terça-feira, 9 de agosto de 2011

Manoel Alves Filho, seu Nezinho

Wandelinden, Fernado Pedroza, seu Nezinho, Silvio Pedroza

João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor de Matemática da UFRN e membro do INRG
Algumas vocações se repetem em membros de uma mesma família. Encontramos, ao longo do tempo, famílias de escritores, poetas, matemáticos, músicos e, também, de políticos. É o caso da família Alves do Rio Grande do Norte, onde a vocação política está presente ao longo de muitos anos. Não é simplesmente uma questão de oligarquia como se repete. Mais do que isso, entram as composições genéticas e ambientais.
No dia 10 agosto, Manoel Alves Filho, seu Nezinho, se fosse vivo, estaria completando 117 anos. Ele nasceu no dia 10 de agosto de 1894, tendo sido batizado no dia 09 de setembro do mesmo ano, tendo como padrinhos Nossa Senhora das Dores e Manoel Francisco Cordeiro. Seu aniversário é um dia antes do aniversário do seu filho mais famoso, Aluízio Alves. Este muito festejado, aquele muito esquecido.
Nos dias de hoje, os Alves vivem um período de glória, tendo passado anteriormente por momentos difíceis. Garibaldi Alves, que foi deputado estadual e vice-governador, é hoje senador da república; Garibaldi Alves Filho, que foi deputado estadual, prefeito, governador duas vezes, e presidente do Senado, é hoje senador e ministro da Previdência Social; Agnelo Alves, que foi prefeito de Natal e Parnamirim e  senador, é hoje deputado estadual; Carlos Eduardo foi deputado estadual e prefeito de Natal; Valter Alves é deputado estadual; Henrique Alves, que é deputado federal há mais de dez legislaturas, é hoje líder do PMDB e forte aliado do Governo Federal. Ana Catarina Alves, irmã gêmea de Henrique, foi vereadora e deputada federal; Clemenceau Alves foi prefeito de Angicos; e Expedito Alves que foi prefeito de Angicos e foi assassinado.
Tenho uma curiosidade muito grande em saber mais sobre Manoel Alves Filho e sua esposa Maria Fernandes, ascendentes de todos esses políticos acima nomeados. Qual foi a participação deles no encaminhamento dessas vocações políticas? Nossos historiadores maiores não se aprofundaram nessa questão. Encontramos poucas informações sobre seu Nezinho, mas acredito que ele teve uma vida que merece uma boa biografia.
Manoel Alves Filho começou sua vida com um problema, pois seu irmão mais velho era Manoel Alves Martins Filho. Possivelmente, eles deveriam ser distinguidos por apelidos. O irmão mais velho, nascido em 2 de dezembro de 1891,   batizado em 7 de dezembro do mesmo ano, era filho de Manoel Alves Martins e Joaquina Teixeira Martins (primeira esposa). Passei um tempo tentando descobrir a origem do velho Manoel Alves Martins. Francisca Martins, neta dele, após conversas com algumas irmãs mais velhas, informou que o pai dele poderia ser Manoel Alves Martins ou Joaquim Alves Martins, e que os mais antigos da família tinham vindo de Cacimbas do Vianna. Noélia Agripino, entretanto, escreveu: sou natural de Santana do Matos e meu avô, Luiz de França Martins, era filho de Delfino Alves Martins e Paulina Maria da Conceição. Coincidentemente, eles dois são irmãos dos pais de Nezinho Alves (Manoel Alves Martins e Maria Ignácia da Conceição, a segunda esposa), isso eu já sabia porque minha mãe falava muito que Nezinho e meu avô eram primos carnais).
Quando Manoel Alves Martins Filho foi batizado, em  1891,foram seus padrinhos Delfino Alves Martins e Josefina Alves Fernandes, irmãos, e que pelo que foi dito acima por Noélia, tios dele.
A trajetória dos ascendentes de seu Nezinho é povoada por homens que tiveram atuação e prestigio em suas épocas. O pai dele, Manoel Alves Martins, era filho do negociante José Alves Martins e de Francisca Martins de Oliveira. José Alves nasceu em Macau, casou em Curralinho e atuava em toda região do Assu. Pelo que observamos nos registros da Igreja foi muito solicitado para padrinho de batismos ou testemunha de casamentos em Rosário, Oficinas, Cacimbas do Viana, Assú, praia do Rosado, Sítio Comissário e adjacências. José Alves Martins foi assassinado em Rosário em 1871. O pai de José Alves Martins era o Major José Martins Ferreira, que foi presidente da Mesa de Arrecadação de Macau, e também Juiz Municipal. Está na lista dos fundadores de Macau que saíram da Ilha de Manoel Gonçalves. Assim como José Alves Martins, era muito solicitado para padrinho de batismo e testemunha de casamento em várias regiões do Assu, principalmente Cacimbas do Vianna, para onde levou toda a família. O Major José Martins Ferreira sucedeu seu pai, o Capitão João Martins Ferreira, na administração das terras do Sertão do Assu, do tenente-coronel Bento José da Costa.
A esposa de Seu Nezinho, sua prima Maria Fernandes, conhecida como Dona Liquinha, tinha uma ascendência de pessoas muito ativas nas suas comunidades. Ela era filha de Josefina Emília Alves Fernandes e Absalão Fernandes da Silva Bacilon. Josefina era filha de José Alves Martins, já citado acima. Absalão era filho de Antonio Fernandes da Silva e Sabina Maria da Silva; neto paterno de Manoel Álvares da Fonseca e Anna Maria Barbosa, e materno de Francisco da Silva de Carvalho e Maria Joanna.
As poucas informações que obtive sobre seu Nezinho foram tiradas dos livros de Zélia Alves e de Aluízio Alves, além do livro Memória Viva, com entrevista de Aluízio. Por esses livros vemos que seu Nezinho saiu de Santana do Matos, onde nasceu, e foi ser comerciante em Angicos. Em 1929 era vice-prefeito, prefeito interino na revolução de trinta e prefeito designado em 31. Foi, também, presidente da Câmara Municipal de Angicos. Foi autor do ato que mudou o nome da povoação de Carapebas para Afonso Bezerra. Com a seca de 1932 veio com a família para Ceará - Mirim. Dois dias depois de Agnelo Alves ter nascido, foi preso, tendo permanecido nessa condição por 31 dias.
 Numa época em que menino não se metia em conversa de gente grande, Aluízio adquiriu um espaço entre os adultos que o fez se projetar para o futuro. Por isso, acredito que seu Nezinho teve uma participação muito grande no sucesso de Aluízio e de todos os seus outros descendentes que enveredaram pela política.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

João Miguel e os Trindades de Angicos (I)

