sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Francisca Teixeira de Carvalho e a busca de Arlan


Arlan Eloi Leite Silva
Historiador e Pesquisador em Genealogia
Servidor da UFRN

Sua curta existência promoveu uma tentativa de esquecimento de sua memória. Mas eu, seu descendente de quarta geração, trineto inquieto, promovo a contramão do processo de apagamento das lembranças dessa mãe, esposa e mulher que viveu no século XIX. E, na busca incansável de sua história, colhendo pequenos fragmentos de documentos ou da memória distante dos parentes ainda vivos, não deixo Francisca Teixeira de Carvalho morrer para sempre. Ela vive em minhas próprias memórias de maluco pela genealogia. 


Os Teixeira de Carvalho, família de origem portuguesa com a presença de judeus, foram numerosos no Brasil. Há registros deles no Rio de Janeiro e Minas Gerais, por exemplo. Em terras mineiras, houve até um nobre do Império, Antônio Teixeira de Carvalho, Barão de Rio Pomba, em Barbacena. Já no Nordeste, os Teixeira de Carvalho se estabeleceram na Paraíba, dentre outros lugares. A família da minha trisavó veio das terras paraibanas para o Rio Grande do Norte na primeira metade do século XIX. O patriarca Vicente Teixeira de Carvalho, sua esposa Luiza Laduvina de Carvalho e filhos compraram propriedades na Vila de Santana do Matos. 



Vicente Teixeira de Carvalho deixou um filho em Mangabeira, município de Macaíba, onde estabeleceu uma ponte comercial entre essa cidade e Santana do Matos no Rio Grande do Norte. De vez em quando esse meu ancestral, por meio de uma tropa de animais de carga, levava produtos agrícolas para serem comercializados em Macaíba. E de lá voltava com outros atrativos para serem vendidos no sertão. Desse modo, a família cresceu com a aquisição de terras, a criação de gado e a atividade agrícola. 



Um dos primeiros casamentos que uniu a família Tomaz Cavalcanti, a qual também veio da Paraíba para o Rio Grande do Norte no mesmo período, com a família Teixeira de Carvalho, aconteceu em 1871. José Tomaz Cavalcanti, filho de Francisco Tomaz Cavalcanti e Donata Maria da Conceição, meus pentavôs, casou-se com Luiza Umbelina de Carvalho, filha de Vicente Teixeira de Carvalho e Luiza Laduvina de Carvalho. Nesse mesmo dia, foi batizado o sobrinho de José Cavalcanti, João Barbosa do Nascimento, o qual teve o tio como padrinho. João era filho de José Barbosa do Nascimento e Izabel Tomásia do Rosário, meus tetravôs. 



A despeito de outros casamentos havidos entre essas duas famílias oriundas das terras paraibanas, se deu o matrimônio da jovem Francisca Teixeira de Carvalho com Manoel Barbosa do Nascimento, filho de José Barbosa e Izabel Tomásia. Justamente por ter uma memória fugidia em virtude de sua curta existência, os pais de minha trisavó até o momento não puderam ser apontados com exatidão. Ela seria neta ou filha de Vicente Teixeira de Carvalho? A dúvida ainda persiste. A ancestral nasceu por volta de 1870. Pois bem, Manoel Barbosa do Nascimento e Francisca Teixeira de Carvalho casaram-se, aproximadamente, em 1887. 



Segundo o depoimento do próprio Manoel Barbosa, que foi um sujeito centenário, ele raptou a moça Francisca para casar-se. Ao se dirigir aos domínios da família Teixeira de Carvalho, Manoel foi acompanhado por um senhor idôneo, a fim de levar a jovem para a residência de uma família respeitada. O seu companheiro de aventura tentou desistir da missão. Porém, Barbosa o ameaçou caso quisesse voltar do caminho. O rapto deu certo. Manoel e Francisca se uniram em matrimônio e desfrutaram da construção de uma bela família, apesar de conviverem muito pouco pela tragédia que viria tempo depois. 



A primeira filha nasceu, mais ou menos, em 1889 e foi batizada com o nome de Tereza, como homenagem a avó paterna de Manoel Barbosa. Depois minha trisavó concebeu Maria Francisca, esta é a minha bisavó, além de Luiz e Maria Donata. Esta última filha, que infelizmente só viveu seis anos, homenageava a avó materna do pai Manoel. Era uma tradição no século XIX os pais fazerem homenagem aos ancestrais repetindo os nomes deles nos filhos. E, na última gestação, Francisca Teixeira concebeu gêmeos, mas devido a complicações no parto faleceu abruptamente. Os bebês também faleceram. A tragédia marcou a família triplamente e contribuiu para esbranquiçar os traços indeléveis da memória daquela grande mulher. Francisca era muito jovem e sua trágica morte, no final do século XIX, me motivou a reerguer sua memória empoeirada e quase apagada pelo tempo. O óbito ocorreu por volta de 1895. 



Manoel Barbosa casou-se novamente com Hermínia Batista e juntos tiveram outros filhos, que deixaram uma descendência numerosa. Os meus trisavôs Manoel e Francisca conceberam ao todo seis filhos, dos quais sobreviveram Tereza Teixeira de Carvalho, Maria Francisca de Carvalho e Luiz Barbosa de Carvalho. Esses três também deixaram uma frondosa descendência pelo Brasil. Tereza Teixeira (1889-1950) foi a que mais contou a história da sua mãe morta tragicamente de parto. Maria Francisca de Carvalho (1893-1979), minha saudosa bisavó, foi uma grande matriarca que gerou quinze filhos. E Luiz Barbosa de Carvalho é uma memória também fugidia. A última vez que o vi na documentação foi no batizado da sobrinha dele, Vitalina Teixeira de Carvalho (1910-1997), minha tia-avó, cuja cerimônia ocorreu em 21 de dezembro de 1910.



