Embarcações de três mastros, como já tem entrado, além de outros muitos Portos também suficientes para qualquer sumaca por grande que seja: aqui se tem excelente Pao-Brasil, e tem saído inumeráveis barcadas dele, também há madeiras de construção, aqui se fabricam finíssimos açucares: aqui produz a terra algodões, e arroz, gêneros de exportação, além dos mais de primeira necessidade: as salinas de sal são as melhores que podem haver, quais são as do Assu e de Mossoró: que a sua produção pode abundar não só para este Continente, mas ainda para toda a América respectiva aos Domínios de Vossa Majestade: as margens dos mares  são de grande utilidade a Praça de Pernambuco, e ainda a da Paraíba, que é socorrida do pescado que anualmente vai desta capitania, e padeceria a mesma Praça se também anualmente não fossem desta Capitania mais de cinco mil cabeças de gado, e antes da rigorosa seca que experimentou mais de quinze: os Engenhos padeceriam e ficariam frustradas as moagens se desta Capitania se lhes não fossem continuadamente novilhos para carros, e animais cavalares para as ditas moagens daqueles que não são de águas, pela maior parte deles serem de bestas, assim chamadas, além de outros gêneros, como sejam couros em cabelo, solas, e couros miúdos. Porém, Augustíssima, e Soberana Senhora, todas estas circunstâncias, que podem fazer opulenta esta Capitania, faz esmorecer os ânimos dos habitantes o jugo em que servem da subordinação dela a de Pernambuco: já por não terem embarcações para exportarem os seus gêneros, e lhes ser necessário dar-lhe extração vendendo aos poderosos, sem lograrem os preços competentes: e já pela falta de correspondência para Lisboa, o que certamente mudará de sistema se os habitantes merecerem igual Graça a que Vossa Majestade foi servida conferir as Capitanias do Ceará Grande, e a da Paraíba de Governo Independente a sujeição de Pernambuco: então se estabeleceria o comércio, ficariam animados para a agricultura, e negociações: conduziriam os seus gêneros, e efeitos para este Porto, para dele se exportarem para Lisboa, sendo Vossa Majestade servida mandar embarcações, e  comprariam as fazendas para as suas negociações nos rematados, e para o vestuário de suas famílias com cômodo, tanto pelos longes que evitam  de  irem  Pernambuco comprá-los com consideráveis despesas, incômodos e riscos, como lhes sairem mais baratos,   e desta sorte pode esta Capitania fazer-se opulenta não só pelo que fica dito a respeito do estabelecimento mais também para aumento da Fazenda  de Vossa Majestade, tanto no aumento dos Dízimos Reais como no mais que pode resultar com considerável diferença a estação presente; porque os Dízimos Reais das Ribeiras desta Capitania, sendo rematadas na mesma terão grande acréscimos nos seu lanços, porquanto os lançadores são dos Sertões desta mesma Capitania que vem lançar, e sendo estes contratos rematados naquela Capital, se rematam pelos da Praça com monopólio, e sociedade entre os interessados, e este tiram os gados para diferentes Capitanias, ficando esta desfraldada nessa parte,  o que não sucederia assim, se finalizassem as rematações dos ditos contratos nesta Provedoria, rematados pelos mesmos habitantes dela, que todos os gados ficariam na mesma, e lhe dariam um grande aumento, para juntamente ser útil ao seu estabelecimento, sendo (ilegível) os habitantes a graça implorada a Vossa Majestade de Independência daquele Governo
Tem também prejuízos a Fazenda de Vossa Majestade pelas grandes despesas que faz esta Provedora com correios que efetivamente versam os caminhos de setenta léguas que distam desta cidade a aquele governo superior. A tropa desta cidade padece o desgosto de estarem servindo a Vossa Majestade com honra, e inteireza sem nota que os impeça aos seus adiantamentos, e havendo postos vagos, sendo eles imediatos, merecendo-os pelos seus serviços, ficam preteridos, porquanto daquele governo superior vem providos  outros, e os desta Praça não vão ter acesso naquela, não obstante eu repetidas vezes por carta de oficio ter representado aos do Governo Interino, que a Companhia que guarnece esta Cidade e Fortaleza tem oficiais, e oficiais inferiores capazes de ocupar os Postos de sargento-mor, ajudante do número do Regimento de Milícias, a nada tem atendido, mandando para sargento-mor do dito Regimento de Milícias a João Rebelo, Quartel Mestre da Companhia de Artilharia de Pernambuco, tendo este homem doze anos de praça pouco mais ou menos, preterindo ao Capitão desta Companhia que tem mais de quarenta anos de Praça; e para ajudante do número do mesmo Regimento Miliciano a Luiz da Costa Ferreira; que sendo cabo de esquadra de um dos Regimentos de Pernambuco, e indo destacado com outros para Ilha de Fernando arribaram aqui por não poderem tomar a dita Ilha: este homem andou caindo pelas ruas desta cidade bêbado de água ardente, e por fim desertou, o que mandei prender, e veio preso de distante desta cidade dez léguas, e quando foi rendido do dito destacamento, e chegou a Pernambuco lhe deram baixa pelos seus maus procedimentos: este dito homem é que me mandaram para Ajudante do Numero do referido Regimento Miliciano, preterindo ao Ajudante supra, homem honrado com inteligência, e capacidade para poder disciplinar o seu Regimento.
Padecem mais os habitantes desta Capitania incômodo pela longitude daquela Capital, que dista aos confins desta Capitania quase duzentas léguas, e lhes é preciso atravessarem ásperos sertões em tempo de verão com travessias de faltas de águas, e pastos para sustentação dos animais em viagens, conquanto em tempo verde ou de inverno, com as inundações de rios caudalosos com muito risco de vida, como tem acontecido, para irem buscar recurso de suas dependências, e muitas vezes sucede voltarem sem ele, por não sofrerem esperar pelas demoras dos despachos, por razão das muitas dependências daquele Governo: e também sucede perderem o êxito de seus pleitos por necessitarem ir segunda vez para mostrarem a verdade da causa pretendida, e pelas circunstâncias referidas não tornam.
Vossa Majestade permita que esta Capitania, que tem extensão e capacidade para se fazer opulenta, isentá-la da subordinação desnecessária daquele Governo de Pernambuco, e com a maior submissão de fiel vassalo rogo a Vossa Majestade se digne mandar que seja regida debaixo de um só Governo que não conheça superior senão a Vossa Majestade e que a Provedoria fique também isenta para dar as suas contas diretamente ao Real Erário, e não a Junta de Pernambuco, pois antes da criação dela as remetia para essa Corte, e os mesmos da dita Provedoria podem servir no Juízo da Alfândega, como de antigo está estabelecido, que o mesmo Provedor da Fazenda de Vossa Majestade serve de Juiz da Alfândega, e assim os mais oficiais salvos alguns que mais for preciso que se poderá criar. Os habitantes desta capitania, Augustíssima e Soberana Senhora, não são de menor condição para Vossa Majestade lhe conferir a graça pretendida ao da Paraíba, porque se ela alcançou por estar esta  vinte e oito léguas em distância de Pernambuco, com quanto mais justiça imploro a Vossa Majestade por estar esta setenta léguas apartada daquela Capital. Espero eu, e todos os habitantes desta Capitania do maternal amor de Vossa Majestade gozarmos esta felicidade, e conseguirmos a graça implorada, pela qual o Altíssimo Deus Soberano remunerará a Vossa Majestade com a sua Divina Graça, e vida dilatada para mais felicidade dos fiéis Vassalos. Cidade do Natal, Capitania do Rio Grande do Norte, 15 de outubro de 1799. De Vossa Majestade, o mais humilde vassalo, Caetano da Silva Sanches.

