quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A Igreja, velha dama que rejuvenesce



De Ir. Vilma, responsável pelo Arquivo da Cúria Metropolitana de Natal, recebi este artigo que publico no nosso blog.

Ir. Vilma Lúcia de Oliveira, FDC
Hermas (séc II), em O Pastor, em sua terceira visão descreve a Igreja como a Velha Dama que  lhe aparece,  “perfeitamente jovem e bela”(cfr 2, 2; 8,1;18, 3-4;20; 21).
O gesto, inédito, do nosso Pastor, BENTO XVI, tão tímido e ao mesmo tempo corajoso, movido pelo sua profunda atenção e obediência à verdade, rejuvenesce a Igreja, neste ainda início do século XXI.  Sem precedentes porque [...]Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idóneas para exercer adequadamente o ministério petrino. [...]. Por isso, bem consciente da gravidade deste acto, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro, que me foi confiado pela mão dos Cardeais em 19 de Abril de 2005[...].
Na minha despretensiosa consideração, do ponto de vista da história,  a única renúncia que se aproxima da de BENTO XVI é a do Papa S. CELESTINO V (1222 – 1294 /6). Confrontando os fatos históricos, através das renúncias dos predecessores, não se pode desconhecer o novo que se inaugura.
O primeiro a renunciar foi o Papa CLEMENTE  I (c.92-c.101), depois de ser detido e condenado ao exílio, nas perseguições no reinado de Trajano.
O segundo Papa, PONCIANO ( c.230 – c.235), marcado pelas pressões do seu irredutível opositor Hipólito (217-235), sacerdote romano, teólogo do clero de Roma, conhecido pelas suas atitudes rigoristas a ponto de que recusar a reconciliação e o perdão, concedidos pelo papa. A renúncia de S. Ponciano foi para não criar dificuldades à Igreja de Roma e para a reconciliação com os seguidores de Hipólito.
O terceiro, SILVÉRIO (c.536 – c.537), o seu pontificado foi marcado pela interferência da Imperatriz Teodora. Como não se submeteu às exigências da Imperatriz foi preso e deportado para Ásia. Das tentativas de mediação para solucionar os impasses surgiu a famosa frase: “Existem muitos reis neste mundo, mas apenas um papa em todo o universo”. Havia a iminência de um cisma e para evita-lo, terminou abdicando em 11. XI. 537.

O quarto, BENTO IX, que na relação da sucessão apostólica aparece como 143 °; 145° e 148° papa. Pelos números já indicam complicações de diversas categorias. É deposto, consegue retornar, renuncia, tenta retornar, mas sempre por causa da manutenção de privilégios das familias reinantes.
O quinto, CELESTINO V (1222- 1296). Após 27 meses sucessivos de vacância papal e as profecias que ameaçavam com castigos divinos se a Igreja permanecesse sem Pastor por mais tempo, o próprio profeta foi escolhido papa. Asceta convicto, o velho monge, foi trazido de seu retiro, acompanhado pelo Rei de Nápoles Carlos II D’Anju. Depois de menos de quatro meses abdicou, “consciente de não estar à altura da tarefa a ele confiada”, porém, num contexto de ingerências, da Casa Reinante. Celestino V colocou o cargo nas mãos de seus eleitores e retirou-se humildemente.
E por último, GREGÓRIO XII (1406 – 1415). Estava imerso na problemática dos antipapas, as discussões quanto a legitimidade do Concílio de Constança e todo o contexto político gerado pela Corte do Papado que estava retornando de Avinhão para Roma. Sua renúncia, portanto, foi para terminar com o Cisma do Ocidente.
Assim, considerando as exigências atuais em confronto com a realidade presente do ministério petrino, a renúncia de BENTO XVI, do ponto de visto histórico, tem novas aspectos e fundamentos que, em síntese, coloca a Igreja na mira da modernidade. É uma significativa contribuição histórica para que ela continue a aparecer, perfeitamente jovem e bela, como A VELHA DAMA QUE REJUVENESCE.




segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Os sobrinhos de D. Felícitas no RN (I)



João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG
Borges da Fonseca, o genealogista da Nobiliarquia Pernambucana, escreveu: D. Felícitas Uchoa de Gusmão, a quem meu pai, que Deus haja, prendeu no ano de 1730, pouco mais ou menos, por ordem do Santo Ofício, foi casada na Paraíba com Luis da Fonseca. E deste matrimônio parece que nasceu um José da Fonseca, que me dizem vive pelos sertões da capitania do Ceará.
Sabemos pelo depoimento, no processo em que foi condenada à cárcere e hábito perpétuo, que D. Felícitas tinha somente um filho,  Dionísio, que na época tinha 11 anos. Segundo o mesmo Borges, Bartholomeu Peres de Gusmão, pai de Felícitas, faleceu em 7 de abril de 1700.

Disse, também, D. Felícitas, que seu padrinho de batismo, Dionísio Peres de Gusmão, filho bastardo do seu pai, era falecido e não teve filhos. Na verdade, Dionísio Peres de Gusmão, que foi advogado como seu pai, faleceu em 1709, tendo deixado cinco filhos órfãos, do seu casamento com Leonarda Peres de Gusmão, prima legítima de Luis da Fonseca, marido de D. Felícitas. É tanto, que vamos encontrar, no livro de João de Lyra Tavares, uma sesmaria, datada de 30 de dezembro de 1709, onde está escrito: D. Leonarda Peres de Gusmão, viúva do Dr. Dionísio Peres de Gusmão, diz que por morte do seu marido, ficara pobre e falta de bens, que escassamente tinha com que se alimentar e aos seus filhos órfãos, que ficaram e de nenhum modo com que pudesse dar estado a uma filha (Ana) que entre eles havia de idade de doze anos, e porquanto na rua nova desta cidade se achavam devolutos uns chãos, que correm das casas térreas de Mathias Soares Taveira, até o quintal de Gonçalves Reis, junto à casa de pólvora, com fronteira para oeste e a traseira para leste, com fundo até entestar com os quintais das casas de Luiz de Sousa Furna e outros na rua direita, pelo que pedia lhe fizesse mercê, para que em qualquer tempo pudesse dispor dele como seu.
Segundo Bruno Feitler, em uma de suas obras sobre cristãos-novos, Ana de Sá, a filha de Dionísio e Leonarda, em 1731 já era viúva do soldado Antonio Luis, e tinha um filho. Escreveu, também, que Cosme Peres de Gusmão, outro filho, também era casado em 1731, tendo seguido a carreira de advogado como o pai e o avô.
O primeiro registro da família Peres de Gusmão, que encontro aqui no Rio Grande do Norte, é de um sobrinho de D. Felícitas. No ano de 1734, no dia 18 de agosto, na capela de Nossa Senhora de Santa Anna do Ferreiro Torto, Francisco de Sousa Gusmão, filho do Doutor Dionísio Peres de Gusmão, falecido, e Leonarda Peres de Gusmão, desposou Dona Apolônia Dornelles de Jesus, filha do capitão João Barbosa Pimentel e Mariana de Azevedo, sendo testemunhas o sargento-mor João Dias Ferreira, o sargento-mor Caetano de Mello de Albuquerque, Dona Adriana de Abreu, viúva, e D. Antonia Dias dos Anjos, casada com João Fernandes de Sousa.
Não encontrei registro algum de filhos do capitão Francisco de Sousa Gusmão. O capitão João Barbosa Pimentel, seu sogro, está presente nos antigos registros de batismos da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação. Era filho de Francisco Lopes e Joanna Dornelles, neto materno de Manoel Rodrigues Pimentel e bisneto de João Lostau de Navarro.
Quatro anos depois, no dia 18 de junho de 1738, na capela de Nossa Senhora de Santa Anna do Ferreiro Torto, Bartholomeu Peres de Gusmão, natural da Paraíba, desposou Nataria de Jesus da Silva, natural desta Freguesia. Ele, filho do Doutor Dionísio Peres de Gusmão, já defunto, e Leonarda Peres de Gusmão. Ela, filha do capitão João Fernandes de Sousa e Antonia Dias dos Anjos. Foram testemunhas Francisco de Sousa Gusmão, Manoel Peres de Gusmão, Maria Magdalena, esposa de Hilário de Castro da Rocha e Ignácia de Abreu, esposa de Francisco Barreto.
Esse Manoel Peres de Gusmão devia ser outro filho de Dionísio. O capitão João Fernandes de Sousa, já tinha aparecido nos nossos artigos sobre os Rodrigues de Sá, que estão aqui desde 1697. Era de Olinda, assim como Doutor Dionísio.
Diferentemente de seu irmão, encontramos vários filhos e netos de Bartholomeu e Nataria. Entre os filhos, registro: José, que foi batizado na capela de Nossa Senhora da Conceição de Jundiaí, no dia 13 de dezembro de 1762, tendo como padrinhos Antonio dos Anjos, solteiro e Anna Antonia, mulher de Nicácio de Sousa; Francisco, batizado aos 31 de março de 1765; Antonia, batizada aos 13 de junho de 1753, na capela de Nossa Senhora do O’ de Mipibú, tendo como padrinhos Antonio de Almeida Granco e Maria Ferreira dos Anjos, filha de João Fernandes da Rosa.
Antonia, que se tornou Antonia Dias dos Anjos, mesmo nome da avó, casou em 18 de fevereiro de 1776, na Matriz, com Constantino de Lima Rocha, filho de Constantino de Lima Rocha e Francisca Florinda, sendo testemunhas Francisco Álvares de Mello e Domingos Martins.
Francisco, acredito, tinha o mesmo nome do tio, citado acima, Francisco de Sousa Gusmão. Encontramos para ele vários descendentes, que trataremos em outro artigo.
Outros filhos que não encontramos os batismos, mas aparecem como padrinhos ou testemunhas, foram: João Peres de Gusmão, Sofia de Jesus, Maria e Dionísio Peres de Gusmão, que teve um filho natural, de nome Alexandre, com Jerônima Gomes da Silveira (prima), filha de Jerônimo Gomes da Silveira e Izabel Dias dos Anjos, batizado aos 3 de fevereiro de 1774, tendo como padrinhos Domingos Martins da Rocha e Nataria de Jesus da Silva. No próximo artigo continuaremos com a descendência de Bartholomeu Peres.

