quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Barras e Enseadas do Rio Grande do Norte, em 1799


João Felipe da Trindade
jfhipotenusa@gmail.com
Na sua luta pelo desenvolvimento do Rio Grande do Norte, Caetano da Silva Sanches, o capitão-mor da Capitania, mandou para o Conde de Linhares a relação das Barras e Enseadas do Rio Grande do Norte, no ano de 1799, exigida pela Rainha de Portugal, com o intuito de animar o comércio local. A seguir a carta ofício enviada ao Conde, transcrita do CMD/UNB. O documento tem duas vias. É interessante observar que a segunda via, era na verdade reescrita, tendo portanto, e, naturalmente, algumas divergências com a primeira.
Ofício do capitão-mor do Rio Grande do Norte Caetano da Silva Sanches ao Secretário de Estado de Mar e Ultramar, Conde de Linhares, D. Rodrigo de Souza Coutinho, enviando relação das Barras e Enseadas existentes no Rio Grande do Norte.

Recebi a carta de Vossa Excelência de 20 de agosto de 1798, em que foi servido dizer-me que foi presente a Sua Majestade a minha carta de 25 de abril e a mesma Senhora procurará todos os mais de animar o comercio direto deste governo para essa capital, se eu mandar uma relação exata dos portos que há neste governo, da grandeza e porte dos navios que podem aqui abordar, e da facilidade de estabelecer aqui alfândegas, onde os gêneros paguem tanto, quanto pagam nos outros portos do Brasil.

Em cuja observância remeto a Vossa Excelência a relação inclusa de todos os portos que há neste governo desde o principio dele da parte Sul, até o fim para o Norte; e de todas as Barras nomeadas na dita relação pode entrar na desta cidade embarcação, que nade na água que declara a mesma relação. Esta capitania a vinte e tantos anos é que principiou a ter algum estabelecimento no que respeita as produções da terra, como principal açúcar, e algodões, que antes se ia buscar o primeiro gênero a Pernambuco, e desse tempo para cá, se tem fundada algumas Engenhocas que fabricam seus açucares, e os agricultores empregados nas plantações dos algodões; porém a rigorosa seca que houve em três anos sucessivos, quais foram os de 1791, 1792 e 1793, os derrotou, e depois desses anos de seca tem sido os invernos muito escassos de chuvas, de sorte que tem feito desanimar a alguns por não terem produzido os ditos gêneros, e se terem empenhado com as ditas plantações, ainda que eu os tenha animado para continuarem, e assim o vão fazendo. No que respeita da grandeza, e porte dos navios que podem aqui se abordar, digo a Vossa Excelência que pode vir, por agora, a esta porto uma embarcação da lotação de trezentas caixas, porque esta se pode carregar de açúcar, algodões, couros e alguma sola, porém não neste anos, porquanto os efeitos dele já se exportaram para Pernambuco e só para o ano vindouro, fazendo-me Vossa Excelência a mercê de avisar-me de certeza de vir, para eu deter os gêneros e cientificar aos agricultores, e todos os mais desta Capitania para se animarem com mais freqüência tanto nas suas plantações, como em procurar os mais gêneros, e os exportarem para este porto, na esperança de terem melhor estabelecimento nos seus negócios. E quanto a facilidade de estabelecer aqui alfândega, onde os gêneros paguem tanto, quanto pagam nos outros portos do Brasil, respondo a Vossa Excelência que nesta cidade há o ofício de Juiz de Alfândega, o qual  anda anexo ao que serve o cargo de Provedor da Fazenda Real, como também o de Escrivão de Alfândega ao de Escrivão da Fazenda Real, cujos cargos há muitos anos assim se acham estabelecidos, pelo que me parece, falando reverente, que estando este Juízo já criado de tão antigo, e existindo não haverá dúvida de facilidade de pagarem os direitos que se devem pagar na alfândega, assim como se pagam nos outros portos do Brasil, e só se necessitará criarem-se  alguns oficiais mais, que forem precisos a mesma alfândega.
Cidade do Natal do Rio Grande do Norte em 1 de março de 1799.Caetano da Silva Sanches.

Relação das Barras e Enseadas que há nesta Capitania do Rio Grande do Norte, principiando do Sul para o Norte.
De Sagi a Formoza distam quatro léguas, esta tem uma Enseada grande, em que pode nela dar fundo a maior Nau. Da dita Formoza a Barra do Cunhaú dista uma légua, esta Barra é estreita, e tem uma pedra no meio em que só entram barcos a carregar os efeitos daquele Distrito com risco. Do dito Cunhaú a Pipa distam duas léguas, esta tem uma Enseada grande que podem dar fundo defronte da primeira barreira que faz no meio da Enseada, embarcações de alto bordo. Da Pipa a Tabatinga medem só quatro léguas, esta tem uma Enseada pequena aonde dão fundo barcos por causa de tempo. De Tabatinga ao Pirangi distam três léguas, tem esta uma Enseada pela parte Norte, em que podem dar fundo embarcações grandes. Do dito Pirangi a Ponta-Negra distam três léguas, tem esta uma Enseada de quase uma légua de comprido, toda ela muito funda e limpa. Da dita Ponta Negra a Barra desta cidade distam três léguas; esta Barra entre um Picão, e outro tem cinco braças de fundo, e da parte de dentro tem mais de seis, e da parte de fora defronte da Fortaleza  pode fundear embarcações de alto bordo. As ditas Enseadas acima declaradas, e Barra de Cunhaú tudo fica ao Sul desta Cidade.
Para o Norte
Desta dita cidade ao Genipabu distam duas léguas, tem uma grande Enseada com muito fundo e limpa em que podem fundear muitas embarcações pela parte do Norte da ponta. Do dito Genipabu a Ponta Gorda, chamada Cabo de São Roque, distam seis léguas, tudo é limpo, e só em terra é que tem baixo. Do dito Cabo, ou Ponta Gorda a Petitinga distam três léguas, e corre um baixio, ficando pela parte de dentro deste um canal com cinco braças de fundo, por onde navegam barcos, e quando se vêem obrigados do tempo vão dar fundo na dita Petitinga; esta tem uma Enseada com uma légua de comprido muito funda, e limpa. Os ditos baixos são chamados de São Roque, e defronte da dita Petitinga há uma aberta de mais de uma légua de comprido com fundo bastante, e campo em que podem fundear, distante da terra um quarto de légua, pouco mais ou menos, embarcações grandes, e passada esta aberta confrontando com uma barreira vermelha continuam os ditos baixos até os Olhos de Água, que são cinco léguas, ficando-lhe também canal por onde navegam barcos. Dos ditos Olhos de Água até a Cutia distam doze léguas: tem baixos vizinhos a terra, em se livrando deles em toda esta distancia pode dar fundo qualquer embarcação, por ser limpo e fundo. Da dita Cutia até a Caiçara distam três léguas, e como toda esta distancia tudo são baixos, e entre estes há um canal por onde navegam barcos; os baixos que ficam da parte do mar do dito canal ficam distantes da terra três léguas. Da Caiçara a Água-Maré distam sete léguas, tudo são baixos de Coroa de areia com distância de terra duas léguas, e em outras partes menos; ao mar das ditas Coroas três léguas, são baixos de pedra e areia, entre os ditos baixos há um canal por onde navegam os barcos. De Água-Maré a Manoel Gonçalves, Distrito de Assú, distam sete léguas, tem uma Barra, em que só entram barcos em águas vivas, por ter a dita Barra pouco fundo, e os ditos barcos vão aí a carregar sal, peixes, e outros efeitos. Do dito Manoel Gonçalves a Barra do Assú dista uma légua, em que entram barcos em águas vivas por ter a dita Barra pouco fundo, e da parte de dentro é fundo bastante, e é Rio com oito léguas de comprido e um quarto de léguas pouco mais ou menos de largo. Os ditos barcos vão aí carregar sal, peixes, algodões, couros e solas. Da dita Barra do Assú a Ponta do Mel distam seis léguas, toda esta distância é limpa, e livre de baixos, e só os tem perto da terra. Esta Ponta faz uma Enseada limpa em que podem dar fundo pela parte Norte dela embarcações grandes. Da Ponta do Mel a Redonda distam duas léguas, esta tem uma Enseada grande e limpa, e pela parte Norte dela podem dar fundo embarcações grandes, ao Mar da dita Enseada seis léguas, pouco mais ou menos, a caminho de Nordeste tem um baixo, e que chamam Baixo de João Cunha, que terá de comprido um quarto de légua, pouco mais ou menos. Da dita Redonda a Barra de Moçoró distam três léguas, e nela só entram barcos com águas vivas por ter pouco fundo, e da parte de dentro dela é fundo bastante, e tem o Rio na Enseada cinco léguas de comprido, e terá meia légua de largo pouco mais ou menos. Os ditos barcos vão aí a carregar sal, algodões, alguns couros e solas. A dita Barra é o fim desta Capitania. Caetano da Silva Sanches.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Anna Martins de Macedo e João Marinho de Carvalho