assinatura de João Miguel da Trindade

João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor de Matemática da UFRN e membro do INRG
João Miguel da Trindade e sua esposa Maria Rosa da Conceição nasceram por volta de 1789, pelo que se observa dos registros de óbitos. João Miguel morreu tísico e foi sepultado, no cemitério público da Vila de Angicos, com a idade de setenta e cinco anos, aos 17 de junho de 1864. Maria Rosa faleceu de moléstia interior, em 19 de janeiro de 1875, com a idade de 86 anos. A maioria dos Trindades de Angicos e adjacências é descendente desse casal.
O registro mais antigo onde aparece João Miguel é datado de 6 de maio de 1825. Nessa data e na fazenda Santa Luzia, ele foi testemunha, junto com  Gonçalo José Barbosa, do casamento de Desidério Cardoso com Quitéria, escrava de Ignácio Pereira de Abreu. Foi nesse registro que capturei a assinatura dele e de Gonçalo. Gonçalo era irmão dos meus trisavós Miguel Francisco da Costa Machado e Vicente Ferreira Xavier da Cruz. Era nessa fazenda Santa Luzia que vivia a maioria dos Trindades, como se observa nos registros da Igreja Católica. Segundo Pedro Antas Filho, Santa Luzia era propriedade do Barão de Ceará-Mirim.
Na data de 7 de janeiro de 1857, João Miguel tomou posse do emprego de 3º Juiz de Paz, na Câmara Municipal de Angicos, eleito que foi em 7 de setembro de 1856. Nesse mesmo dia tomou posse Vicente Ferreira Xavier da Cruz no emprego de 1º Juiz de Paz. O 2º Juiz de Paz, eleito na mesma data dos anteriores, foi José Alexandre Solino da Costa. De acordo com as regras da época João Miguel seria da serventia do 3º ano daquela legislatura.
Embora os registros da época não revelassem sua origem, relatos da família dão conta que João Miguel veio da Paraíba junto com um irmão, que depois tomou outro destino. Sobre sua esposa, Maria Rosa da Conceição, não consegui identificar, também, seus ascendentes, embora suspeite que eram da região de Angicos, por conta das dispensas de consaguinidade que aparecem nos casamentos dos filhos  Manoel Jacintho e Rosa Maria.
Manoel Jacintho da Trindade, que nasceu em 3 de julho de 1833, casou, em Gaspar Lopes, em 15 de Setembro de 1866, com Josefa Francisca Xavier Bezerra, filha de José Marianno Xavier de Sousa e Maria Catharina de Sena.  Nesse casamento houve dispensa de consanguinidade, denunciando parentesco entre os nubentes. Acredito que o parentesco se dava através de Maria Rosa da Conceição, mãe de Manoel Jacintho com um dos pais de Josefa, possivelmente José Marianno, filho de Francisco Xavier de Sousa e Josefa Francisca da Costa. Esse parentesco se repete no casamento de Rosa Maria que casou dentro da família de Francisco Xavier de Sousa e Josefa Francisca da Costa.
Rosa Maria da Trindade, filha de João Miguel e Maria Rosa, casou em 13 de novembro de 1872, no sítio Santa Luzia, com Vicente Verdeixa Xavier de Sousa, viúvo por falecimento de sua esposa Elísia Maria da Conceição, e filho de Francisco Xavier de Sousa e Josefa Francisca da Costa. Houve dispensa de sanguinidade e afinidade lícita. A primeira dispensa se dava por conta do parentesco de Vicente com Rosa Maria. Manoel Jacintho casou com uma neta de Francisco Xavier de Sousa e Josefa Francisca da Costa, enquanto sua irmã Rosa casou com um filho desse último casal. A segunda dispensa, de afinidade lícita, poderia se dar por dois motivos. Em primeiro lugar, Rosa casou com o tio de sua cunhada Josefa Francisca Xavier Bezerra. Em segundo lugar, Rosa talvez fosse parente de Elísia, primeira esposa de Vicente Verdeixa.  Elísia era filha de José Alexandre Solino da Costa e Vicência Francisca de Aquilar Bezerra, ele filho de Antonio Barbosa da Costa e Claudiana Francisca Bezerra.
Sobre Francisco Xavier de Sousa, pai de José Marianno Xavier de Sousa e de Vicente Verdeixa Xavier de Sousa, não descobri nada de sua origem, mas pode ser descendente de um Francisco Xavier de Sousa, lá de Utinga. Por isso, acredito que Maria Rosa, esposa de João Miguel deveria ser parente de Josefa Francisca da Costa, mãe de Vicente e José Marianno. Esse Francisco Xavier de Sousa era ascendente do famoso fazendeiro Chico Sousa.
Rosa Maria faleceu e Vicente Verdeixa casou, pela terceira vez, em 1883. Já no caso de Manoel Jacintho quem faleceu foi sua esposa, e ele, então casou, em 17 de janeiro de 1869, na matriz, com Anna Maria da Conceição, filha de Miguel Francisco da Costa Machado e Anna Barbosa da Conceição, meus trisavós. Nesse caso, houve dispensa de consanguinidade e afinidade lícita. Manoel Jacintho era, portanto, parente de Anna Maria. Outro detalhe era que Anna era irmã de Francisca Rita, esposa de João Felippe da Trindade, irmão de Manoel Jacintho. Manoel Jacintho, faleceu novo, com a idade de 38 anos, em 9 de dezembro de 1871, e Dona Anna Maria, casou com Manoel Olímpio Dantas Cavalcanti, lá de Macau, filho de Manoel Dantas Cavalcante e Michaela Cândida Raposo da Câmara.
Nos registros de casamentos de Rosa e Manoel Jacintho constavam os nomes dos pais, e, por isso, foi fácil identificá-los como filhos de João Miguel e Rosa. Mas essa facilidade não ocorreu para os outros filhos do casal.
João Felippe da Trindade casou com Francisca Ritta Xavier da Costa, na matriz, em 8 de janeiro de 1851. O registro é pobre de informações, além de conter muitas abreviaturas. João Felippe morreu de mordedura de cobra, com 75 anos de idade em 15 de maio de 1895. Sua esposa, Francisca Ritta, cujos pais foram citados acima, faleceu em 24 de fevereiro de 1894. Somente descobri que João Felippe era filho de João Miguel da Trindade, por conta de uma listagem eleitoral. O tenente João Felippe foi o último intendente de Angicos do regime monárquico.
 Os outros filhos do casal, João Miguel e Maria Rosa, só foi possível encontrar, após análise de muitos registros. Falaremos sobre eles em outro artigo.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Considerações de Fábio Arruda sobre engenhos do Rio Grande do Norte

João Felipe,
Quanto aos Engenhos, não pairam dúvidas.
1)      Cunhaú;
2)      Utinga;

Engenho não tem nome, mas santo da invocação. Aliás, tudo em Portugal não tem nome, mas santo da invocação seguido de um acidente geográfico. Assim, temos:
a)     Cabo de Santo Agostinho;
b)    Nossa Senhora da Conceição de Itamaracá;
c)     Nossa Senhora do Rosário da Várzea;
d)    Santo Amaro de Jaboatão;
e)     Santa Luiza de Ipojuca;
f)      Nossa Senhora das Neves da Paraíba;
g)     Santa Maria Madalena da Alagoa do Sul (atual Marechal Deodoro); e por aí vai...

Do mesmo modo, Engenho era um lugarejo ou fazenda, tendo um santo de invocação. Esta é a regra portuguesa para Engenho.

Esta nomenclatura portuguesa, foi modificada pelos holandeses. Para fins de cobrança de tributos, os holandeses fizeram listas de Engenhos. Aos santos da invocação, os holandeses inseriram também um nome de acidente geográfico específico ao Engenho. Assim, como havia vários engenhos da mesma invocação e próximos aos mesmos RIOS, adotou-se a nomenclatura de acrescentar o RIACHO onde o Engenho se situava.

Assim, temos, por exemplo, o Engenho Pirapama – sob a invocação da Santa Apolônia (descrição holandesa). No entanto, não era assim o tratamento dado pelos portugueses. Para os portugueses, tratava-se apenas de Engenho da invocação Santa Apolônia.
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19) ENGENHO PIRAPAMA – sob a Invocação de Santa Apolônia
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“Notas Históricas e Curiosas” – Major Salvador Coelho de Albuquerque – pág. 248 do Vo. I
Auto de Demarcação que foi feita a Felipe Cavalcante no ano de 1588
‘Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil quinhentos e oitenta e oito anos, aos doze dias do mês de outubro do dito ano, fui, Escrivão das Datas e Demarcações desta Capitania, com João Rodrigues, dado por Demarcador, por o Demarcardor Aleixo Gonçalves estar doente, ao Engenho de Cristóvão Lins, da Invocação Santa Apolônia, que está situado na Ribeira de Arassuagipe (antigo nome do Riacho Pirapama), limites do Cabo de Santo Agostinho, Termo da Vila de Olinda, Capitania de Pernambuco, de que é Capitão e Governador o Senhor Jorge de Albuquerque Coelho, por El Rei, Nosso Senhor, e sendo no dito Engenho, por Felipe Cavalcante, morador na dita Vila, foi requerido ao dito Demarcador João Rodrigues e a mim Escrivão, demarcassemos-lhe uma légua de terra que lhe fora dada pelo Senhor Governador Duarte Coelho de Albuquerque, que está em glória, para o que mostrou uma Carta de Doação que lhe fizera o dito Senhor, que ao diante vai acostada, com a petição do Senhor Licenciado Martim Leitão, do Desembargo, há de ser do Desembargo de El Rei, Nosso Senhor, e seu Ouvidor-Geral, com alçada em todo este Estado do Brasil, que outrossim, adiante vai acostada, em que os mandasse lhe demarcássemos a dita terra, conforme a dita Carta do dito Felipe Cavalcante, e que sendo caso que lá viessem com alguns embargos, não deixassem a demarcação dita que naquela Carta se contém dar o dito Senhor Governador ao dito Felipe Cavalcante, uma légua de terra em quadro, pegado com terras de João Paes e ao longo da Ribeira de Arassuagipe (antigo nome do Riacho Pirapama), tanto de uma banda da dita Ribeira, como da outra, como mais largamente se contém na dita Carta e para cumprimento da dita Carta.

A invocação do Engenho diz, implicitamente, quem foi o fundador (SANTA APOLÔNIA). Veja que Cristóvão Lins era natural da POLÔNIA (parte da Alemanha), eis o motivo da invocação. Não é fácil descobrir o motivo da invocação, mas, certamente, o fundador tem uma intimamente relação com aquele Santo.

Voltando a questão do Engenho Utinga – sob a Invocação de Nossa Senhora do Socorro. Quando foi fundado, possivelmente, tinha esta invocação, a qual só foi possível identificar com os Livros de Igreja. A origem da nomenclatura Utinga, seguindo os critérios holandeses, deve haver algum acidente geográfico com este nome na localidade (possivelmente, trata-se de uma pequeno riacho às margens do Rio Potengi). Perceba que os holandeses afirmaram ser POTENGI, nome do acidente geográfico principal. Todavia, mais tarde, a localização específica (possivelmente RIACHO UTINGA) dará lugar a localização genérica POTENGI.

Ler o Processo do Padre Pedro Homem da Costa – Inquisição – Torre do Tombo!!!

Ferreiro Torto não me parece ser o nome antigo deste Engenho, mas, talvez, de alguma fazenda de boi fundada posteriormente na região. Este nome deve ter surgido bem depois da Guerra Holandesa, uma vez que não aparece nos Livros de Batismos!!! Qual o documento mais antigo conhecido que traz este nome Ferreiro Torto?

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165) ENGENHO UTINGA – sob a Invocação de Nossa Senhora do Socorro
(*) Localiza-se às margens do Rio Potengi no Rio Grande do Norte, chamado atualmente de “Utinguinha”. (livros de batismos)
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Denunciações e Confissões de Pernambuco – 1593 a 1595
Não identificado.

Relação de Engenhos de 1608 – Diogo de Campos Moreno
Não identificado.

Relatório de Servaes Carpentier - 14/01/1638:
ENGENHO POTENGI – decaído há longos anos, e diz-se que não tem terras capazes.