sábado, 29 de outubro de 2011

Um pedido de patrocínio para a causa da Independência do Rio Grande

O Capitão-mor do Rio Grande do Norte, Caetando da Silva Sanches , tinha  uma preocupação com nossa Capitania desde a data de sua posse em 1791. Encontramos vários documentos onde está registrado seu interêsse no desenvolvimento do Rio Grande. Uma das suas correspondências foi para D. Rodrigo de Sousa Coutinho solicitando patrocínio para a causa da independência de nosso Governo do de Pernambuco. Vejamos esse documento transcrito do CMD/UNB.
Por me chegar notícia que Sua Majestade foi servida pôr independente do Governo de Pernambuco, os da Capitania do Ceará Grande, e Paraíba, ficando esta do Rio Grande em meio subordinada ao mesmo Governo, me resolvi a fazer a representação que remeto a Vossa Excelência para me fazer a honra, e mercê pôr na Presença de Sua Majestade, rogando ao mesmo passo a Vossa Excelência a queira patrocinar a que seja concedida a graça que imploro, para que conferida, fique também isenta esta Capitania, assim como ficarão as duas, pois esta tem as circunstância para a sua isenção, por ter extensão mais crescida que a da Paraíba, a qual só dista a Pernambuco vinte e oito léguas, e esta do Rio Grande setenta, além das mais circunstâncias que exponho na dita representação, para merecer esta  graça, que certamente conseguirei, e os habitantes desta Capitania, sendo protegida esta importante causa por Vossa Excelência, atendida Vossa Excelênica juntamente que tenho servido a Sua Majestade quarenta anos inclusive vinte e tantos  com a patente de sargento-mor, para que assim também mereça algum posto de acesso e maior soldo, para me poder sustentar neste Governo e fora dele. 
Fico bem certo na proteção de Vossa Excelência, que sem ela nada conseguirei eu, e os habitantes desta Captiania, por cuja mercê o Altíssimo Deus Soberando remunerará a Vossa Excelência, e  rogo ao mesmo Senhor dilate a Vossa Excelência os anos de vida em sua Divina Graça para felicidade dos súditos que tanto o necessitam, e o mesmo Senhor Guarde a Vossa Excelência.
Cidade do Natal, Capitania do Rio Grande do Norte, 15/10/1799.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A submissão à Capitania de Pernambuco e à Comarca da Paraíba