João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN e membro do INRG
Os moradores mais antigos do Rio Grande do Norte, com certeza, têm mais chances de serem ancestrais de milhares de pessoas que habitam nosso Estado, nos dias de hoje. Por isso, vamos transcrever para cá informações que encontramos no fim do século XVII e começo do século XVIII.
Em 06 de outubro de 1688, João Martins de Sá e sua esposa Clara de Macedo batizavam, na Capela de Nossa Senhora da Expectação (Nossa Senhora do O', Mipibu), sua filha Joanna (Martins), sendo padrinhos Antonio Moreira e Anna da Silveira.  Em 19 de Agosto de 1691, na Capela de Mipibu, batizaram Salvador, sem registro dos padrinhos. Nessa data Dona Clara Macedo, já tinha falecido, possivelmente de parto. Outros filhos do casal João Martins de Sá e Clara de Macedo, que encontramos, não aparecem seus batismos nesse livro de registros da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação. Entretanto, eles são citados como padrinho ou madrinha. Nos registros que confirmam a filiação, eles são apresentados como filhos do capitão João Martins de Sá. Eram eles Anna Martins de Macedo e Manoel Martins de Sá.
Anna Martins de Macedo, em 1703, já aparece casada com João Marinho de Carvalho. É desse casal que damos sequencia a seguir, apresentando os filhos encontrados.
Francisco foi batizado em 13 de outubro de 1706, na Capela de São Gonçalo do Potegi, tendo como padrinhos José Ribeiro e Catherina Duarte, mulher de Manoel Rodrigues Santiago; Ignácio foi batizado em 12 de agosto de 1708, tendo como padrinhos Manoel Rodrigues de Sá e sua irmã Joanna Rodrigues; João e Theodósio foram batizados em 14 de julho de 1704, na capela de Nossa Senhora do O' da Aldeia do Mipibu, tendo como padrinhos, o primeiro: sargento-mor Diogo Pereira Malheiro e Joanna Martins, filha de João Martins de Sá, e portanto, tia de João, o segundo: capitão João Martins de Sá e Luzia Nunes, filha de Luis (ilegível).
João Marinho de Macedo e seu irmão Ignácio Marinho de Carvalho, ambos moradores na Ribeira do Mipibu, casaram, respectivamente, com duas filhas do Coronel Joseph Gomes Torres e de sua mulher Catherina Barbosa de Lima, na época falecida. Elas se chamavam Joanna Gomes Torres e Feliciana Gomes Torres e eram naturais da Freguesia de Sam Lourenço de Tejucupapo de Pernambuco e moradoras na Freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres do Curato de Goyaninha
O casamento de João e Joanna foi realizado no dia 24 de fevereiro de 1732, na Igreja de Nossa Senhora do O' da Missão do Mipibu, na presença do Padre Francisco Xavier de Barros e das testemunhas sargento-mor Antonio Rodrigues Santiago, casado, sargento-mor Manuel Teixeira Casado, também casado, Joanna Martins mulher de Joseph Ribeiro de Faria, morador em Goyaninha, Damasia Gomes da Camera, mulher do coronel Theodósio Freyre de Amorim.
O casamento de Ignácio e Feliciana ocorreu  no dia 23 de abril de 1732, também na Igreja de Nossa Senhora de Mipibu, na presença do Padre Antonio de Arahujo e Sousa, e das testemunhas coronel Theodósio Freyre de Amorim, o sargento-mor Bartolomeu Ferreira de Carvalho, casado, Izabel Rodrigues, mulher do alferes Salvador de Arahujo Correa, e Joanna Gomes Torres, mulher do capitão João Marinho de Macedo.
Ignácio assistiu um tempo na Freguesia de Assu, e João na de Nossa Senhora do Socorro de Utinga, por isso, as denunciações foram feitas também nessas freguesias. Outro detalhe interessante era que os nubentes tiveram que justificar que não se tratava de rapto.
Em 14 de julho de 1734, na Capela de Nossa Senhora do O' da Missão do Mipibu, na presença do Reverendo Padre frei Boaventura (ilegível), missionário apostólico, e das testemunhas coronel Theodósio Freyre de Amorim, o tenente Faustino da Sylveira, Plácida da Sylva Freyre, mulher do dito, e Dona Custódia do Sacramento mulher do sargento-mor Antonio Rodrigues Santiago, casou Clara Martins de Macedo, filha de João Marinho de Carvalho e de Anna Martins de Macedo, com Gaspar Freyre de Carvalho, filho do Coronel Manuel da Sylva Queiros, e Maria da Silva Freyre. Gaspar era morador na Freguesia de Nossa Senhora dos Remédios do Cajupiranga, tendo assistido na Freguesia do Senhor Sam Miguel das Missões do Guajiru.
Manoel Martins de Sá, que tinha o mesmo nome de um tio, irmão de sua mãe, Anna Martins de Macedo, também casou com uma filha do Coronel José Gomes Torres e Dona Catherina Barbosa de Lima. Ela se chamava Maria Dias (ilegível), morava em Goyaninha e era natural de Sam Lourenço de Tejucupapo, como suas irmãs, acima. Esse casamento foi em 17 de fevereiro de 1738, na Capela de Nossa dos Remédios do Cajupiranga, tendo como celebrante Padre Frei Felix Maria, Capuchino Superior da Missão do Mipibu, e na presença das testemunhas Antonio Cabral, Anna Martins de Macedo, mulher do capitão João Marinho de Carvalho (pais do noivo), Alferes Gaspar Freyre de Carvalho e sua mulher Clara Martins de Macedo.
Outros registros que acrescentamos aqui, que descobrimos após a publicação deste arquivo são os seguintes.
Em 9 junho de 1751, na Capela de Nossa Senhora do Rosário de Cajupiranga, na presença do Padre João Gomes Freyre, e das testemunhas capitão João Marinho de Carvalho e Alferes Gaspar Freyre de Carvalho, Mathias Marinho de Carvalho, filho de João Marinho de Carvalho e Anna Martins de Macedo, desposou Vicência Gomes da Sylva, filha do sargento-mor Francisco Fernandes de Carvalho e Maria Gomes da Sylva.
Em 26 de agosto de 1756, na Matriz Mamanguape, Freguesia de Sam Pedro e São Paulo, na presença do Reverendo Padre e das testemunhas Antonio Payva da Rocha e Theodosio Freyre de Amorim, Antonio Marinho de Carvalho, filho de João Marinho de Carvalho e Anna Martins de Macedo, desposou Antonia Payva da Rocha, filha do sargento-mor Antonio de Payva da Rocha e Úrsula Ribeiro. Houve dispensa do 4º grau de consanguinidade pelo Padre Frei Juvenal de Santo Albano, que estava em Missão.
A título de informação, em 1646, ocorreu a Batalha de Tejucupapo entre holandeses e a população local tendo à frente as quatros mulheres: Maria Quitéria, Maria Camarão, Maria Clara e Joaquina. Tejucupapo era Distrito de Goiana Pernambuco.
Para conhecer melhor sobre a Batalha de Tejucupapo faça uma  visita ao  site do youtube
  http://www.youtube.com/user/heroinasdetejucupapo

O pedido de Independência para a Capitania do Rio Grande

Este documento foi extaído do CMD/ UNB. Alguns trechos são de difícil leitura, e, por isso, tanto lemos a primeira via como a segunda para se aproximar o melhor possível da verdade. A segunda via é uma cópia da primeira, e, por isso, sua disposição é um pouco diferente. Assim fica mais fácil fazer correções. 