Relatório do Senhor Adriaen Van Der Dussen  - 04/04/1640:
ENGENHO POTENGI – está totalmente arruinado e abandonado.
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19/07/1692 – Sargento-Mor Antônio Gonçalves Ferreira
Fonte: Processo do Padre Pedro Homem da Costa - Inquisição
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Abçs
Fábio

terça-feira, 26 de julho de 2011

Rego Moleiro, Ferreiro Torto e Cidade Nova

Cidade Nova ou Amsterdam, segundo Marcgrave
Rego Moleiro, Ferreiro Torto e Cidade Nova
Muitas localidades desta Capitania do Rio Grande receberam nomes que desafiam nossos historiadores quanto as sua origens.
Quando examinamos o inventário de Domingos Affonso Ferreira vemos que algumas ilhas e sítios receberam nomes de pessoas que não sabemos quem elas eram ou quem colocou tais denominações. Estão lá, Ilha de Manoel Gonçalves, Ilha do Fernando, Ilha do Balthazar, Fazenda Cacimbas do Vianna e  Diogo Lopes. Quem foram essas pessoas que deram nomes a essas localidades?
Nos livros que tratam da presença dos holandeses aqui no Brasil, muitos são os nomes e as denominações, a maioria de origem indígena, mas outros tantos surgidos dos seus donos, como Rio Jan Stau (João Lostau), Sítio de João Lostau, Caminho de Garstman e Sítio de Magalhães.
Câmara Cascudo, em Velhas Figuras, escreveu, com data de 20/01/1859, que: Rego Moleiro, historicamente, não tem este nome. Chamava-se Rodrigo Moleiro. Deve ter sido o nome do sesmeiro inicial, batizador da terra na primeira metade do século XVIII.
Mais adiante informa: mudaram-lhe a denominação há quarenta e nove anos passados. Reuniu-se a Intendência Municipal de São Gonçalo em 20 de dezembro de 1910 em sessão cerimoniosa. Era Presidente da Intendência Estevão César Teixeira de Moura, o inesquecido "Coronel Estevão Moura, de São Gonçalo", e Intendentes Antonio Lucas de Sena, José Pereira Silva Flor, Pedro Xavier de Melo, Vicente Ferreira Fonseca e João Jorge de Sá. Deram ao povoado o predicamento de Povoação e o nome de Alberto Maranhão.
Diz ainda Cascudo que a lei não foi cumprida, pois ninguém chamava Alberto Maranhão, mas Rego Moleiro.
Alguns registros da Igreja trazem o nome de Rodrigo Moleiro, como se pode de ver do batismo seguinte: Antonia, filha natural de Florencia Maria, moradora no Rodrigo Molleiro, nasceu aos dez de novembro de mil oitocentos e dezenove, batizada pelo padre Manoel Fernandes, de licença minha, com os santos óleos a doze de dezembro do mesmo ano; foram padrinhos Miguel, cativo do tenente Alexandre Rodrigues, e Vicência Maria, ambos solteiros desta freguesia; do que fiz este assento no qual me assino. O vigário Francisco Antonio Lumachi de Mello.
No livro No rastro dos Flamengos, Olavo Medeiros escreveu, quando tratava do inquérito do assassinato de Jacob Rabbi: A casa de Muller ficava à margem direita do então riacho Guajaí (Água dos Caranguejos), entre os distritos de Igapó e Santo Antonio do Potengi. Dista cerca de 10,5km da matriz de Natal. Pelas referências holandesas, ficava a três léguas do forte Keulen, seguindo-se por via fluvial. A pé, levava-se cinco horas de caminhada do Portinho àquele forte. Continuando, escreveu Olavo, cremos que Dirck Muller fosse chamado pelos portugueses, de Rodrigo Moleiro (aliás, Muller significa Moleiro).
As notícias sobre os engenhos do Rio Grande da época dos holandeses são divergentes: uma hora se fala em Cunhaú e Ferreiro Torto, noutra em Cunháu e Utinga, e mais uma outra em Cunhaú e Potengi. Um dos primeiros massacres aqui praticado pelos holandeses foi no Engenho de Francisco Coelho, para uns o Engenho Potengi, para outros o Engenho Ferreiro Torto.
Outra confusão grande surge quando se fala em Nova Amsterdam, Natal e Cidade Nova.
Grande parte do trabalho de Olavo de Medeiros Filho foi localizar, nos mapas de hoje, aqueles sítios históricos palcos de diversos acontecimentos da nossa história. Foi um trabalho grandioso, pois Olavo esteve nos mais diversos locais, mediu, fotografou e deixou as suas hipóteses sobre cada um deles.
Sobre Cidade Nova escreveu: no Relatório do Príncipe Maurício de Nassau ao Conselho dos XIX a 14 de janeiro de 1638, dá-se conta do propósito de formar-se uma outra cidade, em substituição a Natal: "Tem somente um cidade denominada Natal, sita a légua e meia do Castelo Keulen, rio acima, a qual agora se acha mui decaída. A Câmara desta Capitania está em Potingi com licença de S. Exc, e dos Supremos Conselheiros, trabalhando por agregar aí uma população que dê começo a uma cidade; dará aí suas audiências, e para esse fim levantará uma casa pública, contribuindo os moradores cada um  conforme suas posses"
Em seguida escreve Olavo – O chamado Relatório Dussen, de 10 de dezembro de 1639, refere-se novamente ao assunto da criação de uma nova cidade: "Já teve uma cidadezinha chamada Cidade do Natal, situada a uma légua e meia do Castelo Keulen, rio acima, mas está totalmente arruinada, pelo que foi consentido aos escabinos e moradores levantar uma nova cidade em Potigi, pois é lugar fértil e melhor situado para os seus habitantes. Deverão construir de inicio um Paço da Câmara para aí terem o seu tribunal de justiça".
Depois de outras referências, ele escreveu; a localização da Cidade Nova ou Amsterdam, apontada por Marcgrave, fica precisamente em terras hoje ocupadas pelo Colégio Agrícola de Jundiaí, a apenas 2 km de Macaíba, na direção sul.
Há no livro Sesmarias do Rio Grande do Norte, vol. 6, o registro de uma data de Sesmaria, com muitas partes ilegíveis e ementa com vários equívocos, onde se conclui que: Em 6 de Novembro de 1709, André Nogueira da Costa, capitão-mor da Capitania do Rio Grande concedeu carta de data de sesmarias a Ignácio Pereira de Albuquerque, Theodósia de Oliveira e Manoel Rodrigues. Pelo que se depreende do documento, as terras foram concedidas anteriormente a Theodosio da Rocha, sua filha Theodosia Oliveira, ao capitão João Leite Oliveira, Domingos Rodrigues Correia, Maria da Conceição e Clara da Costa.
Em uma parte desse documento está escrito: Ferreiro Torto da Cidade Nova da Capitania do Rio Grande. 1º de Novembro de 1709. Christovão Soares Reimão. Portanto, pelo documento acima o Ferreiro Torto estava encravado dentro da Cidade Nova, também conhecida por Amsterdam segundo Olavo.
Para concluir, sugiro que o Patrimônio Histórico do Estado do Rio Grande do Norte, em convênio com as nossas Universidades e outros órgãos públicos ou privados, mapeiem toda a nossa área histórica e instalem marcos nessas localidades

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Joris Garstman e o assassinato de Jacob Rabbi (III)

Joris Garstman e o assassinato de Jacob Rabbi (III)

O inquérito sobre o assassinato de Jacob Rabbi, se por um lado traz muitos detalhes fornecidos pelos depoentes, por outro não é esclarecedor do motivo real daquela execução. Olavo de Medeiros no seu livro, No rastro dos flamengos, sintetiza com muita propriedade e comentários todos os depoimentos. Pena que entre esses depoimentos não existam o de Joris Garstman e o de Jacob (ou Jacques) de Bolan, principais acusados. Vejamos algumas passagens de alguns desses depoimentos.
Vamos começar com Roulox Baro, que segundo Morisot, foi enviado, quando criança, ao Brasil, na frota das Índias Ocidentais, que partiu da Holanda, em 1617. Substituiu Rabbi junto aos tapuias, como ele conta em seu Relação da viagem aos pais dos tapuias.Roulox Baro era um dos participantes do jantar na casa de Dirck Muller, no dia do assassinato, 4 de abril de 1646 (e não 5 como relata Nieuhof), e,por isso, foi chamado a depor.
No começo do seu depoimento disse que: pouco antes de ter vindo do Recife aqui (Rio Grande), com o Sr. Pieter Bas, esteve em casa do tenente-coronel Garstman, em Mauristsstad (Cidade Maurícia). No decurso de uma conversação que teve com o primeiro, a propósito dos Tapuios e de Jacob Rabbi, o dito Pieter Bas contou-lhe, entre outras coisas, que Jacob Rabbi, encarregado de dar algumas mercadorias, à guiza de presente, aos Tapuias, por parte da Nobre Companhia, as tinha desviado em proveito próprio. O tenente-coronel, que nesta noite estava um pouco ébrio, respondeu que o mundo nada perderia se se desembaraçassem de semelhante canalha.
Disse mais Baro que Joris Garstman perguntou a ele se queria disso incumbir-se. Baro respondeu que se o tenente-coronel lhe desse ordem formal, e devendo esta ordem emanar dos senhores do Alto Conselho Secreto, que neste caso ele não hesitaria em obedecer e executar a ordem de Garstman. Mas, este se absteve de dar esta ordem, e como Baro não ignorava que Garstman tinha ódio velho a Jacob Rabbi, o que todo o mundo sabe, e que, obedecendo ao incitamento, poria em risco a segurança pública em toda a capitania, o depoente teve escrúpulo em realizar o atentado, e igualmente se absteve, pela mesma razão, de informar a Jacob Rabbbi.
Contou Baro que ouviu os dois tiros que derrubaram Jacob Rabbi. Ele tinha saído da casa de Dirck Muller para procurar o seu cavalo. Entretanto, encontrou com Jacob Bolan acompanhado de três ou quatro soldados, dizendo para que não ficasse ninguém por lá, por ordem de Garstman, e assim foi arrastado por Bolan até a casa do tenente-coronel, sem deixar tempo de ir buscar o seu cavalo, e, por isso, chegou a pé até a casa de Garstman.
O dono da casa, Dirck Muller, contou que o tenente-coronel Garstman e vários outros amigos dele, foram vê-lo em sua casa. Quando eles já estavam ceando, chegou Jacob Rabbi, que tendo sido convidado várias vezes pelo tenente-coronel a ir ter com ele, fora à sua casa (Gartsman estava hospedado no Forte Keulen), e tendo sabido ali que este partira a cavalo para ir à casa dele, Muller, viera procurá-lo ali a fim de se informar do objeto de seu convite.O tenente-coronel lhe dera as boas vindas, e o convidara a sentar-se e a tomar parte na ceia.
Conta mais Dirck que quando soube da morte de Rabbi, saiu, acompanhado dos convivas e guiado pelo negro que o avisou, até onde estava o cadáver, deformado por vários golpes de espada no rosto, na cabeça, e no braço direito. Disse mais que uma bala penetrara–lhe do lado esquerdo do corpo e outra varara-lhe o lado direito abaixo das costelas falsas. Pela manhã foi providenciado o enterro na presença de Willem Beckx e de alguns homens e mulheres.
Esse Willem Becx, morador na Capitania do Rio Grande, declarou no seu depoimento que sendo ele, na época do que se trata, secretário do tenente-coronel Garstman, assistiu há alguns meses, na casa deste último, aos fatos seguinte: o dito tenente-coronel ali ordenara a Willem Jansen, ex-alferes das tropas desta Capitania, que cometesse um atentando contra a vida de Jacob Rabbi.
O depoente Johannes Honck, Bailio (magistrado provincial) desta Capitania do Rio Grande, que também esteve no jantar na casa de Dirck Muller, conta em seu depoimento que não soubera da presença de Jacob Rabbi, pois fora dormir por duas ou três horas, antes de voltar para casa. Ouvira os tiros, mas foi informado por Bolan que o inimigo estava ali emboscado. Em um trecho do seu depoimento relata que no dia oito de abril soubera que o tenente-coronel tinha chegado ao forte, de volta da casa de João Lostau (este tinha sido assassinado em 1645).
Quem comandava o forte Keulen, nessa época, era Johannes Blaenbeeck, capitão de uma companhia de infantaria. Ele, no seu depoimento, contou que somente soube a notícia do assassinato de Jacob Rabbi, no dia seguinte, pela boca do bailio Johannes Honck, que veio pedir-lhe o auxílio de alguns soldados, a fim de ir, à casa da viúva de Jacob Rabbi (a índia Domingas), fazer um inquérito sobre os bens do defunto. Contou mais que as arcas de Jacob Rabbi, que estavam no forte Keulen foram abertas, por ordem de Garstman, que determinou a ele fazer a partilha entre os presentes, tendo o tenente-coronel ficado com duas libras de prata.
O secretário do tenente-coronel Garstman, Abrahão de Rouff, que também esteve no jantar na casa de Dirck Muller, declarou, entre outras coisas, que encontrara Jacques (Jacob) Bolan, no dia que partira para Recife, e que tinha ouvido o mesmo vangloriar-se de haver dado em Jacob Rabbi alguns golpes de sabre em pleno rosto e mostrou ainda um anel que dizia ter tirado do dedo da vítima.
O que mais estranho nesses depoimentos e relatos, aqui expostos nesses três artigos, é que não há qualquer citação, dando conta que João Lostau de Navarro fosse o sogro de Joris Garstman, e tampouco é citado o nome do sogro de Joris Garstman que foi assassinado por Rabbi.

