segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Colonização e povoamento de Apodi (II) - Curraleiros versus gentio indígena

Marcos Pinto

Nos primeiros  tempos  de  colonização  européia  no  RN, via  Bahia (Região do  rio São Francisco)  e  Pernambuco, a  região  do Apodi  não  apresentou  efetiva  ocupação  territorial, tendo  em  vista  a  forte  resistência  indígena  e  as  barreiras  naturais    que  dificultavam  o  acesso.  Foram  duas  as  correntes de  povoamento  do  Apodi:  A  primeira  veio  de  Pernambuco, passando  pela  Paraíba, de  onde  desciam  pela  antiga  "Estrada  Real",  que  demandava  para  a  região  jaguaribana. Manoel  Nogueira  seguiu  o  trajeto  desta primeira  corrente.  A  segunda  veio  pela  região  do  Assu, onde  no  ano  de  1686  ficou  aquartelado  o  famoso  "TERÇO  DOS  PAULISTAS", comandado  pelo  octogenário  Manuel  de  Abreu  Soares.
 No livro  de  REGISTRO  DAS  SESMARIAS  DO  RN, consta  a  concessão  de  Carta  de  Data  de  Sesmaria  concedida  em 19  de  Fevereiro  de  1680  a   Manoel  Nogueira  Ferreira, João  Nogueira Ferreira, Antonia de  Freitas Nogueira, e  seus  companheiros/requerentes   Domingos  Martins  Pereira, Capitão  Bartolomeu  Nabo  Correia, Alferes  Gonçalo  Pires  de  Gusmão, Capitão  Luis  Braz  Bezerra, Capitão  Luiz  Antunes  de Farias  e  Manoel  Roiz  da  Costa, cuja  concessão  doava  três  léguas  de  terras  à  cada  requerente, cujas  terras  englobavam  os  rios  "Piranhas"  e  "Guaxinim", na  região  do  Assu.  Conforme consta  no mesmo  livro  de  sesmaria, estes  requerentes  desistiram  de  povoarem  as  terras  que  lhes  foram  concedidas, no  mesmo  ano.  Ocorre  que, já  no  dia  19  de  Abril  de  1680  Manoel  Nogueira  e  estes  mesmos  companheiros  recebem  a  concessão  em  Apodi, que  os  índios  denominavam  apenas de  "Pody".  Diante  este  cenário, resta  a  indagação:  Teria  Manoel  Nogueira  e  seus  irmãos  e  demais  requerentes  estado  na  região  do  Assu  antes  de  aportarem  em  Apodi ?  No requerimento  dão  a  entender  que  sim, conforme  afirmam: "...Pela  qual  razão  querem  povoar  nesse  sertão  e tem  dado  combate  aos tapuias  para  lhes  mostrar  onde  há  terras  desaproveitadas....querem  povoar  ainda  que  seja  com  risco  de  suas  pessoas  e  fazendas, por serem  paragens  ermas  e  despovoadas, donde  os  antigos  nunca se  atreveram  a  povoar...".   Observe-se  que  também  era  comum  o  fato  de  que  dois  ou  três  bravos  colonizadores  exploravam  as  terras  e  quando  as  requeriam  acrescentavam  nomes  de  amigos  e  parentes, para  açambarcarem  vastas  extensões  de  terras,  que  deram  origem  aos  latifúndios.
A verdade  é  que  o  bravo  MANOEL  NOGUEIRA  e  família, acompanhados  por  alguns escravos  tiveram  uma  vida  de  correrias  e  tropelias, no  enfrentamento  da  indiada  rebelde.  Davam, apanhavam, iam  embora, retornavam, sendo  certo  que  só  tiveram  uma  certa  tranquilidade  quando  o  famoso  "TERÇO DOS  PAULISTAS"  fez  uma  longa  incursão  até  a  lagoa  Pody, no ano de  1689, conforme  afirma  o  celebrado  e  respeitado  historiador  brasileiro  ERNESTO  ENES, no volume  127  da  Coleção "Brasiliana": "...Pedro de  Albuquerque  Câmara, Bernardo  Vieira  de  Melo, Valentim  Tavares  Cabral  e  Agostinho  César  de Andrade  tomaram  parte  na  marcha  que se  fez  do  Olho  d'água  aos  rios  paneminha  e  panema  grande, até  a  lagoa  Pody.  No  combate da  lagoa  do  Apody  estiveram  outros  soldados  como  João  do  Monte" . Vide (pág. 409)  e  Luiz da Silveira  Pimentel (pág. 269).
A saga  dos  NOGUEIRA  teve  início  em  1680, continuando  até  o  dia  11  de  Junho de  1685, quando  retornaram  à  Paraíba  em busca  de  recursos, a  fim  de darem  continuidade  aos  trabalhos  de  exploração  do  novo  território. Em 17  de  Novembro de  1688  ocorreu  o  famoso  embate  entre  a  família  NOGUEIRA  e  os  índios  Paiins, na  margem  da  lagoa  do  "Apanha-Peixe", onde  tombaram  mortos  os bravos  João  Nogueira  e Balthazar  Nogueira, forçando  o  grupo  familiar  a  debandarem  em  fuga  para  a  região  jaguaribana, no  Ceará.  A  indômita  ANTONIA  DE  FREITAS  NOGUEIRA, que  chegara  ao  Apodi  em  estado  de  viuvez, casou  no  ano  seguinte - 1681, com  o  português  Manuel  de  Carvalho  Tinoco, sendo  certo  que  em um  dos  livros  de  registro  de  batizados  constante  do  acervo da  Igreja-Matriz  de  N. Sra.  da  Apresentação, da  cidade  de  Natal, consta  a  presença  deste  casal  residindo  nas  imediações  de  Natal, em  São  Gonçalo  do  Potengi, onde  Antonia  de  Freitas  batizou  cinco  filhos, no  período  1695  a  1706.
 Quando  o  Sargento-Mór  de  Entradas  MANOEL  NOGUEIRA  faleceu  em  sua  fazenda  "Outeiro"(Onde hoje é o "Quadro da Rua")  em  17  de  Janeiro de  1715, toda  a  várzea  do  Apody, do  sítio "Boqueirão" aos  sítios  "Santa  Rosa"  e  "Santa  Cruz"  já  estava  de posse  e  domínio  de componentes  de  sua  família  -  filhos, cunhados  e parentes  afins. Foram  os  primeiros  curraleiros.  Os  índios  do  Apodi, que no início  da  colonização  "fervilhavam  como  formigas"  nas  margens  da  lagoa  Itaú (Depois lago  Pody, e  lagoa  Apody)  e  dos rios  Panema  Grande (Depois  rio  Apody)  e  Paneminha (Depois  rio  Umary), sempre  foram  alvos  da  sanha  dos  conquistadores  e  dos  aventureiros, que  não  sossegaram  enquanto  não  eliminaram  ou  segregaram  o  último  sobrevivente  dessa  raça  nativa.
ÍNDIO TAPUIA PAIACUS(Pintura de Eckhout Ano-1641)