Batismo de Antonia Dias dos Anjos (2ª)



Original
Le demi-frère et parrain de Dona Felícitas, Dionísio Peres de Gusmão était aussi entre dans la famille, em épousant une cousine de Luis da Fonseca.


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A Inquisição de D. Felícitas Uchoa de Gusmão, 1730


João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG
Nos registros antigos da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, encontramos membros da família Peres de Gusmão. Antes de fazer um artigo sobre essa família, resolvi escrever sobre D. Felícitas, de 48 anos, que morava na Paraíba e foi presa pela Inquisição, acusada de judaísmo, e enviada, a partir de Pernambuco, no navio Triunfo da Fé e Almas, para Lisboa. Era aparentada dos Peres de Gusmão, que viviam por aqui, descendentes do Doutor Dionísio Peres de Gusmão e D. Leonarda Peres de Gusmão. Após o documento inicial, escreveremos sobre a genealogia dela, descrita no processo.
Os Inquisidores Apostólicos contra a herética pravidade e apostasia nesta cidade de Lisboa, e seu distrito, &. c.
Mandam a qualquer familiar, ou oficial do Santo Ofício, que no Forte Velho ou onde quer que for achada Dona Felícitas Peres, cuja qualidade de sangue se não sabe, casada com Luis da Fonseca, natural do Recife de Pernambuco e moradora no Forte Velho a prendais com sequestro de bens, por culpas que contra ela há neste Santo Ofício, obrigatórias a prisão, e presa a bom recado, com cama, e mais fato necessário a seu uso, e a trateis e entregareis, debaixo de chave ao Alcaide dos cárceres secretos desta Inquisição. E mandamos em virtude de Santa Obediência, e sob pena de excomunhão maior, e de quinhentos cruzados para as despesas do Santo Ofício, e de procedermos como mais nos parecer, a todas as pessoas, assim Eclesiásticos ou Seculares, de qualquer grau, dignidade, condição, e preeminência que sejam, vos não impeçam fazer o sobredito, antes sendo por vós requeridos, vos deem todo o favor e ajuda, mantimentos, pousadas, camas, ferros, cadeias, cavalgaduras, barcos, e tudo o mais que for necessário, pelo preço, e estado da terra. Cumpriu assim com muita cautela e segredo, e ao mais não façais.
Dado em Lisboa no Santo Ofício da Inquisição sob nossos sinais, e selo dela, aos cinco dias do mês de julho de mil setecentos e trinta anos. Manoel Rodrigues Ramos os subscreveu.
Das informações genealógicas, constava que ela se chamava Dona Felícitas Uchoa de Gusmão, que era cristã-nova por parte de sua mãe, mas por parte de pai não tinha esta certeza por haver alguma murmuração de ser parte de cristão-novo, casada com Luis da Fonseca Rego, que vivia de suas roças, natural da Freguesia de São Gonçalo de Tapecima (Itapissuma), moradora no Forte Velho, termo da cidade da Paraíba, Bispado de Pernambuco, de quarenta e oito anos de idade.
Eram seus pais Bartolomeu Peres de Gusmão e Dona Antonia de Mendonça Uchoa, não sabia de onde ele era natural, mas foi morador no Recife, e sua mãe junto ao Recife, e moradores na cidade de Olinda.