Joris Garstman e o assassinato de Jacob Rabbi (II)

Joris Garstman e o assassinato de Jacob Rabbi (II)

Câmara Cascudo em artigo no O livro das Velhas Figuras, volume 3, diz ter conhecido, pessoalmente,  Candido Freire de Alustau Navarro, filho do Professor Manoel Laurentino Freire de Alustau, neto de Antonio Freire de Amorim Navarro, bisneto de Manoel Pereira da Costa Guimarães, trineto do velho João Lostau de Navarro. Em outro artigo sobre Jacob Rabbi, nesse mesmo livro, escreveu que no massacre em Cunhaú, queimaram o engenho e mataram o sogro do Coronel Garstman, talvez gerente da propriedade, que tinha como  um dos sócios o próprio Garstman. Diferentemente de Hélio Galvão, Cascudo não pensou em Garstman como genro de João Lostau. Hélio escreveu que Beatriz Lostau Casa Maior era filha do velho Lostau e esposa de Joris Garstman.
Joan Nieuhof, no livro já citado anteriormente, dá conta da ordem de prisão para várias pessoas suspeitas de conivência na conspiração contra os holandeses, citando, da Capitania do Rio Grande, tão somente João Lostau de Navarro, no ano de 1645, sem destacar qualquer relação dele com Garstman.
Pierre Moreau, dando sequencia às informações sobre o assassinato de Jacob Rabbi, escreveu: logo que Janduí e todos os seus principais amigos souberam desta morte, solicitaram a entrega de Joris Garstman para que eles próprios o justiçassem, por ter matado um de seus chefes; o conhecimento do fato, caso Garstman fosse culpado, lhes pertencia, de acordo com o privilégio que lhes tinha sido outorgado pelos Estados Gerais e a Companhia das Índias, de somente eles serem juízes dos criminosos de sua nação. Jacob Rabbi não podia ser acusado de coisa alguma e jamais traíra o país. Quanto ao assassinato do sogro de Garstman, este é que dera o motivo, como todos sabiam bem; quanto aos seus roubos e furtos, se ele tinha tomado gado, era somente para viver, pois não era razoável que ele e sua gente morressem de fome quando lhes era recusado comida. Se tomara instrumentos de ferro, era para servir-se deles no campo, a serviço dos próprios holandeses, aos quais os tapuias jamais tinham pedido soldo, e pelos quais muitas vezes se tinham exposto. Quanto ao ouro e à prata, nada tinham a fazer deles e teriam mandado entregá-los se lhe tivessem falado nisso. Em todo caso, se Jacob Rabbi tivesse de ser castigado, devia-se ter seguido o costume dos holandeses; em vez disso tinham-no assassinado, quando poderiam facilmente mandar prendê-lo. Gostavam dele mais que cem outros; apesar disso agradava-lhes ser sempre amigos dos holandeses, mas faziam questão de obter Garstman para matá-lo.
Os senhores lhes responderam que Garstman era oficial superior e não tinham o poder de entregá-lo, nem mesmo condená-lo à morte soberanamente, a não ser por crime de Estado; do seu julgamento havia apelação para os Dezenove, sendo preciso ouvir Garstman antes de condená-lo; mas podiam ficar certos de que se faria boa justiça àqueles que tinham matado Jacob Rabbi, fato que lhes trouxera muito descontentamento. E, para mostrar-lhes que manteriam sua palavra, mandaram vir Garstman, que foi encarcerado em sua presença, e os senhores do Conselho disseram aos Políticos que desejavam participar do conhecimento dessa questão. Os delegados dos tapuias, no entanto, voltaram descontentes para os seus, por lhes ter sido recusado Garstman, e disseram, ao partir, que os holandeses se arrependeriam.
Segundo ainda Pierre Moreau, no seu relato, Garstman foi depois interrogado, negou ter matado ou mandado matar Jacob Rabbi, acusou dois soldados da sua companhia, que tinham sido os instrumentos; estes foram tão apertados que confessaram o crime, dizendo ter sido mandados por Jacques Boulan, seu alferes. Boulan foi igualmente preso, e confessou que cumprira ordem de Garstman, seu capitão e general; este, acareado, negou tudo redondamente e disse a Boulan que ele era um impostor. Os dois soldados, mediante a confissão de Boulan, que os tinha eximido de culpa, foram soltos; os outros dois continuaram presos. Enquanto os Juízes debatiam esta delicada questão esperando alguma prova certa de qual desses dois devia ser acreditado, Garstman dizia que um oficial poderia assim imputar ao seu general a autoria de seus crimes; Boulan, ao contrario, alegava que um general, abusando de sua autoridade, faria depender dele a vida e a morte de seu oficial, empregando-o em vingar o seu ódio sob algum pretexto especioso de guerra e quitando-se depois pela negativa; se tivesse recusado a cumprir ordem seria demitido e proclamado poltrão; de outro modo seria preciso introduzir tabeliões e testemunhas para lavrar as atas das ordens, mandados secretos e outros que se dão num exército. Afinal, foi descoberto que Garstman e Boulan se tinham mancomunado para mandar matar Jacob Rabbi, e tinham divido a presa. Confiscaram-se todos os seus bens e soldos e eles foram demitidos de seus cargos, banidos do Brasil e reenviados à Holanda como schelmes, isto é, como pessoas indignas.
O Sebo Vermelho, de Abimael Silva, publicou Um interprete dos Tapuios, de Alfredo Carvalho, que contém o inquérito sobre o assassinato de Jacob Rabbi.
Visitem o blog do Instituto de Genealogia: www.genealogiadorn.com.br