 TAPUIA PAIACUS - ÍNDIOS ANTROPÓFAGOS
(Segundo o Historiador Marcos Pinto,
essas pintura poderiam terem sido pintadas pelo grande pintor
holandês  Alberto van der Eckhout  ao redor da lagoa do Apodi no ano de 1641)
O GENTIO  INDÍGENA  da  região  do  Apodi  era  constituído  de  05  etnias  e  uma  nação:  Tapuias  paiacus, Paiins, Icós, Icosinhos, Janduís  ou  Janduins, e  Canindés ,  da  nação  Tarairiús,  distribuídas  em  várias  tribos  e  malocas  ao  longo  do  território  apodiense.  O criatório  de  gado  bovino  consistiu  na  primeira  atividade  econômica  do  Apodi, tendo  sido  o  principal  argumento constante  dos  requerimentos  das  famosas  "Datas  de  Sesmarias",  quando  alegavam  que  precisavam  situar  seu  rebanho  bovino, ou que  já  se  achava  com  seus  currais  instalados  nas  terras  requeridas.  De um lado os índios eram acossados pelos sesmeiros/curraleiros, exploradores  que,  muito  bem  armados, promoviam  a  guerra  para  expulsá-los  dos seus  territórios, e  vender  os  prisioneiros  aos  fazendeiros  e senhores  de  engenho  de  Pernambuco  e da  Bahia.  Do  outro  lado, eram  subjugados  à  ação  nefasta  dos  padres  e  dos  seus  colaboradores,  que  no  afã  de  impor  a  língua  portuguesa  e  difundir  a  religião  católica, ao tempo  em  que  lhes  ofereciam  proteção, desestruturavam  as  bases  de  sua  cultura,  tanto  do  ponto  de  vista  material  como  espiritual, transmitindo-lhes  ensinamentos  de  obediência  a  um  Deus  diferente  dos seus  -  que  não  permitia  a  nudez, a  poligamia,  a  selvageria, a  antropofagia  e  outras  práticas  por  eles  adotadas  -  e  ao  colonizador, que  nunca  os  entendeu  e sempre  os  perseguiu.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Sargento-mor João Rodrigues Seixas e descendências