Carta para a rainha D. Maria I, pedindo a separação administrativa da Capitania do Rio Grande do Norte da de Pernambuco.
Foi Vossa Majestade Fidelíssima servida promover-me no posto de Governador desta Capitania do Rio Grande do Norte, e persuadido eu da Real Grandeza de Vossa Majestade, a quem eu por mim, e por parte dos mais indivíduos domiciliários da nossa Capitania tributamos a maior humiliação e profunda submissão, como fiéis Vassalos, ponho na Real Presença de Vossa Majestade uma causa importante que Vossa Majestade como Augustíssima Soberana Senhora dará as precisas providências para os mesmos fiéis Vassalos se verem livres dos incômodos que experimentam.
Esta Cidade do Natal é a capital da dita Capitania, e das mais antigas: tem de longitude mais de cento e vinte léguas que confina ao Norte para os Sertões com a Capitania do Ceará Grande, e para o Sul com a da Paraíba: a Barra desta Cidade tem suficiência para por ela entrarem Embarcações de três mastros, como já tem entrado, além de outros muitos Portos também suficientes para qualquer sumaca por grande que seja: aqui se tem excelente Pao-Brasil, e tem saído inumeráveis barcadas dele, também há madeiras de construção, aqui se fabricam finíssimos açucares: aqui produz a terra algodões, e arroz, gêneros de exportação, além dos mais de primeira necessidade: as salinas de sal são as melhores que podem haver, quais são as do Assu e de Mossoró: que a sua produção pode abundar não só para este Continente, mas ainda para toda a América respectiva aos Domínios de Vossa Majestade: as margens dos mares  são de grande utilidade a Praça de Pernambuco, e ainda a da Paraíba, que é socorrida do pescado que anualmente vai desta capitania, e padeceria a mesma Praça se também anualmente não fossem desta Capitania mais de cinco mil cabeças de gado, e antes da rigorosa seca que experimentou mais de quinze: os Engenhos padeceriam e ficariam frustradas as moagens se desta Capitania se lhes não fossem continuadamente novilhos para carros, e animais cavalares para as ditas moagens daqueles que não são de águas, pela maior parte deles serem de bestas, assim chamadas, além de outros gêneros, como sejam couros em cabelo, solas, e couros miúdos. Porém, Augustíssima, e Soberana Senhora, todas estas circunstâncias, que podem fazer opulenta esta Capitania, faz esmorecer os ânimos dos habitantes o jugo em que servem da subordinação dela a de Pernambuco: já por não terem embarcações para exportarem os seus gêneros, e lhes ser necessário dar-lhe extração vendendo aos poderosos, sem lograrem os preços competentes: e já pela falta de correspondência para Lisboa, o que certamente mudará de sistema se os habitantes merecerem igual Graça a que Vossa Majestade foi servida conferir as Capitanias do Ceará Grande, e a da Paraíba de Governo Independente a sujeição de Pernambuco: então se estabeleceria o comércio, ficariam animados para a agricultura, e negociações: conduziriam os seus gêneros, e efeitos para este Porto, para dele se exportarem para Lisboa, sendo Vossa Majestade servida mandar embarcações, e  comprariam as fazendas para as suas negociações nos rematados, e para o vestuário de suas famílias com cômodo, tanto pelos longes que evitam  de  irem  Pernambuco comprá-los com consideráveis despesas, incômodos e riscos, como lhes sairem mais baratos,   e desta sorte pode esta Capitania fazer-se opulenta não só pelo que fica dito a respeito do estabelecimento mais também para aumento da Fazenda  de Vossa Majestade, tanto no aumento dos Dízimos Reais como no mais que pode resultar com considerável diferença a estação presente; porque os Dízimos Reais das Ribeiras desta Capitania, sendo rematadas na mesma terão grande acréscimos nos seu lanços, porquanto os lançadores são dos Sertões desta mesma Capitania que vem lançar, e sendo estes contratos rematados naquela Capital, se rematam pelos da Praça com monopólio, e sociedade entre os interessados, e este tiram os gados para diferentes Capitanias, ficando esta desfraldada nessa parte,  o que não sucederia assim, se finalizassem as rematações dos ditos contratos nesta Provedoria, rematados pelos mesmos habitantes dela, que todos os gados ficariam na mesma, e lhe dariam um grande aumento, para juntamente ser útil ao seu estabelecimento, sendo (ilegível) os habitantes a graça implorada a Vossa Majestade de Independência daquele Governo
Tem também prejuízos a Fazenda de Vossa Majestade pelas grandes despesas que faz esta Provedora com correios que efetivamente versam os caminhos de setenta léguas que distam desta cidade a aquele governo superior. A tropa desta cidade padece o desgosto de estarem servindo a Vossa Majestade com honra, e inteireza sem nota que os impeça aos seus adiantamentos, e havendo postos vagos, sendo eles imediatos, merecendo-os pelos seus serviços, ficam preteridos, porquanto daquele governo superior vem providos  outros, e os desta Praça não vão ter acesso naquela, não obstante eu repetidas vezes por carta de oficio ter representado aos do Governo Interino, que a Companhia que guarnece esta Cidade e Fortaleza tem oficiais, e oficiais inferiores capazes de ocupar os Postos de sargento-mor, ajudante do número do Regimento de Milícias, a nada tem atendido, mandando para sargento-mor do dito Regimento de Milícias a João Rebelo, Quartel Mestre da Companhia de Artilharia de Pernambuco, tendo este homem doze anos de praça pouco mais ou menos, preterindo ao Capitão desta Companhia que tem mais de quarenta anos de Praça; e para ajudante do número do mesmo Regimento Miliciano a Luiz da Costa Ferreira; que sendo cabo de esquadra de um dos Regimentos de Pernambuco, e indo destacado com outros para Ilha de Fernando arribaram aqui por não poderem tomar a dita Ilha: este homem andou caindo pelas ruas desta cidade bêbado de água ardente, e por fim desertou, o que mandei prender, e veio preso de distante desta cidade dez léguas, e quando foi rendido do dito destacamento, e chegou a Pernambuco lhe deram baixa pelos seus maus procedimentos: este dito homem é que me mandaram para Ajudante do Numero do referido Regimento Miliciano, preterindo ao Ajudante supra, homem honrado com inteligência, e capacidade para poder disciplinar o seu Regimento.
Padecem mais os habitantes desta Capitania incômodo pela longitude daquela Capital, que dista aos confins desta Capitania quase duzentas léguas, e lhes é preciso atravessarem ásperos sertões em tempo de verão com travessias de faltas de águas, e pastos para sustentação dos animais em viagens, conquanto em tempo verde ou de inverno, com as inundações de rios caudalosos com muito risco de vida, como tem acontecido, para irem buscar recurso de suas dependências, e muitas vezes sucede voltarem sem ele, por não sofrerem esperar pelas demoras dos despachos, por razão das muitas dependências daquele Governo: e também sucede perderem o êxito de seus pleitos por necessitarem ir segunda vez para mostrarem a verdade da causa pretendida, e pelas circunstâncias referidas não tornam.
Vossa Majestade permita que esta Capitania, que tem extensão e capacidade para se fazer opulenta, isentá-la da subordinação desnecessária daquele Governo de Pernambuco, e com a maior submissão de fiel vassalo rogo a Vossa Majestade se digne mandar que seja regida debaixo de um só Governo que não conheça superior senão a Vossa Majestade e que a Provedoria fique também isenta para dar as suas contas diretamente ao Real Erário, e não a Junta de Pernambuco, pois antes da criação dela as remetia para essa Corte, e os mesmos da dita Provedoria podem servir no Juízo da Alfândega, como de antigo está estabelecido, que o mesmo Provedor da Fazenda de Vossa Majestade serve de Juiz da Alfândega, e assim os mais oficiais salvos alguns que mais for preciso que se poderá criar. Os habitantes desta capitania, Augustíssima e Soberana Senhora, não são de menor condição para Vossa Majestade lhe conferir a graça pretendida ao da Paraíba, porque se ela alcançou por estar esta  vinte e oito léguas em distância de Pernambuco, com quanto mais justiça imploro a Vossa Majestade por estar esta setenta léguas apartada daquela Capital. Espero eu, e todos os habitantes desta Capitania do maternal amor de Vossa Majestade gozarmos esta felicidade, e conseguirmos a graça implorada, pela qual o Altíssimo Deus Soberano remunerará a Vossa Majestade com a sua Divina Graça, e vida dilatada para mais felicidade dos fiéis Vassalos. Cidade do Natal, Capitania do Rio Grande do Norte, 15 de outubro de 1799. De Vossa Majestade, o mais humilde vassalo, Caetano da Silva Sanches.

sábado, 29 de outubro de 2011

Um pedido de patrocínio para a causa da Independência do Rio Grande

O Capitão-mor do Rio Grande do Norte, Caetando da Silva Sanches , tinha  uma preocupação com nossa Capitania desde a data de sua posse em 1791. Encontramos vários documentos onde está registrado seu interêsse no desenvolvimento do Rio Grande. Uma das suas correspondências foi para D. Rodrigo de Sousa Coutinho solicitando patrocínio para a causa da independência de nosso Governo do de Pernambuco. Vejamos esse documento transcrito do CMD/UNB.
Por me chegar notícia que Sua Majestade foi servida pôr independente do Governo de Pernambuco, os da Capitania do Ceará Grande, e Paraíba, ficando esta do Rio Grande em meio subordinada ao mesmo Governo, me resolvi a fazer a representação que remeto a Vossa Excelência para me fazer a honra, e mercê pôr na Presença de Sua Majestade, rogando ao mesmo passo a Vossa Excelência a queira patrocinar a que seja concedida a graça que imploro, para que conferida, fique também isenta esta Capitania, assim como ficarão as duas, pois esta tem as circunstância para a sua isenção, por ter extensão mais crescida que a da Paraíba, a qual só dista a Pernambuco vinte e oito léguas, e esta do Rio Grande setenta, além das mais circunstâncias que exponho na dita representação, para merecer esta  graça, que certamente conseguirei, e os habitantes desta Capitania, sendo protegida esta importante causa por Vossa Excelência, atendida Vossa Excelênica juntamente que tenho servido a Sua Majestade quarenta anos inclusive vinte e tantos  com a patente de sargento-mor, para que assim também mereça algum posto de acesso e maior soldo, para me poder sustentar neste Governo e fora dele. 
Fico bem certo na proteção de Vossa Excelência, que sem ela nada conseguirei eu, e os habitantes desta Captiania, por cuja mercê o Altíssimo Deus Soberando remunerará a Vossa Excelência, e  rogo ao mesmo Senhor dilate a Vossa Excelência os anos de vida em sua Divina Graça para felicidade dos súditos que tanto o necessitam, e o mesmo Senhor Guarde a Vossa Excelência.
Cidade do Natal, Capitania do Rio Grande do Norte, 15/10/1799.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A submissão à Capitania de Pernambuco e à Comarca da Paraíba