terça-feira, 12 de julho de 2011

Nova Amsterdam e o Forte Keulen

Nova Amsterdam e o Forte Keulen
Natal e Nova Amsterdam eram duas localidades diferentes na Capitania do Rio Grande, como se pode ver abaixo e conforme alguns de nossos historiadores.
Quando Joan Nieuhof, que viveu aqui de 1640 até 1649, servindo os holandeses,  descreveu sobre a Capitania do Rio Grande, no seu livro Memorável viagem marítima e terrestre ao Brasil: acima do Rio (Potengi), há uma cidade de pequena importância, denominada Amsterdam. Seus habitantes vivem da pesca, da produção de farinha e do plantio de fumo. Mais ao norte vivem alguns camponeses que se ocupam em cultivar a terra; entretanto, a região que se estende ao norte do Rio Grande é apenas escassamente habitada.
Sobre o Rio Potengi, escreveu:
O Rio Grande, assim chamado pelos portugueses devido ao seu considerável volume, é conhecido entre os naturais pelo nome de Potengi e tem a sua foz a 5º e 42' de latitude sul, ou sejam três milhas de Ponta Negra, para quem vem da parte ocidental do continente. Desemboca quatro milhas acima do Forte Keulen, conhecido pelos portugueses de Três Reis, e seu estuário pode abrigar navios de grande calado. Já o rio Cunhaú só é navegável por barcas e pequenos navios. As baías que se encontram nesta Capitania são: Baía Formosa, Ponta Negra, Ponta de Pipas e a Baía de Tijssens. A Baía de Ginepabu fica ao norte, além de um rio denominado Guasiavi, junto à qual se ergue a vila Atape Wappa. Ainda um pouco mais ao norte encontra-se o rio Ceará-Mirim, e perto da Aldeia de Natal e do forte dos Reis, passa um rio conhecido por Rio da Cruz que nasce de um pequeno lago no Rio Grande. Em frente ao mesmo forte um riacho aflue para o Rio Grande, entre dois bancos de terra, e não muito distante dalí, encontra-se ainda outro rio de água salgada.
Sobre o Forte dos Três Reis escreveu:
O Forte Keulen era um quadrilátero construído sobre rocha, ou melhor, sobre a ponta de um recife, a alguma distância da praia, de fronte à foz do rio Recife. Inteiramente cercado de água, na preamar, não se podia atingí-lo senão embarcado. Há, no centro desse forte, uma capelinha, onde, em 1645 ou 1646,  os holandeses descobriram um poço de cerca de meio pé de diâmetro na boca e três no fundo, aberto na rocha viva, por onde afluía água doce  e fresca todas as marés altas. Nas marés comuns dava cerca de 255 potes de água potável mas, nas de plenilúnio, chegava a dar 350, suprimento esse mais que suficiente para consumo da guarnição em caso de sítio. O forte é construído de blocos de pedra e defendido, do lado da praia, por dois meios baluartes em forma de corna. Em 1646 sua artilharia constava de 29 peças de bronze e de ferro. Dispunha também de bom paiol e confortáveis alojamentos para a soldadesca.
Continuando sua descrição, escreveu: Este forte foi capturado pelos holandeses sob o comando de Mathias van Keulen um dos governadores da Companhia, o qual foi auxiliado por vários capitães de valor, tais como  Byma, Kloppenburgh, Lichthart, Garstman e Masnfelt. Van Keulen para lá se dirigiu à frente de 808 homens embarcados em 4 navios e 7 iates. Keulen apoderou-se, não apenas do forte, mas, ainda de toda a Capitania. Foi então que a velha fortaleza de Três Reis passou a chamar-se forte Keulen, em homenagem aos chefe da expedição.
O livro de Nieuhof está disponível em submarino. USP.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Joris Garstman e o assassinato de Jacob Rabbi (I)

Sítio de João Lostau de Navarro, Margrave
Joris Garstman e o assassinato de Jacob Rabbi (I)
João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor de Matemática da UFRN e membro do INRG
Jacob Rabbi era uma dessas pessoas que muitos governantes gostam, bajulador e ideal para serviços sujos. Fazia esse papel tanto para os líderes indígenas como para o alto poder dos holandeses no Brasil. Sua vida está irremediavelmente ligada à história do Rio Grande do Norte, principalmente, pelos massacres de Uruaçu e Cunhaú. O motivo do seu assassinato, não está ainda de todo esclarecido.
Neste artigo e nos próximos que tratam do assassinato de Jacob e do inquérito instalado contra Garstman, vamos apresentar trechos extraídos dos livros de Joan Nieuof, Pierre Moreau, Roulox Baro e de Alfredo Carvalho
Joan Nieuhof, que viveu mais de 8 anos no Brasil prestando serviços a Companhia das Índias Ocidentais,  em seu Memorável Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil, escreveu: À meia noite de 5 de Abril de 1646, Jacob Rabbi foi traiçoeiramente assassinado com dois tiros, perto de Potengi, a cerca de três horas do Castelo Potengi por instigação do tenente-coronel Garstman, quando regressava da casa de uma tal Jan Muller (Dirck Muller), onde fora recebido essa noite em companhia daquele oficial. Conforme revelara a amigos seus, havia já tempo que Rabbi suspeitava da traição de Garstman e, justamente por esse motivo, estava de partida para o Rio Grande a fim de se refugiar entre os tapuias. O Conselho chocou-se profundamente com essa vilania, porque Jacob Rabbi era casado com uma brasileira (índia) e gozava de grande estima entre os tapuias, sendo, pois, de se recear que o crime fizesse com que tanto os tapuias como os brasileiros se revoltassem contra nós. Por causa disso, Garstman foi preso sob custódia, por ordem dos Altos Comissários da Justiça e Finanças aos 24 de abril e foi conduzido ao navio Hollanddia.
Mais adiante diz Nieuhof: Jacob Rabbi, outrora, fora encarregado de estar no meio dos tapuias, comissionado pela Companhia, para manter os tapuias em amizade e boas disposições para com este governo; assim como ele já os tinha, por várias vezes, conduzido das montanhas (onde eles habitavam), em nosso auxílio. Ele morava no Rio Grande, no forte Keulen, e era casado com uma brasileira (índia), embora fosse de ascendência alemã. Garstman voltou ao Recife no dia 19 e relatou aos Altos Comissários os seus feitos.
Em outro trecho escreveu Nieuhof: enquanto isso, os tapuias, exasperados pelo assassínio de seu comandante, Jacob Rabbi, abandonaram-nos. O Conselho fez o que pôde para os acalmar aprisionando e desterrando Garstman, o autor do delito e confiscando seus haveres. Contudo não se conseguiu persuadir os tapuias que se reunissem a nós como antes.
Embora, no seu livro, Nieuhof cite João Lostau, seu sítio, sua prisão e a casa, do dito Lostau, que foi quartel general dos holandeses, nesse relato acima não fez nenhuma referência a qualquer parentesco do mesmo com Garstman. Em nenhum momento do seu relato diz alguma coisa sobre a esposa de Garstman.
Pierre Moreau, que viveu por aqui, apenas dois anos, como secretário de um dos Senhores do Conselho de Estado, escolhido para vir governar o Brasil Holandês, escreveu em História das últimas lutas no Brasil entre holandeses e portugueses: A primeira notícia que lhes foi trazida foi a de que maior parte dos tapuias e brasilianos, que sempre tinham sido aliados dos holandeses e combatido a seu serviço, os haviam abandonado e adotado o partido de seus inimigos, por ódio àquilo que Joris Garstman, general da milícia, fizera seis meses antes, mandando matar o alemão Jacob Rabbi; este homem intrépido de tal forma se adaptara a estes selvagens em seus costumes e modo de viver, que se tornara como se fosse um deles,  e estes de tal modo a ele se afeiçoaram, que o fizeram um dos seus principais capitães. Segundo os amigos de Garstman, o motivo pelo qual este mandara matar Jacob Rabbi devia ser atribuído ao ressentimento pela morte e assassinato do pai de sua mulher, cometido por Jacob Rabbi. Este escolhia os piores tapuias e com eles efetuava diversas pilhagens no país: sua morte, pois, diziam só apresentava vantagens para o público, e Garstman fizera muito bem em vingar a morte de seu sogro, tirando do mundo um ladrão que cem vezes merecia o suplício; em todo caso, tratava-se apenas de uma formalidade para puni-lo, porque ele devia mesmo ser condenado. Os que conheciam particularmente Garstman e podiam julgar as suas ações sustentavam que outros tinham sido os seus motivos: sabendo que Jacob Rabbi reunira, com o fruto de seus roubos, uma rica presa e a escondera em lugar que ele bem conhecia, mandara matá-lo para disso tirar proveito; e, com efeito, encontraram-se em seu poder algumas jóias, reconhecidas por aqueles que Jacob Rabbi tinha roubado.
No registro de Pierre Moreau, embora haja referência ao sogro de Garstman, não há menção ao nome do velho João Lostau. Essa informação que João Lostau era sogro de Garstman, tanto é defendida por Hélio Galvão, em seu livro História da Fortaleza da Barra do Rio Grande, como por Olavo Medeiros Filho no livro No Rastro dos Flamengos.
Nos próximos artigos daremos sequencia a este assunto.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Coronel Gonçalo Frere de Amorim