Francisca Teixeira de Carvalho (1870-1895), minha velha vovó inesquecível, enquanto eu viver, a senhora não morre entre nós!




12 comentários:

  1. Que bom que além do Prof.º João Felipe existe tbm jovens historiadores tentando resgatar a memória de suas famílias que viveram em séculos passados. Parabéns Arlan.

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  2. Melhor ainda é que Arlan tem formação na área.

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  3. Sem a ajuda de todos vocês, amigos pesquisadores, não seria possível a reconstrução mínima da história desta ancestral Francisca T. de Carvalho. Grato ao Prof. João Felipe pelos documentos repassados e pelas muitas orientações genealógicas dadas em suas produções de notório saber. E grato à amiga Marileide, sobretudo, pela ponte que me
    proporcionou a fim de que eu pudesse reencontrar e conhecer meus parentes Carvalho de Santana do Matos. Muito obrigado a vocês e aos meus parentes já velhos pelas poucas memórias orais ainda guardadas sobre o que aconteceu no final do século XIX. Arlan Leite

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  4. Hoje, depois de muitas buscas, encontrei enfim o batizado de Manoel Barbosa do Nascimento, nascido em 9 de novembro de 1864, cuja cerimônia aconteceu no dia 22 de dezembro de 1864, sítio Mulungu, da Vila de Angicos. Arlan Leite (trineto de Manoel).

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  5. Parabéns ao blog e Arlan, pesquisador incansável. Belo trabalho!

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  6. Meu pai se chama LUIZ ALBERTO TEIXEIRA DE CARVALHO,
    meu Vô ANTONIO TEIXEIRA DE CARVALHO faleceu a 9 anos, e minha vó Maria ainda esta viva em pernamubu

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  7. Antonio Carvalho, muito boa sua informação. É possível que tenhamos a mesma rota de parentesco dessa família aqui no Nordeste. Arlan Leite.

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  8. O sobrenome Carvalho encerrou-se com a minha vó materna Maria dos Prazeres de Carvalho (1916-2001), neta de Francisca Teixeira de Carvalho. Arlan Leite.

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  9. O meu bisavô era filho de Vicente Teixeira de Carvalho, sou bisneto de Cipriano Teixeira de Carvalho que faleceu em 1910, sou ainda parente próximo de Vicente porque sou o filho mais novo do filho mais novo do filho mais novo de Cipriano Teixeira, tenho 30 anos, tenho inclusive em minha posse a escritura original das terras em Santana do Matos com data ainda do século XIX. Meu nome Jordão Carvalho, email: jeovajordao@gmail.com este é meu contato. parabéns meu parente pela valoração de nossas origens.

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  10. Muito prazer lhe conhecer primo Jordão! Email enviado. Infelizmente eu não encontrei até o momento o batizado de minha trisavó Francisca Teixeira de Carvalho e nem o casamento dela com o meu trisavô Manoel Barbosa. O batizado dele, no entanto, consegui encontrar. Às vezes acontecia desses documentos se perderem, ficarem ilegíveis ou até mesmo, em último caso, o padre ter esquecido de registrar o acontecimento no livro paroquial. No século XIX, a maioria dessas cerimônias ocorria no sítio e o vigário depois é que registrava o ato. Quem sabe um dia eu encontre esse documento para dirimir a filiação dessa minha ancestral.

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  11. Já me disseram que Francisca poderia ser uma das filhas de Manoel Teixeira de Carvalho, que era um dos filhos de Vicente Teixeira de Carvalho. Por outro lado, não se descarta a possibilidade dela ser filha mesmo de Vicente, o patriarca. A memória dos parentes vivos não consegue dirimir isso. Somente um documento ou até mesmo uma outra pista poderia esclarecer essa dúvida. O sr. Raimundo Gregório, hoje aos 90 anos, conheceu minha bisa e me falou que Juvino Teixeira de Carvalho, filho de Manoel Teixeira de Carvalho, visitava a fazenda da minha bisa no sertão de Angicos. Segundo Gregório, Juvino seria tio dela. Contudo, há dúvidas. Arlan Leite

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  12. Casamento de José Thomaz Cavalcanti e Luiza Umbelina de Carvalho

    “Aos oito de maio de mil oitocentos e setenta e um, pelas quatro horas da tarde, no Sítio São Bento da Freguesia de Santa Anna do Matos, precedida as canônicas denunciações, sem impedimento, confissão e exame de doutrina cristã, em minha presença, e das testemunhas Francisco Marques da Silveira Borges e Francisco Sabino da Silva Braga, se uniram em matrimônio, por palavras de presente, e receberam as bênçãos nupciais, os contraentes José Thomaz Cavalcanti e Luiza Umbelina de Carvalho, naturais, ele da Freguesia da Vila de Bananeiras da Província da Paraíba, e ela da de Santa Anna do Matos, e moradores, ele desta de São José de Angicos, e ela moradora de Santa Anna do Matos; e filhos legítimos, ele de Francisco Thomaz Cavalcanti e Donata Maria da Conceição; e ela de Vicente Teixeira de Carvalho e de Luiza Laduvina de Carvalho. Do que fiz este termo em que assino. O Vigário Felis Alves de Sousa.”

    Todos eles são meus ascendentes e colaterais. José Thomaz é meu tio-tetravô, por exemplo. E Luiza de Carvalho é minha possível tia-trisavó. Arlan Leite.

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