João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN e membro do INRG
Na descrição de Caetano da Silva Sanches, além da epidemia de bexiga, na cidade de Natal e vizinhanças, faltavam alimentos, medicamentos, e médicos. Continua Caetano na sua correspondência para Martinho de Mello e Castro: de todo o referido dei parte ao General (D. Thomaz José de Mello), e resultou mandar-me ordem para que fizesse rematar o contrato das carnes, e como nesta cidade não há um homem que possa rematar, indagando os que teriam posse para o fazerem, os mandei convidar par virem lançar, e ver se havia quem desse seu lanço mais cômodo a favor do Povo, e antes de por esta determinação em execução, chegou  aqui, em 17 de março, o Corregedor da Comarca trazendo em sua companhia um homem para lançar no dito contrato (em outro documento, Caetano representa contra esse Corregedor), e no dia 18 a pôs em praça, e lançou o dito homem seis meses a seiscentos e quarenta réis por arroba, e outro seis meses e quatrocentos e oitenta réis por arroba, e sabendo eu deste acontecimento, e antes que se fizesse o termo do dito lanço, fui ter com o dito Corregedor, e lhe disse que para o mesmo fim eu tinha mandado convidar uns poucos de homens para virem lançar, e por este modo se buscava a comodidade do Povo, e que não era justo que este a comprasse por tão alto preço, havendo nesta Capitania, mais de quatrocentas fazendas de gados; e que quisesse ele Corregedor esperar alguns dias, que mandava vir os ditos homens com brevidade. Respondeu-me que não podia, e no mesmo dia fez o termo do referido lanço e se foi embora.
No dia 27 do mencionado mês se ajuntara nesta cidade homens por mim convocados, e depois de participar a Câmara a ordem do General em virtude do qual puseram em lanços o contrato da carne por este ano, e lançou só um homem a quatrocentos e oitenta réis por arroba, e não obstante ter-se feito o dito termo para o ano de 1792, em atenção as minhas rogativas, e ver que todo o meu desejo é só beneficiar este miserável Povo, lançou o mesmo dito homem para o ano vindouro a quinhentos réis por arroba, e os mais não lançaram, creio que por uma diabólica política, e este miserável Povo o não pode comprar por semelhante preço e nem o deve comprar, pois nesta Capitania nascem os gados e há o cômputo das Fazendas acima declaradas, e sempre se vendeu a carne nesta cidade a trezentos e vinte e três a arroba, exceto o ano passado que aqui, a introduziram a quatrocentos e oitenta réis por arroba, eu boa vontade tinha de obrigar aos que tem fazenda de gados a virem, cada um o seu mês, matar gados e vendê-los no açougue, por um preço racional que nem lhes ficassem prejudicados, nem o Povo lesado, e o não tenho feito por não ter jurisdição para isso nem ordem para o poder fazer.
Pelas muitas repetidas que tive, logo que tomei posse deste governo, de vários moradores vizinhos das Vilas de Arês, e de Vila Flor, que os índios das referidas Vilas destruíam as suas lavouras; indagando eu o motivo desta desordem me informaram que os ditos índios iam para a Capitania da Paraíba, e por lá ficavam dispersos e os que voltavam para as ditas Vilas como não tinham plantado vinham destruir as plantas alheias, e para evitar esta desordem passei ordens aos capitães-mores das mencionadas Vilas, para não consentirem ir índio algum para fora desta Capitania sem ordem do General, e nem ainda para o trabalho dos particulares desta mesma Capitania os não dessem sem que primeiro tivessem feito as suas plantas, e agora me consta que o Corregedor da Comarca  era que os mandava buscar para a dita Capitania para diversos trabalhos de plantar, e por estas minhas determinações me tem o dito Corregedor intrigado com o General (Pela época, suspeito que esse Corregedor era Antonio Felipe Soares de Andrade e Brederode, que foi sucedido por Gregório José da Silva Coutinho com a incumbência de sindicar seu antecessor).
Por uma ordem vocal que me deu o General, reduzi duas companhias de Infantaria que guarnecem esta Cidade a uma, e o total dela são cem praças, incluindo neste numero um capitão, um ajudante, um tenente, e um alferes; o armamento que tem esta Companhia é inútil, e já pedi ao General me mandasse outro, respondeu-me que o não tinha. Queira Vossa Excelência fazer-me a mercê de mandar-me noventa e quatro armas, outros tantas patronas, e boldriés, e duas caixas de guerra.
Remeto a Vossa Excelência o mapa dos terços auxiliares, e companhia que guarnece esta cidade, e do estado em que está a Fortaleza. O sargento-mor e o ajudante de cavalaria auxiliar da Vila Princesa são paisanos e nenhum conhecimento tem dos serviços e, por isso, não podem disciplinar seu Regimento e nem eu posso também disciplinar por se achar distante desta cidade sessenta léguas.
Da relação inclusa verá Vossa Excelência o quanto importaram os Dízimos Reais nesta Capitania que se rematam por triênio, e as despesas que se fazem, exceto os extrajudiciais que acrescem.
Ponho na presença de Vossa Excelência a cópia da ordem de Fidelíssima Majestade em a qual me dá faculdade que sempre a tiveram os meus antecessores, da proverem os ofícios de Justiça e Fazenda, e passarem patentes de alguns postos de ordenança, e dar terras de sesmarias tudo para o fim de autorizar o meu posto; toda esta regalia me tem tirado o General, em uma palavra, Excelentíssimo Senhor, até os mesmos cabos de esquadra e inferiores dos terços auxiliares o general os faz, eu aqui nenhuma jurisdição tenho e como o não tenho entendo que nenhum serviço faço aqui a Majestade. Queira Vossa Excelência dar providência a este minha tão justa representação, ainda quando tenho certeza que o capitão-mor do Ceará está gozando de toda a Jurisdição e autoridade que a Fidelíssima Majestade lhe concede, e só a mim se não me permite o que a mesma Senhora me faculta, e o tiveram todos os meus antecessores.
Deus Guarde Vossa Excelência, Cidade do Natal, 29 de Abril de 1791. Caetano da Silva Sanches.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

A Capitania no tempo de Caetano da Silva Sanches


João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN e membro do INRG
Pelos documentos até agora observados, vejo que o capitão-mor que foi desta Capitania, Caetano da Silva Sanches, era conhecedor e interessado nas questões de nossa Província do Rio Grande do Norte. Vamos conhecer um pouco desse homem que esteve entre nós, e defendeu a nossa independência da Capitania de Pernambuco. Começaremos com o batismo de um neto, documento que contém uma série de informações sobre ele e sua família.