Sargento-mor João Rodrigues de Seixas e descendências
João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, sócio do INRG e do IHGRN
A primeira referência que encontrei ao sargento-mor João Rodrigues de Seixas foi em um dos livros de batismos, da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, depositado no Instituto Histórico de Pernambuco. Está lá escrito: aos 25 de março de 1713 anos nesta Paroquial de Nossa Senhora da Apresentação, de minha licença, batizou o Padre Coadjutor, Reverendo Antonio de Andrade de Araújo, a Anastácia, filha legítima de Thomaz Rodrigues de Amorim, e de sua mulher Dona Maria da Conceição; foram padrinhos o sargento-mor João Rodrigues Seixas e Maria da Conceição, filha do capitão Manoel Gonçalves Branco, tem os santos óleos. Simão Rodrigues de Sá.
Posteriormente, encontro nos livros de casamento da nossa freguesia vários registros onde ele e a esposa aparecem como testemunhas. Em 27 de abril de mil setecentos e quarenta e quatro casou, na Capela de Nossa Senhora dos Remédios de Cajupiranga, Maria Rodrigues da Silveira, filha do sargento-mor João Rodrigues de Seixas e Joanna da Silveira, com João Rabello da Costa, filho de Antonio Rabello de Carvalho e Serafina da Costa Lial, ambos de Santa Maria de Ayres, arcebispado de Braga. Nessa data, o sargento-mor João Rodrigues já era defunto.
Outro filho do casal Seixas, de bastante destaque nos registros da Igreja, tinha o mesmo nome do pai. Era o capitão João Rodrigues de Seixas, que casou, em dez de agosto de mil setecentos e quarenta e um, na Capela de Nossa Senhora do Socorro de Utinga, da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, com Joanna Rodrigues Santiago, filha do sargento-mor Salvador de Araújo Correa, já defunto, e de sua mulher Izabel Rodrigues Santiago. As denunciações foram feitas nas partes necessárias da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, como também, por conta do contraente, na Matriz do Corpo Santo do Recife de Pernambuco, e na Igreja de Nossa Senhora do Livramento de Santo Antonio do Recife.
Lembramos que Dona Izabel Rodrigues Santiago, era filha de Manoel Rodrigues Santiago e Catherina Duarte de Azevedo, esta última, neta do mártir Estevão Machado de Miranda e Dona Bárbara Vilela Cid, uma das filhas de Antonio Vilela Cid e Ignez Duarte.
Thereza Duarte de Jesus, uma das filhas do casal João Rodrigues Seixas e Joanna Rodrigues Santiago, foi batizada em 23 de abril de mil setecentos e cinqüenta e cinco, na capela de Nossa Senhora da Conceição de Jundiaí (que destino teve essa Capela?), tendo como padrinhos o sargento-mor Francisco de Araújo Correa, e sua irmã Ignez Duarte, filhos de Elena Duarte, esta última, irmã de Izabel Rodrigues Santiago. Em 23 de novembro de 1764, Thereza casou, na mesma Capela onde se batizou, com o português do Arcebispado de Braga, José Teixeira da Silva, filho de João Teixeira da Silva e Maria Joanna.
Nos livros de assentamento de praça, do ano de 1776, encontramos os seguintes filhos do capitão João Rodrigues Seixas: Manoel de Araújo Correa, com vinte e sete anos; Alexandre Rodrigues Santiago, com 24 anos; Salvador de Araújo Correa, com 23 anos; e Antonio Rodrigues da Silveira (Santiago, algumas vezes), com 30 anos.
Alexandre foi batizado em 3 de setembro de mil setecentos e cinqüenta e três, tendo como padrinhos Antonio Rodrigues Santiago e Izabel Rodrigues, filhos de Izabel Rodrigues e, portanto, tios de Alexandre
Manoel de Araújo Correa casou com Maria Jacinta Pródiga da Costa, filha, do português de Lisboa, Dionísio da Costa Soares e D. Eugenia de Oliveira. Um dos filhos de Manoel e Maria Jacinta, que tinha o nome do avô Dionísio, nasceu em 30 de abril de 1784, e foi batizado em 4 de maio de 1784.
No livro sobre a família Casa Grande, do Assú, encontramos que Antonio Rodrigues Santiago (ou Silveira), casou com Maria Ignácia Cabral de Macedo, filha de Antonio Cabral de Macedo e Josefa Martins de Sá; Outra informação, que consta lá, é que Izabel Costa, filha de João Rodrigues Seixas e Joanna (lá está escrito João Francisco Seixas) casou com Mathias Cabral de Macedo, também filho de Antonio Cabral de Macedo e Josefa Martins de Sá. Embora, Joanna Rodrigues da Santiago pudesse ter colocado o nome de Isabel, em homenagem a sua mãe, não encontrei nenhum registro de filha com esse nome, nem tampouco nas memórias das famílias de Utinga, escrita por um neto dela.
Escreveu Cascudo, em uma das suas Actas Diurnas, que a segunda esposa de Agostinho Leitão de Almeida, Josefa Maria de Macedo, era filha de Mathias Cabral de Macedo e Izabel Ferreira da Costa, acredito que os mesmos citados acima. Essas informações sobre Izabel me deixam mais dúvidas por conta do sobrenome Costa que aparece no nome dela. Acredito que deve ter ocorrido algum erro nas informações de Antonio Soares de Macedo sobre os pais de Izabel, esposa de Mathias Cabral de Macedo. Ademais, Agostinho foi padrinho de crisma, em 1820, de Manoel Maurício, o memorialista de Utinga, e por isso, não escaparia na sua relação o nome de uma tia.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O Guardião do Transitus Domini em Terras Potiguares

O Guardião do transitus Domini  em Terras Potiguares
 Irmã Vilma Lúcia de Oliveira, FDC
Coordenadora do Arquivo Metropolitano
 e do Centro Documental Potiguar

            A comunidade católica de Natal foi surpreendida, na manhã de 13.12.2011, com a notícia da morte do Monsenhor FRANCISCO DE ASSIS PEREIRA, aos 76 anos. Velado na Catedral Metropolitana de Natal, com missa presidida pelo Arcebispo Dom Matias Patrício de Macedo, concelebrada pelo Arcebispo Emérito Dom Heitor de Araujo Sales e diversos Sacerdotes, seguida do sepultamento no cemitério Vila Flor.
            Natural de Santa Cruz, RN, Monsenhor Assis nasceu em 12.4.1935. Filho de José Pereira de Carvalho e Rita Rodrigues de Carvalho. Foi ordenado sacerdote em 13.4.1958; recebeu o Título de Monsenhor, Capelão do Santo Padre, concedido pelo Papa João Paulo II, em 1991. Em 1.6.1994 a Santa Sé o confirmou Postulador, junto à Congregação das Causas dos Santos, no Vaticano. Além de Vigário, Capelão e estreito colaborador do Arcebispado de Natal em diversas funções eclesiais, foi professor, pesquisador, escritor, arquivista e compositor sacro. Fiel à Eucaristia, ao Breviário e ao Santo Rosário. Um Mestre que rezou, estudou, advertiu, confessou, perdoou, provocou confrontos, pediu perdão - como costumava dizer: tenho o pavio muito curto.  Contudo, um Mestre de gerações.
            Entregou sua vida a serviço da Igreja e da tutela daquilo que ela produziu em sua missão. Era cuidadoso em conservar a memória da ação pastoral da Arquidiocese de Natal.  Tinha sempre presente que na mens da Igreja os arquivos são lugares da memória das comunidades cristãs e promotores de cultura para a nova evangelização (Pontifícia Comissão para os Bens Culturais da Igreja, A Função Pastoral dos Arquivos Eclesiásticos, Vaticano, 2.2.1997, p. 5). Se algumas características de sua fisionomia nos surpreendem, temos de pensar em seu caráter profundamente religioso e dedicado ao resgate histórico do transitus Domini (passagem do Senhor na expressão de Paulo VI) em Terras Potiguares. Ter o culto dos pedaços de papéis, dos documentos, dos arquivos, dos testemunhos de vidas, quer dizer, por repercussão, ter o culto de Cristo e o sentido da Igreja. (PAULO VI, Alocução aos Arquivistas Eclesiásticos, 26.9.1963).
            Assim, Monsenhor Assis, compreendia e tratava as fontes históricas, como laços que ligam a Igreja numa ininterrupta continuidade. São partes da mensagem de Jesus, que passa pelos escritos da primeira comunidade apostólica e de todas as comunidades eclesiais, chegando até nós num proliferar de imagens que documentam o processo de evangelização de cada Igreja Particular e de toda a Igreja (Pontifícia Comissão para os Bens Culturais da Igreja, A Função Pastoral dos Arquivos Eclesiásticos, Vaticano, 2.2.1997, p. 6). 
            Seu ministério foi fecundo, Doutor em Filosofia e Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, tornou-se uma figura das mais preparadas e solicitadas que a Arquidiocese de Natal já conheceu. No Seminário São Pedro foi professor de Latim, Grego, Teologia, Grego Bíblico e Vice-Reitor (1962-1964). Na Universidade Federal do RN participou da implantação do Curso de Filosofia, do qual foi Coordenador (1982-1984), lecionou Metodologia da Ciência, Sociologia, Metafísica Geral e Problemas Metafísicos. Na Emissora de Educação Rural, da Arquidiocese de Natal, foi Diretor-Superintendente (1963-1965). Coordenou a Comissão de Liturgia, Música e Arte Sacra (1964-1977); o Secretariado de Opinião Pública (1967-1971); a Cúria Metropolitana da Arquidiocese de Natal (1988-2000). Foi Juiz Auditor da Câmara Eclesiástica de Natal, Vigário Episcopal para o Clero (1991-2001) e Vigário Geral da Arquidiocese (1994-2003).
            Como Postulador trabalhou no Processo de Beatificação dos Mártires de Cunhaú e Uruaçú da Arquidiocese de Natal, de D. Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira e de Dom Francisco Expedito Lopes, da Arquidiocese de Olinda e Recife, do Padre José Antônio de Maria Ibiapina, da Diocese de Guarabira, no Estado da Paraíba, do Padre João Maria Cavalcanti de Brito e do Cônego Luiz Gonzaga do Monte, ambos da Arquidiocese de Natal, e na Reabilitação Histórico-Eclesial do Padre Cícero Romão Batista, da Diocese do Crato, CE. Sua trajetória culmina como Sócio Efetivo da Academia Brasileira de Hagiologia e do Instituto Histórico e Geográfico do RN. Sua abnegação transparecia especialmente no modo como cumpria seus deveres, carregando em seu coração os sinais históricos das gerações que nos precederam no sinal da única fé. Eis o homem, o sacerdote, o Guardião do "transitus Domini" em Terras Potiguares.