Seus avós, assim paternos como maternos, eram já defuntos; e os paternos se chamavam João Peres Correa de Gusmão e Leonarda da Costa, também, não sabia a naturalidade, e foram moradores na cidade de Olinda.
Os avós maternos se chamavam Francisco de Faria Uchoa, que foi Senhor de Engenho, e Dona Anna de Lira (esta filha de Antonio Fernandes Pessoa e Maria de Aguiar, tendo se casado antes com Luis da Silva), moradores na freguesia de Egitiá (Jiquiá), junto ao Recife, também não sabia a naturalidade deles.
Da parte de seu pai teve três tios e uma tia, a saber: Gonçalo Peres de Gusmão, Leonardo Peres, e Domingos Peres, e Joanna de Oliveira, todos defuntos e sem filhos.
Da parte de mãe teve um tio e duas tias, a saber, Luiz de Sousa Uchoa, Dona Nazaria de Lira, e Dona Joanna de Lira; Seu tio Luis de Sousa foi casado e não teve filhos; sua tia, Dona Nazaria de Lira, foi casada, em Santo Estevão, com Pedro da Cunha, lavrador de cana, teve filhos, não sabe quantos, nem como se chamavam; sua tia Dona Joanna de Lira foi casada junto ao Recife, nos Afogados, com Mathias Moreira Queiroz, e não teve filhos.
Contou, ainda, que tinha duas meias irmãs por parte de sua mãe, que casou, a segunda vez, com Francisco Vaz Carrasco, escrivão dos presídios, e se chamavam Dona Ignez de Vasconcelos e Dona Francisca; sua irmã Dona Ignez de Vasconcelos era casada, em Goiana, com Francisco Rodrigues Xares (Francisco Xerez Furna), não sabia se tinha filhos (teve, e casou uma segunda vez).
E que ela, como disse, se chamava Dona Felícitas Uchoa, casada com Luis da Fonseca Rego, e tinha um filho chamado Dionísio de onze anos.
Disse mais que era cristã batizada, e foi na Igreja de São Gonçalo de Itapissuma pelo pároco que então era, a quem não sabia o nome; e foi seu padrinho Dionísio Peres de Gusmão que estava reputado por filho bastardo de seu pai, e era já defunto sem filho, e não teve madrinha; era crismada, e o foi, na Igreja de Santo Estevão, pelo bispo de Pernambuco que então era chamado Dom Mathias, não sabia de que, e foi sua madrinha sua tia Dona Nazaria.
E que ela quando chegou aos anos de juízo, e discrição ia às igrejas ouvir missa, e pregação, se confessava, e comungava, e fazia as mais obras de cristão: e mandada por de joelhos se persignou e benzeu e disse as orações do Padre Nosso, Ave Maria, Credo, Salve Rainha, os mandamentos da Lei de Deus, e os da Santa Madre Igreja, que tudo soube bem.
E que ela só sabe ler, escrever; e que só saiu de Pernambuco para a Paraíba, onde conversava com toda casta de gente, que se lhe ofereceu, ou fossem cristãos novos ou cristãos velhos; e que ela nunca foi apresentada ao Santo Ofício, nem presa sem ser agora, nem parente seu algum o foi.
Perguntada se sabia a causa de sua prisão, disse que seria pelas culpas que tem confessado; foi lhe dito que ela estava presa por culpas, cujo conhecimento pertence ao Santo Ofício.
Quer saber mais sobre o processo de D. Felícitas? Visite http://digitarq.dgarq.gov.pt/viewer?id=2299877.