Caetano, filho do capitão-mor Manoel Teixeira de Moura, natural desta Freguesia e de Dona Michaela Joaquina Sanches, natural de Recife, neto paterno do coronel Francisco da Costa de Vasconcelos, natural da Paraíba, e de Dona Maria Rosa, natural desta Freguesia, e materno do capitão-mor, Governador Caetano da Silva Sanches, natural da Vila de Cascais do Patriarcado de Lisboa, e de Dona Maria Francisca do Rosário Lages, natural de Recife, nasceu aos vinte de fevereiro de mil setecentos e noventa e cinco, e foi batizado com os Santos Óleos na Igreja dos Militares, que serve de Matriz, pelo Reverendíssimo Padre Mestre Visitador Frei Joseph Maria de Jesus, aos dezenove de março do dito ano. Foram padrinhos o Ilustríssimo Governador Caetano da Silva Sanches e sua mulher Dona Maria Francisca do Rosário Lages, do que para constar fiz este assento em que me assino. Ignácio Pinto de Almeida Castro, Vigário Encomendado do Rio Grande.

Caetano fez um testamento em 23 de agosto de 1799. Nesse documento se diz "sargento-mor de Infantaria paga, e por agora governador da mesma Capitania". Declara ainda que era natural da Vila de Cascais da Europa, filho legítimo do capitão Francisco da Silva Sanches e Dona Maria Joaquina, e que era casado com Dona Maria Francisca do Rosário Lages, filha legítima do sargento-mor Francisco Gonçalves Lages, natural de Pernambuco. Disse que de sua mulher teve dois filhos, Pedro, que com poucos dias de nascido faleceu, e Dona Micaela Joaquina Sanches, casada que foi com o capitão Manoel Teixeira de Moura, também já falecida. Deixa como herdeira universal sua mulher, pois Dona Micaela não deixou filho. Esse Caetano batizado acima deve ter falecido, portanto.

No ano seguinte, Caetano faleceu.  Vejamos seu óbito. Aos quatorze de março do ano de mil oitocentos faleceu da vida presente, tendo recebido os sacramentos da Penitência e Unção, o sargento-mor e Governador desta Capitania Caetano da Silva Sanches, branco, casado com Dona Maria do Rosário Lages, com cinqüenta e cinco anos de idade de um estupor, foi sepultado nesta Matriz envolto em hábito dos religiosos de São Francisco, depois de ser encomendado por mim. E para constar fiz este termo em que assinei. Feliciano José Dornelles. Vigário Colado.

Depois de tomar posse da nossa Capitania do Rio Grande, escreveu para Martinho de Mello e Castro, Secretário de estado da Marinha e Ultramar. Transcrevo para cá um trecho de sua correspondência.

No dia 12 de fevereiro deste presente ano (1791) tomei posse desta Capitania do Rio Grande do Norte, da qual Vossa Excelência me fez a honra de encarregar o governo dela, achando esta pequena Cidade e suas vizinhanças, no deplorável  estado de maior compaixão, com uma epidemia de bexigas que tem morto muita gente, e poucas casas há, tanto nesta cidade, como nas referidas vizinhanças, que não experimentem  o mesmo mal, sendo o meu maior sentimento a falta de todos os víveres que padecem, por  constar que alguns dos doentes chegaram a comer cocos, e mangaba, por não ter outro mantimento, e porque desde primeiro de janeiro até o dia da dita minha posse, se não tinha vendido aqui uma libra de carne no açougue, por se não ter rematado o contrato, por desordens que aqui houve antes de minha chegada. Indaguei quem tinha gados, e os obriguei a conduzir para esta cidade e o matassem, e vendessem no açougue ao Povo, prontamente se executou tanto no Carnal como na Quaresma.

E pelas travessias que fariam com a farinha, que é grão deste país, e há muitos meses se não vendia aqui uma quarta, pela conduzirem em embarcações para diversas partes, e a que ficava neste distrito a iam comprar aos lavradores, a seiscentos e quarenta réis o alqueire, para a virem vender nesta cidade, "aos pratos", e me dizem que fariam em cada alqueire dois mil e quatrocentos réis, e vendo eu  a pobreza deste Povo, e o vexame em que estavam  passei ordem para o fim de que todos os lavradores, reservando a farinha que lhe fosse precisa para a sua sustentação, toda a mais a viesse vender a esta cidade e aquele que obrasse o contrário, que o havia castigar, e para evitar o manipulo que estaria em semelhante gênero, lhe pus a tara de oitocentos réis o alqueire, e vendo que a medida era muito pequena, disse ao almotacel desta cidade que esta Câmara é filial de Pernambuco e que as medidas se deviam regular pela dela, mandou a dita Câmara acrescentar a medida, altura de um dedo polegar pouco mais ou menos.

Também mandei as praias deste Distrito buscar quantas jangadas e pescadores que por ela se achavam para o fim de irem pescar e virem vender o peixe nesta Cidade.