João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN e membro do INRG
Na descrição de Caetano da Silva Sanches, além da epidemia de bexiga, na cidade de Natal e vizinhanças, faltavam alimentos, medicamentos, e médicos. Continua Caetano na sua correspondência para Martinho de Mello e Castro: de todo o referido dei parte ao General (D. Thomaz José de Mello), e resultou mandar-me ordem para que fizesse rematar o contrato das carnes, e como nesta cidade não há um homem que possa rematar, indagando os que teriam posse para o fazerem, os mandei convidar par virem lançar, e ver se havia quem desse seu lanço mais cômodo a favor do Povo, e antes de por esta determinação em execução, chegou  aqui, em 17 de março, o Corregedor da Comarca trazendo em sua companhia um homem para lançar no dito contrato (em outro documento, Caetano representa contra esse Corregedor), e no dia 18 a pôs em praça, e lançou o dito homem seis meses a seiscentos e quarenta réis por arroba, e outro seis meses e quatrocentos e oitenta réis por arroba, e sabendo eu deste acontecimento, e antes que se fizesse o termo do dito lanço, fui ter com o dito Corregedor, e lhe disse que para o mesmo fim eu tinha mandado convidar uns poucos de homens para virem lançar, e por este modo se buscava a comodidade do Povo, e que não era justo que este a comprasse por tão alto preço, havendo nesta Capitania, mais de quatrocentas fazendas de gados; e que quisesse ele Corregedor esperar alguns dias, que mandava vir os ditos homens com brevidade. Respondeu-me que não podia, e no mesmo dia fez o termo do referido lanço e se foi embora.
No dia 27 do mencionado mês se ajuntara nesta cidade homens por mim convocados, e depois de participar a Câmara a ordem do General em virtude do qual puseram em lanços o contrato da carne por este ano, e lançou só um homem a quatrocentos e oitenta réis por arroba, e não obstante ter-se feito o dito termo para o ano de 1792, em atenção as minhas rogativas, e ver que todo o meu desejo é só beneficiar este miserável Povo, lançou o mesmo dito homem para o ano vindouro a quinhentos réis por arroba, e os mais não lançaram, creio que por uma diabólica política, e este miserável Povo o não pode comprar por semelhante preço e nem o deve comprar, pois nesta Capitania nascem os gados e há o cômputo das Fazendas acima declaradas, e sempre se vendeu a carne nesta cidade a trezentos e vinte e três a arroba, exceto o ano passado que aqui, a introduziram a quatrocentos e oitenta réis por arroba, eu boa vontade tinha de obrigar aos que tem fazenda de gados a virem, cada um o seu mês, matar gados e vendê-los no açougue, por um preço racional que nem lhes ficassem prejudicados, nem o Povo lesado, e o não tenho feito por não ter jurisdição para isso nem ordem para o poder fazer.
Pelas muitas repetidas que tive, logo que tomei posse deste governo, de vários moradores vizinhos das Vilas de Arês, e de Vila Flor, que os índios das referidas Vilas destruíam as suas lavouras; indagando eu o motivo desta desordem me informaram que os ditos índios iam para a Capitania da Paraíba, e por lá ficavam dispersos e os que voltavam para as ditas Vilas como não tinham plantado vinham destruir as plantas alheias, e para evitar esta desordem passei ordens aos capitães-mores das mencionadas Vilas, para não consentirem ir índio algum para fora desta Capitania sem ordem do General, e nem ainda para o trabalho dos particulares desta mesma Capitania os não dessem sem que primeiro tivessem feito as suas plantas, e agora me consta que o Corregedor da Comarca  era que os mandava buscar para a dita Capitania para diversos trabalhos de plantar, e por estas minhas determinações me tem o dito Corregedor intrigado com o General (Pela época, suspeito que esse Corregedor era Antonio Felipe Soares de Andrade e Brederode, que foi sucedido por Gregório José da Silva Coutinho com a incumbência de sindicar seu antecessor).
Por uma ordem vocal que me deu o General, reduzi duas companhias de Infantaria que guarnecem esta Cidade a uma, e o total dela são cem praças, incluindo neste numero um capitão, um ajudante, um tenente, e um alferes; o armamento que tem esta Companhia é inútil, e já pedi ao General me mandasse outro, respondeu-me que o não tinha. Queira Vossa Excelência fazer-me a mercê de mandar-me noventa e quatro armas, outros tantas patronas, e boldriés, e duas caixas de guerra.
Remeto a Vossa Excelência o mapa dos terços auxiliares, e companhia que guarnece esta cidade, e do estado em que está a Fortaleza. O sargento-mor e o ajudante de cavalaria auxiliar da Vila Princesa são paisanos e nenhum conhecimento tem dos serviços e, por isso, não podem disciplinar seu Regimento e nem eu posso também disciplinar por se achar distante desta cidade sessenta léguas.
Da relação inclusa verá Vossa Excelência o quanto importaram os Dízimos Reais nesta Capitania que se rematam por triênio, e as despesas que se fazem, exceto os extrajudiciais que acrescem.
Ponho na presença de Vossa Excelência a cópia da ordem de Fidelíssima Majestade em a qual me dá faculdade que sempre a tiveram os meus antecessores, da proverem os ofícios de Justiça e Fazenda, e passarem patentes de alguns postos de ordenança, e dar terras de sesmarias tudo para o fim de autorizar o meu posto; toda esta regalia me tem tirado o General, em uma palavra, Excelentíssimo Senhor, até os mesmos cabos de esquadra e inferiores dos terços auxiliares o general os faz, eu aqui nenhuma jurisdição tenho e como o não tenho entendo que nenhum serviço faço aqui a Majestade. Queira Vossa Excelência dar providência a este minha tão justa representação, ainda quando tenho certeza que o capitão-mor do Ceará está gozando de toda a Jurisdição e autoridade que a Fidelíssima Majestade lhe concede, e só a mim se não me permite o que a mesma Senhora me faculta, e o tiveram todos os meus antecessores.
Deus Guarde Vossa Excelência, Cidade do Natal, 29 de Abril de 1791. Caetano da Silva Sanches.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

A Capitania no tempo de Caetano da Silva Sanches


João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN e membro do INRG
Pelos documentos até agora observados, vejo que o capitão-mor que foi desta Capitania, Caetano da Silva Sanches, era conhecedor e interessado nas questões de nossa Província do Rio Grande do Norte. Vamos conhecer um pouco desse homem que esteve entre nós, e defendeu a nossa independência da Capitania de Pernambuco. Começaremos com o batismo de um neto, documento que contém uma série de informações sobre ele e sua família.

Caetano, filho do capitão-mor Manoel Teixeira de Moura, natural desta Freguesia e de Dona Michaela Joaquina Sanches, natural de Recife, neto paterno do coronel Francisco da Costa de Vasconcelos, natural da Paraíba, e de Dona Maria Rosa, natural desta Freguesia, e materno do capitão-mor, Governador Caetano da Silva Sanches, natural da Vila de Cascais do Patriarcado de Lisboa, e de Dona Maria Francisca do Rosário Lages, natural de Recife, nasceu aos vinte de fevereiro de mil setecentos e noventa e cinco, e foi batizado com os Santos Óleos na Igreja dos Militares, que serve de Matriz, pelo Reverendíssimo Padre Mestre Visitador Frei Joseph Maria de Jesus, aos dezenove de março do dito ano. Foram padrinhos o Ilustríssimo Governador Caetano da Silva Sanches e sua mulher Dona Maria Francisca do Rosário Lages, do que para constar fiz este assento em que me assino. Ignácio Pinto de Almeida Castro, Vigário Encomendado do Rio Grande.

Caetano fez um testamento em 23 de agosto de 1799. Nesse documento se diz "sargento-mor de Infantaria paga, e por agora governador da mesma Capitania". Declara ainda que era natural da Vila de Cascais da Europa, filho legítimo do capitão Francisco da Silva Sanches e Dona Maria Joaquina, e que era casado com Dona Maria Francisca do Rosário Lages, filha legítima do sargento-mor Francisco Gonçalves Lages, natural de Pernambuco. Disse que de sua mulher teve dois filhos, Pedro, que com poucos dias de nascido faleceu, e Dona Micaela Joaquina Sanches, casada que foi com o capitão Manoel Teixeira de Moura, também já falecida. Deixa como herdeira universal sua mulher, pois Dona Micaela não deixou filho. Esse Caetano batizado acima deve ter falecido, portanto.

No ano seguinte, Caetano faleceu.  Vejamos seu óbito. Aos quatorze de março do ano de mil oitocentos faleceu da vida presente, tendo recebido os sacramentos da Penitência e Unção, o sargento-mor e Governador desta Capitania Caetano da Silva Sanches, branco, casado com Dona Maria do Rosário Lages, com cinqüenta e cinco anos de idade de um estupor, foi sepultado nesta Matriz envolto em hábito dos religiosos de São Francisco, depois de ser encomendado por mim. E para constar fiz este termo em que assinei. Feliciano José Dornelles. Vigário Colado.

Depois de tomar posse da nossa Capitania do Rio Grande, escreveu para Martinho de Mello e Castro, Secretário de estado da Marinha e Ultramar. Transcrevo para cá um trecho de sua correspondência.

No dia 12 de fevereiro deste presente ano (1791) tomei posse desta Capitania do Rio Grande do Norte, da qual Vossa Excelência me fez a honra de encarregar o governo dela, achando esta pequena Cidade e suas vizinhanças, no deplorável  estado de maior compaixão, com uma epidemia de bexigas que tem morto muita gente, e poucas casas há, tanto nesta cidade, como nas referidas vizinhanças, que não experimentem  o mesmo mal, sendo o meu maior sentimento a falta de todos os víveres que padecem, por  constar que alguns dos doentes chegaram a comer cocos, e mangaba, por não ter outro mantimento, e porque desde primeiro de janeiro até o dia da dita minha posse, se não tinha vendido aqui uma libra de carne no açougue, por se não ter rematado o contrato, por desordens que aqui houve antes de minha chegada. Indaguei quem tinha gados, e os obriguei a conduzir para esta cidade e o matassem, e vendessem no açougue ao Povo, prontamente se executou tanto no Carnal como na Quaresma.

E pelas travessias que fariam com a farinha, que é grão deste país, e há muitos meses se não vendia aqui uma quarta, pela conduzirem em embarcações para diversas partes, e a que ficava neste distrito a iam comprar aos lavradores, a seiscentos e quarenta réis o alqueire, para a virem vender nesta cidade, "aos pratos", e me dizem que fariam em cada alqueire dois mil e quatrocentos réis, e vendo eu  a pobreza deste Povo, e o vexame em que estavam  passei ordem para o fim de que todos os lavradores, reservando a farinha que lhe fosse precisa para a sua sustentação, toda a mais a viesse vender a esta cidade e aquele que obrasse o contrário, que o havia castigar, e para evitar o manipulo que estaria em semelhante gênero, lhe pus a tara de oitocentos réis o alqueire, e vendo que a medida era muito pequena, disse ao almotacel desta cidade que esta Câmara é filial de Pernambuco e que as medidas se deviam regular pela dela, mandou a dita Câmara acrescentar a medida, altura de um dedo polegar pouco mais ou menos.

Também mandei as praias deste Distrito buscar quantas jangadas e pescadores que por ela se achavam para o fim de irem pescar e virem vender o peixe nesta Cidade.