                                                 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Feliz ano novo, Natal


João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, sócio do INRG e do IHGRN
Natal, sei que sua vida, desde o seu nascimento, não foi fácil. Depois da instalação do Forte, foram necessárias muitas negociações com os nativos da terra para que você pudesse vir ao mundo. E, mesmo depois do seu nascimento, seu desenvolvimento foi difícil, pois os habitantes do Rio Grande preferiam viver nas circunvizinhanças, criando seus gados, plantando e pescando do que morar com você.

Não sei o que os holandeses vieram fazer aqui. Talvez tenham vindo para cá por conta da vulnerabilidade da costa do Rio Grande e pela sua Fortaleza. Não melhoraram em nada a sua vida. Nada de novo aconteceu por aqui.  Os oficiais e soldados da Companhia viviam, fora a própria Fortaleza, mais nas redondezas do que aqui.  Sem nenhum apreço por você, os mercenários da Companhia Ocidental das Índias começaram uma nova cidade, lá para as bandas de Jundiaí.

Até o mercenário-mor quando esteve por aqui com seu pintor a tiracolo, só levou o registro da Fortaleza, e nada mais sobre você. Foram-se, deixando você pior do que a conheceram.
Nova esperança surgiu com o repovoamento do nosso Rio Grande. Mas a guerra contra os nativos da terra, que durou muitos anos, não fez você prosperar.

Mesmo cessando a guerra bárbara, nada melhorou. A submissão às capitanias de Pernambuco e Paraíba fez de você uma filha abandonada a sua própria sorte. Caetano Sanches, quando veio assumir a Capitania,  encontrou-a em estado miserável.  Koster e Tollenare não fizeram boas referências sobre você. As revoluções de 17, 30 e 35, não duraram o suficiente para provocar mudanças radicais na sua vida.
Na segunda guerra mundial, você foi mais uma vez usada e abusada, e só serviu de trampolim para as forças aliadas.

Depois de tudo isso, sua vida foi melhorando aos poucos. Sua geografia e suas belezas naturais contribuíram para a sua sobrevivência. Os parcos recursos gerados nas suas terras não permitiram desenvolvimento mais rápido. A falta de criatividade e as brigas intestinas não contribuíram para que você tivesse uma vida mais fácil.

As vésperas de um novo ano lastimo o estado em que você se encontra. O povo acreditou, ilusoriamente, talvez por erros de associação de idéias, que o verde era esperança. Do milhão de árvores prometidas para você respirar melhor, quantas foram plantadas? E seus canteiros por que estão amarelados e sujos? Por que as pedras, que fazem o meio-fio, estão fora do lugar, e de vez em quando são pintadas, mesmo assim? Natal, não se pode falar em melhoria da saúde e da educação, com tanto lixo, metralhas e galhos secos, espalhados por aí.

Natal, diga para seus vereadores que você gostaria de ficar mais bonita, e que lixo e buraco não são apenas detalhes. Peça a eles, vereadores, que estudem os códigos de postura do passado, de vários municípios do Rio Grande do Norte. Por que não se elaboram regras mais rígidas sobre as calçadas? Por que tantos terrenos vazios espalhados pela cidade sem muros e sem calçadas? Por que surgiram mais cigarreiras sobre os canteiros e calçadas? Por que os carroceiros continuam levando sujeira dos mais sabidos para os terrenos dos mais tolos? Lembre aos seus vereadores que eles representam os seus moradores e, por isso, deveriam ser mais vigilantes e lhe proteger melhor.