Ordenei ao Cirurgião da Companhia que guarnece a Fortaleza desta Cidade que fosse todos os dias de manhã, e de tarde visitar a todos os doentes por aqui não haver outro Cirurgião, nem médico, e os remédios que ele tinha em seu poder pertencentes a Fidelíssima Majestade, e fossem próprios para semelhante moléstia, os desse a todos aqueles doentes que precisassem  deles, pois aqui não há uma Botica.
Em outros artigos trarei mais informações das ações do capitão-mor Caetano da Silva Sanches, extraídas do CMD da Universidade de Brasília.

domingo, 16 de outubro de 2011

Padre Antonio de Andrade de Araújo e seus familiares

Em alguns registros de batismo mais antigos aparece o Padre Antonio de Andrade de Araújo. Em um desses registros ele apresente seu pai e uma irmã. Vejamos:
Aos 31 dias  de julho do ano de 1712 na Igreja de São Miguel da Aldeia de Guajiru, batizei e pus os santos óleos a Antonio, filho de Antonio Teixeira Coelho e sua mulher Ignácia de Abreu Cunha; foram  padrinhos meu pai Antonio de Andrade de Araújo e minha irmã Úrsulsa de Abreu da Cunha; e eu o Coadjutor desta Matriz em ausência do Reverendo Vigário fiz este assento em que mi assinei. Antonio de Andrade de Araújo.
Outros irmãos, que encontramos nesse período, do Padre acima eram : Ignácia que foi batizada em sete de agosto de 1688, tendo como padrinhos Padre Eloy de Freitas e Izabel de Barros; João que foi batizado em cinco de junho de 1695, tendo como padrinho João de Mattos; Balthazar que foi batizado em oito de maio de 1698, tendo como padrinhos o padre Ignácio Antonio da Silva e Damiana de Moraes; José que foi batizado em quatro de fevereiro de 1709, tendo como padrinhos Antonio Teixeira Coelho e (ilegível) de Barros; Anna e Francisco batizados no dia doze de março de 1705, tendo como padrinhos de Anna, Manoel de Andrade, seu irmão, e de Francisco, Antonio de Andrade de Araújo ( o padre acima) e Anna de Barros, mulher de Lázaro de Barros.
Ignácia 7/08/1688
João, 5/06/1695
Balthazar 8/05/1698
Ana e Francisco (12/3/1705)
José 4/02/1709

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O Provedor, a cadeira rasa e o Reverendo Pároco

Por João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, sócio do IHGRN e do INRG

No fim do século XVIII não havia televisão, computador, máquina fotográfica, e nem campeonato de futebol, e o tempo sobrava para intrigas. Sem e-mail, facebook, fale conosco e 0800, as pequenas coisas subiam, através de cartas, até a Alteza Real, lá em Lisboa.

Pois bem, em 1 de fevereiro de 1798, o Provedor da Fazenda Real e Vedor Geral de Gente de Guerra da Capitania do Rio Grande, Antonio Carneiro de Albuquerque Gondim, expedia duas correspondências, uma para o Ministro do Reino, Marquês da Vila Nova de Cerveira, D. Thomaz Teles da Silva, e outra para a Rainha D. Maria I.

Para D. Thomaz escreveu: A demasia do Reverendo Vigário Feliciano José Dornelles, escandalizando o povo, e caráter dos cargos que ocupo de Provedor Real da Fazenda, e mais anexos, me obriga a representar a Sua Majestade Fidelíssima para evitar a violência de mandar publicamente, em ocasião de solenidade festiva, tirar da Igreja a cadeira rasa de meu assento, sempre costumado aqui, na cidade da Paraíba, e Pernambuco, e humilhado suplico a Vossa Excelência a esmola do despacho para cessar o ímpeto, e odiosa violência do dito Pároco, e para a tranqüilidade necessária, de que abusa, Cidade do Natal, 1 de fevereiro de 1798.
Beija as mãos o mais infeliz e indigno Provedor do Rio Grande do Norte, reverente, fiel e menor servo, Antonio Carneiro de Albuquerque Gondim.

Para a Rainha D. Maria escreveu o Provedor: Senhora, tenho a honra de servir a mais de trinta e dois anos o cargo de Provedor da Real Fazenda com os anexos, e por Graça de Vossa Majestade Fidelíssima estou conservado e sendo equivalentemente estimado; no ano próximo passado experimentei do Reverendo Vigário da Matriz desta Capitania, Feliciano José Dornelles, a pública desatenção de mandar tirar da Igreja, em dia de Festividade, a cadeira rasa de meu assento, sempre praticado, antiqüíssimo por estilo de mais de cem anos, aqui observado, na cidade da Paraíba, e Pernambuco, com escândalo do Povo, de propósito, e caso pensado do dito pároco, que já havia prometido de o fazer sem me chegar noticia, nem fundamento algum.

Esta violência me tem impedido de ir a Matriz, enquanto não fôr dada a providência devida aos meus cargos, idade, e graduação de licenciado na Faculdade dos Sagrados Cânones pela Universidade de Coimbra, e posse imemorial, pela retidão, e (ilegível) de Vossa Majestade que Deus Guarde, para bem e sossego de seus fiéis vassalos. Cidade do Natal, 1 de fevereiro de 1798. Provedor da Fazenda Real e Vedor da Gente de Guerra, da Capitania do Rio Grande do Norte, Antonio Carneiro de Albuquerque Gondim.