Ordenei ao Cirurgião da Companhia que guarnece a Fortaleza desta Cidade que fosse todos os dias de manhã, e de tarde visitar a todos os doentes por aqui não haver outro Cirurgião, nem médico, e os remédios que ele tinha em seu poder pertencentes a Fidelíssima Majestade, e fossem próprios para semelhante moléstia, os desse a todos aqueles doentes que precisassem  deles, pois aqui não há uma Botica.
Em outros artigos trarei mais informações das ações do capitão-mor Caetano da Silva Sanches, extraídas do CMD da Universidade de Brasília.

domingo, 16 de outubro de 2011

Padre Antonio de Andrade de Araújo e seus familiares

Em alguns registros de batismo mais antigos aparece o Padre Antonio de Andrade de Araújo. Em um desses registros ele apresente seu pai e uma irmã. Vejamos:
Aos 31 dias  de julho do ano de 1712 na Igreja de São Miguel da Aldeia de Guajiru, batizei e pus os santos óleos a Antonio, filho de Antonio Teixeira Coelho e sua mulher Ignácia de Abreu Cunha; foram  padrinhos meu pai Antonio de Andrade de Araújo e minha irmã Úrsulsa de Abreu da Cunha; e eu o Coadjutor desta Matriz em ausência do Reverendo Vigário fiz este assento em que mi assinei. Antonio de Andrade de Araújo.
Outros irmãos, que encontramos nesse período, do Padre acima eram : Ignácia que foi batizada em sete de agosto de 1688, tendo como padrinhos Padre Eloy de Freitas e Izabel de Barros; João que foi batizado em cinco de junho de 1695, tendo como padrinho João de Mattos; Balthazar que foi batizado em oito de maio de 1698, tendo como padrinhos o padre Ignácio Antonio da Silva e Damiana de Moraes; José que foi batizado em quatro de fevereiro de 1709, tendo como padrinhos Antonio Teixeira Coelho e (ilegível) de Barros; Anna e Francisco batizados no dia doze de março de 1705, tendo como padrinhos de Anna, Manoel de Andrade, seu irmão, e de Francisco, Antonio de Andrade de Araújo ( o padre acima) e Anna de Barros, mulher de Lázaro de Barros.
Ignácia 7/08/1688
João, 5/06/1695
Balthazar 8/05/1698
Ana e Francisco (12/3/1705)
José 4/02/1709

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O Provedor, a cadeira rasa e o Reverendo Pároco

Por João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, sócio do IHGRN e do INRG

No fim do século XVIII não havia televisão, computador, máquina fotográfica, e nem campeonato de futebol, e o tempo sobrava para intrigas. Sem e-mail, facebook, fale conosco e 0800, as pequenas coisas subiam, através de cartas, até a Alteza Real, lá em Lisboa.

Pois bem, em 1 de fevereiro de 1798, o Provedor da Fazenda Real e Vedor Geral de Gente de Guerra da Capitania do Rio Grande, Antonio Carneiro de Albuquerque Gondim, expedia duas correspondências, uma para o Ministro do Reino, Marquês da Vila Nova de Cerveira, D. Thomaz Teles da Silva, e outra para a Rainha D. Maria I.

Para D. Thomaz escreveu: A demasia do Reverendo Vigário Feliciano José Dornelles, escandalizando o povo, e caráter dos cargos que ocupo de Provedor Real da Fazenda, e mais anexos, me obriga a representar a Sua Majestade Fidelíssima para evitar a violência de mandar publicamente, em ocasião de solenidade festiva, tirar da Igreja a cadeira rasa de meu assento, sempre costumado aqui, na cidade da Paraíba, e Pernambuco, e humilhado suplico a Vossa Excelência a esmola do despacho para cessar o ímpeto, e odiosa violência do dito Pároco, e para a tranqüilidade necessária, de que abusa, Cidade do Natal, 1 de fevereiro de 1798.
Beija as mãos o mais infeliz e indigno Provedor do Rio Grande do Norte, reverente, fiel e menor servo, Antonio Carneiro de Albuquerque Gondim.

Para a Rainha D. Maria escreveu o Provedor: Senhora, tenho a honra de servir a mais de trinta e dois anos o cargo de Provedor da Real Fazenda com os anexos, e por Graça de Vossa Majestade Fidelíssima estou conservado e sendo equivalentemente estimado; no ano próximo passado experimentei do Reverendo Vigário da Matriz desta Capitania, Feliciano José Dornelles, a pública desatenção de mandar tirar da Igreja, em dia de Festividade, a cadeira rasa de meu assento, sempre praticado, antiqüíssimo por estilo de mais de cem anos, aqui observado, na cidade da Paraíba, e Pernambuco, com escândalo do Povo, de propósito, e caso pensado do dito pároco, que já havia prometido de o fazer sem me chegar noticia, nem fundamento algum.

Esta violência me tem impedido de ir a Matriz, enquanto não fôr dada a providência devida aos meus cargos, idade, e graduação de licenciado na Faculdade dos Sagrados Cânones pela Universidade de Coimbra, e posse imemorial, pela retidão, e (ilegível) de Vossa Majestade que Deus Guarde, para bem e sossego de seus fiéis vassalos. Cidade do Natal, 1 de fevereiro de 1798. Provedor da Fazenda Real e Vedor da Gente de Guerra, da Capitania do Rio Grande do Norte, Antonio Carneiro de Albuquerque Gondim.

As providências devem ter sido enviadas para nosso capitão-mor, Caetano da Silva Sanches, através do Secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Conde de Linhares, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, pois aquele respondeu a este, como segue:
Recebi a respeitável Carta de Vossa Excelência, de 25 de agosto de 1798, para efeito de ser repreendido o Reverendo Pároco desta Freguesia, Feliciano José Dornelles, por assim ser servida Sua Majestade, pela representação que fizera o Provedor da Fazenda Real desta cidade Antonio Carneiro de Albuquerque Gondim, pela pública desatenção que com ele tinha praticado mandando tirar da Igreja uma cadeira rasa, em que o dito Provedor, e seus antecessores estavam na posse quando assistiam as públicas festividades, ordenando, por fim, a Mesma Senhora, que eu repreendesse ao referido Pároco por este fato e lhe ordenasse que fizesse imediatamente restituir a cadeira ao seu antigo lugar, para que o mesmo Provedor fosse conservado na sua posse.

Em observância da dita Respeitável Carta mandei vir o dito Reverendo Pároco e lhe participei  todo o seu contexto, do qual me respondeu que era falso, e que havia mostrar a Sua Majestade o contrário: eu lhe repliquei dizendo-lhe mal poderia ele mostrar o contrário sendo aquele acontecimento tão público em dia de festividade, e nada mais me respondeu.

O dito Reverendo Pároco só poderá pôr na presença de Sua Majestade o contrário, como diz, deste fato, com alguns documentos faltos de verdade, como seja do Padre Miguel Francisco do Rego Barros, seu parcial, e com gênio propenso para intrigas, como o tem mostrado, e de outros da mesma condição. Este acontecimento, Excelentíssimo Senhor, foi todo verdadeiro, menos no ponto de dizer que mandara o dito Pároco tirar da Igreja a cadeira, porque ainda não estava dentro, e sim, chegando o fâmulo do dito Provedor com ela a porta, e o dito Pároco na mesma esperando para dizer não queria a cadeira dentro da Igreja, como o fez, executando o que antes já dizia o havia fazer, e depois de feita a dita desfeita disse que consentiria a cadeira na Igreja se Sua Majestade assim o determinasse. Deus Guarde Vossa Excelência. Cidade do Natal do Rio Grande do Norte, 1 de Março de 1799. Caetano da Silva Sanches.

Esse Caetano foi quem doou, segundo Câmara Cascudo, aquele galo que está na torre da Igreja Santo Antonio.

Dona Maria da Apresentação, domiciliária no Sertão de Panema, esposa do Provedor acima, em 1783, tinha encaminhado para D. Maria I, solicitação de provisão contra seu marido para libelo de divórcio.

Já o Padre Dorneles, nosso conhecido de outro artigo, recebeu de Câmara Cascudo, em Velhas Figuras, comentário que difere do que já vimos por aqui: “A tradição representa-o pequeno e magro, andando depressa, muito pálido, extremamente amável e caritativo”.

O Padre Miguel Francisco do Rego Barros era filho de Mestre de Campo Francisco Machado de Oliveira Barros e Dona Antonia Maria Soares de Mello, e irmão de Joaquim José do Rego Barros que presidiu a nossa Província. Ele faleceu em 1816, com a idade aproximada de 50 anos.  Dorneles e Joaquim José foram membros do Governo Revolucionário de André de Albuquerque Maranhão, em 1817.


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Nomes compostos na Ribeira do Mipibu

Observando alguns registros da Igreja de Nossa Senhora do O' da Ribeira de Mipibu, vemos que, diferentemente de outras Freguesias, as crianças eram batizadas com dois nomes.Vejamos esses exemplos.

Aos vinte de junho de mil setecentos e quarenta e nove anos, na Igreja de Nossa Senhora do O' de Mipibu, desta Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação do Rio Grande do Norte, de licença minha, o Reverendo Padre Antonio de Araújo e Sousa, batizou e pôs os Santos Óleos a Antonio José, filho de Ignácio da Rocha e de sua mulher Antonia Barbosa; foram padrinhos o sargento-mor Domingos Pinto Ozorio, e sua mulher Francisca de Macedo, moradores nesta mesma Ribeira desta Freguesia; e pelo assento que veio do dito Reverendo, mandei fazer este em que por verdade me assino, Manuel Correa Gomes, Vigário.