Assinatura de Dona Felícitas no processo

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Os Lusíadas e a Inquisição

Na Internet vamos encontrar, nos Arquivos portugueses, velhos documentos. E vemos que nem os Lusíadas, de Luis de Camões, escaparam da loucura do Santo Ofício. Os inquisidores pintaram e bordaram, esquecendo completamente dos ensinamentos do grande Mestre.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Os Velhos Barretos de Martins




João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor de Matemática da UFRN, membro do IHGRN e do INRG
Casarão, Olho d'Agua, de João Chrisóstomo

Em 1975, eu estava em Fortaleza cursando o mestrado de Matemática da Universidade Federal do Ceará. Morávamos eu, Graça e nossa filha, Alessandra, em um apartamento, na Rua Francisco Pinto, na Gentilândia. Na mesma rua, em frente ao meu prédio morava o casal José Praxedes Barreto e Mirtes Dodt, ele natural do Rio Grande do Norte, ela do Ceará, mas com ascendentes no Seridó,  e seus filhos: Ana, Fátima e Zezinho. Fizemos amizade que se consolidou com o nascimento de Miguel Felipe. Depois, eles se tornaram nossos compadres, pois são os padrinhos de Thiago, nosso filho. Mirtil, minha comadre, descende do engenheiro alemão Gustavo Luiz Guilherme Dodt, que mereceu um artigo de Câmara Cascudo, em Velhas Figuras.
Com os artigos sobre o professor de latim, Francisco Emiliano Pereira, acabei encontrando o personagem Domingos Velho Barreto Junior. Daí, pensei que pudesse haver algum parentesco entre ele e meu compadre Zé Barreto, pois o pai deste último, que se chamava Domingos Barreto,  tinha sido prefeito de Alexandria. Então, pedi informações ao próprio Zé Barreto e as suas irmãs Hilda e Tetê, sobre seus avós. Mas, eles não tinham os nomes completos dos mesmos.  Saíram os nomes Manoel Barreto, Abigail e Otília, os dois primeiros avós paternos e a última, avó materna. George Veras me indicou o livro “Martins” do Prof. Dubas (Manoel Jácome de Lima).
Manoel Jácome de Lima, que foi casado com Marcina Barreto, tia de Zé Barreto, no livro acima escreveu, que Manoel (de Melo Montenegro) Barreto, como Alexandrina Chaves, casada com Dr. Joaquim Ferreira Chaves, e Dona Inácia Barreto de Paiva, casada com o coronel João Bernardino de Paiva, eram filhos de Domingos Velho Barreto Junior.
Disse mais, que entre netos, bisnetos e trinetos de Domingos Velho Barreto Junior estão Leôncio Barreto, Dr. João Ferreira Barreto, Dr. Manoel Barreto Neto, Dr. Leôncio Barreto Filho, Dr. João Barreto de Medeiros, Manoel Barreto de Medeiros, Ivo Barreto de Medeiros, José Barreto de Medeiros, Hilda Barreto, Professora Raimunda Barreto e Professora Maria de Lourdes Barreto. Com essas informações, as minhas suspeitas se confirmaram. Hilda é irmã de Zé Barreto, e este tinha um irmão chamado Leôncio Barreto Sobrinho.
Junior Marcelino, lá de Martins, mais uma vez me socorreu e me mandou mais três documentos, para me situar no tempo, quanto aos vários Domingos Velho Barreto. O primeiro é o casamento de um Domingos Velho Barreto.