Coronel Gonçalo Freyre de Amorim
João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN e membro do IHGRN e do INRG
Os Freire de Amorim começam a aparecer nos registros da Igreja, aqui do Rio Grande do Norte, no começo do século XVIII. O capitão Teodósio Freire de Amorim foi padrinho de dois filhos do capitão Antonio Dias Pereira e Maria Gomes, como também de Catarina, em 1704, filha de Domingos da  Silveira e Catarina de Amorim. Pelo que se observa nesses registros, ele deveria ser solteiro na época e, talvez, irmão de Maria Gomes e Catarina Amorim. Em 1727, encontramos um registro onde aparece como esposa do já Coronel Teodósio Freire de Amorim, Dona Damásia Gomes da Câmara.
Uma filha de Teodósio e Damásia, de nome Antonia Freire de Amorim, casou, em 1741, com Manoel de Araújo Correa, filho de Salvador de Araújo Correa e Izabel Rodrigues Santiago, povo lá de Utinga.
Entre os registros do início do século XVIII, encontramos os seguintes batismos, de filhos de Domingos da Silveira e Catarina Amorim, além do já citado de Catarina: Estevão, em 1702, tendo como padrinhos o capitão Gaspar Freire de Carvalho (filho do sargento-mor Manoel da Silva Queiroz) e Maria Gomes, mulher do capitão Antonio Dias Pereira; José, em 1708, tendo como padrinhos o sargento-mor Manoel da Silva Queiroz e Capitão Antonio Dias Pereira
Anna da Silveira, outra filha de Domingos da Silveira e Catarina Amorim, casou, em 1735, com Sebastião Dantas Correa, filho dos portugueses de Ponta de Lima, José Dantas Correa e Izabel Pimenta da Costa. Esse Sebastião deve ser um dos irmãos de Caetano Dantas Correa, lá do Seridó.
 Mas, um dos personagens que aparece, posteriormente, em diversos registros da Igreja, é o Coronel Gonçalo Freire de Amorim, também, filho de Domingos e Catarina, citados acima. Um dos padrinhos de Inácia, filha de Antonio Dias Pereira e Maria Gomes, em 14/08/1711, chamava-se Gonçalo Freire. Entretanto, ele só aparece uma vez nesse livro de registro. Talvez fosse irmão de Teodósio. Não deve ser o filho de Domingos.
 Em um registro de assentamento de praça, encontramos: Gonçalo Freire da Silveira, filho do capitão Domingos da Silveira, natural desta Capitania do Rio Grande, de idade de dezesseis anos, pouco mais ou menos, mediana estatura, cor trigueira, cabelo acastanhado, e corredio, cara comprida, olhos pequenos e pretos, senta praça nesta companhia do capitão Matheus Mendes Pereira, por sua vontade e mandado do Governador e Capitão General de Pernambuco, Duarte Sodré Pereira Tibao e Vedor Geral, o capitão Domingos da Silveira, em treze de novembro de 1732.
Em sete de maio de mil setecentos e quarenta e oito ano, pela novas ou dez horas, pouco mais ou menos, na presença do capitão Francisco Diniz da Penha e do capitão Angelo Ferreira da Rocha, o Reverendo João Gomes Freire (devia ser da família de Gonçalo) casou o tenente Gonçalo Freire, filho de Domingos da Silveira e Catarina de Amorim, na época defunta, com Izabel Francisca Rodrigues, exposta na casa do padre Domingos Rodrigues Tilloens.
Dona Izabel Francisca Rodrigues faleceu em cinco de dezembro de 1761, com a idade de 34 anos, pouco mais ou menos. Na época, Gonçalo era Coronel.
Um assentamento de praça dá notícia de um filho do Coronel Gonçalo com mesmo nome do pai: Gonçalo Freire de Amorim, filho do Coronel Gonçalo Freire de Amorim, da cidade do Natal, branco, casado e morador nesta Ribeira do Assu, estatura ordinária, seco de corpo, olhos encovados, cabelo corredio, de idade de trinta e um anos, assentou praça em revista de 27 de julho de mil setecentos e oitenta e nove. Ele deve ter nascido por volta de 1758.
Catherina Freire de Amorim, filha de Gonçalo e Izabel, casou com Pascoal Gomes de Lima, filho de Hipólito de Sá Bezerra, português de Vianna, e Joanna Bezerra de Albuquerque e, em 21/7/1875, batizou o filho Hipólito, sendo padrinhos José de Araújo Pereira e Izabel Gomes. Em 1/6/1780, batizou Gonçalo Freire de Amorim, mesmo nome do avô. Este Gonçalo casou em 7/02/1802, com Maria Freire de Amorim, filho de José Correa de Sousa e Izabel Francisca Rodrigues
 Manoella Freire de Amorim, outra filha de Gonçalo e Izabel,  casou com João Pedro de Sá Bezerra, filho de Hipólito de Sá Bezerra e Joanna Bezerra de Albuquerque e, em 2/6/1875, batizou Domingos.
Outro filho de Izabel e Gonçalo que aparece com frequência nos registros é Domingos Rodrigues da Silveira. Ele foi casado com Joanna Maria Bezerra, filha de Antonio José de Lemos (Porto Calvo) e Anna Maria Bezerra.  Domingos e Joana tiveram duas filhas com nome de Catarina, uma nascida em 1779 e outra em 1783. Uma delas, de nome Catarina Francisca Amorim, casou, em 24/04/1805, com Antonio Fernandes da Costa, filha de Manoel Fernandes da Costa e Anna Gomes.  Em 1776, nasceu Claudia, batizada no mesmo ano e tendo com padrinhos os avós, de cada lado, Gonçalo Freire de Amorim e D. Anna Maria Bezerra. Uma filha de Domingos Rodrigues  e Joana, que teve o nome da avó Izabel Francisca Rodrigues, casou, em 2/10/1802, com José da Silva, filho de José Rabelo Leão e Bernarda de Santa Rosa.
Em 23 de novembro de mil oitocentos e trinta e quatro, lá na Fazenda Saco, da Freguesia de Santa Ana do Matos, João Freire de Amorim casou com dona Damásia Lopes Viegas. Ele filho de Gonçalo Freire de Amorim e Josefa Francisca da Costa, falecidos; ela filha de Guilherme Lopes Viegas e Izabel Maria da Conceição, falecida. Esse Gonçalo não consegui identificar dentro da cadeia genealógica dos Freire de Amorim, por conta das repetições constantes que aparecem nas descendências. Talvez seja o que sentou praça no Assú,  em 1789, filho do coronel Gonçalo Freire de Amorim e neto de Domingos da Silveira. Essa Damásia era neta do fundador de Angicos, tenente Antonio Lopes Viegas, e tinha o mesmo nome de uma tia que morreu solteira.

domingo, 19 de junho de 2011

A partida de Bartola

A partida de Bartola
João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN e membro do IHGRN e do INRG
Na caixa de entrada de e-mail, verifiquei que as mensagens enviadas para Bartola estavam voltando. Nos detalhes a mensagem de quota excedida. Quando isso aconteceu em ano anterior era pelo fato dele está internado. Fiquei preocupado. Na quinta-feira, quando da palestra de Genealogia de Clotilde Tavares, Ormuz me informava que recebeu notícia de Verônica dando conta que nosso amigo estava na UTI.
Na sexta-feira, fomos Graça e eu fazer uma visita. A situação dele era irreversível.
Conheci José Bartolomeu Correia de Melo no Colégio Marista. Depois soube dos meus familiares que ele ainda era nosso parente através da mãe, Dona Gracilde. Fui para o Atheneu, o tempo foi passando e voltamos a nos encontrar na Universidade, ele no Departamento de Química e eu no Departamento de Matemática. Convivemos sem conversar sobre o nosso parentesco até a data em que comecei a fazer minhas pesquisas genealógicas, depois que saí da Universidade.
Sentamos várias vezes para descobrir como se dava esse parentesco.  Começamos pelos parentes comuns. E, como em muitos casos, lá estavam o Capitão J. da Penha, Dr. Téodulo Avelino e o Senador Georgino. Embora esse trio se repetisse, entre muitos com quem conversei, ninguém sabia como se dava esse parentesco. Duas pistas Bartola me deu: sua avó se chamava Claudiana e a bisavó Conceição. Claudiana era um nome que se repetia na família dos Avelino: era o nome da esposa do cadete José Avelino, e também da avó dessa última, a esposa de Antonio Barbosa, ambas Claudiana Francisca Bezerra. Desconfio que esse Bezerra que apareceu na nossa família venha dos Rocha Bezerra.
Depois que descobri os nomes dos irmãos do meu bisavô Francisco Avelino da Costa Bezerra, comecei a descer, a partir deles, em busca dos elos com os parentes contemporâneos.
Pois bem, Maria da Conceição da Costa Bezerra, irmã de meu bisavô, mãe de Claudiana e bisavó de Bartola, nasceu em 17/01/1862, filha de Alexandre Avelino da Costa Martins e sua esposa Anna Francisca Bezerra, neta paterna de Vicente Ferreira da Costa e Mello do O’ e Joaquina Maria do Rosário, e materna do tenente-coronel Antonio Francisco Bezerra da Costa e Dona Agostinha Monteiro de Sousa.
Maria da Conceição casou, em 17/01/1882, lá no Sítio Carapebas, com dispensa de consanguinidade, com Antonio Machado Alves Bezerra, filho de Vicente Machado de Aquilar Bezerra e Ignácia Francisca Bezerra.
Claudiana, avó de Bartola, nasceu em 25/02/1884, e foi batizada no Sítio Curral dos Padres, em 13/04/1884, tendo como padrinhos os avós, de cada lado, Vicente Machado de Aquilar Bezerra e Anna Francisca Bezerra. Francisco Alves Machado, pai de Monsenhor Lucilo Machado, era irmão de Claudiana.
Bartola faleceu sábado, 18 de Junho de 2011. Estive no seu velório. Lá conversei um tempo com o irmão de Bartola, Paulo de Tarso Correa de Mello, sobre nossos parentes. Disse Paulo que quando nasceu a família queria acrescentar, ao seu nome, os sobrenomes Aquilar e Viégas, o que não prevaleceu.
Dona Claudiana, avó de Bartola, era casada com João Evangelista de Oliveira Correia, filho do português Lourenço José de Oliveira Correa e Dona Maria José Pinto. João e Claudiana geraram Gracilde Correa de Melo que era casada com João José de Melo. Desse último casal nasceram José Bartolomeu, Paulo de Tarso e Geraldo José Correia de Melo. Bartola era casada com Verônica Marques Correa de Melo, sua colega do Departamento de Química da UFRN. São filhos deles Anna Cláudia Marques Correia de Melo Mendes de Sousa, Brenno Luiz Marques Correia de Melo e Ruthe Helenna Marques de Melo Nunes Gurgel. Desses filhos já tinham 5 netos.
Ainda, segundo José Bartolomeu, comentando artigo sobre Utinga, Dona Idalina Jacinta Emerenciano, irmã de José Ildefonso Emerenciano, era sua bisavó. Esse parentesco deveria ser através do seu pai João José de Melo. Nesse mesmo comentário, escreveu:
“Uma reforma ortográfica ocorrida nos anos trinta (34 ou 37?) fez com que alguns tabeliães, por excesso de zelo reformista, modificassem até nomes e sobrenomes, passando a grafar CORREIA ao invés de CORRÊA, o mesmo acontecendo com MELO em vez de MELLO. (Essa mudança, aqui-acolá, já ocorria, por via contrária dos tabeliães analfabetos). Assim, segundo as certidões de nascimento (de antes da dita reforma), meu pai era Mello e minha mãe Corrêa. Eu, nascido depois, já neto-pobre, me chamei Bartolomeu e não Bartholomeu; por isso, sempre brinco, dizendo que Corrêa de Mello é nome nobre e Correia de Melo nome de pobre. Bartola.”
Quando escrevi meu livro, Servatis ex more servandis,  Bartola fez a primeira ordenação em capítulos, e me encaminhou para a Editora da UFRN, onde não foi possível editar o livro por questão de tempo.

