terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

FRANCISCA TEIXEIRA DE CARVALHO E O ESPAÇO DA MEMÓRIA




Por  Arlan Eloi Leite

Aos 16 e 17 de janeiro de 2016, mês do centenário de nascimento da minha avó materna Maria dos Prazeres de Carvalho (1916-2001), visitei pela primeira vez o sertão de Santana do Matos, onde foi radicada a família Teixeira de Carvalho quando veio da Paraíba para o Rio Grande do Norte em meados do século XIX. Desfrutei da agradável companhia e receptividade do meu primo Francisco Cipriano de Carvalho e sua família, o qual me levou aos lugares da memória desses nossos ancestrais, bem como pude conhecer os muitos parentes nossos por aquelas terras. Do velho sertão de Angicos ao sertão de Santana do Matos, às vezes é difícil encontrar quem não seja descendente das antigas famílias Tomaz Cavalcanti, Barbosa do Nascimento e Teixeira de Carvalho. Eu pertenço as três. Há muitos casamentos entre primos e primas.
O sertão esteve sob a chuva e sol. E havia uma neblina pulverizava no amanhecer santanense. As serras que serpenteiam e circundam os vales surgiam de repente recobertas pela vegetação enverdecida. O inverno parece recomeçar depois da sequidão. Os campos, os tabuleiros e os serrotes recortavam uma paisagem de beleza sem igual. Meus passos seguiram os velhos caminhos que traçavam as antigas terras do patriarca Vicente Teixeira de Carvalho e sua esposa Luiza Laduvina de Carvalho. Agora sim posso afirmar que ambos são, de fato, meus tetravôs. Esses espaços me recontavam, em cada detalhe e conversa com os primos que me acompanhavam, a memória de nossos antepassados dos tempos oitocentistas. Assim, o espaço da paisagem pode ser compreendido em sua articulação das lembranças com os estratos de rochas e campos, como percebeu o historiador Simon Schama em sua obra Paisagem e Memória (1996).
Os espaços materiais são depositários das nossas lembranças muitas vezes preservadas pela oralidade dos descendentes daqueles avoengos. Mas essa memória pode sofrer interferências, variações, confusões e incoerências. Contudo, podemos eleger as informações convergentes depois de confrontadas e eliminar, por sua vez, os dados confusos. Um número suficiente de informações convergentes aliado a provas materiais, sobretudo espaciais, podem nos conceder informações bem mais precisas do que aconteceu no passado longínquo. A falta de certos documentos escritos, perdidos no tempo, exige de nós um esforço maior para diminuirmos as muitas dúvidas no trabalho genealógico. Estou reescrevendo o texto anterior quando no primeiro artigo não sabia sobre meus tetravôs Teixeira de Carvalho.
E, para concluir a busca pelos pais da minha trisavó Francisca Teixeira de Carvalho, nascida por volta de 1870 nesse sertão de Santana do Matos, devo agradecer imensamente à minha tia-avó Francisca Eloi Barbosa, 90 anos, e à minha velha prima Josefa Fernandes, octogenária, ambas netas da minha terceira avó. As duas senhoras me contaram sobre a memória, quase esquecida, daquela ancestral morta precocemente de parto. Mas ainda persistia a dúvida sobre quem seriam os pais de Francisca Teixeira. Porém, a minha viagem ao sertão de Santana do Matos me fez mergulhar no tempo e no espaço da memória dessa família originária da Paraíba. Ao visitar a senhora Maria Carmem Rocha Macedo, 80 anos, professora aposentada daquele município, e filha de Sofia Rocha, que era filha de Antônia Teixeira de Carvalho, uma das filhas do patriarca Vicente Teixeira, consegui dirimir essa dúvida tormentosa.
No alpendre da casa de Maria Carmem, perguntei se ela teria alguma informação sobre a minha trisavó Francisca. E, para minha surpresa, Carmem disse que conhecia essa história porque sua mãe Sofia lhe contou há muito tempo. Sofia era sobrinha da minha trisavó. No calor da minha emoção, Carmem ainda acrescentou que o local exato da casa dos meus trisavôs Manoel Barbosa do Nascimento (1864-1968) e Francisca Teixeira de Carvalho (1870-1895) ficava por trás da casa onde estávamos. Além disso, o local onde foi a residência do patriarca Vicente ficava a poucos metros dali também. Minutos depois fui aos locais, fotografei-os e gravei um vídeo. Não podia me conter de tanta alegria.
Descobri, desta feita, que a minha trisavó era irmã de Antonia Teixeira de Carvalho (avó de Maria Carmem), Luiza Umbelina de Carvalho, Manoel Teixeira de Carvalho, Cipriano Teixeira de Carvalho (bisavô do meu primo Francisco Cipriano) e Pedro Teixeira de Carvalho (este último se estabeleceu em Macaíba onde lá deixou descendência). Pelo menos eles são os rebentos do casal paraibano que pudemos documentar até então. Portanto, a minha trivó era filha de Vicente Teixeira e Luiza Laduvina, e não filha de Manoel Teixeira como houve essa informação que não se sustentou diante dos outros testemunhos orais e provas espaciais. Na distribuição das casas dos filhos casados de Vicente em suas terras, as residências das filhas Antônia e Francisca ficavam bem próximas da morada do pai, enquanto a casa de Manoel Teixeira, por exemplo, distava dessas residências.
Eis o casamento de uma das filhas do casal Vicente Teixeira e Luiza Laduvina:

Aos oito de maio de mil oitocentos e setenta e um, pelas quatro horas da tarde, no Sítio São Bento da Freguesia de Santa Anna do Matos, precedida as canônicas denunciações, sem impedimento, confissão e exame de doutrina cristã, em minha presença, e das testemunhas Francisco Marques da Silveira Borges e Francisco Sabino da Silva Braga, se uniram em matrimônio, por palavras de presente, e receberam as bênçãos nupciais, os contraentes José Thomaz Cavalcanti e Luiza Umbelina de Carvalho, naturais, ele da Freguesia da Vila de Bananeiras da Província da Paraíba, e ela da de Santa Anna do Matos, e moradores, ele desta de São José de Angicos, e ela moradora de Santa Anna do Matos; e filhos legítimos, ele de Francisco Thomaz Cavalcanti e Donata Maria da Conceição; e ela de Vicente Teixeira de Carvalho e de Luiza Laduvina de Carvalho. Do que fiz este termo em que assino. O Vigário Felis Alves de Sousa.

Francisco Cavalcanti e Donata Maria são meus pentavôs, uma vez que ambos são os avôs maternos de Manoel Barbosa, meu trisavô.
Em 1895, aproximadamente porque não encontramos o registro de óbito até então, a minha trisavó teve uma morte precoce quando por complicações do parto de gêmeos agonizou até falecer. A sua irmã Antônia, que morava a poucos metros da casa (comprovei os locais das antigas moradas) esteve presente o tempo todo assistindo, sem poder fazer nada, o sofrimento da minha trisavó até os seus instantes finais, conforme assegurou Maria Carmem. Para a professora Carmem, a lembrança é reforçada pelo fato da sua avó Antônia ter sentido muito pela morte da irmã tão jovem. Sem falar de que o local exato onde repousou a casa da minha trivó Francisca fica por trás da casa de Carmem hoje.
Depois do óbito, o corpo de Francisca Teixeira foi mortalhado e conduzido por familiares, a pé, até o cemitério público de Santana do Matos, distante a alguns quilômetros do antigo sítio de Vicente Teixeira. E, em 1910, a minha tia-trisavó Antônia Teixeira faleceu juntamente com uma das suas filhas vitimadas pela provável febre amarela. Na mesma prática e ritual fúnebre, os corpos de mãe e filha foram transportados num longo caminho ao cemitério público daquele município.
Rememorando, os meus trisavôs Manoel e Francisca conceberam seis filhos, dos quais sobreviveram Tereza Teixeira de Carvalho, Maria Francisca de Carvalho e Luiz Barbosa de Carvalho. Esses três também deixaram uma frondosa descendência pelo Brasil. Tereza Teixeira (1889-1950) foi a que mais contou a história da sua mãe morta tragicamente de parto. Maria Francisca de Carvalho (1893-1979), minha bisavó, foi uma grande matriarca que gerou quinze filhos. E Luiz Barbosa de Carvalho é uma memória fugidia. A última vez que o vi na documentação foi no batizado da sobrinha dele, Vitalina Teixeira de Carvalho (1910-1997), minha tia-avó, cuja cerimônia ocorreu em 21 de dezembro de 1910. No demais, os filhos de Francisca Teixeira que morreram ainda na infância foram Maria Donata de Carvalho, falecida aos seis anos, e os gêmeos que faleceram no parto, os quais não receberam nomes.

Arlan Eloi Leite
Historiador e pesquisador em Genealogia
Servidor da UFRN
Local, apontado pela professora Maria Carmem Rocha, onde existiu a casa da minha trisavó Francisca Teixeira de Carvalho. Há vestígios de que no passado houve realmente uma construção nesse espaço. Antigo sítio de Vicente Teixeira de Carvalho. Santana do Matos-RN.
A relação do espaço material com a nossa memória pode contribuir para a preservação da história dos nossos antepassados.

Casamento dos meus velhos tios José Thomaz Cavalcanti e Luiza Umbelina de Carvalho, em 8 de maio de 1871. Sítio São Bento. Município de Santana do Matos.
Província do Rio Grande do Norte.


Parte da ata do casamento civil dos meus bisavôs Firmino Eloi Leite e Maria Francisca de Carvalho, em 22 de março de 1946. Lajes-RN. Conforme o documento, bisavó nasceu em Santana do Matos no dia 15 de agosto de 1893. (Ato lavrado no Livro nº B-12, às fls. 69v, sob o nº 651, em data de 22/03/1946).

Um comentário:

  1. Excelente texto. A melhor forma de construirmos nosso futuro é estudando nosso passado.

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