As providências devem ter sido enviadas para nosso capitão-mor, Caetano da Silva Sanches, através do Secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Conde de Linhares, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, pois aquele respondeu a este, como segue:
Recebi a respeitável Carta de Vossa Excelência, de 25 de agosto de 1798, para efeito de ser repreendido o Reverendo Pároco desta Freguesia, Feliciano José Dornelles, por assim ser servida Sua Majestade, pela representação que fizera o Provedor da Fazenda Real desta cidade Antonio Carneiro de Albuquerque Gondim, pela pública desatenção que com ele tinha praticado mandando tirar da Igreja uma cadeira rasa, em que o dito Provedor, e seus antecessores estavam na posse quando assistiam as públicas festividades, ordenando, por fim, a Mesma Senhora, que eu repreendesse ao referido Pároco por este fato e lhe ordenasse que fizesse imediatamente restituir a cadeira ao seu antigo lugar, para que o mesmo Provedor fosse conservado na sua posse.

Em observância da dita Respeitável Carta mandei vir o dito Reverendo Pároco e lhe participei  todo o seu contexto, do qual me respondeu que era falso, e que havia mostrar a Sua Majestade o contrário: eu lhe repliquei dizendo-lhe mal poderia ele mostrar o contrário sendo aquele acontecimento tão público em dia de festividade, e nada mais me respondeu.

O dito Reverendo Pároco só poderá pôr na presença de Sua Majestade o contrário, como diz, deste fato, com alguns documentos faltos de verdade, como seja do Padre Miguel Francisco do Rego Barros, seu parcial, e com gênio propenso para intrigas, como o tem mostrado, e de outros da mesma condição. Este acontecimento, Excelentíssimo Senhor, foi todo verdadeiro, menos no ponto de dizer que mandara o dito Pároco tirar da Igreja a cadeira, porque ainda não estava dentro, e sim, chegando o fâmulo do dito Provedor com ela a porta, e o dito Pároco na mesma esperando para dizer não queria a cadeira dentro da Igreja, como o fez, executando o que antes já dizia o havia fazer, e depois de feita a dita desfeita disse que consentiria a cadeira na Igreja se Sua Majestade assim o determinasse. Deus Guarde Vossa Excelência. Cidade do Natal do Rio Grande do Norte, 1 de Março de 1799. Caetano da Silva Sanches.

Esse Caetano foi quem doou, segundo Câmara Cascudo, aquele galo que está na torre da Igreja Santo Antonio.

Dona Maria da Apresentação, domiciliária no Sertão de Panema, esposa do Provedor acima, em 1783, tinha encaminhado para D. Maria I, solicitação de provisão contra seu marido para libelo de divórcio.

Já o Padre Dorneles, nosso conhecido de outro artigo, recebeu de Câmara Cascudo, em Velhas Figuras, comentário que difere do que já vimos por aqui: “A tradição representa-o pequeno e magro, andando depressa, muito pálido, extremamente amável e caritativo”.

O Padre Miguel Francisco do Rego Barros era filho de Mestre de Campo Francisco Machado de Oliveira Barros e Dona Antonia Maria Soares de Mello, e irmão de Joaquim José do Rego Barros que presidiu a nossa Província. Ele faleceu em 1816, com a idade aproximada de 50 anos.  Dorneles e Joaquim José foram membros do Governo Revolucionário de André de Albuquerque Maranhão, em 1817.


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Nomes compostos na Ribeira do Mipibu

Observando alguns registros da Igreja de Nossa Senhora do O' da Ribeira de Mipibu, vemos que, diferentemente de outras Freguesias, as crianças eram batizadas com dois nomes.Vejamos esses exemplos.

Aos vinte de junho de mil setecentos e quarenta e nove anos, na Igreja de Nossa Senhora do O' de Mipibu, desta Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação do Rio Grande do Norte, de licença minha, o Reverendo Padre Antonio de Araújo e Sousa, batizou e pôs os Santos Óleos a Antonio José, filho de Ignácio da Rocha e de sua mulher Antonia Barbosa; foram padrinhos o sargento-mor Domingos Pinto Ozorio, e sua mulher Francisca de Macedo, moradores nesta mesma Ribeira desta Freguesia; e pelo assento que veio do dito Reverendo, mandei fazer este em que por verdade me assino, Manuel Correa Gomes, Vigário.

Aos treze de julho de mil setecentos quarenta e nove, na Igreja de Nossa Senhora do O' da Ribeira de Mipibu, desta Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação do Rio Grande do Norte, de licença minha, o Reverendo Antonio de Araújo e Sousa, batizou e pôs os Santos Óleos João Pedro, filho de Arcenio de Barros Brandão e de sua mulher Maria do O'; foram padrinhos Manoel Martins, filho de Domingos Martins Bayam e Maria José, filha do Alferes Nazareno Lopes da Cunha, moradores na mesma Ribeira de Mipibu, desta Freguesia; e pelo assento que veio do dito Reverendo mandei lançar este, em que por verdade me assino Manuel Gomes Correa, Vigário.