Aos vinte e nove de junho de mil oitocentos e noventa e três, no Sítio Poldros Mortos, em minha presença e das testemunhas: Cândido de Albuquerque Barreto e Juvêncio d’Albuquerque Barreto, depois de dispensados do parentesco de consanguinidade em terceiro grau atingente ao segundo lateral simples, receberam-se em matrimônio os contraentes naturais desta Freguesia: Domingos Velho Barreto e Otília d’Albuquerque Bezerra Cavalcante, ele com vinte e seis anos de idade, filho legítimo de Domingos Velho Barreto e Vicência Praxedes Barreto, falecidos, ela com vinte e três anos de idade, filha legítima de Felipe de Albuquerque Bezerra Cavalcante e Ana Bezerra Cavalcante d’Albuquerque. Do que, para constar, mandei fazer este termo que assino.
Nessa informação acima, ficava clara a origem de Praxedes, no sobrenome do meu compadre, primo legítimo do poeta vaqueiro, Zé Praxedes. Segundo José Barreto, primo de meu compadre, Zé Barreto, Otília ficou viúva e casou, uma segunda vez, com Antero, tio do primeiro marido, Domingos.
Os documentos seguintes enviados por Junior eram de óbitos.
Vicência Praxedes Barreto, casada com Domingos Velho Barreto Junior, morreu de apoplexia a vinte e um de outubro de mil oitocentos e sessenta e sete, com a idade de vinte e oito anos, foi por mim encomendada solenemente, foi sepultada no cemitério público no mesmo dia. Padre Anizio de Torres Bandeira.
Domingos Velho Barreto, viúvo, idade cinquenta e dois anos, morreu tísico, aos cinco de dezembro de mil oitocentos e oitenta e dois, foi sepultado no cemitério de Barriguda, aos seis do mesmo mês, amortalhado em branco, sem encomendação, do que fiz este assento que assino. Pro Pároco Izidro Álvares da Silva.
Por esse segundo óbito, o Domingos que faleceu teria nascido por volta de 1830, e, portanto, salvo erro no registro, não poderia ter sido prefeito de Martins em 1845, com 15 anos de idade.
As informações sobre Dona Alexandrina dão conta que ela era filha de Domingos Velho Barreto Junior e Ignácia Francisca Xavier, e nascida em 1852. Portanto, o Domingos Velho Barreto Junior deve ter se casado, primeiro com Ignácia e depois com Vicência. Ignácia, que casou com João Bernardino de Paiva Cavalcante, também era filha de Domingos e Ignácia Francisca.
Encontro na Biblioteca Nacional, no jornal Brado Conservador, um assunto de justiça nos seguintes termos: Imperatriz- Apelante João Chrisóstomo Bezerra Cavalcante de Albuquerque, apelada, a viúva D. Ignácia Francisca de Albuquerque e mais herdeiros do tenente Domingos Velho Barreto – julgou-se por sentença a habilitação dos herdeiros. 23/10/1877.
O pai de Felipe de Albuquerque era João Chrisóstomo Bezerra Cavalcante de Albuquerque, mas não sei se era o mesmo da notícia.
Encontro informações sobre Artur Albuquerque Bezerra Cavalcante, nascido aos 9 de janeiro de 1859, filho de João Chrisóstomo Bezerra Cavalcante e Maria Barreto Cavalcante.
A família Velho Barreto, de Martins, precisa de um estudo maior, por conta dos vários nomes que se repetem. Este artigo é só um começo, e tem a intenção de estimular o debate genealógico sobre essa família.
Domingos Barreto, pai de Zé Barreto. Prefeito de Alexandria, na época João Pessoa.