Natal você está sendo tratada com maldade e com perversidade. E isso, também, é improbidade. Sei que é doloroso lembrar o esquecimento que tiveram de suas partes, como a Biblioteca, o Parque das Crianças, o Parque da Cidade, os Ginásios de Esporte, o Presépio, o Machadão, a própria Fortaleza, o Juvenal Lamartine, a Ribeira com sua revitalização e seus prédios mais antigos e sem preservação. Até suas praias estão abandonadas e começam a ser cuidadas pela  iniciativa privada.  Seus habitantes estão adormecidos e não reagem com veemência a tanto descaso.

Não se iluda Natal. As obras da copa de 2014 não vão melhorar sua vida. Talvez, pelo que se observa, nos próximos meses, você estará mais feia e mais suja.
Por tudo isso, páro o que faço para desejar a você, Natal, um Feliz Ano Novo. Que o ano de 2012 ilumine a cabeça dos seus filhos.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O Padre revolucionário e os Montenegros de Assú (II)

O Padre revolucionário e os Montenegros de Assú (II)
João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, sócio do INRG e do IHGRN
        No artigo anterior vimos que Domingos de Mello Montenegro, filho de Manuel de Mello Montenegro e Genebra Francisca de Vasconcelos Pessoa, se casou em 1824, no Assú, com a idade de 46 anos, sendo ele natural de Tejucupapo, Pernambuco. Daí concluímos, pelas informações do Pe. Sadoc,  que Domingos era irmão do Padre João Ribeiro Pessoa de Mello Montenegro e que nasceu por volta de 1778. Portanto, ele era mais velho do que seus irmãos sobralenses. Mais ainda, essa informação confirma que os pais do padre revolucionário só podem ter ido para Sobral depois do ano de 1778 e, por isso, o Padre João Ribeiro deve ter nascido em Tracunháem como dizem os mais diversos autores. Outro detalhe é que o intervalo entre a data do nascimento do Padre e a de Domingos é de 12 anos, e, portanto, Manuel e Genebra devem ter tido outros filhos nesse período. 
 
        Uma das testemunhas do casamento de Domingos foi Mathias Antonio de Oliveira Cabral, na época solteiro. Ele se casou em 17 de novembro de 1827, no Assú, com D. Maria Umbelina Montenegro, 22 anos, natural de Goianinha, filha de Manuel de Mello Montenegro Pessoa, já falecido e D. Ângela Garcia de Araújo Freire. Quem era esse Manuel de Mello Montenegro? É provável que seja Manuel nascido em 1780, em Sobral, irmão de Domingos e do Padre João Ribeiro. Como D. Maria Umbelina nasceu em Goianinha, vemos que tanto Domingos como seu irmão Manuel moraram nessa cidade antes de ir para Assú. Outro fato interessante é que D. Ângela foi madrinha, em 1835, de Ovídio, filho de outro Manuel de Mello Montenegro Pessoa e de Maria Beatriz Paz Barreto. É possível que o genro de Manuel Varella Barca seja filho, portanto, de Manuel de Mello Montenegro e D. Ângela Garcia, e por consequência sobrinho do Padre revolucionário.
 
        P.S Depois deste artigo, anos depois, precisamente, em 2021, encontro a confirmação da filiação de Manoel de Melo Montenegro Pessoa - Nos registros civis dos óbitos de Ceará-Mirim, segundo declarou o tenente-coronel Tomaz José de Sena,  seu sogro, o coronel Manoel de Melo Montenegro, Pessoa, viúvo de 82 anos, faleceu aos 12 de outubro de 1889, sendo filho legítimo de Manoel de Melo Montenegro Pessoa e Ângela Garcia Freire, naturais da Paraíba. Assim, era irmão de Dona Maria Umbelina Montenegro, mulher de Mathias Antônio de Oliveira Cabral.


          Em 16 de agosto de 1846, no Assú, foi batizada Catarina, filha de João Ribeiro Pessoa e Maria Romualda Cavalcante, e teve como padrinhos o Major Mathias Antonio de Oliveira Cabral e sua mulher D. Maria Hermelinda Albuquerque Montenegro. Dona Maria Umbelina Montenegro deve ter falecido, e, portanto, Mathias casou novamente. É provável que essa segunda esposa fosse irmã da primeira. No batismo de Manoel, outro filho de Manoel de Mello Montenegro Pessoa, e Maria Beatriz Paz Barreto, uma das madrinhas foi Maria Hermelinda de Albuquerque, pelas minhas suspeitas, tia do batizado. Nas minhas suspeitas,  Manuel de Melo Montenegro Pessoa,  Maria Umbelina e Maria Hermelinda deviam ser irmãos, filhos todos de Manuel e Ângela, citados acima.
 
        Outro detalhe da vida dos Montenegros vem de um artigo de Vinicius Barros Leal, intitulado O Padre João Ribeiro e o Ceará. Nesse artigo ele noticia a existência de dois filhos do Padre, a saber: Hermano e Filadélfia que no ano de 1831 tinham respectivamente 26 e 21 anos, moravam em lugares separados, o primeiro em Pernambuco e ela, Filadélfia, no Ceará, na companhia de seu tio, o Padre Francisco Urbano Pessoa Montenegro, vigário de Uruburetama. A admiração do Padre João Ribeiro por George Washington o fez por o nome de Filadélfia na filha.
 
        Segundo Vinicius, Filadélfia, em 4 de novembro de 1834, se casou com o baturiteense José Fidélis Moreira Lima, filho de Antonio Moreira Barros e Josefa de Abreu e Lima. No registro do casamento a noiva é dada como nascida no Rio Grande do Norte, e filha natural de Leocádia Cândida Torres. Diz ainda Vinícius que noutro local, precisando melhor o lugar de seu nascimento, o Assú, a sua mãe figura com o nome de Teresa Joaquina Ribeiro. Entre os filhos nascido do casal cita: José, a 1º de abril de 1838; Hermano, a 12 de abril de 1841; João, em setembro de 1842; Tito, a 8 de dezembro de 1843; Francisco Urbano e Maria Hermelinda, que casou com Antonio Joaquim de Melo e foram os pais de José Artur Montenegro, nascido a 29 de fevereiro de 1864 e falecido a 3 de abril de 1901.
 