Aos vinte e um de agosto de mil setecentos e quarenta e nove, na Capela de Nossa Senhora do O' da Ribeira de Mipibu, desta Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação do Rio Grande do Norte, de licença minha, o Reverendo Antonio de Araújo e Sousa batizou e pôs os Santos Óleos, a Anna Maria, filha de João da Rocha e de sua mulher Maria José; foram padrinhos o tenente João de Oliveira e Freitas e Anna Gomes, filha do capitão João Marinho de Macedo, moradores na Ribeira de Mipibu desta dita Freguesia; e pelo assento que veio do dito Reverendo mandei lançar este, em que por verdade me assino. Manuel Gomes Correa, Vigário

Minha tetravó, Agostinha Monteira de Sousa, e três batismos em Mipibu

Uma das minha ascendentes tinha o nome de Agostinha Monteira de Sousa e era casada com Antonio Francisco Bezerra da Costa. Eram meus tetravós. Ela faleceu de parto, ainda nova, em 2 de julho de mil oitocentos e vinte e sete, com trinta e tres anos de idade. Interessante que descobri, em um batismo, outra pessoa com o mesmo nome dela, casada com o capitão João Martins de Sá. Seria a minha tetravó parente da mulher de João Martins de Sá. Aproveito para colocar o batismo acima referido e mais dois outros acontecidos em 1756, em Mipibu. Fica a dúvida.
Aos nove de setembro de mil setecentos e cinquenta e seis de licença do Reverendo Vigário Doutor Manoel Gomes Correa, na Capela de Nossa Senhora do O' de Mipibu, batizou e pôs os Santos Óleos, o Reverendo Vigário Padre Antonio de Araújo e Sousa a Francisco Xavier, filho de Arcenio de Barros Brandão e sua mulher Maria do O'; foram padrinhos o Capitão Francisco de Sousa Gusmão e sua mulher Dona Apolonia Dorneles de Jesus; de que mandou  lançar este assento o Muito Reverendo Senhor Doutor Visitador que abaixo assina. Marcos Soares de Oliveira.Visitador.

Aos onze de setembro de  mil setecentos e cinquenta  e seis, de licença do Reverendo Vigário, o Doutor Manoel Correa Gomes, na Capela de Nossa Senhora do O' de Mipibu, batizou e pôs os Santos Óleos, o Reverendo Padre Antonio de Araújo e Sousa, a Maria Rufina, filha de Angelo Martins e de sua mulher Adriana, foram padrinhos o sargento-mor Lourenço Martins Raposo e sua mulher Damiana Rodrigues de Sá; de que mandou lançar este assento o Muito Reverendo Senhor Doutor Visitador que abaixo assina, Marcos Soares de Oliveira, Visitador

Aos dez de setembro de mil setecentos e cinquenta e seis, de licença do Reverendo Vigário Doutor Manoel Correa Gomes, na Capela de Nossa Senhora do O' de Mipibu, batizou e pôs os Santos Óleos, o Reverendo Padre Antonio de Araújo e Sousa, a João, filho de João Cordeiro e de sua mulher Antonia Duarte; foram padrinhos o capitão Joseph Monteiro e  Agostinha Monteira de Sousa, mulher de João Martins de Sá; do que mandou lançar este assento o Muiot Reverendo Senhor Doutor que abaixo assina, Marcos Soares de Oliveira, visitador.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Um comando para Guamaré

Dom José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho do Conselho de Sua Alteza Real, bispo de Pernambuco, Pedro Sheverin, Chefe de Esquadra e Intendente da Marinha, o Dezembargador José Joaquim Nabuco, ouvidor Geral desta Comarca, governadores interinos da Capitania Geral de Pernambuco. Fazemos saber aos que esta Carta Patente virem, que havendo respeito a concorrerem na pessoa de José de Brito de Macedo, as necessárias circunstâncias para exercer o Posto de Comandante do lugar Aguamaré, dividido da Comandância do lugar de Manoel Gonçalves, e por esperarmos dele que nas obrigações, do Real Serviço, se haverá muito como deve a boa confiança que formamos de sua pessoa. Houvemos por bem na conformidade do Capítulo 20 do Regimento deste Governo nomear /como por este nomeamos/ ao dito José de Brito Macedo no Posto de Comandante novamente criado a bem do Real Serviço no lugar de Aguamaré a fim de atalhar as desordens que ali acontecem causadas pelos pescadores, segundo somos informados, a qual Comandânica é dividida da Comandância do lugar de Manoel Gonçalves, em qual posto não haverá soldo algum, mas, servindo como deve, gozará de todas as honras, graças, franquezas, liberdades, privilégios, e isenções que em razão dele lhe pertencerem. Pelo que ordenamos aos governos interinos da Capitania do Rio Grande do Norte, e respectivo Capitão-mor, por tal o reconheçam, honrem, e estimem, conferindo-lhe, o Segundo, a posse e o juramento de estilo de que fará assento nas Cartas deste; e aos oficiais e soldados seus subordinados  que lhe obedeçam, e o mesmo deverão praticar as mais pessoas do referido lugar em tudo o que for relativo ao Real Serviço como devem e são obrigado. Em firmeza do que lhe mandamos passar a presente, por nós assinadas, e selada com o selo das Armas Reais, que se registrará na Secretaria deste governo, Vedoria do Rio Grande, e mais partes a que tocar. Dada no Recife de Pernambuco, aos oito de junho. Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e um //Manoel da Cunha de Azevedo Coutinho Souza Chicorro, Secretário deste Governo, a fiz escrever. Dom José, Bispo de Pernambuco, Pedro Sheverin, José Joaquim Nabuco de Araújo.
Extraído do CMD da UNB

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Intrigas na Capitania do Rio Grande