Aos treze de julho de mil setecentos quarenta e nove, na Igreja de Nossa Senhora do O' da Ribeira de Mipibu, desta Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação do Rio Grande do Norte, de licença minha, o Reverendo Antonio de Araújo e Sousa, batizou e pôs os Santos Óleos João Pedro, filho de Arcenio de Barros Brandão e de sua mulher Maria do O'; foram padrinhos Manoel Martins, filho de Domingos Martins Bayam e Maria José, filha do Alferes Nazareno Lopes da Cunha, moradores na mesma Ribeira de Mipibu, desta Freguesia; e pelo assento que veio do dito Reverendo mandei lançar este, em que por verdade me assino Manuel Gomes Correa, Vigário.

Aos vinte e um de agosto de mil setecentos e quarenta e nove, na Capela de Nossa Senhora do O' da Ribeira de Mipibu, desta Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação do Rio Grande do Norte, de licença minha, o Reverendo Antonio de Araújo e Sousa batizou e pôs os Santos Óleos, a Anna Maria, filha de João da Rocha e de sua mulher Maria José; foram padrinhos o tenente João de Oliveira e Freitas e Anna Gomes, filha do capitão João Marinho de Macedo, moradores na Ribeira de Mipibu desta dita Freguesia; e pelo assento que veio do dito Reverendo mandei lançar este, em que por verdade me assino. Manuel Gomes Correa, Vigário

Minha tetravó, Agostinha Monteira de Sousa, e três batismos em Mipibu

Uma das minha ascendentes tinha o nome de Agostinha Monteira de Sousa e era casada com Antonio Francisco Bezerra da Costa. Eram meus tetravós. Ela faleceu de parto, ainda nova, em 2 de julho de mil oitocentos e vinte e sete, com trinta e tres anos de idade. Interessante que descobri, em um batismo, outra pessoa com o mesmo nome dela, casada com o capitão João Martins de Sá. Seria a minha tetravó parente da mulher de João Martins de Sá. Aproveito para colocar o batismo acima referido e mais dois outros acontecidos em 1756, em Mipibu. Fica a dúvida.
Aos nove de setembro de mil setecentos e cinquenta e seis de licença do Reverendo Vigário Doutor Manoel Gomes Correa, na Capela de Nossa Senhora do O' de Mipibu, batizou e pôs os Santos Óleos, o Reverendo Vigário Padre Antonio de Araújo e Sousa a Francisco Xavier, filho de Arcenio de Barros Brandão e sua mulher Maria do O'; foram padrinhos o Capitão Francisco de Sousa Gusmão e sua mulher Dona Apolonia Dorneles de Jesus; de que mandou  lançar este assento o Muito Reverendo Senhor Doutor Visitador que abaixo assina. Marcos Soares de Oliveira.Visitador.

Aos onze de setembro de  mil setecentos e cinquenta  e seis, de licença do Reverendo Vigário, o Doutor Manoel Correa Gomes, na Capela de Nossa Senhora do O' de Mipibu, batizou e pôs os Santos Óleos, o Reverendo Padre Antonio de Araújo e Sousa, a Maria Rufina, filha de Angelo Martins e de sua mulher Adriana, foram padrinhos o sargento-mor Lourenço Martins Raposo e sua mulher Damiana Rodrigues de Sá; de que mandou lançar este assento o Muito Reverendo Senhor Doutor Visitador que abaixo assina, Marcos Soares de Oliveira, Visitador

Aos dez de setembro de mil setecentos e cinquenta e seis, de licença do Reverendo Vigário Doutor Manoel Correa Gomes, na Capela de Nossa Senhora do O' de Mipibu, batizou e pôs os Santos Óleos, o Reverendo Padre Antonio de Araújo e Sousa, a João, filho de João Cordeiro e de sua mulher Antonia Duarte; foram padrinhos o capitão Joseph Monteiro e  Agostinha Monteira de Sousa, mulher de João Martins de Sá; do que mandou lançar este assento o Muiot Reverendo Senhor Doutor que abaixo assina, Marcos Soares de Oliveira, visitador.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Um comando para Guamaré

Dom José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho do Conselho de Sua Alteza Real, bispo de Pernambuco, Pedro Sheverin, Chefe de Esquadra e Intendente da Marinha, o Dezembargador José Joaquim Nabuco, ouvidor Geral desta Comarca, governadores interinos da Capitania Geral de Pernambuco. Fazemos saber aos que esta Carta Patente virem, que havendo respeito a concorrerem na pessoa de José de Brito de Macedo, as necessárias circunstâncias para exercer o Posto de Comandante do lugar Aguamaré, dividido da Comandância do lugar de Manoel Gonçalves, e por esperarmos dele que nas obrigações, do Real Serviço, se haverá muito como deve a boa confiança que formamos de sua pessoa. Houvemos por bem na conformidade do Capítulo 20 do Regimento deste Governo nomear /como por este nomeamos/ ao dito José de Brito Macedo no Posto de Comandante novamente criado a bem do Real Serviço no lugar de Aguamaré a fim de atalhar as desordens que ali acontecem causadas pelos pescadores, segundo somos informados, a qual Comandânica é dividida da Comandância do lugar de Manoel Gonçalves, em qual posto não haverá soldo algum, mas, servindo como deve, gozará de todas as honras, graças, franquezas, liberdades, privilégios, e isenções que em razão dele lhe pertencerem. Pelo que ordenamos aos governos interinos da Capitania do Rio Grande do Norte, e respectivo Capitão-mor, por tal o reconheçam, honrem, e estimem, conferindo-lhe, o Segundo, a posse e o juramento de estilo de que fará assento nas Cartas deste; e aos oficiais e soldados seus subordinados  que lhe obedeçam, e o mesmo deverão praticar as mais pessoas do referido lugar em tudo o que for relativo ao Real Serviço como devem e são obrigado. Em firmeza do que lhe mandamos passar a presente, por nós assinadas, e selada com o selo das Armas Reais, que se registrará na Secretaria deste governo, Vedoria do Rio Grande, e mais partes a que tocar. Dada no Recife de Pernambuco, aos oito de junho. Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e um //Manoel da Cunha de Azevedo Coutinho Souza Chicorro, Secretário deste Governo, a fiz escrever. Dom José, Bispo de Pernambuco, Pedro Sheverin, José Joaquim Nabuco de Araújo.
Extraído do CMD da UNB

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Intrigas na Capitania do Rio Grande


Intrigas na Capitania do Rio Grande
João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor de Matemática da UFRN e membro do INRG
Viajando ao passado através dos documentos mais antigos, vemos que a intriga esteve sempre presente na História de nossa Capitania. A Corte portuguesa era sempre bombardeada por todo tipo de queixas vindo dos seus vassalos. Hoje vamos transcrever para cá mais um documento extraído do Centro de Memória Digital da Universidade de Brasília.
O capitão-mor do Rio Grande do Norte, José Francisco de Paula Cavalcante de Albuquerque, em 1806, encaminhou ofício ao Secretário de Estado da Marinha e Ultramar, visconde de Anadia, João Rodrigues de Sá e Mello, nos termos que se segue.
No dia em que fui beijar as mãos de Vossa Excelência pelo despacho que Sua Alteza Real me tinha conferido de Governador desta Capitania, fez Vossa Excelência a honra de dizer, que ora preciso que eu partisse logo, pois que nela havia algumas desordens: acelerei a minha viagem, tomando posse do governo, tratei de desterrar a intriga, por todos os modos, já fazendo falas diante de alguns, que eu sabia eram motores dela, e já tratando-os com um total desprezo /método que em tal caso me pareceu melhor/; porém, Excelentíssimo Senhor, enquanto aqui existir um sargento-mor chamado João Rabello de Siqueira Aragão, cujo péssimo gênio, e orgulho é inenarrável, e alguns párocos, cuja materialidade e gênio só propende a fazer o mal, é impossível haver paz nesta terra, e poder-se desvanecer a intriga: qualquer deles me obsequiam  extremosamente,  e até o presente vou vivendo do bem com eles, na certeza de que brevemente haverá rompimento, pois, talvez pensem captando-me assim, serei capaz de algum dia entortar a justiça: este sargento-mor é aquele, que trazendo-o o Excelentíssimo D. Thomaz José de Mello em paisano de Lisboa para Pernambuco, unicamente para o beneficiar, e acumulando-o de benefícios; pelo seu mau caráter teve a habilidade de indispor todo o povo daquele país contra o dito Excelentíssimo General; e nesta Capitania o mesmo fez com o meu antecessor Lopo Joaquim de Almeida, só porque quis  quartar a ferocidade de gênio, em algumas diligências de que estava encarregado; não sei se por máxima ou realidade, pediu ao Excelentíssimo General de Pernambuco passagem para fora desta Capitania, e participando-me o dito Excelentíssimo General, logo que cheguei de Lisboa, eu lhe disse que me fazia grande favor, pois bem conhecia, porém até agora o não tem feito, talvez seja porque ninguém quer um má rês em seu território.
O pároco da Freguesia desta cidade Feliciano José Dorneles, não só viveu sempre intrigado com os meus antecessores, tratando-os com a maior insolência, como com os governadores interinos, que tem havido, e em geral com todo o povo da dita Freguesia, o que faz com que todos vivam em contínuos desgostos, e que absolutamente fujam da sua Igreja, e até da cidade; pois sendo ele um autômato é só movido para uma família, onde dizem ter tratos ilícitos e por ela só é encaminhado para o mal, porque tem a já dita propensão.
O da Freguesia de São José de Mipibu, João Dias Pereira, e o da Vila Flo,r Miguel Joaquim do Rego, concordam igualmente em tudo com o dito Dorneles, pois também são de péssimos gênios, orgulhosos, e intrigantes.
Estes párocos, na minha chegada celebraram um Te Deum em ação de graças, orando um deles por me lisonjearem, desfeitearem o meu antecessor Lopo Joaquim, porém o amor da verdade me faz falar desta sorte, e não dar atenção a podre lisonja.
O pároco da freguesia de Extremoz tão somente por mau gênio trás atropelado aquele povo, que vive nas circunstâncias do das de outras que já tratei; mas este conservo em Diretor de uma Vila de Índios porque para isso tem muita propensão.
Todos os mais párocos estão no mesmo caso de materialidade que os três; porém, vivem em paz com os fregueses; a exceção do da Freguesia da Vila do Príncipe, que sendo novo, é digno de outra melhor, pois além de ter muitas luzes, é muito prudente e amante da paz. Uma das razões, que tenho descoberto porque eles se intrigam com os governadores, é porque /como todos os mais clérigos/ se julgam desligados da sociedade, e pertencentes a outra muita diversa; que os livra de ter a mesma subordinação as autoridades constituídas, civis, ou militares, e enquanto não perderem este prejuízo há de haver desordem; e a outra é não haver a melhor escolha na eleição deles, pois em respondendo a alguns casos de moral, a maneira de adivinhação, já os julgam capazes de curar almas e dirigir povos; no que foi bem infeliz o ex-Bispo de Pernambuco D. José Joaquim de Azevedo /cuja prática era sempre diversa da teoria/; pois os vigários por ele propostos são quase todos da classe do que aqui aponto; portanto, Excelentíssimo Senhor, rogo a Vossa Excelência queira dar sobre este objeto aquela  providência que lhe parecer justa a benefício dos povos, e sossego dos Governadores, ficando V. Excelência certo que toda a providência que pretenda dar respectiva a clérigos, por autoridades Eclesiásticas, é infrutífera, e só servirá de me comprometer, pois Vossa Excelência bem conhece, como todos eles pensam a este respeito.
Deus Guarde a Vossa Excelência, Cidade do Natal 5 de setembro de 1806.
José Francisco da Paula Cavalcante.
Esse padre da Vila do Príncipe, pela data, devia ser Francisco de Brito Guerra.
Uruaçu, 366 anos do massacre!