        Filadélfia homenageou o irmão, Hermano, batizando um dos filhos com esse nome. Da mesma forma homenageou o tio, Padre Francisco Urbano Pessoa Montenegro, outro irmão do Padre João Ribeiro, que não localizei onde nasceu. É oportuno lembrar que havia no Assú um Padre com o nome de Francisco Urbano de Albuquerque Montenegro, que suspeito ser da mesma família do Padre João Ribeiro. Esse Padre Francisco Urbano foi quem celebrou, em 1843, o último batismo que encontrei na Ilha de Manoel Gonçalves. Esse sobrenome Albuquerque que aparece na família vem de Dona Brites Albuquerque, uma ascendente dos Montenegros.
 
        Os Montenegros têm ainda um entrelaçamento com a família Raposo da Câmara. Encontramos que o capitão Cândido Soares Raposo da Câmara era casado com Dona Genebra Philadélfia de Vasconcelos, em outros registros os sobrenomes Montenegro Câmara, Oliveira Câmara, e Cabral de Oliveira Câmara. Toda essa variação de sobrenomes, de Dona Genebra, me faz crer, que ela era uma das filhas de Mathias Antonio Cabral de Macedo e Maria Hermelinda de Albuquerque Montenegro. Foi uma homenagem tanto a mãe, como a filha do Padre. Outros filhos de Mathias e Hermelinda encontrados: Edwiges Emília de Oliveira Cabral, Cassiano Cabral de Oliveira Montenegro e Leocádia Leopoldina de Oliveira Montenegro. Está faltando um livro que trate das famílias do velho Assú. A região merece.


quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Colonização e Povoamento do Apodi (II) - Curraleiros versus gentio índigena