Intrigas na Capitania do Rio Grande
João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor de Matemática da UFRN e membro do INRG
Viajando ao passado através dos documentos mais antigos, vemos que a intriga esteve sempre presente na História de nossa Capitania. A Corte portuguesa era sempre bombardeada por todo tipo de queixas vindo dos seus vassalos. Hoje vamos transcrever para cá mais um documento extraído do Centro de Memória Digital da Universidade de Brasília.
O capitão-mor do Rio Grande do Norte, José Francisco de Paula Cavalcante de Albuquerque, em 1806, encaminhou ofício ao Secretário de Estado da Marinha e Ultramar, visconde de Anadia, João Rodrigues de Sá e Mello, nos termos que se segue.
No dia em que fui beijar as mãos de Vossa Excelência pelo despacho que Sua Alteza Real me tinha conferido de Governador desta Capitania, fez Vossa Excelência a honra de dizer, que ora preciso que eu partisse logo, pois que nela havia algumas desordens: acelerei a minha viagem, tomando posse do governo, tratei de desterrar a intriga, por todos os modos, já fazendo falas diante de alguns, que eu sabia eram motores dela, e já tratando-os com um total desprezo /método que em tal caso me pareceu melhor/; porém, Excelentíssimo Senhor, enquanto aqui existir um sargento-mor chamado João Rabello de Siqueira Aragão, cujo péssimo gênio, e orgulho é inenarrável, e alguns párocos, cuja materialidade e gênio só propende a fazer o mal, é impossível haver paz nesta terra, e poder-se desvanecer a intriga: qualquer deles me obsequiam  extremosamente,  e até o presente vou vivendo do bem com eles, na certeza de que brevemente haverá rompimento, pois, talvez pensem captando-me assim, serei capaz de algum dia entortar a justiça: este sargento-mor é aquele, que trazendo-o o Excelentíssimo D. Thomaz José de Mello em paisano de Lisboa para Pernambuco, unicamente para o beneficiar, e acumulando-o de benefícios; pelo seu mau caráter teve a habilidade de indispor todo o povo daquele país contra o dito Excelentíssimo General; e nesta Capitania o mesmo fez com o meu antecessor Lopo Joaquim de Almeida, só porque quis  quartar a ferocidade de gênio, em algumas diligências de que estava encarregado; não sei se por máxima ou realidade, pediu ao Excelentíssimo General de Pernambuco passagem para fora desta Capitania, e participando-me o dito Excelentíssimo General, logo que cheguei de Lisboa, eu lhe disse que me fazia grande favor, pois bem conhecia, porém até agora o não tem feito, talvez seja porque ninguém quer um má rês em seu território.
O pároco da Freguesia desta cidade Feliciano José Dorneles, não só viveu sempre intrigado com os meus antecessores, tratando-os com a maior insolência, como com os governadores interinos, que tem havido, e em geral com todo o povo da dita Freguesia, o que faz com que todos vivam em contínuos desgostos, e que absolutamente fujam da sua Igreja, e até da cidade; pois sendo ele um autômato é só movido para uma família, onde dizem ter tratos ilícitos e por ela só é encaminhado para o mal, porque tem a já dita propensão.
O da Freguesia de São José de Mipibu, João Dias Pereira, e o da Vila Flo,r Miguel Joaquim do Rego, concordam igualmente em tudo com o dito Dorneles, pois também são de péssimos gênios, orgulhosos, e intrigantes.
Estes párocos, na minha chegada celebraram um Te Deum em ação de graças, orando um deles por me lisonjearem, desfeitearem o meu antecessor Lopo Joaquim, porém o amor da verdade me faz falar desta sorte, e não dar atenção a podre lisonja.
O pároco da freguesia de Extremoz tão somente por mau gênio trás atropelado aquele povo, que vive nas circunstâncias do das de outras que já tratei; mas este conservo em Diretor de uma Vila de Índios porque para isso tem muita propensão.
Todos os mais párocos estão no mesmo caso de materialidade que os três; porém, vivem em paz com os fregueses; a exceção do da Freguesia da Vila do Príncipe, que sendo novo, é digno de outra melhor, pois além de ter muitas luzes, é muito prudente e amante da paz. Uma das razões, que tenho descoberto porque eles se intrigam com os governadores, é porque /como todos os mais clérigos/ se julgam desligados da sociedade, e pertencentes a outra muita diversa; que os livra de ter a mesma subordinação as autoridades constituídas, civis, ou militares, e enquanto não perderem este prejuízo há de haver desordem; e a outra é não haver a melhor escolha na eleição deles, pois em respondendo a alguns casos de moral, a maneira de adivinhação, já os julgam capazes de curar almas e dirigir povos; no que foi bem infeliz o ex-Bispo de Pernambuco D. José Joaquim de Azevedo /cuja prática era sempre diversa da teoria/; pois os vigários por ele propostos são quase todos da classe do que aqui aponto; portanto, Excelentíssimo Senhor, rogo a Vossa Excelência queira dar sobre este objeto aquela  providência que lhe parecer justa a benefício dos povos, e sossego dos Governadores, ficando V. Excelência certo que toda a providência que pretenda dar respectiva a clérigos, por autoridades Eclesiásticas, é infrutífera, e só servirá de me comprometer, pois Vossa Excelência bem conhece, como todos eles pensam a este respeito.
Deus Guarde a Vossa Excelência, Cidade do Natal 5 de setembro de 1806.
José Francisco da Paula Cavalcante.
Esse padre da Vila do Príncipe, pela data, devia ser Francisco de Brito Guerra.
Uruaçu, 366 anos do massacre!