Bartola partiu em pleno auge de sua produção literária. Um grande escritor!

quarta-feira, 15 de junho de 2011

As recomendações do Cônego Fernandes

As recomendações do Cônego Fernandes
João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor de Matemática da UFRN e membro do INRG
São muitas as dificuldades que se apresentam para os pesquisadores genealógicos. Entre elas podemos citar a forma como os registros da Igreja Católica eram feitos. Em muitos desses registros faltavam informações importantes como, por exemplo, nos casamentos, onde algumas vezes ocultavam os nomes dos pais dos nubentes, a relação de parentesco entre as testemunhas, o grau explícito de consanguinidade, e até o nome completo dos personagens que estavam no documento. Tais situações eram corrigidas pelo padre visitador,  que fazia algumas recomendações, após fazer uma vistoria no livro de registros.
Há uma pasta de registros relativos à Freguesia de Angicos, na Cúria, onde dentro se acham misturados, desordenadamente, óbitos, casamentos e batismos. Acredito que foram folhas que se soltaram dos livros respectivos e juntaram em uma pasta para não se perder. Foi nessa pasta que encontrei o registro de casamento de João Felippe da Trindade, um exemplo daquilo do que estou falando acima. Vejamos com foi feito o dito registro.
Aos 8 de janeiro de 1851 as trez óras da tarde, n'esta Matriz, uni e abençoei em Matr.o os C.es meus Freg.es João Felippe da Trindade, e Fran.ca Ritta da C.ta, br.cos, servatis ex more servandis: e presentes as testem.as  Alexandre Fran.co d'Az.o Costa, e Gonçalo J.e Barbosa: do que faço este ass.o emq' ass.o Felis Alves de Sousa Vig.o Collado de Angicos.
No documento acima, além do excesso de abreviaturas, não constava o nome dos pais dos nubentes. Somente através de outros documentos se descobre o nome completo dos personagens desse registro e outras informações. O nome completo da nubente era Francisca Ritta Xavier da Costa. Ela era filha de Miguel Francisco da Costa Machado e Anna Barbosa da Conceição. Gonçalo José Barbosa, que aparece como testemunha, era tio da noiva por ser irmão de Miguel Francisco da Costa Machado. Alexandre Francisco de Azevedo Costa era cunhado do noivo, pois era casado com Michaela Francisca da Trindade, irmã do noivo. Eram os pais de João Felippe e Michaela, o casal João Miguel da Trindade e Rosa Maria da Conceição.
Outro documento de 1850 é mais um exemplo contendo muitas abreviaturas.
Aos 28 de 9br.o de 1850, pelas 4 óras da tarde, na Fazenda das Cassimbas de Vianna, na Freg.a do Assú, forão unidos e abençoados em Matr.o de m.a l.ça, pelo R.do Silvr.o Bizrr.a de Men.es os C.es meus Freg.es Manoel Miz (tinha um til em cima do z) Ferr.a e Prudencia M.a Teixr.a br.cos servatis ex more servandis: Forão test.as José Miz Ferr.a e João Gomes Carnr.o: do que faço este acento emq' ass.o Felis Alz de Sz.a Vigario Collado de Ang.cos.
Até hoje, não foi possível descobrir o nome dos pais de Prudencia Maria Teixeira. Nos registros posteriores seu nome passa a ser escrito Prudencia Teixeira Martins. Quanto ao nubente Manoel Martins Ferreira, a partir de outros registros, deduzimos que era filho do Major José Martins Ferreira e Delfina Maria dos Prazeres (ou da Conceição). Outro detalhe que poderia confundir qualquer pesquisador é que em registros posteriores, onde aparece como pai ou padrinho, o nome dele era escrito Manoel José Martins. O mesmo aconteceu com um irmão dele de nome João Martins Ferreira, pois nos registros posteriores ao casamento, aparece como João Alves Martins. Ambos eram irmãos de José Alves Martins, ascendente dos Alves, de Angicos e dos Fernandes de Santana do Matos. Uma irmã deles de nome Josefa Martins Ferreira foi batizada na Ilha de Manoel Gonçalves.
Em uma das páginas da pasta encontramos um registro de casamento com letra legível e sem abreviaturas, exceto na assinatura de uma das testemunhas:
Aos trinta e hum, digo, aos sete dias do mez de janeiro de mil oitocentos e cincoenta e trez, pelas oito horas da manhã, nesta Matriz do Glorioso São José da Villa de Angicos, tendo precedido Dispensa de affinidade ilícita, as Canonicas Denunicações, sem impedimento, Confissão, Comunhão, e exame de Doutrina Christã, em minha presença, e das Testimunhas João Lins Teixeira de Souza, e Manoel José Martins Ferreira, cazados, moradores na Freguezia da Cidade do Assú, se receberão em Matrimonio por palavras de presente, e tiverão as Benções Nupciaes os meos Paroquianos Timotheo e Rita, crioula, escravos; elle de João Gomes Carneiro; ella, de João Teixeira de Sousa, cazados , e moradores nesta Freguezia, do que para constar mandei lavrar este Termo, que com as ditas Testimunhas assigno. O Vigário Felis Alves de Souza. João Lins Teixeira de Sousa = Manoel José Miz Ferrª.
Na sequencia desse registro, há o visto do visitador (ele mesmos usando de abreviaturas nas suas instruções), nos seguintes termos: Visto em Visita da Freg.ª: Não use de abreviaturas nas escripturação dos Assentos; fica pª. exemplificar este ultimo Assento, pelo qual em tudo se deva regular. Vª de Angicos, 12 de 7bro. De 1853, Conego Fernandes, Viz.or.
Na sequencia outro registro obedecendo ao modelo deixado pelo Cônego Fernandes, no dia seguinte a sua observação.
Aos treze dias do mez de Setembro de mil oitocentos e cincoenta e trez, e pelas cinco horas da tarde, nesta Matriz de São Jozé de Angicos, tendo precedido Dispensa de sanguinidade, as Canonicas Denunciações, sem impedimento, Confissão, e exame de Doutrina Christã, em presença do Reverendo Francisco Justino Pereira de Brito, de minha licença, e das Testimunhas Francisco das Chagas e Azevêdo, e Souza, e José Theodoro de Souza Pinheiro, casados, moradores nesta mesma Freguezia, se unirão em Matrimonio por palavras de presente, e receberão as Benções Nupciaes, os meos Paroquianos Manoel Virgulino  Silvano de Azevêdo, e Anna Martins dos Santos, naturaes, e moradores nesta Freguezia, filhos legítimos: elle, de Francisco Lopes Viégas, e de Maria Josefa; e ella, de Antonio Pereira Pinto, já fellecido, e de Antonia Martins dos Santos; do que para constar mandei fazer este Termo que com as ditas Testimunhas assigno. O Vigário Felis Alves de Souza. Francisco das Chagas e Azevedo = Joze Theodoro de Souza Pinheiro.
Esses documentos que a cada escrituração modifica a grafia das palavras e subtrai sobrenomes ou os nomes dos pais dos nubentes se transformam em árduos obstáculos para o genealogista.