Marcos Pinto
 Nos  primeiros  tempos  de  colonização  européia  no  RN, via  Bahia (Região do  rio São   Francisco)  e  Pernambuco, a  região  do Apodi  não  apresentou  efetiva  ocupação  territorial, tendo  em  vista  a  forte  resistência  indígena  e  as  barreiras  naturais    que  dificultavam  o  acesso.  Foram  duas  as  correntes de  povoamento  do  Apodi:  A  primeira  veio  de  Pernambuco, passando  pela  Paraíba, de  onde  desciam  pela  antiga  "Estrada  Real",  que  demandava  para  a  região  jaguaribana. Manoel  Nogueira  seguiu  o  trajeto  desta primeira  corrente.  A  segunda  veio  pela  região  do  Assu, onde  no  ano  de  1686  ficou  aquartelado  o  famoso  "TERÇO  DOS  PAULISTAS", comandado  pelo  octogenário  Manuel  de  Abreu  Soares. 
                    No  livro  de  REGISTRO  DAS  SESMARIAS  DO  RN, consta  a  concessão  de  Carta  de  Data  de  Sesmaria  concedida  em 19  de  Fevereiro  de  1680  a   Manoel  Nogueira  Ferreira, João  Nogueira Ferreira, Antonia de  Freitas Nogueira, e  seus  companheiros/requerentes   Domingos  Martins  Pereira, Capitão  Bartolomeu  Nabo  Correia, Alferes  Gonçalo  Pires  de  Gusmão, Capitão  Luis  Braz  Bezerra, Capitão  Luiz  Antunes  de Farias  e  Manoel  Roiz  da  Costa, cuja  concessão  doava  três  léguas  de  terras  à  cada  requerente, cujas  terras  englobavam  os  rios  "Piranhas"  e  "Guaxinim", na  região  do  Assu.  Conforme  consta  no mesmo  livro  de  sesmaria, estes  requerentes  desistiram  de  povoarem  as  terras  que  lhes  foram  concedidas, no  mesmo  ano.  Ocorre  que, já  no  dia  19  de  Abril  de  1680  Manoel  Nogueira  e  estes  mesmos  companheiros  recebem  a  concessão  em  Apodi, que  os  índios  denominavam  apenas de  "Pody".  Diante  este  cenário, resta  a  indagação:  Teria  Manoel  Nogueira  e  seus  irmãos  e  demais  requerentes  estado  na  região  do  Assu  antes  de  aportarem  em  Apodi ?  No  requerimento  dão  a  entender  que  sim, conforme  afirmam: "...Pela  qual  razão  querem  povoar  nesse  sertão  e tem  dado  combate  aos tapuias  para  lhes  mostrar  onde  há  terras  desaproveitadas....querem  povoar  ainda  que  seja  com  risco  de  suas  pessoas  e  fazendas, por serem  paragens  ermas  e  despovoadas, donde  os  antigos  nunca se  atreveram  a  povoar...".   Observe-se  que  também  era  comum  o  fato  de  que  dois  ou  três  bravos  colonizadores  exploravam  as  terras  e  quando  as  requeriam  acrescentavam  nomes  de  amigos  e  parentes, para  açambarcarem  vastas  extensões  de  terras,  que  deram  origem  aos  latifúndios.
A  verdade  é  que  o  bravo  MANOEL  NOGUEIRA  e  família, acompanhados  por  alguns escravos  tiveram  uma  vida  de  correrias  e  tropelias, no  enfrentamento  da  indiada  rebelde.  Davam, apanhavam, iam  embora, retornavam, sendo  certo  que  só  tiveram  uma  certa  tranquilidade  quando  o  famoso  "TERÇO DOS  PAULISTAS"  fez  uma  longa  incursão  até  a  lagoa  Pody, no ano de  1689, conforme  afirma  o  celebrado  e  respeitado  historiador  brasileiro  ERNESTO  ENES, no volume  127  da  Coleção "Brasiliana": "...Pedro de  Albuquerque  Câmara, Bernardo  Vieira  de  Melo, Valentim  Tavares  Cabral  e  Agostinho  César  de Andrade  tomaram  parte  na  marcha  que se  fez  do  Olho  d'água  aos  rios  paneminha  e  panema  grande, até  a  lagoa  Pody.  No  combate da  lagoa  do  Apody  estiveram  outros  soldados  como  João  do  Monte" . Vide (pág. 409)  e  Luiz da Silveira  Pimentel (pág. 269).
                A  saga  dos  NOGUEIRA  teve  início  em  1680, continuando  até  o  dia  11  de  Junho de  1685, quando  retornaram  à  Paraíba  em busca  de  recursos, a  fim  de darem  continuidade  aos  trabalhos  de  exploração  do  novo  território. Em  17  de  Novembro de  1688  ocorreu  o  famoso  embate  entre  a  família  NOGUEIRA  e  os  índios  Paiins, na  margem  da  lagoa  do  "Apanha-Peixe", onde  tombaram  mortos  os bravos  João  Nogueira  e Balthazar  Nogueira, forçando  o  grupo  familiar  a  debandarem  em  fuga  para  a  região  jaguaribana, no  Ceará.  A  indômita  ANTONIA  DE  FREITAS  NOGUEIRA, que  chegara  ao  Apodi  em  estado  de  viuvez, casou  no  ano  seguinte - 1681, com  o  português  Manuel  de  Carvalho  Tinoco, sendo  certo  que  em um  dos  livros  de  registro  de  batizados  constante  do  acervo da  Igreja-Matriz  de  N. Sra.  da  Apresentação, da  cidade  de  Natal, consta  a  presença  deste  casal  residindo  nas  imediações  de  Natal, em  São  Gonçalo  do  Potengi, onde  Antonia  de  Freitas  batizou  cinco  filhos, no  período  1695  a  1706.
 Quando  o  Sargento-Mór  de  Entradas  MANOEL  NOGUEIRA  faleceu  em  sua  fazenda  "Outeiro"(Onde hoje é o "Quadro da Rua")  em  17  de  Janeiro de  1715, toda  a  várzea  do  Apody, do  sítio "Boqueirão" aos  sítios  "Santa  Rosa"  e  "Santa  Cruz"  já  estava  de posse  e  domínio  de componentes  de  sua  família  -  filhos, cunhados  e parentes  afins. Foram  os  primeiros  curraleiros.  Os  índios  do  Apodi, que no início  da  colonização  "fervilhavam  como  formigas"  nas  margens  da  lagoa  Itaú (Depois lago  Pody, e  lagoa  Apody)  e  dos rios  Panema  Grande (Depois  rio  Apody)  e  Paneminha (Depois  rio  Umary), sempre  foram  alvos  da  sanha  dos  conquistadores  e  dos  aventureiros, que  não  sossegaram  enquanto  não  eliminaram  ou  segregaram  o  último  sobrevivente  dessa  raça  nativa.
ÍNDIO TAPUIA PAIACUS(Pintura de Eckhout Ano-1641)
 TAPUIA PAIACUS - ÍNDIOS ANTROPÓFAGOS
(Segundo o Historiador Marcos Pinto,
essas pintura poderiam terem sido pintadas pelo grande pintor
holandês  Alberto van der Eckhout  ao redor da lagoa do Apodi no ano de 1641)
O  GENTIO  INDÍGENA  da  região  do  Apodi  era  constituído  de  05  etnias  e  uma  nação:  Tapuias  paiacus, Paiins, Icós, Icosinhos, Janduís  ou  Janduins, e  Canindés ,  da  nação  Tarairiús,  distribuídas  em  várias  tribos  e  malocas  ao  longo  do  território  apodiense.  O  criatório  de  gado  bovino  consistiu  na  primeira  atividade  econômica  do  Apodi, tendo  sido  o  principal  argumento constante  dos  requerimentos  das  famosas  "Datas  de  Sesmarias",  quando  alegavam  que  precisavam  situar  seu  rebanho  bovino, ou que  já  se  achava  com  seus  currais  instalados  nas  terras  requeridas.  De  um  lado  os  índios  eram  acossados  pelos sesmeiros/curraleiros,  exploradores  que,  muito  bem  armados, promoviam  a  guerra  para  expulsá-los  dos seus  territórios, e  vender  os  prisioneiros  aos  fazendeiros  e senhores  de  engenho  de  Pernambuco  e da  Bahia.  Do  outro  lado, eram  subjugados  à  ação  nefasta  dos  padres  e  dos  seus  colaboradores,  que  no  afã  de  impor  a  língua  portuguesa  e  difundir  a  religião  católica, ao tempo  em  que  lhes  ofereciam  proteção, desestruturavam  as  bases  de  sua  cultura,  tanto  do  ponto  de  vista  material  como  espiritual, transmitindo-lhes  ensinamentos  de  obediência  a  um  Deus  diferente  dos seus  -  que  não  permitia  a  nudez, a  poligamia,  a  selvageria, a  antropofagia  e  outras  práticas  por  eles  adotadas  -  e  ao  colonizador, que  nunca  os  entendeu  e sempre  os  perseguiu.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O Padre revolucionário e os Montenegros de Assú (I)