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Velhas notícias




João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG
Uma das minhas diversões é ler velhas notícias de antigos jornais, já extintos, que estão no site da Biblioteca Nacional. Através desse site pode se fazer muitas pesquisas sobre diversos assuntos. Muitas informações históricas, a partir dos meados do século XIX, são encontradas nesses velhos jornais. Podemos obter, também, muitas informações genealógicas através desse site, que complementam os registros da Igreja. Hoje, transcrevo para cá algumas dessas notícias. Por elas se observa quantas informações sobre os nossos antepassados podemos recuperar.
No Diário do Natal, de 9 de fevereiro de 1908, encontramos: No dia 1º do corrente, proximidades da Vila de Santana do Matos, Joaquim Geminiano encontrando-se com o honrado cidadão Militão Alves Martins, vibrou-lhe diversas facadas, que lhe produziram a morte imediatamente. O covarde e perverso assassino, cometido o crime, evadiu-se. Militão Alves era um homem bom, geralmente estimado em Santana do Matos, e pai de numerosa família. Casado em 4ª núpcias deixou viúva a dias de dar a luz e 14 filhos dos quatro matrimônios.
José Alves Martins, pai de Militão, também, foi assassinado com facadas no ano de 1871. João Militão, filho de Militão, foi prefeito de Lages. Militão Alves Martins era irmão de Manoel Alves Martins, cujo neto Expedito Alves foi, também, assassinado, em Angicos.
O Diário do Natal, de 22 de dezembro de 1907, noticia: O Sr. Idalino Teixeira de Carvalho e sua exma. esposa, residentes na Penha, tiveram a gentileza de comunicar-nos o nascimento do seu filho Waldenir.
Esse Idalino parece ser parente de meus amigos de infância Idalino e Eimar que moravam em frente do Colégio Auxiliadora.
Outra notícia que encontro em antigos jornais é sobre o falecimento do meu tio bisavô cadete José Avelino. Está lá, na Gazeta de Natal: Vítima de antigos e dolorosos sofrimentos faleceu no dia 20 de mês passado em sua fazenda Carapebas, do município de Angicos, o nosso prestimoso amigo José Avelino Martins Bezerra. O ilustre finado era um homem de bem. Ao seu digno e respeitável pai, a todos seus irmãos e a desolada esposa, D. Claudiana Francisca Bezerra Avelino, nossos sentimentos e pêsames.
O Diário do Natal de 1905 comunica: Em Angicos, realizou-se o consórcio do nosso correligionário José Anselmo Alves e a gentil senhorita Marfisa Pinheiro Alves, filha do finado coronel José Rufino da Costa Pinheiro.
José Anselmo foi Diretor dos Correios e Telégrafos. Morreu envenenado com arsênico, misturado na papa, que costumava comer. Era irmão do capitão José da Penha, assassinado no Ceará.
Alguns documentos da Igreja se perderam no tempo, e por isso, é difícil se comprovar certas suspeitas. Faltam registros de batismos de Angicos, de alguns anos. Alguns registros de casamento não contém o nome dos pais dos nubentes. Acredito que o Professor Vicente Ferreira da Costa Torres era descendente de Francisco Xavier Torres Junior e Maria Joaquina Lúcia da Costa. A seguir uma notícia sobre a remoção dele.
O jornal Rio Grande do Norte, de 14 de junho de 1891, noticia que: Em 29 de maio de 1891, foi removido o professor público de instrução primária da povoação de São Bento de Touros, Vicente Ferreira da Costa Torres, para a de Areia Branca que se acha vago.
Aos que procuram recuperar informações genealógicas, sugiro visitar o site da Biblioteca Nacional, em particular sua hemeroteca.