Fazenda das Cacimbas do Vianna

Vista em frente a entrada para Cacimbas do Vianna, em Porto  do Mangue
Fazenda das Cacimbas do Vianna, 1810
João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor de Matemática da UFRN e membro do INRG
Hoje, vamos tratar, aqui, de uma outra fazenda que fazia parte do inventário de Domingos Affonso Ferreira e de sua esposa Dona Maria Theodora, cuja descrição foi feita, em 1810,  pelo procurador inventariante José Álvares Lessa. Em vários artigos já tratamos dessa fazenda, da qual tenho interesse, pois foi lá que nasceu minha avó Maria Josefina Martins Ferreira (mãe Sinhá). Cacimbas do Vianna que fazia parte do Assu, hoje, com as sucessivas divisões dos municípios do Rio Grande do Norte, faz parte de Porto do Mangue. Nos registros que encontramos, seu nome aparece de várias formas; Fazenda Cacimbas do Vianna, Sítio das Cacimbas, praia das Cacimbas e além do Sitio das Mercês na Fazenda Cacimbas do Vianna.
 Eram seis léguas de terras da Propriedade da dita Fazenda de gados, denominada Cacimbas do Vianna, as quais parte ao norte com terras das Fazendas Entradas, e Morro Branco; ao sul com a Barra do Rio dos Cavalos, ao nascente com o mar oceano e ao poente com terras do Arraial: as quais seis léguas de ditas terras houve por compra a Francisca Rosa da Fonseca, o falecido Domingos Affonso Ferreira e seu genro e sócio e, constituinte dele, procurador inventariante, o Coronel Bento José da Costa, por escritura pública das Notas de Francisco Gomes da Fonseca, Tabelião da Vila de Santo Antonio do Recife de Pernambuco; as quais seis léguas de terras da dita Fazenda de Cacimbas do Vianna foram vistas e avaliadas pelos avaliadores com casa, e currais da mesma fazenda por preço e quantia de dois contos de réis com suas pesqueiras na costa do mar.
Havia na dita Fazenda, entre outras criações: 200 cabras, 360 cabeças de ovelhas, 31 éguas novas, 14 cavalos de fábrica, 100 bezerras, 80 bezerros, 150 garrotas, 750 vacas e 4 bois de carro. Havia, ainda, na Fazenda um oratório com três imagens pequenas, no valor total de 10 mil réis.
Enquanto o ferro da Fazenda Amargoso era um F seguido de um c, a de Cacimbas do Vianna era uma Cruz.
O registro de casamento mais antigo que encontrei, datado de 25 de julho de 1824, foi de Antonio Gomes da Motta e Aldonsa Maria de Jesus; ele com 24 anos e filho de João Gomes da Motta e Izabel Maria de Sousa, e ela, com 16 anos, filha de Francisco Bernardo de Sousa e Joanna Lopes de Mendonça. Foram testemunhas João Martins Ferreira e João Baptista de Oliveira. João Martins Ferreira, antigo morador da Ilha de Manoel Gonçalves, foi administrador das terras do Coronel Bento José da Costa.
Em dezesseis de novembro de mil oitocentos e trinta e um, o pároco do Assu, Joaquim José de Santa Anna, batizou na Fazenda das Cacimbas de Vianna Jeronima, filha de João José Nepomuceno e Antonia Joanna, naturais do Assu, nascida aos trinta e um de outubro de mil oitocentos e trinta e um, tendo como padrinhos Ricardo Cardoso e Maria Esperança, ambos solteiros e do Assu.
Outro registro de casamento, na Fazenda Cacimbas do Vianna, foi o de Joaquim Teixeira de Sousa e Josefa Lopes Viégas, em 19/11/1855. O nubente era da freguesia de Angicos e a nubente da freguesia do Assu. Foram testemunhas Antonio Lopes Viégas Junior e João Lins Teixeira de Sousa, casados. João Lins Teixeira de Sousa casou com Izabel Felippina Lopes Viégas, no Sítio Saco, eram pais de Antonio, nascido em 31/03/1852, e batizado no Sitio das Cacimbas, em 15/11/1852, tendo como padrinhos Francisco Antonio Teixeira e Anna Joaquina Teixeira de Sousa (esposa de João Gomes Carneiro de Mello). Nesse mesmo dia e lugar, foi batizado Anna, filha de Manoel José de Sousa e Cosma Maria da Conceição, nascida em 4/05/1852, tendo como padrinhos Francisco Lins Wanderley e Anna Maria Wanderley, casados. Manoel José de Sousa e Cosma Maria da Conceição eram os pais de João Teixeira de Sousa, que nasceu em Cacimbas do Viana, e depois foi viver em Macau, conforme consta no livro 1º Centenário da Ordenação Sacerdotal do Monsenhor Joaquim Honório da Silveira. Manoel e Cosma contraíram núpcias em 24/02/1848, na Fazenda das Cacimbas do Vianna.
Em outros artigos já tivemos oportunidade de transcrever outros registros ocorridos na Fazenda Cacimbas do Vianna, principalmente da Família Martins Ferreira, que inicialmente vivia na Ilha de Manoel Gonçalves, deslocou-se, posteriormente, para Macau, por conta da submersão da dita ilha, e por último para aquela localidade, principalmente os descendentes do Major José Martins Ferreira. Uma parte da família depois foi para Santana do Mattos e Angicos, e outra parte não sei que destino tomou, pois não encontramos outros registros da dita família. Minha avó Maria Josefina Martins Ferreira, filha de Francisco Martins Ferreira, casou com Miguel Francisco da Trindade de Angicos; Josefina Emilia Alves Martins, filha de José Alves Martins, casou com Absalão Fernandes da Silva Bacilon, avós de Aristófanes Fernandes e Aluizio Alves; Encontramos os descendentes de Militão Alves Martins, irmão de Josefina Emília, em Lages, Acari, Cruzeta e Natal. Um outro irmão de Josefina Emilia era Delfino Alves Martins que agora estamos recuperando informações sobre sua descendência através de sua bisneta Noélia Agripino de Castro. Não localizamos até agora, os descendentes contemporâneos, de Manoel José Martins, Joaquim José Martins Ferreira e Josefa Martins Ferreira, os dois primeiros casaram na Fazenda das Cacimbas do Vianna. Josefa foi casada com o português Manoel Alves da Silva.

Fazenda do Amargoso, 1810

Fazenda do Amargoso, 1810
João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor de Matemática da UFRN e membro do INRG
A capitania do Rio Grande sempre teve vocação para a pecuária. Desde há muito tempo que abastecia o Nordeste com animais para os engenhos e para o abate. Tivemos, lá no Assu, a povoação de Oficinas onde se produzia charque. Fazendeiros de todo o Nordeste requeriam terras na nossa província para suas criações. Domingos Affonso Ferreira e seu genro Bento José da Costa, dois ricos portugueses, moradores no Recife, tinham várias fazendas no Rio Grande do Norte. Já descrevemos, em outro artigo, as ilhas que pertenciam aos dois e foram inventariadas, após a morte do primeiro, em 1804. Hoje falaremos de uma dessas fazendas.
José Álvares Lessa, morador na Ilha de Manoel Gonçalves, procurador inventariante do Coronel Bento José da Costa, em 1810, disse haver mais pertencente ao casal Domingos Affonso Ferreira e Anna Maria Theodora, lá no Sertão do Assu, além das Ilhas já descritas em outros artigos. No título de terras da Fazenda do Amargoso fez a seguinte descrição.
A Fazenda do Amargoso tem três léguas de terras que partem ao nascente com as sobras de terras do Mangue Seco; ao poente com Aroeiras; ao norte com terras da Fazenda Conceição; e ao sul com terras de Águas Novas: e mais três léguas de data das sobras das terras entre Amargoso, e Curralinho; as quais hoje servem de logradouro a dita Fazenda do Amargoso: e também mais toda a terra, que se achar da dita Fazenda da Conceição anexa a da Fazenda Amargoso, a qual parte ao nascente com o Mangue Seco, ao sul com terras do Amargoso; ao norte com a Cambôa dos Barcos; ao poente com o Rio da Barra do Amargoso, a qual terra da Fazenda da Conceição, hoje em dia, serve de logradouro pelo inverno à sobredita Fazenda do Amargoso; as quais todas ditas terras, disse o dito procurador inventariante, houve por compra feita a Francisca Rosa da Fonseca, Domingos Affonso Ferreira, e seu genro e sócio o Coronel Bento José da Costa por escritura pública nas Notas de Francisco Gomes da Fonseca, Tabelião das Vilas de Santo Antonio do Recife, as quais três  léguas de terras da Fazenda do Amargoso;  outras três léguas de sobras; e todas as da Fazenda Conceição, adjacentes e anexas as do Amargoso foram vistas e avaliadas pelos avaliadores, por junto,  por preço e quantia de um conto de réis.
Entre outras criações, havia nessa fazenda, no ano de 1810, 4 bois de carros, 25 bois de lotes, 30 novilhos, 100 garrotes, 50 bezerros novos, 500 vacas, 30 novilhas, 100 garrotas, 60 bezerras, 24 cavalos de fábrica, 1 cavalo pai de éguas, 25 éguas novas e 100 cabras.
 Um dos registros de casamento que encontrei foi de Manuel Luis, filho legítimo de Luiz, escravo da casa do finado Bento José da Costa, que morava na Fazenda Amargoso, testemunhado por Theodoro de Sousa Pinheiro e Matheus da Rocha Bezerra (avô do jornalista Pedro Avelino).
Um dos moradores dessa Fazenda foi o Capitão Francisco Trajano Xavier da Cunha, primeiro Juiz de Paz de Macau. Francisco Trajano era da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação da cidade do Natal, e foi primeiramente casado com Dona Marianna Ignácia Teixeira (em outro documento Maria Ignácia Fernandes Pimenta), que veio a falecer em 3 de julho de 1826, em São Gonçalo. Em 24 de novembro de 1829, no Oratório das Oficinas, ele, viúvo, casou com sua prima (3º grau de consanguinidade) Senhorinha Clara dos Anjos, filha de Carlos José de Sousa e Manoella Archangela dos Anjos. Uma das testemunhas foi Manoel da Rocha Bezerra que era casado com Josefa Jacinta, uma irmã de Dona Senhorinha. Manoel era irmão do Professor Matheus da Rocha Bezerra, citado acima, ambos filhos de Balthazar da Rocha Bezerra e Josefa Maria da Silva (ou Josefa Barbosa da Silva).
Na área compreendida no entorno da Fazenda Amargoso, em 1839, houve uma audiência de conciliação, na casa do Juiz de Paz substituto, André de Sousa Miranda, por conta de uma disputa das sobras denominadas Canafístula, da data de Curralinho e Águas Novas, tendo como autores os Capitães Francisco Trajano Xavier da Cunha, Jacintho João da Ora, José Pedro da Silveira, e o tenente-coronel João Marques de Carvalho, e como réus o capitão João Martins Ferreira e sua mulher dona Josefa Clara Lessa. João Martins e Josefa Clara tinham sido padrinhos, em 16 de setembro de 1834, de José, filho de Francisco Trajano e Senhorinha, sendo que a madrinha foi representada por Antonia Bernarda Achyoles, uma irmã de Senhorinha. Antonia foi casada com um filho de Alexandre José Pereira, que em 1818 era comandante do degredo da Ilha de Manoel Gonçalves.
Em 1843, André de Sousa Miranda foi padrinho de Thereza, filha de Francisco Trajano, junto com Maria Ludovina de Sousa, esta por procuração de Joaquina Maria da Transfiguração.
Joanna, filha de Francisco Trajano e Senhorinha, foi batizada em 1845, no sitio Amargoso, tendo como padrinhos Leandro Gomes de Miranda e Leonor Ferreira Barbosa por procuração que apresentaram Francisco Xavier da Cunha (mesmo nome do pai de Francisco Trajano) e Maria Ludovina de Miranda. Nessa mesma data, e no mesmo sitio Amargoso, foi batizada Cândida, filha de Francisco Xavier da Cunha e Maria Ludovina de Miranda, tendo como padrinhos Francisco Trajano e Senhorinha.