domingo, 2 de outubro de 2011

O massacre de Uruaçu

O massacre de Uruaçu
Nesse dia 3 de outubro é feriado no Rio Grande do Norte. Há 366 anos atrás, ocorreu um massacre na localidade de Uruaçu. Vamos encontrar no livro o Valeroso Lucideno, de Frei Manuel Calado, uma carta do Capitão Lopo  Curado, escrita 20 dias após o ocorrido. Ele colheu informações das viúvas e órfãos que foram levadas do Rio Grande do Norte para a Paraíba.
BREVE, VERDADEIRA, E AUTÊNTICA 
Relação das últimas tiranias, e crueldades, que os pérfidos holandeses usaram com os moradores do Rio Grande, escrita pelo Capitão Lopo Curado aos dois mestres de campo, e governadores da liberdade de Pernambuco, João Fernandes Vieira, e André Vidal de Negreiros: 
Em particular aviso a Vossas Senhorias do memorável sucesso do Rio Grande, depois das duas matanças que fizeram os tiranos flamengos, acompanhados de bárbaros Tapuias e Pitiguares, e nesta derradeira, certo que é incrível a tirania, no qual servirá de maior exemplo, e que escureça todas quantas têm sucedido no mundo em tempo dos imperadores romanos antigos; memória que haverá enquanto durar o dito; pois o sangue derramado de tantos inocentes, clama aos céus justiça, e aos príncipes da terra favor, a tomar vingança de tais tiranos: e para relatar os sucessos, e modos que houve entre os ditos flamengos de suas deslealdades, e traições, é tomar o tempo a Vossas Senhorias, ainda que o mesmo o há de manifestar; porque tais tiranos quer Deus que os conheçam, para que a cristandade veja, que mais vaIe passar por todos os tormentos da morte, que viver morrendo entre o nome de tal gente. Patente é a Deus, e ao mundo, e o será daqui em diante às mais remotas nações dele, a traição que usaram os ditos holandeses com os pobres moradores do Rio Grande, estando em uma cerca recolhidos por se livrarem dos bárbaros Tapuias, e Brasilianos, passando, e padecendo nela havia três meses notáveis misérias, nos quais foram acometidos por muitas vezes dos tais inimigos, que ainda não fartos do sangue, que fizeram derramar ao povo de Cunhaú, e casa forte de João de Lostao, pretenderam esgotar o desta pobre gente cercada, para que nela se acabasse o nome português daquela Capitania, para o que dezesseis dias, e noites os tiveram em cerco, assim Tapuias, como Brasilianos e Flamengos, nos quais lhes deram terríveis baterias sem as poderem levar, usando de um ardil, para com ele fazer a obra que pretendiam. E foi, que armaram uns carros emadeirados, levando-os diante de si, com mosquetaria, e outros instrumentos de guerra para chegarem à dita cerca, mas não foi bastante este artifício, porque setenta portugueses que havia nela, ainda que poucos no número, mas muitos no esforço, os arredaram de si de maneira com quinze armas de fogo, e os mais com paus tostados, que lhe quebraram os carros, e os puseram em fugida com perda do dito inimigo de vinte homens, sem da nossa parte perigar nenhum, e vendo os ditos flamengos que os não podiam render, lhes cometeram que se entregassem, pois eles eram ali vindos da fortaleza, e seu tenente, para os guardarem assim dos ditos selvagens, como dos Flamengos moradores, que com os ditos estavam, os quais lhes tinham feito aquela guerra. E vendo os ditos moradores o tão pouco que se podiam fiar da palavra de tiranos, disseram, que enquanto ali estivessem Tapuias e Brasilianos, queriam antes morrer, que se entregar; e que tinham bom exemplo na traição das mortes, que fizeram no Cunhaú na casa forte de João de Lostao, ao que lhes responderam, que em nome de S. Alteza o Príncipe de Orange, lhes requeriam se entregassem, e não usassem mais de armas, prometendo-lhes vidas, e fazendas, na maneira que até então os gozavam, e fazendo o contrário que mandariam vir uma peça de artilharia da fortaleza, e com ela os bateriam, e não escaparia nenhum, e os teriam por alevantados. E considerando os ditos cercados, que já não tinham mantimentos nenhum, nem munições para sustentar as armas, fiados nas palavras dos ditos Flamengos, lhes disseram que fizessem disso um papel, o qual fez o tenente, e os mais oficiais de guerra, em que se assinaram, e nele lhes prometeram de os guardar dos ditos selvagens Tapuias, e Brasilianos, e conservar com a vida, e fazenda; e feito o sobredito, pediram que em reféns haviam de levar cinco moradores para a fortaleza, o que lhes foi concedido: os quais foram Estêvão Machado de Miranda. Vicente de Souza Pereira, Francisco Mendes Pereira, João da Silveira, Simão Correia, deixando eles dez soldados de guarda da dita cerca, e gente que nela estava; e tomaram todas as armas de fogo, e paus tostados com que os moradores se tinham defendido. Estavam mais recolhidos para segurarem suas vidas na fortaleza o P. Vigário Ambrósio Francisco Ferro, Antônio Vilela o Moço, Joseph do Porto, Francisco de Bastos, e Diogo Pereira, e prisioneiros João Lostao Navarro, Antônio Vilela Cid. Em dois do presente mês de outubro chegou uma lancha do Recife ao Rio Grande, e conforme a execução que se fez, trouxe ordem para matar a todos os moradores de dez anos para cima, como ao diante se verá; em três do dito mês véspera de S. Francisco mandaram os Flamengos da fortaleza sair a todos os moradores que nela estavam, que foram os acima nomeados, dizendo que já estavam seguros dos Tapuias, porquanto se tinham ido para o sertão, e que fossem em companhia da tropa que ia em sua guarda para a cerca aonde estavam os outros moradores, visto haver lá muitos mantimentos com que se podiam sustentar, e não estando na dita fortaleza passando fomes por falta de mantimentos, e que iam seguros porquanto tinham lá na dita cerca aos ditos dez soldados, que lhes tinham deixado para sua guarda. No mesmo ponto lançaram aos ditos, que estavam na fortaleza, e em batéis os levaram pelo rio acima três léguas, acompanhados dos soldados, e os lançaram fora do porto do dito Rio, chamado de Uruaçu meia légua da dita cerca, na qual acharam passante de duzentos Brasilianos bem armados com Antônio Paraupaba escaramuçando em um cavalo, e tanto que estiveram em terra, os Flamengos despiram nus aos ditos moradores, e os mandaram pôr de joelhos (o que eles receberam com muita paciência, e os olhos em Deus) e logo chamaram aos Brasilianos para os matar, o que se executou logo, fazendo nos corpos destes mártires tais anatomias, que são incríveis; e não contentes com elas, os ditos Flamengos, os ajudaram a matar, assim arrancando os olhos a uns, e tirando as línguas a outros, e cortando as partes vergonhosas, e metendo-lhes nas bocas. No mesmo instante que os acabaram de matar, foram os ditos Flamengos à cerca deixando os Brasilianos no lugar em que tinham feito os martírios nomeados para a segunda execução; e aos moradores disseram, que os senhores do Concelho do Recife os mandavam chamar, para o que estava um barco logo para partirem, e que fossem em sua companhia para os embarcarem, e vendo os sobreditos que era a viagem tão apertada, sem lhes darem demora alguma, e sem saberem dos que eram mortos, e disseram todos juntos, e cada um por si, que eles iam  morrer, porque seus corações lhos diziam; e despedindo-se com lágrimas, e suspiros de mulheres, filhos, irmãos e irmãs, foram todos dando graças a Deus, e mui conformes, por morrerem por seu Deus, e por seu Rei, e sua pátria, e dizendo estas mesmas palavras aos tiranos algozes que os levavam; e chegando aonde estavam os sobreditos Brasilianos lhos entregaram, e com a tirania, e desumanidade que em seus corações habita, os mataram, sem ficar nenhum; na qual execução se fizeram as maiores anatomias, e martírios nos corpos destes mártires, que são coisas que a boca não pode pronunciar. E acabante as ditas mortes deixaram os corpos postos ao sol, e sobre a terra, e sem sepultura nenhuma, e os membros tão divididos em partes, que não se conhecia quais eram os de cada um dos ditos mártires. No mesmo instante foram os mesmos tiranos Flamengos, e Brasilianos à cerca, aonde somente ficaram as pobres viúvas, e órfãos, e as acabaram de despojar de todos seus bens, deixando-as a muitas nuas, e com outros opróbrios, que passo em silêncio. Julguem agora Vossas Senhorias o que fariam as pobres viúvas, quando souberam dos mesmos algozes, que todos os homens eram mortos, e tão cruelmente, para que os olhos se aprestaram