O Padre revolucionário e os  Montenegros de Assú (I)
João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, sócio do INRG e do IHGRN
Pe. Francisco Sadoc de Araújo escreveu na Revista do Instituto do Ceará, em 1983, que Pe. João Ribeiro Pessoa de Mello Montenegro, o líder e principal mentor da Revolução Pernambucana de 1817, deve ter nascido em Sobral, contrariando outros autores que dizem ter ele nascido em Tracunhaém, aos 28 de fevereiro de 1766.
Diz mais Pe. Sadoc: sabemos hoje, com absoluta certeza, a naturalidade de seus ascendentes mais próximos.  Manuel de Mello Montenegro, seu pai, é natural de Itamaracá e sua mãe, Genebra Francisca Pessoa, de Igarassu. O avô paterno, capitão Domingos de Melo Montenegro, nasceu em Tracunhaém e a avó, Maria Teresa de Melo, em Itamaracá. O avô materno, capitão-mor João Ribeiro Pessoa, é natural de Igarassú, e a avó, Genebra de Vasconcelos Castro, de Goiana.
Nos apontamentos do Major Salvador Drumond encontrei que: Em 21 de novembro de 1731, pelas quatro horas da tarde na Capela de S. Luzia, desta Freguesia de Igarassu, em cuja Matriz donde os contraentes são moradores, e na Capela de Inhaman, donde o contraente é aplicado e na dita Capela de Santa Luzia, onde a contraente é aplicada, e na Matriz da Igreja de Tracunhaém, onde o contraente foi morador, e na Matriz da Vila de Goiana donde a contraente é natural, feitas as denunciações em todas as sobreditas partes sem se descobrir impedimento, como me constou por certidão dos banhos que ficam em meu poder, com licença minha em presença do Rev. Pe. Bernardo de Miranda e Vasconcelos e das testemunhas Pe. Manoel Pessoa, o capitão Luiz da Veiga Pessoa, o capitão-mor João Carneiro da Cunha, o Rev. João Damasceno Soares, e outras, todos desta freguesia, se casaram solenemente por palavras de presente João Ribeiro Pessoa, natural desta Freguesia de Igarassu, filho do capitão João Ribeiro Pessoa, já defunto, e de sua mulher Ignez da Veiga de Brito, com D. Genebra de Vasconcellos e Castro, filha do tenente Francisco de Brito Lira, já defunto, e de sua mulher D. Juliana de Drumond e receberam logo as bênçãos com os ritos da Santa Madre Igreja. Em fé do que se fez este termo que assinei com as testemunhas. Paulo Teixeira, Vigário, Bernardo de Miranda e Vasconcellos, Luiz da Veiga Pessoa, Manoel Pessoa.
Pe. Sadoc pesquisou nos livros originais de batismo e casamentos da Freguesia de Sobral, e, por isso, afirma: as ligações do Pe. João Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro com Sobral se devem ao fato de ser sobrinho materno de seu homônimo Padre João Ribeiro Pessoa que foi vigário da freguesia sobralense durante 25 anos, ou mais precisamente, de 20 de dezembro de 1762 a 16 de maio de 1787, dia em que faleceu com 58 anos de idade, sendo sepultado na Matriz. Por essa idade deve ser sido o primeiro filho de João Ribeiro e Genebra de Vasconcelos. Diz ainda Pe. Sadoc, a partir das suas pesquisas, que: para viver em companhia do Paróco, vieram residir em Sobral os seus irmãos José Tavares Pessoa, Gonçalo Novo de Lira e Genebra Francisca Pessoa, esta mãe do Pe. João Ribeiro de Mello Montenegro.
Quanto aos filhos de Genebra Francisca descobriu os termos de batismo de quatro deles, não encontrando o do líder revolucionário. Batizados em Sobral foram: Manuel, em 26/02/1780; José, em 9/09/1784; Brás, em 22/01/1786; e Teresa, em 9/04/1787. Exemplifica através de um deles: Manuel, filho legítimo de Manuel de Mello Montenegro, natural da Freguesia de Itamaracá, e de sua mulher, D. Genebra Francisca Pessoa, natural de Igarassu, e moradores nesta de Nossa Senhora da Conceição da Vila de Sobral, neto paterno do capitão Domingos de Mello Montenegro, natural da Freguesia de Tracunhaém, e de sua mulher Dona Tereza Maria de Melo, natural de Itamaracá, e materno do capitão João Ribeiro Pessoa, natural de Igarassu, e sua mulher dona Genebra de Vasconcelos e Castro, natural de Goiana, nasceu a doze de junho de mil setecentos e oitenta e foi batizado, com os santos óleos a vinte e cinco do mesmo mês e ano, nesta Matriz, por mim cura João Ribeiro Pessoa. Foram padrinhos José Tavares Pessoa, casado, e D. Felicia Teodora d'Ornelas Pessoa, mulher do Gonçalo Novo de Lira, moradores nesta Freguesia. Do que fiz este termo que para constar assinei, João Ribeiro Pessoa. Cura e Vigário da Vila de Sobral.
Nos registros de Assú encontrei: Aos oito dias do mês de janeiro de mil oitocentos e vinte e quatro pelas oito horas da tarde nesta Matriz de São João Batista do Assu, em minha presença e das testemunhas abaixo nomeadas, se receberam por esposos presentes Domingos de Mello Montenegro e Dona Antonia Francisca Correa de Araújo, meus fregueses: o esposo de idade de quarenta e seis anos, filho legítimo do capitão Manuel de Mello Montenegro e Dona Genebra Francisca de Vasconcellos Pessoa, já falecidos, natural de Tejucupapo de donde apresentou seus papéis desimpedidos; e de Goianinha, onde morou: a esposa de idade de quarenta e dois anos, filha legitima do capitão-mor Antonio Correa de Araújo Furtado, já falecido, e Dona Maria Francisca da Trindade, natural deste Assú, e moradores onde se fizeram as denunciações, duas em dois dias feriais, e uma em um domingo por despacho do Ilustríssimo e Reverendíssimo Senhor Cabido, sem impedimento, e logo lhes dei as bênçãos matrimoniais, sendo primeiramente confessados e examinados na Doutrina Cristã, presentes por testemunhas João da Fonseca Silva, e Mathias Antonio de Oliveira Cabral, solteiros, todos deste Assú. E para constar fiz este assento em que me assinei. Joaquim José de Santa Anna, Paróco do Assú.
No próximo artigo faremos considerações sobre as implicações desse último casamento.