a fontes, e as bocas, para as funerais lamentações de seus consortes, pois é de ver (meus senhores) que até isto estes tiranos tiraram a esta pobre gente, porque querendo lamentar com suspiros, e lágrimas seus desventurados dias; estes tais lho não queriam consentir, e as fizeram calar, ora com ruins palavras, ora com pés, e mãos, dando-lhe de bofetadas, e coices, e ameaçando-as, que as haviam de matar se choravam; e por não passar em silêncio nas pessoas, e nomes de alguns mártires, os declararei por a constância que tiveram em suas mortes, e martírio, Antônio Baracho casado o amarraram em um poste, e vivo lhe arrancaram a língua, e depois o coração, e desta maneira morreu, cortando-lhe suas partes secretas, e metendo-lhas na boca ainda em vivo. A Mateus Moreira o abriram por as costas, e lhe tiraram também o coração, e as últimas palavras, estando neste martírio, que disse, foram louvar a Deus, dizendo: Louvado seja o Santíssimo Sacramento. E porque na morte destes Inocentes, houvesse admiráveis circunstâncias, relatarei a Vossas Senhorias algumas coisas que sucederam mais milagrosas que humanas. Um mancebo por nome João Martins o levaram para morrer com os mais, e sendo todos mortos à vista do sobredito, lhe cometeram que dariam a vida se tomasse armas contra sua nação, a que ele respondeu com alegre rosto: Não me desampara Deus desta maneira, essas tomei sempre contra os tiranos, e não contra minha Fé, Pátria, e Rei. E que o matassem logo porque estava invejando as mortes de seus companheiros, e a glória que tinham recebido, e quando o não quisessem matar, ele mesmo os persuadiria a que o fizessem.
Dois mancebos casados, um chamado Manuel Álvares IIha, e outro Antônio Fernandes, depois de estarem em terra cheios de feridas, e nus da cinta para cima, meteram as mãos nas algibeiras, e puxando cada um por sua faca, e investindo com os Brasilianos mataram logo a três deles, e feriram a quatro ou cinco, fazendo isto com as ânsias da morte, e logo caíram mortos outra vez. Estêvão Machado de Miranda tinha uma menina de sete anos sua filha na fortaleza em sua companhia, e trazendo-a consigo a receber o martírio, vendo a dita menina que os flamengos queriam matar a seu pai, como aos outros presentes, se abraçou com ele, pedindo a vida do pai com as lamentações, e entendimentos de mulher de muitos anos, e os Flamengos a tiraram dos braços do dito pai, ao que lhe disse o dito: Filha, dize a tua mãe que se fique embora, que no outro mundo nos veremos. E desta maneira o mataram, e a menina tirou a saia depois do pai morto, e se foi para ele, e cobrindo-lhe o rosto, e chorando, e pedindo que a matassem também, a quem os ditos algozes lançaram mão da dita saia, e trouxeram a menina a sua mãe, e ela, e os mais contaram o caso. Uma filha de Antônio Vilela, o Moço, mataram sendo criança pequena, pegando-lhe os Tapuias à vista dos Flamengos em uma perna, e dando-lhe com a cabeça em um pau, e a fizeram em dois pedaços. E a outra filha de Francisco Dias, o Moço, a mataram também, e a abriram em duas partes com um alfange. E a uma mulher casada com Manuel Rodrigues Moura, depois do dito morto, lhe cortaram as mãos, e os pés, e a sobredita mulher em três dias naturais esteve deitada no chão viva, e acabou dando a alma ao Criador.
Diversos martírios deram neste dia aos corpos dos mártires, e houve nele muitos milagres patentes, vistos, que quis Deus mostrar que os tais iam a gozar da bem-aventurança.
Sucedeu, pois, que aquela noite que padeceram se ouvisse uma música no céu sobre a fortaleza do Rio Grande, e ouvindo-a a mulher de um flamengo chamado Gesman governador das armas nesse Recife, se levantou chamando por algumas mulheres, e também por suas escravas para que ouvissem a música que ia no céu, o qual caso testificou a sobredita; certo presságio que foram os anjos que acompanhavam as almas destes mártires para o céu. Na cerca donde tinham saído os ditos mártires estava entre outras meninas uma filha de Diogo Pinheiro, de idade de oito anos, chamada Adriana, e dando-lhe vontade de chorar, entrou para uma camarinha por não ser vista, aonde achou uma mulher com um azorrague na mão, e lhe disse: Cala-te filha, que com este azorrague que aqui vês, hão de ser castigados estes que fazem estas crueldades, como logo saberás.
Atribulada a menina saiu para fora, e vendo as mulheres a mudança dela, lhe perguntaram o que tinha? E como assombrada contou o sucesso, e daí a pouco chegou a nova dos inocentes mortos, que certo bem parece que a Virgem Senhora Nossa tem tomado o castigo destes tiranos à sua conta. Naquela mesma noite houve grande cheiro de incenso na dita cerca, que durou muito tempo, e foi patente a todos, sem se saber donde o dito cheiro procedia senão do céu. Houve também entre estes mártires grandes penitências, sem saberem uns dos outros, e ao dia que padeceram, jejuavam todos a pão, e água, assim os da fortaleza, como os da cerca, não sabendo uns dos outros, ao outro dia por a manhã pediram licença as mulheres para irem a enterrar os corpos mortos, e não lho consentiram; o que os escravos fizeram às escondidas, e não se achou um palmo de pano para os amortalharem a nenhum, por deixarem as ditas mulheres em estado que ficaram despidas de todo, achou-se que todos estes corpos estavam com cilícios, e os que os não tinham com cordas cingidas, e algumas tão metidas por a carne que mal apareciam. E sabe-se que durante o tempo que estavam cercados houve extraordinárias penitências, e até os meninos as faziam, sendo todos nus, e com cordas cingidas, e todos os dias se faziam procissões com um Santo Crucifixo, esperanças claras destas almas estarem gozando da bem-aventurança. Sobre a sepultura aonde foi enterrado o P. Vigário Ambrósio Francisco Ferro se achou quinze dias depois da sua morte uma posta de sangue fresca sem corrupção, como se naquela hora fosse derramado, mostras bastantes, que o tal brada ao céu justiça. Muitas outras coisas milagrosas sucederam, dignas de se recontarem, que deixo ao tempo, no qual fio não passará, e todas acima declaradas foram vistas, e juradas, e autênticas por vinte cinco mulheres que o inimigo botou nesta Paraíba, com suas famílias, as ditas chegaram de maneira, e tão transfiguradas que mais parecem pessoas ressuscitadas que viventes corpos.
O Bolestrate as mandou deitar aqui, e a algumas lhes concedeu alguma roupa que traziam sobre os corpos, mas em as querendo desembarcar em terra as despiram de maneira que apenas trouxeram camisas, as quais lhe largaram por já não terem préstimo para serviço de outro corpo. Vossas Senhorias perdoem o compêndio da carta, que lhes afirmo que se houvera de relatar o que se tem passado naquela Capitania houvera mister muitas mãos de papel, contudo o faço destas sobreditas coisas acima, que não faltarão curiosos para o fazer do mais que falta, porque Deus o permite, e manda que sejam públicas as maldades destes tiranos.
Deus guarde a Vossas Senhorias, hoje vinte e três de outubro de mil e seiscentos e quarenta e cinco anos.Lopo Curado Garro

Casamentos entre índios e portugueses

Manoel Pinto de Castro, secretário deste governo, por ausência do secretário atual, certifica em: Como por ordem do capitão-mor desta Capitania do Rio Grande do Norte Pedro de Albuquerque, e Mello, registrei no livro 18 dos Registros de Ordens e Alvarás Reais, que serve nesta secretaria, o Alvará de Lei porque sua Majestade, que Deus Guarde, é servido declarar que os vassalos deste Reino, e da América que casarem com índios dela não ficam com infâmia alguma, antes se farão dignos de Sua Real Atenção, e serão preferidos nas terras em que se estabelecerem para os lugares e ocupações que conhecerem na graduação de suas pessoas, e seus filhos e descendentes serão hábeis e capazes de qualquer emprego, honra e dignidades sem que necessitem de dispensa alguma em razão deste alcançar em que se compreendem os que já se acham feitos antes desta resolução e que o mesmo se praticará com as portuguesas que casarem com os índios, e a seus filhos e descendentes como se declara no mesmo alvará, o que todo o referido passa na verdade e para constar passei a presente certidão por mim  feita e assinada em 28 de abril de 1756. Manoel Pinto de Castro.
Transcrito do Centro de Memória Digital da Universidade de Brasília